A CRIATURA DO CEMITÉRIO (1990) - FILM REVIEW
Turno da noite.
Há um meme recorrente na internet que se propõe a resumir filmes em apenas três imagens. No caso de Criatura do Cemitério (Graveyard Shift), a brincadeira poderia muito bem ser reduzida a duas: algumas pessoas, uma fábrica decadente e um rato mutante assassino. A simplicidade dessa equação parece quase infantil, mas esconde uma história com camadas mais interessantes do que sua superfície grotesca sugere.
O enredo, centrado em operários que precisam trabalhar no turno da noite de uma fábrica têxtil em decomposição, durante o auge do verão, após sua reabertura por um dono misterioso, funciona como porta de entrada para um universo de horror industrial, crítica social, violência gráfica e metáforas escondidas sob as tábuas podres do assoalho.
O filme foi rodado na vila de Harmony, no Maine, uma escolha de locação que carrega um simbolismo especial. A fábrica Bartlettyarns Inc., fundada em 1821 e conhecida como a mais antiga fábrica de fios de lã em atividade nos Estados Unidos, foi renomeada para “Bachman” em uma homenagem direta ao pseudônimo mais famoso de Stephen King. Sua estrutura antiga, sua maquinaria pesada e ruidosa, seus corredores longos e úmidos e o cemitério próximo ao rio funcionam quase como personagens por si próprios.
O cenário não é apenas um pano de fundo, mas sim um organismo vivo, pulsante e ameaçador. Outras filmagens ocorreram em Bangor, em um sistema de distribuição de água abandonado e em um arsenal, além de partes realizadas nos arredores da Eastland Woolen Mill, em Corinna. Tudo isso constrói uma unidade estética coerente: a sensação de decadência e abandono, a impressão de que aquele ambiente já teve vida, mas que agora foi entregue ao mofo, às sombras e às coisas que rastejam na escuridão.
Máscara de Ferro
Para entender melhor o espírito bruto da história, vale voltar ao pseudônimo Bachman. Richard Bachman foi criado por King nos anos 1970, não apenas para driblar as limitações comerciais impostas pelos editores, que acreditavam que lançar mais de um livro por ano saturaria o mercado, mas também como uma espécie de experimento artístico: King queria saber se sua escrita sobreviveria sem o peso do próprio nome.
Como Bachman, ele explorou temas mais secos, violentos, pessimistas e diretos, com narrativas que frequentemente recusavam sentimentalismos. Livros como A Longa Marcha e A Autoestrada são marcados por essa dureza. “Turno da Noite”, o conto que inspirou o filme, integra a coletânea Tripulação de Esqueletos e carrega justamente essa economia agressiva, quase desumana, que caracteriza o estilo Bachman: personagens que não têm tempo para drama emocional, ambientes que se tornam predatórios por sua simples existência e mortes que acontecem sem floreios, sem catarse, sem poesia. O horror, ali, é trabalho braçal.
A fábrica do filme — e, anteriormente, do conto — funciona como metáfora poderosa. Sua estrutura labiríntica, o cheiro de madeira velha e água parada, o barulho incessante das máquinas, a poeira que se acumula como sedimento geológico, tudo isso gera uma sensação de organismo vivo. A fábrica é um corpo. Suas salas são órgãos. Seus corredores funcionam como veias. O subsolo representa o inconsciente, aquilo que foi enterrado, suprimido, escondido por vergonha ou por descaso.
Trabalhar ali significa se deixar engolir por uma titanomaquia industrial, um monstro feito de ferrugem e história. Quando os operários descem aos níveis inferiores para limpar detritos acumulados há décadas, eles não estão apenas fazendo um serviço braçal: estão penetrando em camadas profundas da memória daquele lugar. Estão explorando os escombros da negligência humana. Estão descendo, simbolicamente, ao inferno.
A estética industrial em decomposição liga Criatura do Cemitério a uma tradição muito específica dentro do horror: aquilo que muitos chamam de horror industrial, uma vertente que emerge com força após a Revolução Industrial e que explora o medo das máquinas, da mecanização da vida, da perda da identidade humana diante de estruturas frias e implacáveis.
Filmes como Sessão 9, obras de Clive Barker e, de modo mais intenso, toda a atmosfera claustrofóbica de Alien³ dialogam diretamente com essa estética. A ideia de que lugares de trabalho abandonados — fábricas, hospitais psiquiátricos, usinas — não apenas guardam história, mas absorvem sofrimento e se tornam entidades silenciosas, prontas para consumir aqueles que ousam perturbar seu sono.
Nesse sentido, não surpreende que a criatura de Criatura do Cemitério pareça brotar da própria fábrica. No conto de King, os ratos subterrâneos são descritos como monstruosidades desenvolvidas ao longo de gerações em completa escuridão. São cegos, enormes, sem pelos, com músculos expostos e uma brancura quase cadavérica. A adaptação cinematográfica opta por uma criatura híbrida, um rato gigante alado, algo que remete menos ao natural e mais ao fabulesco, como se a fábrica tivesse gestado seu próprio demônio.
Mas, para além da forma física, a criatura funciona como alegoria evidente: ela é o produto final da negligência, a manifestação literal do acúmulo de sujeira, um reflexo do abandono que se perpetua quando estruturas inteiras são deixadas apodrecer. Ela representa também, de maneira mais sutil, a exploração do trabalhador, que por décadas precisou ignorar condições insalubres e riscos reais para continuar sobrevivendo. A criatura é, portanto, uma metáfora sobre tudo o que cresce em silêncio quando o descaso é institucionalizado.
