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O QUE É ROAD MOVIE

O Road Movie no Cinema: Entre Gênero, Discurso e Metáfora da Estrada.

Introdução

Entre os diversos gêneros e formas narrativas que o cinema desenvolveu ao longo de sua história, poucos traduzem com tanta intensidade a experiência do deslocamento quanto o road movie. Mais do que filmes sobre viagens, trata-se de narrativas em que a estrada é protagonista simbólica, espaço de transformação, de fuga e de encontro. O objetivo deste texto é discutir a natureza do road movie, sua origem histórica, seu estatuto enquanto gênero cinematográfico e suas variações formais e temáticas, articulando-o com reflexões de teóricos do cinema e da cultura.

Origens e consolidação do road movie.

Para muitos, o road movie surge de forma paradigmática com Easy Rider – Sem Destino (Dennis Hopper, 1969), considerado não apenas um marco da Nova Hollywood, mas também um manifesto da contracultura. A obra cristalizou no cinema norte-americano a estrada como símbolo de liberdade, rebeldia e busca identitária. Entretanto, como lembra Rick Altman (1999), os gêneros não nascem de maneira isolada: eles resultam de um processo de sedimentação de convenções narrativas e estilísticas. Assim, antes mesmo de Easy Rider, já encontramos a presença da estrada em filmes como A Estrada da Vida (Federico Fellini, 1954) ou Bandidos de Estrada (Arthur Ripley, 1947).

O que diferencia a produção dos anos 1960 é o contexto cultural. Influenciado pelo movimento beat, pelo espírito libertário da juventude e pelo clima de contestação ao sistema, o road movie ganhou função social e política. Nesse sentido, pode-se dizer que Easy Rider ocupa para o cinema um lugar equivalente ao que On the Road (Jack Kerouac, 1957) representa para a literatura: a obra que sintetiza um imaginário de deslocamento como experiência de vida, ruptura e busca de sentido.

Road movie como gênero?

Definir o road movie como gênero é uma questão debatida. Steve Neale (2000) lembra que gêneros não são categorias fixas, mas processos em constante reformulação, que operam pela repetição e pela variação. O road movie exemplifica essa ideia: não apresenta uma gramática estável, mas um conjunto de motivos recorrentes: a estrada, o veículo e a jornada.

David Bordwell e Kristin Thompson (2008) reforçam que os gêneros estruturam tanto a produção quanto a recepção fílmica, criando expectativas compartilhadas entre cineastas e espectadores. Nesse ponto, o road movie desafia a taxonomia: sua identidade não se define por regras rígidas, mas por uma plasticidade que o torna receptáculo de outros gêneros. Ele pode ser drama (Thelma & Louise, 1991), comédia (Pequena Miss Sunshine, 2006), suspense (Encurralado, 1971) ou até musical (Priscila, a Rainha do Deserto, 1994).

Altman (1999) denomina esse fenômeno de “paleta estilística”: um repertório de elementos que pode ser mobilizado de diferentes maneiras. No caso do road movie, a estrada é o fio condutor, mas o tom e o sentido narrativo dependem do gênero predominante que o incorpora.

Forma e expressão.

No plano da expressão, os road movies compartilham certos recursos estilísticos: longos travellings que acompanham veículos na estrada, planos gerais que enfatizam a vastidão das paisagens, uso frequente da música popular como comentário narrativo e a montagem que sublinha o ritmo do deslocamento.

Entretanto, como observa Neale (2000), a significação desses recursos depende do gênero que os absorve. O travelling pode sugerir euforia juvenil em uma comédia, tensão em um thriller ou contemplação em um drama. Encurralado (1971), de Steven Spielberg, constrói suspense a partir do movimento ininterrupto pela estrada, enquanto Paris, Texas (1984), de Wim Wenders, utiliza a mesma espacialidade para evocar melancolia e memória.

