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O QUE FOI A NOVA HOLLYWOOD

Nova onda

Nasci em 1976, mas minha paixão pelo cinema foi despertada ainda na infância. Aos seis anos, fui ao cinema ver E.T. – O Extraterrestre e lembro como se fosse ontem. Cada detalhe daquela experiência ficou gravado em minha memória. Com o passar dos anos, fui construindo uma lista afetiva de filmes que moldaram minha visão sobre o que é o cinema: Tubarão, o próprio E.T., Os Intocáveis, Apocalypse Now, O Poderoso Chefão (partes I e II), Taxi Driver, Os Bons Companheiros, Touro Indomável, O Franco Atirador e, claro, Guerra nas Estrelas – sim, me recuso a chamá-lo de Star Wars.

Durante muito tempo, achei que era apenas uma lista de grandes clássicos. Mas percebi que havia um elo entre essas obras: a visão de seus diretores. E mais do que isso, descobri que todos faziam parte de um movimento que redefiniu o cinema americano e reverberou pelo mundo. Esse movimento é conhecido como Nova Hollywood.


 Revolução Jovem de Hollywood

A Nova Hollywood surgiu em um momento de crise e transição. Com a velha guarda dos estúdios perdendo o pulso do público, uma nova geração de cineastas jovens e ousados ocupou o espaço. Eles chegaram com ideias frescas, influenciados por movimentos estrangeiros como a Nouvelle Vague francesa, o neorrealismo italiano e os filmes britânicos da chamada "nova onda". Trouxeram consigo uma proposta de cinema mais autoral, visceral e ousado.

Esses jovens diretores, ainda sem o peso de grandes nomes, conquistaram os estúdios com seu talento e provaram que era possível fazer arte e atrair o grande público ao mesmo tempo. Os filmes dessa geração não apenas se tornaram sucessos comerciais, como também reformularam a linguagem do cinema, desafiaram os códigos morais e narrativos vigentes e ajudaram a construir o conceito moderno de blockbuster.

Adeus à Era de Ouro, Olá à Era da Rebeldia

A Era de Ouro de Hollywood, com suas grandes produções limpas, heróis perfeitos e códigos morais rígidos, finalmente dava lugar a um cinema mais sujo, complexo e realista. Era a chegada da contracultura à tela grande. Anti-heróis ganharam o protagonismo. Policiais falhos, assassinos carismáticos, marginais carismáticos, jovens desiludidos e veteranos de guerra traumatizados ganharam espaço como protagonistas.

Um exemplo emblemático é o detetive Popeye Doyle, de Operação França, que atira pelas costas e termina o filme sem resolver o caso. Outros filmes seguiram essa linha: personagens quebrados, imperfeitos, muitas vezes fracassados, mas humanos e cativantes.

A Nova Hollywood não apenas mudou a estética e o ritmo do cinema. Ela alterou o próprio comportamento social. As narrativas desafiavam instituições, criticavam o sonho americano, revelavam os efeitos da guerra do Vietnã e davam voz a uma juventude em fúria. A cultura pop jamais seria a mesma.


Filmes Contra a Maré

Grande parte dessas produções foi financiada pelos próprios estúdios, que, desesperados por se reconectar com o público, apostaram no novo. Mas ao fazer isso, esses jovens cineastas romperam com a estrutura narrativa tradicional. Misturaram gêneros, utilizaram a câmera de forma inovadora, trabalharam com elencos desconhecidos e apostaram em roteiros não convencionais.

A ideia de realismo foi elevada ao extremo. As histórias não vinham com finais felizes. A moral era ambígua. E o público, muitas vezes, se via desconfortável com a complexidade dos personagens e das situações.

Gerações e Influências

Embora nomes como John Cassavetes, Arthur Penn, Sam Peckinpah, Robert Mulligan, Don Siegel e Robert Aldrich tenham pavimentado o caminho, os diretores da Nova Hollywood trilharam rumos próprios. E não só eles: uma geração inteira de atores também emergia. Robert De Niro, Al Pacino, Dustin Hoffman, Jack Nicholson, Gene Hackman, Meryl Streep, Diane Keaton, Paul Newman, Jane Fonda e Warren Beatty deram rosto a esses novos protagonistas.

O marco simbólico desse novo tempo é o ano de 1967. Mas não foi um rompimento repentino. Enquanto O Fabuloso Doutor Dolittle, uma superprodução tradicional, estreava nas salas, Bonnie & Clyde explodia como símbolo de rebeldia e violência estilizada. O sucesso do casal de criminosos glamorizados marcava o início da Nova Hollywood. Ainda que, na época, não se tivesse plena consciência do que estava por vir, aquela mudança de mentalidade já estava em curso.


O Papel de Jack Valenti

Muito do que a Nova Hollywood pôde mostrar nas telas se deve à atuação de Jack Valenti, presidente da Motion Picture Association of America a partir de 1966. Sob seu comando, foi criado o sistema de classificação indicativa, que substituiu o antigo Código Hays de censura.

