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CUJO (1983) - FILM REVIEW

É inegável que algumas obras escritas por Stephen King têm como principal objetivo criar momentos intensos de tensão, sem necessariamente carregar grandes subtextos. Cujo, inclusive, foi escrito durante o auge do período em que o autor lutava contra o abuso de álcool e drogas, o que afetou até mesmo sua clareza criativa — a ponto de King afirmar, anos depois, que não se lembrava de ter escrito partes do livro.

Ainda assim, análises feitas posteriormente por críticos de cinema e literatura muitas vezes oferecem leituras tão pertinentes que até o próprio King admite enxergar verossimilhança nelas, mesmo que não tivesse planejado tal profundidade no momento da escrita. Esse fenômeno não é raro em sua obra: o autor constrói situações extremas com tamanha atenção ao comportamento humano que seus textos acabam absorvendo camadas simbólicas quase involuntárias.

Dessa forma, é justo dizer que Cujo espreme seu tema ao máximo para entregar agonia e tensão, e consegue, com louvor, ser um dos filmes de “monstro” mais memoráveis dos anos 80 e um dos melhores adaptados da obra do mestre do terror.

Lançado em uma década dominada por slashers, vilões mascarados e criaturas sobrenaturais, Cujo se destaca justamente por rejeitar o fantástico. Seu horror é direto, físico e plausível. Não há maldição, demônio ou força inexplicável — apenas uma sucessão de eventos perfeitamente possíveis. Essa abordagem aproxima o filme mais de um thriller de sobrevivência do que do terror tradicional, tornando cada ataque ainda mais angustiante.

Monstro apenas do ponto de vista da mãe e da criança, claro, porque a verdade é que o cão apenas foi mordido por um morcego — possivelmente um morcego-vampiro —, contraiu raiva e passou a atacar quem estivesse próximo. Na trama, Donna, vivida por Dee Wallace (de Grito de Horror e E.T.: O Extraterrestre), e Vic Trenton, interpretado por Daniel Hugh-Kelly (de Perigo na Noite e Jornada nas Estrelas: Insurreição), enfrentam as tensões de um casamento desgastado após o caso extraconjugal dela.

Enquanto isso, o filho do casal, Tad (Danny Pintauro, de Manipuladores do Tempo), se diverte com o dócil São-bernardo pertencente a um mecânico da cidade. O que ninguém imagina é que a mordida do morcego transformou Cujo em um animal agressivo e desorientado. Com Vic viajando a trabalho, um problema no carro leva Donna e Tad a viverem um verdadeiro pesadelo, encurralados pelo cão, sob um sol escaldante e sem possibilidade de fuga imediata.

O automóvel, símbolo de liberdade e mobilidade no imaginário americano, transforma-se em uma cela improvisada. O calor excessivo, a falta de água, o espaço claustrofóbico e o som constante do animal do lado de fora constroem um horror de resistência, não de confronto. Quanto mais o tempo passa, menor o espaço parece se tornar — e mais frágil fica a linha que separa sanidade e desespero.

Stephen King cria personagens complexos, cujos dramas internos e familiares formam rachaduras por onde as ameaças externas se instalam. Ele sempre valoriza a emoção humana, usando o terror como ferramenta para levar seus personagens ao limite de suas forças e sentimentos.

Donna Trenton é um exemplo claro disso. Diferente de muitas protagonistas femininas do horror da época, ela não é definida por ingenuidade ou pureza. Sua culpa pelo adultério, sua frustração conjugal e seu instinto materno coexistem de forma conflituosa. Dee Wallace constrói uma personagem que não é heroica por vocação, mas por necessidade — alguém empurrada ao extremo por circunstâncias que não escolheu.

Food of the Gods

A relação entre homem e natureza é sempre um tema de grande interesse, especialmente hoje, quando a irresponsabilidade humana tem levado a condições climáticas cada vez mais catastróficas. Aos poucos, percebemos que obras de ficção como as de H. G. Wells começam a deixar de ser apenas especulação, já que caminhamos lentamente para cenários semelhantes aos de seus livros.

