DOUTOR SONO (2019) - FILM REVIEW
Você provavelmente já se sentiu sugado depois de um longo dia de trabalho, especialmente quando passou horas cercado de pessoas? Ou talvez tenha tido a mesma sensação depois de encontrar aquele parente ou vizinho invejoso que parece consumir toda a sua energia? Pois essa ideia de ser drenado, de alguma maneira, está intimamente ligada à ótima adaptação de uma obra do mestre Stephen King, "Doutor Sono".
Existe uma grande variedade de vampiros no imaginário popular, e as representações dos mitos e lendas a respeito dessas criaturas remontam ao surgimento das primeiras manifestações artísticas e, posteriormente, da própria escrita. Pode-se dizer, portanto, que o vampiro caminha lado a lado com a humanidade, ainda que quase sempre escondido nas sombras. Afinal, uma coisa é certa: essas criaturas sempre estiveram ligadas à superstição, ao mistério, à magia e, principalmente, ao próprio medo da morte.
Cada cultura deu aos vampiros características próprias e nomes diferentes, mas uma ideia costuma permanecer: a necessidade de sobreviver por meio dos vivos. Na maioria das vezes, isso acontece através do sangue, mas também pode ocorrer por meio da energia vital. Um exemplo é o jiangshi, uma espécie de vampiro chinês, também associado ao fantasma e, em algumas representações, ao zumbi. Trata-se de um cadáver reanimado que sorve o "Qi" dos vivos para sobreviver.
O "Qi" é entendido como a força vital ou o fluxo de energia que permeia o mundo e os seres vivos. Etimologicamente, o ideograma "Qi" é formado por elementos que remetem à imagem do vapor que sobe do arroz enquanto ele é cozido, quando levantamos a tampa da panela. Por isso, o termo pode ser associado a ideias como vapor, energia, força e vida. E finalmente chegamos ao ponto central: onde mais ouvimos falar de vapor e de vampiros?
Em "Doutor Sono", temos o grupo de vampiros psíquicos conhecido como True Knot. Assim como os jiangshi, essas criaturas sobrevivem sorvendo o “vapor” dos vivos, especialmente aquele produzido pelas crianças iluminadas. É justamente essa característica que aproxima o universo criado por Stephen King de uma tradição muito mais antiga do imaginário vampírico: a ideia de que o ser humano pode ter sua própria essência vital roubada por outra criatura.
Iluminado
Pensar em uma continuação de O Iluminado, obra-prima de Stanley Kubrick lançada em 1980, parecia heresia. Mas esse pensamento se dilui quando lembramos que o filme adapta o romance de Stephen King, lançado somente em 2013. Ou seja, se há alguém herege nessa história, é, sem dúvida, o próprio King. Além de dar continuidade a uma história que fatalmente seria adaptada para o cinema ou para a TV, ele já havia expressado seu descontentamento com a versão de Kubrick, demonstrando preferência pela minissérie lançada em 1997.
Mas que ótimo que ele seja herege, já que o material escrito é ótimo e a adaptação é digna de figurar entre as melhores. E, para transformar essa continuação em filme, a escolha do diretor não poderia ter sido mais apropriada. A direção ficou por conta de Mike Flanagan, queridinho das séries de terror, responsável por A Maldição da Residência Hill (2018), A Maldição da Mansão Bly (2020) e Missa da Meia-Noite (2021).
Só que havia um problema considerável pela frente. Era preciso encontrar uma maneira de adaptar a história de King sem ignorar o legado de Kubrick. Foi preciso muita negociação para fazer esse filme. Mike Flanagan teve que convencer Stephen King de que, apesar de sua própria aversão por O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, o público estava muito mais familiarizado com essa versão do que com a minissérie de 1997 e, de modo geral, preferia o filme. Portanto, Doutor Sono precisava funcionar como uma continuação direta do clássico de Kubrick.