Essa mudança foi fundamental. Com liberdade para mostrar violência, sexo e drogas de maneira mais direta, os diretores puderam explorar temas antes considerados tabu. Filmes como Rebeldia Indomável, Doze Condenados e No Calor da Noite romperam barreiras ao retratar delinquência, racismo, violência institucional e personagens à margem da sociedade.

Valenti permitiu que o cinema americano encarasse suas próprias contradições. E isso ampliou enormemente o público das novas produções, especialmente os jovens, que passaram a se ver refletidos nas telas.


O Cinema como Ferramenta de Ruptura

Os anos 60 e 70 foram décadas de transformação para o cinema mundial. Se na Europa o cinema autoral tomava força com a Nouvelle Vague, nos Estados Unidos o movimento era diferente, mas com resultados igualmente poderosos. Ainda que os grandes estúdios estivessem por trás da produção, o controle criativo passou, muitas vezes, para os diretores.

O produtor Roger Corman, por exemplo, revelou talentos como Francis Ford Coppola e Jack Nicholson em seus filmes de baixo orçamento. Ao lado de John Cassavetes, Arthur Penn e Robert Altman, ajudou a formar a base da Nova Hollywood.

Nomes como Bob Rafelson, Monte Hellman, Peter Bogdanovich, Alan J. Pakula, Hal Ashby, Terrence Malick e Mike Nichols transitaram entre o mainstream e o cinema independente, enquanto William Friedkin, Sam Peckinpah e o próprio Penn apresentavam obras explosivas como Meu Ódio Será Sua Herança, Sob o Domínio do Medo e A Primeira Noite de um Homem.

A violência ganhou novas representações. A morte de Bonnie e Clyde em câmera lenta, a execução brutal de Sonny Corleone em O Poderoso Chefão, e outras cenas tornaram-se marcos da Nova Hollywood.


Trilha, Estilo e Psicologia

Além das histórias densas e das críticas sociais, essa geração de cineastas transformou também o uso da trilha sonora. Músicas populares passaram a pontuar cenas inteiras, substituindo trilhas orquestradas tradicionais. A música virou parte da narrativa.

Com essa combinação de forma e conteúdo, o drama humano ganhou força. As emoções não vinham mais embaladas por fórmulas, mas surgiam cruas, diretas, muitas vezes desconfortáveis.

Foi assim que o cinema nos deu obras como Rocky, um Lutador, Perdidos na Noite, O Bebê de Rosemary, Serpico, A Conversação, Cinzas no Paraíso, Rede de Intrigas, Último Tango em Paris, Os Invasores de Corpos e muitos outros clássicos.


Woodstock e a Nova Hollywood: Irmãos de Revolução

Enquanto os estúdios se reorganizavam e os diretores revolucionavam o cinema, a sociedade americana enfrentava transformações profundas. A Guerra do Vietnã, os assassinatos de líderes como Martin Luther King, o movimento pelos direitos civis e o escândalo Watergate formavam o pano de fundo de um país em ebulição.

Nesse cenário, o festival de Woodstock, em 1969, tornou-se o ápice da contracultura. Sexo, drogas, rock and roll e o grito de liberdade de uma geração que se recusava a ser silenciada. O cinema, nesse mesmo compasso, mostrava o colapso do sonho americano. Filmes como Sem Destino, Perdidos na Noite e Travis Bickle em Taxi Driver evidenciavam a falência moral e o isolamento humano.

Rebeldia Indomável, com Paul Newman, sintetizava essa ideia. O personagem de Newman resiste ao sistema, enfrenta a autoridade, mas, no fim, a mensagem é clara: a libertação não é um ato solitário. É preciso um coletivo para mudar estruturas.

O Fim Oficial, a Influência Permanente

A Nova Hollywood tem um marco inicial, Bonnie & Clyde, em 1967. E tem também um símbolo de encerramento: O Portal do Paraíso, de Michael Cimino, lançado em 1980. O fracasso comercial da superprodução levou à falência da United Artists, encerrando uma era de liberdade criativa sem precedentes em Hollywood.

Mas o fim do movimento não foi o fim da influência. Cineastas como Martin Scorsese e Steven Spielberg seguem ativos, transpondo sua visão para o cinema contemporâneo em obras como O Irlandês, Silêncio e Jogador Nº1

A Nova Hollywood redefiniu não apenas a maneira como se faz cinema, mas também o que o cinema é capaz de dizer sobre o mundo. E isso, definitivamente, não tem data para acabar.

Lista de referência:

Há uma lista de pelos menos 50 filmes essenciais para definir o período. Mas fiz uma listinha de referência, com 8 grandes obras além das duas limitadoras do movimento. 

Direção:  Arthur Penn

Durante a Grande Depressão, Bonnie Parker (Faye Dunaway) conhece Clyde Barrow (Warren Beatty), um ex-presidiário que foi solto por bom comportamento, quando este tenta roubar o carro de sua mãe. Atraída pelo rapaz, ela o acompanha. Ambos iniciam uma carreira de crimes, assaltando bancos e roubando automóveis. Conhecem o mecânico C.W. Moss (Michael J. Pollard), que passa a ser o novo companheiro da dupla, mas durante um assalto matam uma pessoa e são caçados daí em diante como assassinos. Ao grupo une-se Buck (Gene Hackman), o irmão de Clyde recém-saído da cadeia, e Blanche (Estelle Parsons), sua mulher. Sucedem-se os assaltos e logo o quinteto ganha fama em todo o sul do país. Uma noite, são cercados por vários policiais e, obrigados a matar para fugir, são perseguidos em vários estados.

