ÁLAMO - A VERDADEIRA HISTÓRIA
O Derradeiro Ataque e a Batalha do Álamo
Na noite de 5 de março de 1836, após dias de intenso cerco, a artilharia mexicana interrompeu seu bombardeio ao Álamo por volta das 22 horas. Antonio López de Santa Anna, comandante do exército mexicano, havia previsto que os defensores texanos, exaustos, logo cairiam no sono, o primeiro desde o início do cerco. Pouco depois da meia-noite, cerca de dois mil soldados mexicanos começaram a se preparar para o ataque final à fortificação.
A tropa foi organizada em quatro colunas, sob o comando dos coronéis Martín Perfecto de Cos, Francisco Duque, José María Romero e Juan Morales. Para garantir disciplina e eficácia, veteranos experientes foram posicionados nas bordas das formações, de modo a controlar os recrutas menos acostumados à guerra. Além disso, 500 soldados de cavalaria cercaram o Álamo para impedir fugas, enquanto Santa Anna permaneceu no acampamento com cerca de 400 reservistas.
Apesar do frio da madrugada, as tropas receberam ordens rigorosas para não usar casacos longos, que poderiam prejudicar sua mobilidade. A lua ficou encoberta por nuvens, ajudando os mexicanos a se aproximarem sem serem detectados.
Às cinco e meia da manhã, as colunas avançaram silenciosamente em direção às muralhas. A coluna liderada por Cos se dirigiu ao canto noroeste da fortificação, enquanto Duque atacou pela muralha norte. Romero avançou em direção à muralha leste e Morales mirou o parapeito baixo da capela.
Os sentinelas texanos que vigiavam as muralhas foram surpreendidos e mortos enquanto dormiam, abrindo caminho para os atacantes chegarem dentro do alcance dos mosquetes defensivos sem alerta prévio. Então o silêncio da madrugada foi quebrado por gritos de "¡Viva Antonio López!" e o som de cornetas, despertando os defensores.
Os não combatentes se refugiaram na sacristia da igreja, acreditando ser o local mais seguro. William Travis, líder da defesa, apressou-se para as posições de combate, convocando seus homens para resistir com ferocidade: "Vamos lá, rapazes, os mexicanos estão sobre nós e vamos lhes dar um inferno!" Ele também encorajou seus aliados texanos com gritos de "Não se rendam, meninos".
Inicialmente, o ataque mexicano enfrentou dificuldades. As colunas apertadas permitiam que apenas a primeira linha de soldados disparasse suas armas. A inexperiência dos recrutas provocou tiros acidentais contra seus próprios companheiros na frente, e os formidáveis defensores texanos responderam com intensa artilharia.
Sem metralhadoras, os texanos improvisaram preenchendo seus canhões com metais como pregos e ferraduras, transformando-os em verdadeiros mosquetes gigantes. O resultado foi devastador para os atacantes. O coronel Duque foi ferido gravemente e caiu do cavalo, quase pisoteado por seus homens, e o general Manuel Castrillón assumiu o comando da sua coluna.
Mesmo com algumas hesitações, os soldados mexicanos foram empurrados adiante pela pressão da retaguarda e as batalhas corpo a corpo tornaram-se inevitáveis. Os texanos precisaram se inclinar sobre as muralhas para disparar, ficando vulneráveis ao fogo mexicano. Travis foi um dos primeiros a morrer, baleado enquanto enfrentava os invasores, embora relatos afirmem que ele ainda conseguiu esfaquear um oficial inimigo antes de sucumbir.
Escadas permitiram aos mexicanos escalar as muralhas, mas os primeiros que chegaram ao topo foram mortos ou feridos. O ritmo da defesa texana dificultava recarregar os rifles para segurar os atacantes. Após uma retirada e reorganização, os mexicanos lançaram um segundo ataque, que foi repelido. No terceiro assalto, colunas mexicanas se moveram para se juntar, e Santa Anna, temendo uma derrota, enviou seus reservistas para reforçar o ponto mais vulnerável, a muralha norte.