Essa escolha não era exatamente simples. O Iluminado (1980) tomou muitas liberdades com o romance homônimo de Stephen King, uma das razões pelas quais ele não gostou do filme. Por isso, o público costuma se dividir entre os fãs do livro e os fãs da adaptação cinematográfica. De acordo com Ewan McGregor, o maior desafio era justamente fazer uma sequência capaz de satisfazer esses dois grupos. No fim das contas, King disse que gostou da sequência, assim como muitos dos puristas de Kubrick. Flanagan, portanto, parece ter feito bem o seu trabalho.
E é justamente nesse ponto que Doutor Sono começa a construir sua própria história. Na infância, Danny Torrance conseguiu sobreviver a uma tentativa de homicídio por parte do pai, um escritor perturbado pelos espíritos malignos do Hotel Overlook. Danny cresceu e agora é um adulto traumatizado e alcoólatra. Sem residência fixa, ele se estabelece em uma pequena cidade, onde consegue um emprego no hospital local. Mas a paz de Danny está com os dias contados quando ele cria um vínculo telepático com Abra, uma menina com poderes tão fortes quanto aqueles que ele próprio aprendeu a bloquear dentro de si.
É através de Abra que voltamos então ao grupo de vampiros psíquicos True Knot, ao qual já havíamos feito uma breve referência na introdução. O grupo é encabeçado por Rose the Hat, brilhantemente interpretada por Rebecca Ferguson. No filme, vemos que a maioria dos integrantes está doente e enfraquecida pela falta de bons vapores. A única alternativa é sair à procura de iluminados para se alimentar, especialmente crianças.
O vapor é extraído no último sopro de vida da vítima, depois de uma intensa tortura, como se o sofrimento fosse capaz de purificá-lo. E é justamente nesse processo de caça que os True Knot descobrem Abra Stone (Kyliegh Curran), uma menina que possui uma abundância extraordinária de poder. Para os vampiros famintos, ela representa muito mais do que uma nova vítima: é um verdadeiro banquete de vapor.
Diretor aplicado em recriar...
Mike Flanagan foi extremamente meticuloso ao recriar os cenários do Overlook Hotel. Para isso, utilizou plantas adquiridas da propriedade de Stanley Kubrick, reproduzindo espaços com uma precisão impressionante. A sala do Dr. John Dalton (Bruce Greenwood), na qual Danny é entrevistado para o cargo de auxiliar, é praticamente idêntica à sala de Stuart Ullman, onde Jack Torrance foi entrevistado para o cargo de zelador em "O Iluminado" (1980), chegando ao ponto de reproduzir a cor da tinta e a bandeirinha americana posicionada no lado direito da mesa.
Essa preocupação com os detalhes não ficou restrita aos cenários. A maioria dos elementos de "O Iluminado" (1980) foi recriada através de cenários duplicados e atores semelhantes. Apenas três tomadas do filme original foram reutilizadas: a tomada aérea da água e da ilha e as duas tomadas posteriores do carro passando pela estrada da montanha. As imagens foram degradadas, recoloridas para simular uma filmagem diurna transformada em noturna e receberam neve adicionada digitalmente.
Mais do que simplesmente reconstruir os espaços, Flanagan também recuperou muitas das composições de cena e dos ângulos de câmera utilizados por Kubrick. É como se o diretor estivesse reproduzindo a linguagem visual do primeiro filme para mostrar ao espectador que estamos, de fato, retornando ao mesmo lugar, mas por meio dos olhos de outro personagem e décadas depois.
Um exemplo aparece quando Dan Torrance (Ewan McGregor), de ressaca, vomita no banheiro. A tomada dele, vista de baixo, reproduz o mesmo enquadramento utilizado com Jack Torrance (Jack Nicholson), quando tenta argumentar com sua esposa pela porta da despensa em "O Iluminado". O mesmo acontece quando Dan se afasta de Rose (Rebecca Ferguson), subindo as escadas, numa composição que remete diretamente à cena de Wendy (Shelley Duvall) subindo as escadas diante de Jack.
