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A HORA DA ZONA MORTA (1983) - FILM REVIEW

Peter Hurkos e o poder de um tombo

Pieter van der Hurk — mais conhecido como Peter Hurkos — foi um holandês que, após se recuperar de um ferimento grave na cabeça causado por uma queda de uma escada aos 30 anos, afirmou ter desenvolvido percepção extra-sensorial (PES). A partir desse episódio, passou a relatar visões, sensações e capacidades premonitórias que o tornaram uma figura conhecida internacionalmente. Hurkos ganhou notoriedade ao supostamente auxiliar investigações criminais de grande repercussão, como os casos da Família Manson e do Estrangulador de Boston. Ele faleceu em 1988.

Hurkos, porém, sempre foi uma figura profundamente controversa. Enquanto alguns investigadores e policiais acreditavam em suas habilidades, céticos e estudiosos da parapsicologia afirmavam que ele recorria à leitura fria, dedução lógica e informações obtidas previamente. Ainda assim, durante as décadas de 1950 e 1960 — período em que a parapsicologia gozava de maior respeito acadêmico —, seus relatos foram analisados por universidades e centros de pesquisa nos Estados Unidos. Independentemente da veracidade de seus dons, Hurkos se tornou símbolo de uma era em que ciência, fé, mídia e espetáculo conviviam sem fronteiras bem definidas.

O Homem com a Mente de Raio-X

Essa história improvável inspirou o romance de Stephen King e, consequentemente, o filme A Hora da Zona Morta. Como se não bastasse a origem inusitada, a adaptação ainda foi dirigida por David Cronenberg, criador de A Mosca, Gêmeos – Mórbida Semelhança e Scanners. Da união improvável entre King e Cronenberg surgiu uma das adaptações mais sólidas e respeitadas da obra do autor.

Na trama, acompanhamos Johnny Smith (Christopher Walken), professor de literatura prestes a se casar, que sofre um grave acidente de carro e permanece cinco anos em coma. Ao despertar, descobre que perdeu a carreira, o tempo e sua noiva, Sarah Bracknell (Brooke Adams). Em contrapartida, desenvolve poderes psíquicos que lhe permitem prever o futuro ou enxergar acontecimentos passados ao tocar outras pessoas. O dom, porém, não vem como bênção, mas como condenação: Johnny passa a viver assombrado por tragédias que pode evitar — ou não.

O verdadeiro horror do filme não reside nas visões em si, mas no peso ético que elas impõem. Johnny não escolhe saber demais; ele é obrigado a conviver com esse conhecimento. Cada premonição o afasta da normalidade e o empurra para uma existência solitária, marcada pela certeza de que agir pode salvar vidas, mas também destruir a sua. Johnny Smith é um personagem trágico em essência: alguém que enxerga além e, justamente por isso, jamais poderá viver plenamente.

Escrito em 1979, A Zona Morta foi o primeiro livro de Stephen King a alcançar o primeiro lugar na lista de mais vendidos em capa dura — um marco decisivo em sua carreira. O romance, com 428 páginas, é frequentemente citado pelo próprio autor como um de seus trabalhos mais bem-sucedidos em termos de estrutura e impacto emocional.

Produção turbulenta

Os direitos da obra foram adquiridos pela Lorimar, e a produtora Carol Baum inicialmente contratou Stanley Donen, diretor de Cantando na Chuva, para comandar o filme. Após desenvolver o roteiro com Jeffrey Boam (Indiana Jones e a Última Cruzada), Donen deixou o projeto. Com problemas financeiros, a Lorimar acabou vendendo os direitos para Dino De Laurentiis, responsável por produções como King Kong (1976) e Conan (1982).

De Laurentiis chegou a convidar John Badham e Michael Cimino, mas Badham recusou o projeto por considerá-lo “irresponsável”. Roteiros de Stephen King e Andrzej Zulawski foram encomendados e rejeitados, até que Jeffrey Boam retornasse ao trabalho dois anos depois. Ironicamente, embora tenha deixado o projeto, Carol Baum viria a ser produtora executiva de Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988), também dirigido por Cronenberg.