Soldados mexicanos perceberam brechas nas defesas e o general Juan Amador foi um dos primeiros a escalar a muralha, abrindo a entrada para seu exército. Enquanto isso, os defensores texanos, recuando da muralha norte e parte da muralha oeste, tentaram repelir o avanço atirando de posições mais ao sul, deixando parte do Álamo vulnerável.
A muralha leste caiu para os homens de Romero, que avançaram através do curral interno. Os texanos retornaram para o quartel e a capela, cavando buracos nas paredes para atirar, mas muitos ficaram encurralados, e a cavalaria mexicana precisou enviar reforços para eliminar o fogo texano vindo de valas.
No curral de cavalos, um grupo menor de defensores fez uma última resistência, mas foram massacrados. Almaron Dickinson e sua equipe conseguiram virar um canhão contra a cavalaria inimiga, causando baixas, mas não foi suficiente para mudar o curso da batalha.
O último grupo de resistência texana, liderado por Davy Crockett, defendeu o muro diante da igreja com armas improvisadas e até facas. Cercados por fogo e baionetas, recuaram para a igreja, onde o exército mexicano já dominava a maior parte do complexo, exceto a igreja e algumas salas.
A bandeira texana ainda tremulava no telhado, mas logo foi substituída pela bandeira mexicana após intensa troca de tiros. A luta dentro da igreja foi feroz, com soldados mexicanos arrancando portas para invadir e os texanos resistindo até o último disparo, antes de serem dominados.
Bowie, gravemente doente, provavelmente morreu na cama, embora relatos divergentes mencionem que tenha lutado até o fim. A equipe de artilharia da capela, incluindo Dickinson e James Bonham, também foi aniquilada após bravamente disparar seus canhões. O dono da artilharia, Robert Evans, ferido, tentou incendiar o paiol de pólvora para evitar que ele caísse em mãos inimigas, mas foi morto antes de conseguir. A explosão teria destruído o local e matado mulheres e crianças escondidas na sacristia.
No refúgio da sacristia, mulheres e crianças aguardavam seu destino. Um dos filhos do defensor Anthony Wolf foi morto ao tentar puxar um cobertor, confundido com um adulto. Possivelmente o último texano morto foi Jacob Walker, que tentou se esconder, mas foi encontrado e morto. Outro homem, Brigido Guerrero, que havia desertado do exército mexicano, foi poupado após convencer os soldados.
Às 6h30 da manhã, o Álamo havia caído. Soldados mexicanos vasculharam os corpos e continuaram a disparar contra quaisquer sinais de vida, num clima de violência difícil de controlar, até que as ordens para cessar fogo finalmente foram dadas.
Após o sangrento confronto, restaram poucos sobreviventes do lado texano. Relatos indicam que entre cinco e sete homens teriam se rendido. Santa Anna, furioso por suas ordens de execução imediata terem sido desobedecidas, exigiu que os prisioneiros fossem executados. Entre as histórias que circularam, uma das mais controversas envolve Davy Crockett. Há versões que afirmam que ele teria morrido lutando até o fim, cercado por soldados mexicanos, enquanto outras dizem que ele se rendeu e foi executado posteriormente. Historiadores ainda não chegaram a um consenso definitivo sobre o destino do lendário homem da fronteira.
Santa Anna considerava a vitória no Álamo algo de pouca relevância estratégica, mas seus oficiais e generais perceberam que tal triunfo poderia conduzi-los a um caminho de destruição, tamanha a determinação dos texanos em resistir. Seu relatório inicial alegava que cerca de 600 texanos haviam morrido, contra 70 mexicanos mortos e 300 feridos, números contestados por seu secretário, que mais tarde desmentiu as informações. Estimativas mais confiáveis indicam que as baixas mexicanas variaram entre 400 e 600 mortos, representando um terço das tropas envolvidas no ataque final, enquanto as mortes texanas ficam entre 182 e 257.