E os detalhes chegam a níveis que talvez passem despercebidos em uma primeira assistida. Na cena do hospital, o gato Azzie, abreviação de Azrael, o Anjo da Morte, pula sobre a mesa diante de Dan. Antes de segui-lo para o que deveria ser um quarto vazio, Dan deixa de lado a revista que estava lendo. Trata-se da mesma edição de janeiro de 1978 da "Playgirl" que seu pai, Jack Torrance, havia lido no saguão do Overlook enquanto esperava por Stuart Ullman e Bill Watson em "O Iluminado" (1980).
E, já que estamos falando de Azzie, existe outra curiosidade interessante por trás do personagem. O gato é baseado em Oscar, um gato malhado que viveu no Steere House Nursing and Rehabilitation Center, em Rhode Island. Oscar ficou conhecido por aparentemente prever a morte iminente de pacientes terminais, sentando-se ou dormindo em suas camas algumas horas antes de eles morrerem. Depois da publicação de um artigo sobre o animal em uma revista médica da Nova Inglaterra, em 2007, Oscar teria estado presente em mais de 100 mortes de pacientes.
Em 2013, Oscar sofreu uma reação alérgica e chegou a ficar alguns segundos sem sinais vitais antes de ser reanimado pelos veterinários. É uma daquelas histórias reais que parecem ter saído diretamente de um livro de Stephen King e que, por isso mesmo, encontram em "Doutor Sono" um lugar quase perfeito.
Kingverso
O filme também está cheio de pequenas conexões com outras obras de King. As “Moscas da Morte” que Dan vê são tiradas diretamente do romance e posteriormente explicadas no filme. Elas também podem ser relacionadas, de maneira simbólica, às moscas que saem do corpo de John Coffey (Michael Clarke Duncan) sempre que ele cura alguém de uma doença em "À Espera de um Milagre" (1999), outra adaptação de Stephen King.
Essa espécie de representação visual da mente também aparece no chamado “armário” mental, onde Abra e Rose guardam suas memórias. O conceito é semelhante ao “armazém de memórias” de "O Apanhador de Sonhos" (2003), outra adaptação de um romance de King. A ideia, por sua vez, guarda semelhanças com o “palácio da memória” ou “palácio da mente” popularizado por produções como "Sherlock" (2010) e "Hannibal" (2013), embora a técnica seja muito mais antiga, remontando à Roma Antiga.
Flanagan ainda espalha pequenos easter eggs pelo caminho. Quando Abra chega à cidade, por exemplo, uma placa indicando “Elm Street” pode ser vista. O nome é obviamente associado à famosa rua de "A Hora do Pesadelo", clássico do terror sobre um assassino que mata adolescentes durante o sono. É um detalhe rápido, quase escondido, mas perfeitamente adequado a um filme tão preocupado com sonhos, pesadelos e os espaços que existem dentro da mente.
No fim das contas, porém, todas essas referências e reconstruções ganham um significado maior quando Danny retorna ao Overlook. É fácil enxergar a meia hora final como um enorme exercício de "fan service", afinal, o filme recupera cenários, personagens e situações que fazem parte do imaginário criado por Kubrick. Mas a volta de Danny ao hotel não está ali apenas para provocar nostalgia. Existe uma razão narrativa e, principalmente, emocional para que ele precise retornar àquele lugar.
Danny não está simplesmente entrando novamente no cenário de sua infância. Ele está entrando no próprio passado. O Overlook que encontramos no final é quase uma aula de reconstrução de uma memória distante, só que agora as peças do xadrez se movimentam de outra maneira. O lugar é familiar, mas Danny não é mais a criança que fugiu dali ao lado de sua mãe. Ele retorna como um homem que passou décadas tentando conviver com aquilo que aconteceu naquele hotel.
