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CREEPSHOW - SHOW DE HORRORES (1982) - FILM REVIEW


Show assustador

Creepshow é uma antologia de terror lançada em 1982, dirigida por George A. Romero e escrita por Stephen King, fruto do encontro entre duas das mentes mais influentes do horror moderno. A produção nasce como uma declaração explícita de amor aos clássicos quadrinhos de terror da década de 1950, especialmente os publicados pela EC Comics, como Tales from the CryptThe Vault of Horror e The Haunt of Fear, revistas que marcaram profundamente a infância de ambos os criadores. Mais do que uma simples homenagem estética, o filme resgata o espírito irreverente, moralista e cruel dessas publicações, onde o grotesco convivia com o humor negro e finais ironicamente punitivos. 

A estrutura narrativa de Creepshow reforça essa origem ao adotar uma moldura clássica: a história de Billy, um garoto apaixonado por histórias em quadrinhos de terror, interpretado por Joe Hill — filho de Stephen King —, que sofre a repressão violenta do pai por consumir esse tipo de material. Essa narrativa funciona como comentário metalinguístico sobre a censura que levou ao declínio das revistas da EC Comics nos anos 1950, quando campanhas moralistas acusavam os quadrinhos de corromper a juventude americana. Assim, Creepshow não apenas imita a forma dos quadrinhos, mas também dialoga diretamente com sua história de perseguição cultural.

Cada segmento apresenta identidade própria, funcionando como pequenas fábulas macabras. Em “Dia dos Pais”, acompanhamos a reunião de uma família rica e profundamente disfuncional, marcada por ressentimentos, alcoolismo e rancores não resolvidos. O retorno sobrenatural do patriarca assassinado, anos antes pela própria filha, evoca o horror gótico clássico, mas temperado com sarcasmo e exagero visual. O segmento destaca-se pelo uso expressivo das cores e pela atuação deliberadamente teatral de E.G. Marshall, reforçando o caráter de “história em quadrinhos filmada”.

Em “A Morte Solitária de Jordy Verrill”, adaptação do conto Weeds, Stephen King assume o papel principal como um fazendeiro simplório, quase cartunesco, cuja ingenuidade beira o patético. Ao encontrar um meteorito em sua propriedade, Jordy enxerga uma oportunidade financeira que rapidamente se transforma em uma sentença de isolamento e morte. O segmento é ao mesmo tempo trágico e cômico, funcionando como uma sátira cruel sobre ganância, ignorância e solidão rural. A escolha de King como ator, embora frequentemente criticada, reforça o tom grotesco e exagerado da história, aproximando-a ainda mais da linguagem dos quadrinhos.

“Indo com a Maré” apresenta uma mudança radical de tom. Aqui, o horror é mais contido e psicológico. Leslie Nielsen, conhecido até então por papéis cômicos e dramáticos, interpreta Richard Vickers, um marido sádico que pune a esposa infiel e seu amante de maneira brutal, enterrando-os vivos na areia enquanto a maré sobe. O segmento se destaca pela tensão crescente, pela ironia do desfecho e pela transformação da imagem pública de Nielsen, que anos depois se tornaria um ícone da comédia pastelão. Mesmo em sua crueldade, o personagem carrega uma frieza quase elegante, tornando o castigo ainda mais perturbador.

Em “A Caixa”, talvez o segmento mais lovecraftiano do filme, uma misteriosa caixa encontrada sob uma escada em uma universidade revela uma criatura monstruosa que passa a aterrorizar quem cruza seu caminho. Mais do que o monstro em si, o episódio trabalha o horror do desconhecido e a banalização do mal, especialmente através do personagem interpretado por Hal Holbrook, cuja reação fria e calculista diante da tragédia adiciona uma camada moral inquietante. O monstro, nunca totalmente revelado, reforça a máxima de que o que não se vê pode ser mais assustador do que qualquer efeito explícito.

Por fim, “Vingança Barata” encerra o filme de forma caótica e repulsiva. Acompanhamos um executivo germofóbico, obcecado por limpeza e controle, vivendo em isolamento quase total. Sua paranoia atinge níveis extremos quando uma infestação de baratas invade seu apartamento, culminando em um dos desfechos mais memoráveis e perturbadores da antologia. O segmento funciona como uma sátira sobre o medo da contaminação, da perda de controle e da hipocrisia moral, além de ser um verdadeiro teste de resistência para o espectador.

Visualmente, Creepshow é um espetáculo à parte. Romero e o diretor de fotografia Michael Gornick optam por uma estética altamente estilizada, com cores saturadas, iluminação artificial e enquadramentos que remetem diretamente aos painéis de quadrinhos. As transições entre cenas imitam páginas sendo viradas, e efeitos sonoros exagerados reforçam essa linguagem híbrida entre cinema e HQ. A trilha sonora de John Harrison, colaborador frequente de Romero, contribui para o clima ao misturar temas eletrônicos, melodias sombrias e momentos quase caricatos.

George A. Romero, diretor da obra, foi um cineasta e roteirista fundamental para o desenvolvimento do cinema de terror moderno. Nascido em 1940, no Bronx, formou-se em Teatro e Belas Artes pela Carnegie Mellon University e iniciou a carreira produzindo comerciais e filmes industriais. Seu marco definitivo veio em 1968, com Noite dos Mortos-Vivos, que redefiniu o conceito de zumbis e introduziu críticas sociais afiadas sobre racismo, guerra e colapso institucional. Ao longo da carreira, Romero alternou produções independentes e projetos mais comerciais, sempre mantendo uma assinatura autoral marcada pela observação do comportamento humano diante do horror.

Nos bastidores, Creepshow foi um terreno fértil para curiosidades. Leslie Nielsen, conhecido por sua irreverência, costumava carregar no bolso um pequeno “simulador de peido”, que acionava durante ensaios e momentos de tensão, arrancando risadas da equipe e dos colegas de elenco, incluindo Ted Danson. Stephen King, por sua vez, sofreu uma reação alérgica severa à maquiagem utilizada em sua transformação como Jordy Verrill, precisando de injeções e medicamentos para concluir as filmagens.

O monstro do quarto segmento, apelidado de “Fluffy” por Romero, foi criado por Tom Savini, que também aparece no filme em uma participação especial como lixeiro. A criatura marcou a primeira experiência de Savini com um monstro totalmente animatrônico, desenvolvida com conselhos de Rob Bottin, responsável pelos efeitos de O Enigma de Outro Mundo e Grito de Horror. Esses bastidores reforçam o caráter artesanal e experimental do filme, típico do cinema de terror dos anos 1980.

Há ainda diversas referências cruzadas e homenagens internas. Alguns nomes de personagens foram escolhidos em tributo a figuras próximas de King, como Tabitha King, sua esposa, e Richard Bachman, seu pseudônimo literário. No segmento “A Caixa”, a inscrição na embalagem remete a uma fictícia expedição ao Ártico, clara referência a O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter. Curiosamente, Adrienne Barbeau, presente em Creepshow, era casada com Carpenter na época, e vários atores circularam entre produções de ambos os diretores.

Para encerrar, Romero revelou que o item mais caro do filme não foram as maquiagens ou os efeitos especiais, mas sim as baratas utilizadas no segmento final. Cada inseto custava cerca de cinquenta centavos, e mais de duzentas e cinquenta mil foram usadas, totalizando aproximadamente cento e vinte e cinco mil dólares apenas em baratas. Um detalhe que sintetiza perfeitamente o espírito de Creepshow: exagerado, grotesco, irônico e absolutamente inesquecível.

 Pipoca3d


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