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O SOL BRANCO DO DESERTO (1970) - FILM REVIEW

O cinema soviético de meados dos anos 60 até a década de 70 é bastante melancólico, com personagens lidando com suas dores, efeitos do pós-guerra e perdidos dentro de um labirinto emocional. "O Sol Branco do Deserto" não foge a regra, e já nas primeiras cenas, nos deparamos com imagens e uma trilha sonora que evoca isso.

Na trama, situada no período pós-revolução, o Exército Vermelho combate bandos de ladrões contrarrevolucionários. Com o fim da guerra civil, o soldado Sukhov volta para casa pelas areias do Turcomenistão, e encontra um destacamento de vermelhos que perseguem o bando do brutal Abdullah. Sukhov acaba então encarregado de escoltar as mulheres do harém do bandido, e entra numa batalha em defesa delas. 

Como em algumas produções como "O Homem do Boulevard des Capucines" este filme tenta dar um tom leve á história, seja através da  comédia ou da música. Mas de maneira geral, o bom cinema soviético mostra conflitos ou o resultado dele, algo que é um reflexo da política desde sempre.

A bela trilha é composta pelo ucraniano Isaak Iosifovich Schwartz. Pianista, deu seu primeiro concerto em 1935, com a Orquestra Filarmônica da cidade. Durante a 2ª Guerra Mundial, dirigiu uma das seções do Coro do Exército Vermelho.  Estreou no cinema compondo a trilha de “O Nosso Correspondente”, de Anatoly Granik, em 1959. Compôs músicas de mais de 100 filmes, incluindo “O Sol Branco do Deserto” (1969), “A Cativante Estrela da Felicidade” (Vladimir Motyl, 1975), e “Dersu Uzala” (Akira Kurosawa, 1975). Recebeu o prestigiado Prêmio Nika, da Academia Russa de Artes e Ciências do Cinema, por sua música para os filmes “Rei Branco, Rainha Vermelha” (Serguei Bodrov) e “Luna Park” (Pavel Lungin), ambos de 1992. Também escreveu música para balés, teatro e televisão.

Já a direção fica a cargo de Vladimir Yakovlevich Motyl. Formado no Departamento de Atuação do Instituto de Teatro de Sverdlovsk, em 1948, e no departamento de história da Universidade de Sverdlovsk, em 1957, trabalhou como diretor do Teatro de Dramaturgia de Sverdlovsk, e depois como ator e diretor no teatro de Stalinogorsk. A partir de 1955 foi diretor-chefe do Teatro Juvenil de Sverdlovsk, e entre 1957 e 1960 dirigiu o Estúdio Cinematográfico Sverdlovsk. Entre 1976 e 1985 foi diretor artístico do estúdio Ostankino de longas-metragens. 

O filme “Criança de Pamir”, de 1963, lhe rendeu o Prêmio do Estado da SSR do Tadjiquistão (1964), e o título de cidadão honorário de Dushanbe (1977). Recebeu também os prêmios de Artista Homenageado da República Socialista da Federação Russa - RSFSR (1992), e de Artista do Povo da Federação Russa (2003). Faleceu em 21 de fevereiro de 2010. Ele também era roteirista, ainda que neste filme do post, o roteiro tenha sido feito por Valentin Ivanovich Ezhov. 

Sua trajetória em escrever sobre conflitos nas telas começou fora delas. Em 1940 incorporou-se ao Exército Vermelho, participando a seguir da 2ª Guerra Mundial. Após a desmobilização, em 1945, se inscreveu no Instituto Estatal de Cinema (VGIK). Em 1951 graduou-se como roteirista no VGIK, estreando com o filme “Campeão do Mundo” (1954). Um de seus primeiros grandes trabalhos, o roteiro do filme “A Balada do Soldado” (1959), recebeu o Prêmio Lenin (1961), e cerca de cem prêmios internacionais. Valentin Ezhov é autor de mais de cinquenta roteiros para longas-metragens, entre os quais “Ninho de Nobres” (1969, inspirado no livro de I. Turguênev), “O Sol Branco do Deserto” (1969), “Siberiada” (1977), “Arco-íris da Lua” (1983) e “O Príncipe de Prata” (1991).