É justamente por isso que "Doutor Sono" acaba sendo, acima de tudo, um filme sobre aprender a lidar com os fantasmas do passado. E, dependendo de quando decidirmos encará-los, podemos pagar um preço alto por tê-los mantido escondidos durante tanto tempo. O destino de Danny também nos faz pensar em uma questão ainda mais interessante: será que ele, como um iluminado, sabia que sua jornada terrena terminaria justamente ao voltar para aquele lugar? Será que ele, de alguma maneira, já enxergava o caminho que estava percorrendo?
E, caso não soubesse, fica para nós, espectadores, uma importante lição. Guardar nossos fantasmas em baús e enterrá-los no fundo de nossas lembranças não faz com que desapareçam. Eles continuam lá, esperando o momento em que teremos coragem de enfrentá-los.
O que pensei ao rever
Posso dizer seguramente que esta é uma das melhores adaptações de King e que permanece grandiosa em qualquer revisão. Acabei me tornando fã de Mike Flanagan e acompanho tudo que ele faz, principalmente as séries. Porém, nesta revisão, resolvi finalmente assistir à versão estendida, com três horas de duração. E, obviamente, há muitas diferenças, mas o filme ganha apenas mais corpo. Não se trata de uma versão que transforma completamente a experiência original, e sim de uma ampliação que acrescenta pequenas cenas, diálogos e detalhes que ajudam a preencher algumas lacunas.
A diferença aparece logo no início. O zoom lento que desce da câmera no parque onde Violet está hospedada revela algo a mais: os créditos da Warner Bros. e o título Doutor Sono. Na versão de teste, isso era mostrado mais tarde no filme. A alteração já dá uma pista do que encontraremos pela frente, porque Flanagan aproveita a versão estendida não apenas para acrescentar cenas, mas também para reorganizar alguns momentos da narrativa. E veremos em breve o que ocupou o espaço dessa abertura na versão original.
Antes de encontrar Rose, Violet também ganha mais tempo em cena. Ela caminha pela floresta depois de se separar da mãe, segue uma trilha e colhe algumas flores antes de encontrar Rose. Gostei dessa inclusão porque o corte brusco da versão original, com Violet já parada observando Rose no trailer, sempre me pareceu um pouco abrupto. A sequência adicional torna o encontro mais natural e ainda permite um vislumbre das caravanas e dos caminhões que os True Knot estacionaram nas proximidades.
A própria sequência envolvendo a mãe de Violet também é ampliada. Na versão original, o filme corta a cena quando os membros do True Knot cercam a garota. Na versão alternativa, vemos a mãe procurando por ela na floresta e chamando por seu nome, enquanto as caravanas mencionadas anteriormente deixam o local e desaparecem pela mata. É completamente desnecessário para a compreensão da história, mas é também deliciosamente sombrio.
Essa preocupação em acrescentar pequenos momentos continua quando a ação retorna ao mirante coberto de neve. Em vez do corte abrupto da versão original, temos uma transição mais suave. Era justamente nesse ponto que apareciam os créditos e o título, mas Flanagan aproveitou o espaço para introduzir outra novidade da versão estendida, os capítulos. O primeiro deles é “Capítulo Um — Fantasmas Antigos”, que combina perfeitamente com o que veremos a seguir.
A infância de Danny também recebe pequenas extensões. Quando o garoto entra no banheiro e encontra o fantasma em decomposição de Lorraine Massey, originalmente víamos apenas a mão dela começando a abrir a cortina do chuveiro antes de Danny fechar a porta. Na versão estendida, Danny permanece imóvel por mais tempo e vemos um plano frontal de Lorraine saindo do chuveiro, molhada e pingando sobre o tapete, antes que ele finalmente feche a porta.
E a cena não termina aí. Depois que Danny é limpo por Wendy, uma sequência adicional mostra a mãe indo investigar o banheiro por conta própria. Ela não encontra nada de errado até perceber as pegadas molhadas deixadas no tapete. Wendy então fecha rapidamente a porta e sai correndo. É um pequeno acréscimo, mas funciona porque mostra que o que Danny viu não foi simplesmente uma manifestação isolada de sua imaginação. Wendy também percebe que alguma coisa está errada, mesmo sem conseguir enxergar o que realmente está acontecendo.
