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OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (1977) - FILM REVIEW

 

Febre de sábado a noite.

Texto: M.V.Pacheco

Revisão: Thais A.F. Melo


De uma forma geral, cada década do cinema tem um conjunto de características modificadoras que moldaram os filmes. E estas mudanças criam identidades cinematográficas que tanto amamos. Esta identificação, geralmente, envolve a década que a pessoa nasce juntamente com a década seguinte. 

Porque isso acontece? Vou falar por mim. A década que me fez olhar o cinema como arte máxima da minha vida foi a década de 70 (nasci em 1976). Já a década que eu desenvolvi minha paixão pelo cinema foi a década de 80, quando tive contato direto com grandes estreias no cinema e TV ao mesmo tempo que tinha o primeiro contato com algumas obras-primas do cinema dos anos 70. Por tanto, para mim, a década de 80 é paixão: avassaladora, intensa, inesquecível. Já a década de 70 é amor: seguro, consciente, eterno. 

Não preciso rever O Poderoso Chefão cem vezes para dizer que amo. Que é um dos 10 filmes da minha vida. Ao mesmo tempo, preciso rever 500 vezes Sexta-Feira 13 Parte VI, Tuff Turf: O Rebelde ou American Ninja simplesmente porque é paixão. Quem já amou e já se apaixonou, entende bem a analogia.

Essa introdução funciona para pessoas de décadas diferentes, como os nascidos na década de 50, que amam cinema daquele período e se apaixonaram nos anos 60. A explicação desta constatação está ligada diretamente à evolução sociocultural do indivíduo aliado ao seu sentimento/identificação com a arte. 

Bom, hoje vou falar do filme "Os Embalos de Sábado à Noite". Obra-prima dos anos 70. Na história, Tony Manero (John Travolta), um jovem do Brooklyn e um excelente dançarino de disco music, só encontra significado na vida quando dança, pois passar a semana trabalhando em uma loja de tintas não o gratifica de forma nenhuma. Assim ele se perfuma, se veste de um jeito fashion e vai para a discoteca no final de semana. Sob a influência de seu irmão, um padre frustrado, e de Stephanie (Karen Lynn Gorney), sua parceira de dança, começa a questionar a maneira como encara a vida e a limitação de suas perspectivas. Paralelamente, Tony vive uma crise amorosa, enquanto se prepara para participar de um concurso em uma discoteca.

O filme mostra o reencontro pessoal através da arte. Todos temos um pouco de Tony Manero em nossas vidas. Os Embalos de Sábado à Noite é sobre busca da identidade, sobre o caminho até ela e sobre eventuais obstáculos pelo caminho. Afinal, quantos e quantas não se descobrem, se libertam, e vivem a vida como na Matrix servindo apenas de bateria para um sistema que sugará tudo: energia, brilho, ganhos, felicidade e por fim, a vida. 

Nova Hollywood, Woodstock, Guerra do Vietnã, Watergate

Para entender o que levou as pessoas a sair da Matrix, basta olhar ao redor. O cinema foi guiado pelas insatisfações, decepções, perturbações. Aquela estética "certinha" das décadas anteriores deu lugar ao sujo, sangue. Alguns diretores guiaram o público para o realismo. Outros criaram o Blockbuster, entendendo que o cinema pode ser muito mais rentável se levar entretenimento genuíno, escapismo. O diretor John Badham flertou com o primeiro, mas fez carreira em cima do segundo. 


Só duas vezes me disseram que sou bom na vida!

Tony Manero

O diretor narra aqui uma tragédia urbana, mas que direciona para arte o foco, desde o início, com o caminhar de Manero pelas ruas, entoada por um Bee Gees inesquecível. Parece que nenhum esforço será suficiente para o personagem, a menos que se redescubra, se reinvente. Já na pista, o filme, cores vívidas, movimento, intenção, destino. 

A vitória final injusta da dupla tem um propósito importante: refletir as tensões sociais e dizer ao público que elas ocorrem em qualquer lugar. Tanto no mundo P&B de Tony quanto no mundo Multicolorido da Disco.

Ainda que tenha músicas empolgantes e cenas inesquecíveis nas pistas de dança, “Os Embalos de Sábado à Noite” se estabelece como um musical maior, que captou, como poucos, o espírito de seu tempo e ainda deixou uma mensagem marcante através do amadurecimento de seu protagonista. Todos nós passamos por esta fase na vida, onde tudo que queremos saber é onde será a próxima festa e com quem iremos nos divertir naquela noite. Com o passar dos anos, no entanto, esta diversão gradualmente dá lugar a outras preocupações, como a de constituir família e progredir como ser humano. Se você ainda é jovem, não se engane. Cedo ou tarde, este momento sempre chega, e para todos nós.

Por trás do Embalo

O filme foi originalmente chamado de "Ritos tribais do novo sábado à noite", título do artigo da revista "Nova York" que o inspirou. O título acabou sendo encurtado para "Saturday Night", como uma referência direta ao fato de que Tony (John Travolta) e seus amigos habitaram a Odisséia da 2001 nas noites de sábado. No entanto, quando os Bee Gees enviaram a trilha sonora, uma das canções, "Night Fever", foi pensada para incorporar o espírito do filme melhor do que o original. O diretor John Badham adicionou a palavra "sábado" e substituiu o título original da canção (ou Fever ao título encurtado...).

A produção teve que ser interrompida brevemente para que John Travolta pudesse comparecer ao funeral de sua namorada Diana Hyland. O casal já havia aparecido anteriormente em O Rapaz da Bolha de Plástico (1976). Foi Hyland quem encorajou Travolta a assumir o papel de Tony Manero. Uma triste coincidência aconteceu anos depois: a atriz Kelly Preston, esposa de Travolta de 1991 a 2020, faleceu precocemente devido a um câncer. 

Ironia do destino ou da produção?

No quarto de Tony há um pôster de Rocky: Um Lutador (1976), filme dirigido por John G. Avildsen. A sequência deste filme, Os Embalos de Sábado Continuam (1983), foi escrita e dirigida pela estrela de "Rocky", Sylvester Stallone. Avildsen era o diretor original de "Embalos", mas foi demitido pelo produtor Robert Stigwood pouco antes do início da filmagem principal devido a "diferenças criativas". John Badham foi convidado para a vaga no último minuto. Tony também tem um pôster de Serpico (1973) em sua parede. Avildsen foi originalmente considerado para dirigir esse filme também, mas deixou o projeto devido a "diferenças criativas". 

Quando eles filmaram a primeira cena da ponte, o diretor John Badham manteve em segredo de Donna Pescow, o fato de que quando os caras "caíram" da ponte, eles, na verdade, pousaram em uma plataforma alguns metros abaixo. Badham e os outros atores não contaram a ela sobre a plataforma porque queriam um olhar genuíno de horror e raiva no rosto de Annette quando Tony, Double J. e Joey pareciam cair. Portanto, a reação de Donna à queda deles, e suas expressões faciais mudando de horror e choque para raiva absoluta, foram reais, e sua próxima frase, "Seus filhos da puta!", não foi escrita. Isso era a Nova Hollywood. 

Mais importante que mostrar as mazelas da sociedade, era ficar vivo.

I am stayin' alive.



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