Essa ausência de uma sintaxe fixa explica por que muitos críticos hesitam em classificar o road movie como gênero autônomo: sua identidade formal é sempre derivada, nunca exclusiva.

Conteúdo e discurso.

No plano do conteúdo, a viagem se configura como metáfora narrativa de transformação, mas assume significados diversos. Em Thelma & Louise (1991), a estrada simboliza emancipação feminina e resistência contra estruturas patriarcais. Em Diários de Motocicleta (2004), o deslocamento torna-se espaço de conscientização política de Ernesto Che Guevara. Já em Assassinos por Natureza (1994), a viagem é sinônimo de violência e crítica à espetacularização midiática.

Michel Chion (1982), ao refletir sobre o signo no cinema, lembra que imagens recorrentes só ganham valor a partir da figurativização específica de cada obra. Assim, a estrada não possui um sentido universal: ela é sempre construída discursivamente, podendo encarnar liberdade, vazio, ameaça ou redenção.

A dimensão simbólica da estrada.

A estrada é também um espaço simbólico. Marc Augé (1992), ao discutir os “não-lugares” da modernidade - estradas, aeroportos, estações - mostra como esses espaços de transitoriedade e anonimato definem a experiência contemporânea. Nos road movies, esses “não-lugares” ganham densidade dramática, transformando-se em arenas de encontro, conflito e revelação.

Nos Estados Unidos, o gênero ecoa o mito da conquista territorial e do espírito de fronteira. John Cawelti (1976) observa que narrativas de aventura no imaginário americano sempre estiveram ligadas à travessia de fronteiras. O road movie atualiza esse mito: a viagem não é apenas deslocamento físico, mas passagem entre estados de identidade e consciência.

Já no cinema europeu e latino-americano, a estrada adquire ressonâncias distintas. Em Paris, Texas (1984), a travessia é uma busca pela memória e pela reconstrução familiar. Em Diários de Motocicleta (2004), a estrada revela desigualdades sociais e produz consciência política. Ou seja, a estrada é uma metáfora mutável, adaptada a diferentes contextos culturais.

Permanência e reinvenção contemporânea.

O road movie permanece relevante porque se reinventa diante das transformações sociais. No século XXI, ele aparece em novas roupagens, como em Nomadland (Chloé Zhao, 2020), em que a estrada simboliza tanto precariedade econômica quanto liberdade existencial. Aqui, o mito da estrada se desloca do sonho juvenil da contracultura para a experiência madura da sobrevivência em meio à exclusão social.

Thomas Elsaesser (2005) argumenta que a força do road movie está em articular deslocamentos individuais e coletivos, conectando dramas íntimos a processos culturais mais amplos. Essa plasticidade explica sua persistência no cinema global: de Easy Rider às narrativas contemporâneas, a estrada continua a ser metáfora privilegiada para falar de crise, liberdade, busca e transformação.

Conclusão.

O road movie ocupa um lugar ambíguo no campo dos gêneros cinematográficos. Não apresenta uma sintaxe fixa nem convenções formais próprias, mas um repertório de elementos temáticos (estrada, veículo, jornada) que podem ser apropriados por múltiplos gêneros. Mais do que um gênero autônomo, trata-se de um dispositivo narrativo e simbólico, capaz de traduzir deslocamentos tanto individuais quanto coletivos.

A partir das reflexões de Altman, Neale, Bordwell, Chion, Augé, Cawelti e Elsaesser, percebemos que o road movie é, ao mesmo tempo, produto de uma época — a contracultura dos anos 1960 — e linguagem perene, que continua a se renovar. Seja nos desertos americanos de Easy Rider, nas paisagens latino-americanas de Diários de Motocicleta, na melancolia europeia de Paris, Texas ou na América em crise de Nomadland, a estrada permanece como metáfora universal do existir.

Em última instância, o road movie nos lembra que viver é estar em movimento. E no cinema, como na vida, a estrada nunca é apenas cenário: é sempre destino e metáfora da travessia humana.




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