Para analisar o impacto visual do filme, é obrigatório mencionar o gore. A palavra “gore”, que remete ao sangue coagulado e à exposição gráfica da violência, tornou-se sinônimo de um tipo de cinema que não teme mostrar ferimentos abertos, membros dilacerados e a fragilidade da carne. Mas o gore nem sempre foi permitido. Durante décadas, o cinema americano esteve submetido ao Código Hays, que funcionava como um manual moral repressivo, impedindo que filmes exibissem sangue, crueldade explícita, sexualidade e até mesmo mortes consideradas “visualmente perturbadoras”.
Com o colapso desse código, na década de 1960, o cinema entrou em uma era de ousadia estética. Obras como O Bebê de Rosemary, O Exorcista e Carrie abriram as portas para uma nova relação com o horror, na qual a violência podia ser representada de forma muito mais realista — ou sensorialmente agressiva.
Dentro desse novo terreno, o gore se bifurcou em diferentes vertentes. O splatter, popularizado por Herschell Gordon Lewis, apostava na teatralidade do sangue jorrando em jatos exagerados. Os italianos, sobretudo Lucio Fulci, levaram o gore a níveis viscerais, com cenas de olhos perfurados, estômagos abertos e corpos decompostos devorados por vermes. E David Cronenberg, no Canadá, desenvolveu o body horror, que utiliza a deformação corporal para discutir doenças, parasitismos, fusões entre organismo e máquina e os limites da identidade humana. O gore, portanto, não é apenas sobre sangue: é sobre a materialidade da carne.
Em Criatura do Cemitério, o gore não é tão constante quanto poderia ser. A obra aposta mais no nojo ambiental — o mofo, a sujeira, a água contaminada, os túneis apertados — do que na exposição de mutilações. No entanto, quando a violência aparece, ela é destinada a reafirmar a brutalidade daquele espaço. As mortes não possuem glamour nem heroísmo, apenas crueldade mecânica. Isso combina bem com o estilo Bachman e com a proposta do horror industrial: mostrar que, ali, o humano é frágil, descartável, esmagado pelas engrenagens de uma máquina social indiferente.
A ligação estética entre Criatura do Cemitério e Alien³ é difícil de ignorar. Ambas as obras respiram o mesmo ar úmido e metálico. O terceiro filme da franquia Alien, dirigido por David Fincher, conta com corredores apertados, ambientes sujos, iluminação baixa, paredes enferrujadas e uma sensação constante de que algo vivo habita as estruturas. No filme de Fincher, o horror é mais psicológico, mais silencioso. O gore existe de maneira pontual, jamais gratuita.
Já em Criatura do Cemitério, o horror é mais explícito, menos metafórico. Ainda assim, as duas obras tratam do mesmo tema: a relação entre corpos humanos e espaços industrializados que se tornaram hostis. Tanto no presídio de mineração de Alien³ quanto na fábrica têxtil de Criatura do Cemitério, os personagens não lutam apenas contra monstros. Lutam contra ambientes que os sufocam, que os condenam, que parecem carregar um ódio acumulado. Lutam contra estruturas obsoletas que deveriam protegê-los e que, em vez disso, ajudam a destruí-los.
O filme recebe um toque particular de personalidade graças ao elenco. Andrew Divoff entrega uma atuação eficaz e contida, mas é Brad Dourif quem realmente rouba a cena como o exterminador de pragas. Dourif, eternamente associado à voz de Chucky, injeta uma energia estranha, desconfortável e quase cômica ao personagem. Sua presença oferece um alívio, ou algo próximo disso, em meio à atmosfera sufocante da narrativa. Dourif parece vir de outro filme, como se fosse um extra deslocado de uma comédia de humor negro, e esse deslocamento funciona surpreendentemente bem dentro daquele universo caótico.
No fundo, Criatura do Cemitério é um filme sobre contato com aquilo que deveria permanecer escondido. É sobre como o passado abandonado apodrece, se deforma e retorna para cobrar seu preço. É sobre corpos esmagados, mas também sobre ecos de decisões negligentes, sobre a poeira de décadas que se acumula e se transforma em monstro. É, acima de tudo, sobre o medo primordial de ambientes que deveriam proteger — como fábricas, prisões, minas, navios — e que se voltam contra aqueles que dependem deles.
A narrativa direta pode sugerir simplicidade, mas não é simplicidade vazia. Criatura do Cemitério funciona como um retrato dos horrores da industrialização tardia, dos trabalhadores explorados, dos lugares esquecidos por políticas públicas e abandonados pela ética corporativa. A criatura é apenas o símbolo mais evidente desse abandono. O verdadeiro horror não está nas asas, nos dentes ou no tamanho do monstro, mas na ideia de que ele não nasceu por acaso: ele é consequência.
No fim das contas, o filme se sustenta como uma obra que entende perfeitamente o tipo de história que quer contar. Ele abraça o exagero do gore, o nonsense de sua criatura e a crueza de seus ambientes, mas também consegue, de maneira quase silenciosa, construir um comentário sobre negligência social e o abandono das estruturas que moldaram a vida de trabalhadores por gerações.
É um horror que nasce da ferrugem, do calor sufocante, da escuridão profunda e da sujeira acumulada — e que nos lembra que, quando viramos o rosto para a decadência por tempo demais, algo inevitavelmente surge debaixo dos nossos pés.
Com um background histórico pertinente, e sem o realismo perverso das produções atuais, Criatura do Cemitério é bem mais interessante visto hoje, quando contrastado com o realismo dominante que causa mais repulsa que o próprio gore. O filme não foi feito para mudar sua vida. Mas, se pensarmos bem, não era a sua função. E muito menos, pretensão.

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