Há também indícios de que um texano chamado Henry Warnell teria escapado com vida, embora tenha morrido meses depois devido aos ferimentos sofridos.
Os soldados mexicanos foram enterrados no cemitério local Campo Santo, e houve uma proposta para erguer um monumento em homenagem aos mortos, rejeitada pelo coronel Cos. Já os cadáveres texanos foram empilhados e queimados, e apenas meses depois, o líder Juan Seguín retornou para identificar e sepultar os restos mortais, em um local hoje não mais identificável. A única exceção foi Gregorio Esparza, um soldado tejano, que teve direito a um enterro apropriado concedido por seu irmão, oficial do exército mexicano.
Sobreviventes e Mensageiros da Tragédia
Alguns poucos sobreviventes foram poupados, principalmente mulheres, crianças e escravos. Joe, escravo de Travis, foi poupado na tentativa de convencer outros escravos texanos a apoiarem o governo mexicano. Susanna Dickinson e sua filha Angelina foram poupadas e levadas como mensageiras para anunciar a queda do Álamo ao restante das forças texanas. Juana Navarro Alsbury e outras mulheres também foram liberadas e puderam retornar para suas casas.
Santa Anna ofereceu educar os filhos de Dickinson na Cidade do México, proposta recusada pela mulher. As sobreviventes receberam cobertores e moedas de prata como compensação simbólica.
As Consequências Imediatas para a Revolução do Texas
Durante o cerco ao Álamo, delegados texanos reunidos na Convenção de 1836 declararam a independência do Texas, formando a República do Texas. No meio da batalha, receberam o telegrama enviado por Travis alertando sobre a situação desesperadora na fortificação. Sem saber do desenlace, Robert Potter foi eleito para liderar um contingente de reforço.
Sam Houston, comandante supremo do exército texano, orientou que os delegados permanecessem em Washington-on-the-Brazos para redigir uma constituição e organizou a retirada estratégica do exército para evitar confrontos diretos com as tropas mexicanas superiores em número. Poucos dias após o fim da batalha, notícias da queda do Álamo chegaram a Gonzales, causando choque e preocupação. Houston prendeu temporariamente dois mensageiros por suspeita de espionagem, mas logo os libertou após confirmação oficial da tragédia por Susanna Dickinson.
Prevendo o avanço das forças mexicanas, Houston ordenou a evacuação em massa dos colonos, conhecida como "Runaway Scrape", em que grande parte da população texana fugiu para o leste em busca de segurança.
A Virada na Guerra: A Batalha de San Jacinto
Apesar da vitória no Álamo, as forças mexicanas ainda superavam numericamente os texanos, com quase seis soldados para cada um do exército adversário. Santa Anna acreditava que o destino trágico dos defensores e o medo gerado pela derrota levariam à rendição rápida dos texanos.
Porém, a tragédia teve o efeito contrário: homens de todo o Texas e dos Estados Unidos se juntaram às forças de Houston, motivados pelo grito de guerra "Remember the Alamo" ("Lembrem-se do Álamo").
Em 21 de abril, o exército texano lançou um ataque-surpresa no acampamento de Santa Anna na região do Ferry de Lynchburg. A batalha de San Jacinto durou apenas 18 minutos, com uma vitória decisiva para os texanos. Santa Anna foi capturado no dia seguinte e obrigado a ordenar a retirada do exército mexicano do Texas, encerrando o controle mexicano sobre a província e consolidando a independência texana.
Santa Anna e o Impacto Cultural e Histórico do Álamo
Depois da derrota, Santa Anna foi visto como herói nacional por alguns e como um pária por outros. A Guerra Mexicano-Americana, travada anos depois, eclipsou a luta pelo Texas no imaginário mexicano. A reputação de Santa Anna foi severamente prejudicada após sua captura em San Jacinto. Na história mexicana, a Batalha do Álamo muitas vezes foi contada sob a perspectiva crítica a Santa Anna, e relatos sobre a execução de Crockett podem ter sido usados para desacreditá-lo.
