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CHAMAS DA VINGANÇA (1984) - FILM REVIEW


Incendiária

Telecinese, controle da mente e o medo do poder fora de controle são temas recorrentes na obra de Stephen King. Em Chamas da Vingança (Firestarter, 1984), esses elementos se cruzam de forma particularmente angustiante. Andrew McGee (David Keith) e Victoria McGee (Heather Locklear) se conhecem na faculdade enquanto participam de experimentos científicos financiados pelo governo, nos quais voluntários recebem uma droga sintética chamada “Lot Six”. 

O resultado é imprevisível: Andy desenvolve habilidades telepáticas limitadas, enquanto Vicky passa a ter visões mentais. A consequência mais aterradora, porém, surge na geração seguinte. Sua filha, Charlene “Charlie” McGee (Drew Barrymore), nasce com a capacidade de provocar incêndios apenas com a força da mente.


Desde cedo, Andy percebe que o dom da filha é também uma maldição. Charlie não apenas cria fogo — ela o sente, o deseja, e precisa aprender a controlá-lo como quem aprende a controlar a própria raiva. O problema é que seu talento chama a atenção de um departamento secreto do governo conhecido como The Shop, interessado em estudar, manipular e eventualmente transformar a menina em arma. A partir daí, Chamas da Vingança se transforma menos em uma história de horror tradicional e mais em uma narrativa de perseguição, paranoia e colapso familiar.

O filme é uma adaptação do romance homônimo de Stephen King, publicado em 1980. Curiosamente, foi o primeiro livro do autor a ser lançado em edição limitada, algo que King mais tarde declarou considerar um erro: para ele, Firestarter era uma obra popular demais para ficar restrita a poucos leitores. 


O romance reflete claramente o clima político do período — início dos anos 1980 — marcado pelo medo de experimentos governamentais secretos, manipulação psicológica e pela herança traumática da Guerra Fria. Não é coincidência que The Shop lembre projetos reais como o MKUltra, da CIA, que envolvia testes com drogas psicoativas em civis.

A escolha do elenco infantil foi um dos pontos centrais da produção. Jennifer Connelly chegou a ser considerada para o papel de Charlie McGee, mas Drew Barrymore acabou conquistando a equipe com uma combinação rara de fragilidade e intensidade. Com apenas 8 anos, Drew já demonstrava uma maturidade emocional impressionante — algo essencial para uma personagem que precisa alternar entre inocência infantil e destruição absoluta.


Existe, inclusive, um aspecto quase profético em sua escalação. Anos antes do filme, a mãe de Drew Barrymore havia comentado que a menina da contracapa do romance Firestarter se parecia com sua filha. Drew contou posteriormente que comprou o livro, leu e se reconheceu imediatamente na personagem. “Eu sou a Incendiária. Sou Charlie McGee!”, disse à mãe, que não entendeu a referência. Pouco tempo depois, Drew literalmente se tornaria Charlie, em um daqueles cruzamentos curiosos entre ficção e realidade que parecem feitos sob medida para o universo de Stephen King.

O produtor Dino De Laurentiis pagou cerca de 1 milhão de dólares pelos direitos de adaptação. Inicialmente, o projeto estava nas mãos de John Carpenter, que vinha de uma colaboração bem-sucedida com King em Christine (1983). Carpenter pretendia dirigir Chamas da Vingança, mas acabou afastado pela Universal após a recepção fria e a bilheteria decepcionante de O Enigma de Outro Mundo (1982). A ironia histórica é inevitável: hoje, "Enigma" é amplamente reconhecido como um dos maiores filmes de horror já feitos.


Carpenter chegou a discutir com Darwin Joston a possibilidade de interpretá-lo como John Rainbird, o assassino profissional e antagonista ambíguo da história. O papel acabou ficando com George C. Scott, cuja presença confere uma gravidade quase trágica ao personagem. Rainbird não é apenas um vilão — ele é um homem obcecado pelo poder de Charlie, mas também fascinado por ela de forma quase espiritual, o que torna sua ameaça ainda mais perturbadora.