Deserto de problemas

Cinema tem suas nuances e a realização de um filme nem sempre é tranquila, como podemos lembrar casos como a morte Brandon Lee no set de O Corvo ou a recente morte durante as filmagens de um filme com o ator Alec Baldwin, produção essa que talvez se perca na história e nunca seja lançada.

Neste filme soviético em questão, um dublê morreu em um acidente durante as filmagens. Muitos outros acidentes ocorreram devido à má disciplina e segurança geral. Alguns adereços foram roubados por ladrões locais durante a noite, mas a segurança melhorou depois que a produção contratou um criminoso (!!) local para desempenhar o papel de um membro de gangue na gangue de Abdullah.

Durante a cena no barco, o sangue no rosto de Vereschagin é real. Uma noite, Pavel Luspekayev estava sentado em um restaurante da cidade de Makhachkala, enquanto dois visitantes começaram uma briga de facas. Luspekayev se envolveu e foi esfaqueado na sobrancelha. Não foi possível maquiar o corte durante as próximas filmagens, que se fosse dexiado em cena, se tornaria um erro de continuidade. Então uma cena com o vidro da cabine quebrado por uma bala foi introduzida no roteiro.

Aliás, o ator fez o filme inteiro em próteses para ambas as pernas. Durante a Grande Guerra Patriótica, ele se juntou aos guerrilheiros soviéticos aos 16 anos e lutou pouco depois com a 3ª Frente Ucraniana. Quando seus pés sofreram queimaduras graves, ele teve que ser desmobilizado em 1944. Os membros inferiores de Luspekayev nunca se recuperaram totalmente. 

Com 26, ele sofria de uma doença vascular periférica nas pernas. A doença progrediu, e depois que ele terminou o filme Respublika ShKID (1966), ambas as pernas tiveram que ser amputadas logo abaixo do joelhos. Mesmo assim, ele continuou a trabalhar com prótese, e sentindo muitas dores. Durante as filmagens de O Sol Branco do Deserto em 1969, a condição de Luspekayev piorou e ele mal conseguia andar. 

Sua esposa carregava uma pequena cadeira dobrável, e Luspekayev tinha que descansar a cada 20 passos. Repare como os enquadramentos favorecem o ator da citura para cima e ele comumente aparece se apoiado em algo. É possível perceber a dificuldade do ator em ficar de pé. No roteiro original, o papel de Vereschagin era menor, mas durante as filmagens, o papel começou a se expandir, com algumas cenas sendo improvisadas no local. A conexão entre o ator e o papel que ele estava interpretando tornou-se tão forte, que a equipe começou a chamar Vereschagin pelo nome de Pavel (Paxá), mesmo que no roteiro seu nome fosse Alexander. Logo após o lançamento do filme, Pavel morreu de um aneurisma cardíaco. 

Mas nada impediu que o filme se tornasse popular, que levou 36 milhões de espectadores aos cinemas, na época do lançamento. Um exemplo foi  na cena em que o oficial do exército branco do bando de Abdullah é jogado pela janela de Vereschagin, e ele diz: "Suas granadas estão todas erradas". A frase o que se tornou uma expressão popular por muitos anos.. E detalhe: foi improvisada.

A sequência do devaneio, quando Fyodor Sukhov endireita uma foice com um martelo e a entrega para sua esposa, é um aceno para o símbolo soviético de um Martelo e Foice, e o logotipo da Mosfilm com um homem e uma esposa segurando, respectivamente, martelo e foice em suas mãos.

Enfim, O Sol Branco do Deserto é mais um filme que tive o prazer em conhecer pelo lançamento da CPC Umes. Mais uma obra pouco falada hoje em dia e que merece ser apreciada por cinéfilos, estudiosos e curiosos cinematográficos.

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