Para os habitantes de San Antonio de Béxar, o Álamo representava mais que uma fortaleza ou campo de batalha: durante décadas, foi um local de assistência social, hospital e missão. Com o tempo, o local ganhou destaque como símbolo da luta texana, sobretudo entre a população de língua inglesa.
No início do século XX, o governo do Texas adquiriu o complexo e nomeou as Filhas da República do Texas como responsáveis pela preservação do local, que hoje é um santuário estadual.
Um monumento, projetado por Pompeo Coppini, foi erguido em frente à igreja para homenagear os texanos e tejanos que pereceram na batalha. O Álamo é hoje uma das principais atrações turísticas do estado, atraindo visitantes de todo o mundo.
O Álamo no Cinema e na Música Popular
A Batalha do Álamo entrou para a cultura popular, sobretudo por meio do cinema e da música. O primeiro filme a retratar a batalha foi produzido em 1911, e o evento ganhou maior popularidade na década de 1950 com a minissérie da Disney sobre Davy Crockett, que misturava fatos e mitos.
Em 1960, John Wayne dirigiu e estrelou uma das adaptações mais famosas, embora sua precisão histórica tenha sido contestada por especialistas.Um remake mais fiel aos fatos foi lançado em 2004, buscando retratar com maior fidelidade os acontecimentos da batalha.
A música também foi inspirada pela saga. Canções como "The Ballad of Davy Crockett" e "Remember the Alamo" alcançaram sucesso nas paradas, interpretadas por artistas renomados como Johnny Cash.
O lema "Remember the Alamo" ("Lembrem-se do Álamo") surgiu como um grito de guerra entre os colonos texanos após a perda da fortificação. A batalha, embora terminada em derrota, simbolizou a coragem, a resistência e a determinação de um povo em busca de independência.
A expressão foi usada para inspirar soldados e civis durante a guerra, tornando-se um símbolo de luta contra o medo e a insegurança, e permanece até hoje como um exemplo de garra e dignidade na história dos Estados Unidos.
Reflexões Finais: O Álamo e seu Lugar na História
A Batalha do Álamo permanece como um dos episódios mais emblemáticos da história do Texas e dos Estados Unidos, representando o preço da independência e a força da resistência humana diante da adversidade. Embora tenha terminado em derrota para os texanos, a defesa feroz da fortificação se tornou um símbolo de coragem e sacrifício que ultrapassa gerações.
O confronto revelou muito sobre as tensões sociais, políticas e culturais que permeavam o território naquele momento. De um lado, havia um México tentando manter sua integridade territorial e sua soberania; do outro, colonos, tejanos e imigrantes lutando por autonomia e identidade própria. A disparidade numérica e de recursos não impediu que os texanos resistissem com uma determinação que até hoje inspira.
A tragédia do Álamo também expõe os limites da narrativa histórica tradicional. Enquanto os defensores texanos ganharam a aura de heróis, o papel dos soldados tejanos que lutaram ao lado deles, assim como a complexidade do exército mexicano, são frequentemente esquecidos ou minimizados nos relatos mais populares.
Além disso, a forma como o evento foi apropriado pela cultura popular, principalmente pelo cinema e pela música, moldou a percepção global da batalha. Essa mistura entre mito e realidade, herói e vilão, alimenta o imaginário coletivo, mas também desafia historiadores a desmitificar e compreender o episódio em toda a sua complexidade.
O grito de guerra “Remember the Alamo” transcendeu seu contexto original para se tornar um símbolo universal da luta contra a opressão, do valor diante da morte iminente e da esperança pela liberdade. O legado do Álamo é, portanto, duplo: de um lado, a memória da perda, e do outro, a inspiração para a vitória que viria logo depois, na Batalha de San Jacinto.
Em última análise, a batalha representa um momento crucial que determinou o destino do Texas e influenciou profundamente a história política e cultural da América do Norte. Seu estudo contínuo é essencial para compreender as raízes das identidades regionais e nacionais, bem como os conflitos que moldaram o continente.
Remember the Alamo