O diálogo entre Danny e Halloran, sentados à beira-mar, também foi ampliado. Os dois comentam mais sobre os acontecimentos de O Iluminado do que na versão original, além de oferecerem informações adicionais sobre como o brilho funciona e por que os fantasmas do Overlook continuam perseguindo ambos. É, em grande parte, material desnecessário, mas ainda assim é um ótimo diálogo, principalmente para quem gosta de entender um pouco mais das regras desse universo.
A mesma lógica aparece depois da briga no bar. Quando Dan acorda, vemos mais coisas que ele presenciou antes de sair e também alguns flashbacks desencadeados por esses acontecimentos. A intenção parece ser justamente explicar melhor o que aconteceu naquela noite, preenchendo algumas lacunas que o corte original deixava para o espectador imaginar.
Até Halloran ganha uma pequena explicação adicional sobre a natureza desses poderes. Quando aparece para repreender Dan por ter pegado o dinheiro, Dan tenta brevemente trancá-lo em uma caixa. Halloran explica, porém, que isso é impossível, porque ele é uma memória, não um fantasma. É uma distinção interessante e acrescenta uma nova camada às nuances dos poderes de Dan.
Enquanto isso, o filme começa a preparar a chegada de Abra. Antes mesmo de sua apresentação no TC, temos uma cena extra em que seus pais descem para vê-la tocar piano. Mais tarde, eles são acordados no meio da noite ao perceber que o instrumento está tocando a mesma música sozinho. É um daqueles acréscimos que não mudam a história, mas ajudam a estabelecer desde cedo a dimensão dos poderes da garota.
A introdução de Andi também recebe pequenas alterações. Primeiro, vemos uma cena extra do homem que ela vai encontrar entrando no cinema. Depois, ela o faz repetir suas instruções forçadas em voz alta, dando à situação um toque ainda mais hipnótico. Outras vítimas dos poderes de Andi fazem isso posteriormente, então a inclusão acaba fazendo sentido.
Uma de suas falas também foi modificada. Na versão original, ela diz: “Quero que você se lembre daquela vez em que foi mordido por uma cascavel”. Na versão definitiva, a frase passa a ser: “Quero que você se lembre daquela vez em que foi mordido por uma cobra. Uma cobra de blusa branca, cujo rosto é inexpressivo”. A mudança na primeira frase provavelmente se deve ao uso de tomadas diferentes, mas a segunda frase acrescentada funciona muito bem como uma espécie de cartão de visitas dos ataques de Andi e, ao mesmo tempo, ajuda a explicar como ela ainda não foi descoberta. Ótima adição.
Dan também ganha uma pequena passagem que ajuda a preencher uma lacuna de sua trajetória. Depois de acordar bêbado na rua, vemos uma cena adicional em que ele usa o dinheiro que lhe resta para comprar uma passagem de ônibus e embarca para Frazier. Não é essencial, mas torna sua chegada à cidade um pouco menos abrupta.
A festa de aniversário de Abra também sofre pequenas alterações. Como a informação sobre o local já havia sido estabelecida na cena do piano, a festa começa sem essa indicação. O mágico, por sua vez, faz alguns truques a mais do que na versão original. E essa inclusão acaba revelando até um pequeno erro de continuidade do corte original: uma cena em que o mágico entrega sua varinha para Abra foi retirada, fazendo com que, entre duas cenas, a varinha simplesmente apareça magicamente nas mãos da garota.
É no início da cena em que Andi acorda pela primeira vez no trailer de Rose que aparece o título do segundo capítulo, “Capítulo Dois — Demônios Vazios”. Caso esteja se perguntando, este é o único título de capítulo que coincide com o do livro. Na mesma sequência, Andi e Rose conversam um pouco mais sobre o True Knot, com Rose explicando como o grupo funciona e reforçando a ideia de que, para seus integrantes, aquilo é uma família.