Direção: Stuart Rosenberg

O rebelde inconsequente Luke (Paul Newman) é preso. Recusa-se a obedecer as regras do local e ganha o respeito dos demais presidiários por sua valentia e malandragem. Insiste em fugir, mas a cada nova recaptura as punições são mais severas. Nem assim ele desiste e, enquanto o ódio dos guardas aumenta, Luke torna-se um exemplo para os prisioneiros.
Adaptação do romance de Donn Pearce.Pearce escreveu o livro após passar dois anos na prisão e foi um dos roteiristas do filme.

Direção: Mike Nichols

Após se formar na faculdade, Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) retorna para casa. Indeciso quanto ao seu futuro, ele acaba sendo seduzido pela Sra. Robinson (Anne Bancroft), uma amiga de seus pais. A relação se complica ainda mais quando o rapaz se vê forçado pelos pais a ter um encontro com a filha dela, Elaine (Katharine Ross).
O ator Robert Redford chegou a ser convidado para interpretar o personagem Benjamin Braddock, mas desistiu por achar que não conseguiria interpretá-lo com o ar de ingenuidade que o personagem pedia.

Direção: John Schlesinger

Joe acredita ter um charme irresistível com as mulheres. Um dia, ele decide largar seu emprego de lavador de pratos no Texas e vai para Nova Iorque, em busca de uma vida melhor. Porém, ele acaba descobrindo que as coisas não são tão fáceis como pensava. Com a ajuda de seu companheiro Ratso, Joe inicia sua carreira de garoto de programa.
Dustin Hoffman usou pedras no seu sapato durante toda filmagem para que seu personagem (que manco) ficasse convincente em todas as cenas.

Direção: Roman Polanski

Wyatt e Billy são motoqueiros que viajam pelo sul dos Estados Unidos. Após levarem drogas do México até Los Angeles, eles as negociam com um homem em um Rolls-Royce. Com o dinheiro da venda armazenado em mangueiras dentro dos tanques de gasolina, eles vão rumo ao Leste na tentativa de chegar em Nova Orleans, em tempo para o Mardi Gras, um dos Carnavais mais famosos do mundo.

Direção: Francis Ford Coppola

Em 1945, Don Corleone (Marlon Brando) é o chefe de uma mafiosa família italiana de Nova York. Ele costuma apadrinhar várias pessoas, realizando importantes favores para elas, em troca de favores futuros. Porém, uma máfia rival resolve levar o tráfico de narcóticos para Nova York e Don Corleone não facilita essa entrada, nem com ajuda policial, nem política. A família Corleone passa então a sofrer atentados e seu filho Michael, um capitão da marinha muito decorado que há pouco voltou da 2ª Guerra Mundial decide ajudar seu pai protegendo seu legado.

Direção: Roman Polanski

O detetive particular Jake Gittes é contratado por uma ricaça para investigar o marido, no que parece ser mais um caso de infidelidade conjugal. Gittes logo descobre que a mulher era uma impostora e encontra a verdadeira Evelyn Mulwray, filha de um dos homens mais poderosos da cidade. O detetive se vê no meio de um perigoso jogo de poder, em uma trama surpreendente que envolve desvio de fornecimento de água, aquisições de terras e pessoas ligadas à Companhia de Água e Energia.

 Direção: Martin Scorsese

O motorista de táxi de Nova York Travis Bickle reflete constantemente sobre a corrupção da vida ao seu redor e sente-se cada vez mais perturbado com a própria solidão e alienação. Em praticamente todas as fases de sua vida, Bickle permanece isolado e não consegue fazer contato emocional com ninguém. Incapaz de dormir noite após noite, o motorista frequenta os estabelecimentos de pornografia locais em busca de diversão.

Direção: Michael Cimino

Os amigos Michael (Robert De Niro), Steven (John Savage) e Nick (Christopher Walken) são operários de uma fábrica na Pensilvânia que se alistam nas forças armadas para lutar na Guerra do Vietnã. Eles se despedem da família e dos amigos na festa de casamento de Steven e partem para a batalha. Um tempo depois, são capturados pelos vietcongues e passam por torturas físicas e psicológicas, sendo obrigados a jogar roleta russa entre eles. Os três amigos vão lutar para escapar dessa prisão.

Direção: Michael Cimino

A história começa no dia da formatura de dois estudantes da Harvard e acompanha o destino dos dois formandos que acabam em lados opostos na disputa agrária conhecida como Guerras do Condado de Johnson no estado do Wyoming em 1870. Nela, um grupo de barões de gado se reúne, com o apoio do governo, e cria uma lista de imigrantes a serem assassinados. Eles contratam mercenários para executarem a ação. O xerife de um condado da região busca impedir a tragédia.



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