O elenco passou por diversas mudanças. Burt Lancaster chegou a ser escalado para um papel-chave, mas precisou abandonar a produção após uma cirurgia cardíaca. Foi substituído por Martin Sheen, que já havia participado de outra adaptação de Stephen King no ano anterior, Na Hora da Zona Morta (1983), dirigida por David Cronenberg. Curiosamente, Carpenter havia contratado inicialmente o roteirista Bill Lancaster, cujo texto foi aprovado por King. Mais tarde, trouxe Bill Phillips para escrever uma nova versão, pensada para Richard Dreyfuss no papel de Andy McGee.


No entanto, a versão final do filme ficou nas mãos do roteirista Stanley Mann e do diretor Mark L. Lester, que optaram por um roteiro mais fiel ao romance. A primeira versão tinha cerca de 300 páginas — praticamente infilmável — e precisou ser condensada para aproximadamente 120 páginas. Ainda assim, muito do material psicológico e das reflexões internas do livro acabou simplificado, algo que Stephen King criticaria posteriormente.

A produção teve seus desafios físicos. George C. Scott usa um tapa-olho sobre o olho esquerdo durante os 30 minutos finais do filme devido a uma infecção causada pelas lentes de contato utilizadas no início das gravações. Como o olho não se recuperou a tempo, a solução foi incorporar o tapa-olho à caracterização do personagem. Já Art Carney sugeriu que seu personagem usasse um aparelho auditivo, refletindo sua condição real — uma escolha que o diretor aprovou por adicionar realismo.


A trilha sonora, assinada pelo grupo eletrônico Tangerine Dream, é um dos elementos mais marcantes do filme. Segundo Mark L. Lester, a banda nunca assistiu ao corte final antes de compor. Eles simplesmente enviaram várias faixas, e o diretor escolheu aquelas que melhor se encaixavam nas cenas. O resultado é uma trilha fria, sintética e inquietante, que dialoga com a ideia de tecnologia, controle e desumanização.

Dino De Laurentiis, aliás, foi uma figura central na proliferação de adaptações de Stephen King nos anos 1980. Além de Chamas da Vingança, produziu Na Hora da Zona Morta, Olhos de Gato, A Hora do Lobisomem, Comboio do Terror e Às Vezes Eles Voltam. Durante as filmagens, conheceu sua futura esposa, Martha Schumacher, e mais tarde fundaria a DEG Entertainment, nomeando-a presidente.


Todos os efeitos especiais do filme foram realizados no set, sem o auxílio de CGI. O fogo é real — o que exigiu extremo cuidado com dublês, cabos de segurança, canos de gás e próteses mecânicas. Isso confere às cenas finais uma fisicalidade rara, especialmente na sequência em que Charlie perde completamente o controle e transforma o complexo governamental em um inferno literal.

Na época, Drew Barrymore disputava diversos papéis infantis com Heather O’Rourke. Drew ficou com E.T. e Chamas da Vingança; Heather, com Poltergeist. Dois caminhos distintos dentro do cinema fantástico dos anos 1980, ambos marcados por atuações infantis memoráveis — e por destinos muito diferentes.


Lançada em 2002, a sequência Vingança em Chamas tentou continuar a história de Charlie já adulta. Embora curiosa para fãs, a continuação jamais alcançou o impacto emocional ou simbólico do original.

No fim das contas, Chamas da Vingança não é apenas uma história sobre uma menina que controla o fogo. É uma parábola sobre o medo do potencial humano, sobre o Estado como entidade opressora e sobre a infância como território vulnerável à exploração. Um filme imperfeito, mas profundamente representativo de uma época — e de um Stephen King obcecado com aquilo que acontece quando poder e medo se encontram.


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