A partir daí, algumas cenas permanecem praticamente intactas. A chegada de Dan a Frazier e seu encontro com Billy, Dan acordando na cama com o fantasma de Deenie, a primeira reunião dos Alcoólicos Anônimos e seu encontro com o Dr. John no consultório continuam praticamente iguais, embora algumas tomadas e falas tenham sido acrescentadas. A reunião dos Alcoólicos Anônimos é a que mais recebe material, especialmente quando Dan fala sobre o irmão de Billy. A entrada ritual de Andi no True Knot também permanece inalterada.
Depois da iniciação, porém, o grupo ganha mais espaço novamente. Quando Andi acorda, vemos os integrantes do True Knot aplaudindo e abraçando-a quando ela se aproxima. A sequência reforça visualmente aquilo que Rose havia acabado de lhe explicar, a ideia de que aquele grupo realmente se enxerga como uma família. Abra também e ganhe um momento mais íntimo. Uma cena extra mostra a jovem perguntando à mãe se ela tem medo dela depois de testemunhar seus poderes. É uma pequena conversa, mas ajuda a desenvolver a relação entre as duas e prepara algumas questões que serão exploradas mais adiante.
Depois da primeira conversa entre Abra e Dan no quadro-negro, a versão estendida toma outro caminho antes de avançar no tempo. Em vez de partir imediatamente para o salto temporal, o filme retorna à mesma cena do Overlook mostrada no início. A câmera então realiza um travelling pelo hotel, até se deter em um copo de uísque cheio sobre o balcão do bar do salão de baile. É nesse momento que surge o título do terceiro capítulo, “Capítulo Três — Pequena Espiã”. A imagem do uísque, além de funcionar como uma ponte visual para o passado de Dan, prepara o terreno para tudo que ainda será revelado sobre sua relação com o pai.
O discurso de Dan na reunião dos Alcoólicos Anônimos, oito anos depois, também é estendido. O ritmo da cena parece um pouco mais natural, já que ele gagueja, faz pausas e entra em mais detalhes sobre seus sentimentos persistentes em relação ao relacionamento com Jack. O segundo paciente que Dan acompanha como Doutor Sono também tem sua história ampliada. Dan relembra aspectos do passado do homem e o ajuda a recuperar essas lembranças em seus momentos finais, reforçando justamente o sentido de seu novo papel.
Já o assassinato do Baseball Boy recebe material adicional em Washington D.C., principalmente mais sangue e alguns momentos macabros. Nada extraordinário, mas suficiente para tornar a sequência um pouco mais pesada. Logo depois, quando os pais de Abra a consolam, vemos Dan sentado na beira da cama, olhando sombriamente para as rachaduras na parede de lousa, onde está escrita a palavra “MURDEЯ”.
A conversa de Abra com a mãe na manhã seguinte também é ampliada. As duas falam um pouco mais sobre Dan, em vez de a mãe simplesmente interromper a conversa para perguntar se ela está bem. Na outra ponta da história, a conversa entre Rose e Crow sobre Abra ganha mais espaço e oferece uma ideia mais concreta do que eles pretendem fazer com a garota depois de capturá-la. Quando Abra chega à escola, surge o título do quarto capítulo, “Capítulo Quatro — Vire, Mundo”. Também descobrimos que ela comprou a passagem de ônibus necessária para viajar até Frazier. É mais uma daquelas pequenas alterações que tornam a movimentação dos personagens um pouco mais clara.
O encontro entre Abra e Dan no banco do parque também se estende. Eles conversam mais sobre o brilho e sobre o True Knot, enquanto Abra fala sobre a maneira como seus pais a tratam por causa de seus poderes e percebe uma semelhança com a forma como Wendy tratava Dan. A suspeita de Abra é confirmada por uma cena de flashback adicional envolvendo Danny e Wendy, na qual ela demonstra dificuldade em olhar o filho nos olhos enquanto se recusa a admitir que está pensando em Jack.