Pensar em Cujo como uma pequena parte desse grande iceberg pode soar estranho, mas é mais representativo do que parece à primeira vista. Cujo simboliza a natureza em sua forma mais pura: implacável, indiferente e completamente alheia a noções humanas de justiça ou moralidade.

Diferente de narrativas em que a natureza “se vinga” do homem, Cujo não atribui intenção consciente ao desastre. O cão não pune, não julga e não escolhe vítimas. Ele apenas reage a um estímulo biológico. Essa ausência de moral torna o horror ainda mais perturbador, pois elimina qualquer sensação de equilíbrio ou aprendizado: a tragédia acontece simplesmente porque pode acontecer.

Produção

O filme foi dirigido por Lewis Teague, de Olhos de Gato e A Jóia do Nilo, que, apesar do orçamento limitado, conseguiu entregar uma obra crua, realista e extrair excelentes atuações de Dee Wallace e Danny Pintauro. O diretor originalmente contratado foi Peter Medak (A Experiência 2 – A Mutação), que deixou o projeto dois dias após o início das filmagens, junto com o diretor de fotografia Anthony B. Richmond. Ambos foram substituídos por Teague e Jan de Bont, que anos depois dirigiria Velocidade Máxima e Twister.

Cujo foi interpretado por quatro cães da raça São Bernardo, além de cães mecânicos e até um Labrador-Dogue Alemão pintado e fantasiado. Os cães reais tinham seus rabos amarrados às pernas porque se divertiam tanto no set que abanavam o tempo todo. A técnica não funcionou completamente — em uma cena em que Cujo está prestes a atacar o mecânico, o rabo balança freneticamente. Para incentivar os ataques ao carro, os treinadores colocavam brinquedos dentro do veículo. A espuma ao redor da boca de Cujo era feita de clara de ovo com açúcar, o que causava um problema recorrente: os cães lambiam constantemente a mistura.

Danny Pintauro realmente mordeu os dedos de Dee Wallace durante as cenas de convulsão, e suas reações foram totalmente reais. Ele tinha apenas seis anos na época e ainda não sabia ler, precisando decorar suas falas com a ajuda da mãe, presente no set.

Kingverso da loucura.

O romance original funciona, de certo modo, como uma continuação de A Hora da Zona Morta. Após a morte de Frank Dodd — o assassino que se suicida na banheira —, ele se torna uma espécie de bicho-papão em Castle Rock, assombrando o jovem Tad. Dodd era o antigo dono de Cujo. O xerife George Bannerman, interpretado por Sandy Ward, faz referências diretas a Johnny Smith no livro. Como Cujo e A Hora da Zona Morta (1983) foram produzidos simultaneamente por estúdios diferentes, essas conexões precisaram ser removidas do filme.

A morte de Bannerman explica por que Castle Rock passa a ter um novo xerife em obras posteriores. Alan Pangborn surge em A Metade Negra, Trocas Macabras e na série Castle Rock, consolidando a cidade como um dos cenários mais interligados da obra de King. No romance, Tad morre de desidratação, enquanto Donna contrai raiva após lutar com Cujo. King afirmou posteriormente ter se arrependido dessa decisão. O filme opta por preservar o garoto, mas cobra seu preço emocional: Donna sobrevive carregando um trauma irreparável. É uma escolha menos niilista, mas igualmente amarga.

Por fim, surge a pergunta que muitos fazem: de onde vem o nome Cujo? Stephen King escolheu o nome a partir do codinome de William Lawton Wolf, um dos fundadores do Exército Simbionês de Libertação. O codinome era originalmente escrito como “Kahjoh”, mas foi divulgado erroneamente pela mídia como “Cujo” — erro que acabou se tornando definitivo.


https://www.pipoca3d.com.br/2024/10/cujo-1983-film-review.html
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