A “Zona Morta” no livro

O filme não se aprofunda na explicação do conceito de “Zona Morta” como o romance faz. King baseia-se em uma teoria hoje desacreditada, segundo a qual utilizamos apenas 10% do cérebro. Após o coma, o cérebro de Johnny teria criado novos caminhos neurais para contornar a área danificada. Esses “novos caminhos”, localizados na chamada Zona Morta — os supostos 90% inativos —, seriam responsáveis por seus poderes de PES e segunda visão. Ainda que cientificamente incorreta, a ideia funciona como metáfora para potencialidades despertadas pelo trauma.

Cronenberg na medida certa

Embora conhecido pelo horror corporal explícito, Cronenberg opta aqui por uma abordagem contida. O terror em A Hora da Zona Morta é psicológico e existencial, ainda que cenas como o suicídio do assassino carreguem sua assinatura. O filme se mantém dentro de uma realidade plausível, o que torna suas implicações ainda mais inquietantes.

Essa contenção não representa ausência de estilo, mas uma escolha consciente. Cronenberg desloca seu interesse pelo corpo mutante para um corpo socialmente mutilado. Johnny não é deformado fisicamente, mas excluído, deslocado, incapaz de retomar uma vida comum. Seus poderes não o transformam em espetáculo, mas em um pária silencioso.

Num período anterior ao CGI, e com o diretor evitando efeitos práticos exagerados, as cenas de premonição dependem quase exclusivamente da atuação de Christopher Walken — que entrega exatamente o tipo de atuação intensa e excêntrica que marcaria sua carreira. Sua presença inquieta sustenta todo o filme.

Kingverso da loucura

A personagem Patty Strachan comenta: “A culpa é dele, daquele cara ali! Ele incendiou a casa com a mente, como naquele livro Carrie, a Estranha”. É uma referência direta às habilidades de Johnny Smith.

O repórter Richard Dees, que confronta Johnny, é o mesmo personagem que pilota o avião em Voo Noturno. Bangor, a Universidade do Maine e Jerusalem’s Lot também são citadas, conectando A Hora da Zona Morta a Cemitério Maldito, Vampiros de Salem e Chapelwaithe, consolidando a sensação de um universo narrativo compartilhado.

Há uma série de coincidências curiosas no elenco e nos temas. Martin Sheen, cujo personagem prevê que se tornará presidente dos Estados Unidos, interpretou presidentes tanto na minissérie Kennedy (1983) quanto na série The West Wing (1999).

Antes do acidente, Johnny pede que seus alunos leiam A Lenda de Sleepy Hollow. Anos depois, Walken interpretaria o próprio Cavaleiro Sem Cabeça na versão de Tim Burton. Colleen Dewhurst, que vive a mãe do assassino, já havia interpretado a mãe de Walken em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Tom Skerritt também transita pelo universo King em Christine, À Espera de um Milagre e Desespero.

The End

O livro de King é superior por natureza: mais denso, mais detalhado, mais introspectivo. Ainda assim, como adaptação cinematográfica, A Hora da Zona Morta permanece como uma das mais equilibradas e atemporais, compreendendo que nem todo terror precisa ser espetacular para ser devastador.

Johnny Smith não é lembrado como herói porque sua vitória exige anonimato e sacrifício. Ele age sabendo que jamais será celebrado — apenas esquecido. Pela estrutura narrativa, pelo isolamento do protagonista e pela necessidade de renúncia pessoal, o filme se aproxima de histórias clássicas de super-heróis, ainda que sem uniformes ou poderes vistosos. Como M. Night Shyamalan demonstraria em Corpo Fechado que heróis não precisam voar ou lançar raios pelos olhos.

Às vezes, basta prever o futuro — e aceitar o preço de mudá-lo.


https://www.pipoca3d.com.br/2024/10/a-hora-da-zona-morta-1983-film-review.html

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