A última conversa de Dan com Halloran também ganha algumas linhas sobre o True Knot. Halloran explica um pouco mais sobre a natureza do grupo e sobre há quanto tempo eles existem. Logo depois, uma cena adicional mostra Rose tentando meditar antes de partir atrás de Abra. Crow então conta a ela sobre um tremor sentido na rua onde Abra mora, apesar de os geólogos não terem registrado qualquer terremoto. É dessa maneira que o filme explica como Rose consegue descobrir onde Abra está.
Enquanto Dan e Billy se afastam de carro da fábrica onde o Menino do Beisebol foi enterrado, surge o título do quinto capítulo, “Capítulo Cinco — Truques de Salão”. E, a partir daqui, a versão estendida começa a alterar um pouco mais a dinâmica entre Abra, seu pai e Dan. Quando o pai de Abra ataca Dan pela primeira vez, ela não mostra imediatamente o assassinato do Menino do Beisebol. Em vez disso, envia um som penetrante para a mente dele, tentando impedi-lo. Mais tarde, o grupo conversa na cozinha e o pai de Abra acusa Dan de ter assassinado o menino. Só então Abra, relutantemente, mostra a ele o crime.
Na sequência, em Washington D.C., quando Abra é tranquilizada por Crow, vemos também seu pai tentando defendê-la. Crow apenas ri e o provoca antes de a cena cortar para ele carregando Abra para fora, enquanto o corpo de seu pai permanece para trás. É uma alteração pequena, mas torna a situação ainda mais cruel.
Finalmente, enquanto Dan sobe a montanha de carro com Abra, aparece o título do último capítulo, “Capítulo Seis — O Que Foi Esquecido”. E, depois de tudo que vimos até aqui, não poderia haver título mais apropriado para o retorno ao Overlook. A exploração do hotel também é ampliada. Dan percorre novamente alguns dos espaços que fizeram parte de sua infância, incluindo o corredor dos gêmeos Grady e a área diante da porta do banheiro que Jack arrombou. São momentos breves, mas ajudam a transformar a chegada ao Overlook em algo mais gradual. Dan não simplesmente entra no hotel; ele reencontra aos poucos os lugares que permaneceram presos em sua memória.
Por fim, a última alteração feita pela versão estendida acontece na conversa de Dan com Jack no bar, e aqui temos uma mudança realmente significativa. Os diálogos adicionais falam principalmente sobre Wendy, com Dan comentando os efeitos que os acontecimentos de O Iluminado tiveram sobre ela, algo que já havia sido discutido em cenas cortadas anteriormente. A sequência também aprofunda os efeitos e as razões por trás do alcoolismo de Dan e Jack. Depois que este derrama a bebida, ainda temos uma cena extra no banheiro, na qual ele limpa Dan e tenta convencê-lo a abandonar Abra, deixando-a, presumivelmente, para que o hotel a consuma. Depois disso, a versão estendida e a original voltam a ser exatamente iguais.
Em suma, foi justamente isso que mais gostei nessa revisão. As três horas não transformam Doutor Sono em outro filme. Elas simplesmente permitem que Flanagan respire um pouco mais entre uma ideia e outra. Algumas cenas são dispensáveis, outras corrigem pequenas lacunas, algumas aprofundam personagens e existem aquelas que estão ali simplesmente porque são deliciosamente sombrias. Mas, reunidas, elas tornam a experiência mais completa e ajudam a entender melhor a relação entre Dan, Abra, o True Knot e, principalmente, o fantasma permanente do Overlook.
Mas, independentemente da versão que assista, Doutor Sono continuará sendo um daqueles raros casos de um filme que não deveria ter sido feito, mas que, uma vez pronto, nos faz pensar: “ainda bem que alguém ousou fazer”.


