MANGLER O GRITO DE TERROR (1995) - FILM REVIEW
Ausente.
O cinema é uma arte fluida, capaz de provocar sensações diferentes conforme avançamos pela vida. Há filmes que envelhecem mal, outros que amadurecem com a gente, e alguns que parecem mudar de forma sempre que os revisitamos. Sou fã declarado das adaptações de Stephen King e vivo revendo muitas delas.
E, como todos que me conhecem bem sabem, adoro fazer listas — especialmente listas relacionadas ao universo de King. Uma delas, no entanto, nunca consegui concluir: a das dez piores adaptações do mestre do horror. O problema é que, ao contrário do que eu pensava anos atrás, a maioria dos filmes que ali coloquei acabou me conquistando numa revisão recente.
E é justamente por isso que menciono The Mangler, porque ele figurava entre essas piores adaptações. A história se passa em uma pequena cidade industrial do Maine (claro, onde mais?), onde uma máquina de passar roupa industrial — imensa, ruidosa e completamente desumana — torna-se possuída por forças malignas e passa a fazer vítimas dentro de uma lavanderia.
Ela desenvolve um interesse grotesco por carne humana, devorando e mutilando funcionários daquela fábrica. É impossível não notar o absurdo da premissa, mas é esse “nonsense” que dá ao filme um sabor inegavelmente King. O autor tem fascínio pelo embate entre humanos e máquinas, usando esse conflito como metáfora para nossa relação de dependência tecnológica e para o modo como a industrialização molda e, por vezes, consome o ser humano. Aqui, porém, ele abandona qualquer sutileza e entrega uma visão exagerada, quase trash, de seu próprio tema.
A direção ficou a cargo do saudoso Tobe Hooper, que nos deixou em 2017 e deixou um rastro inesquecível no horror. Hooper foi responsável por clássicos como O Massacre da Serra Elétrica, Os Vampiros de Salem, Força Sinistra, Invasores de Marte, Pague para Entrar, Reze para Sair e, claro, o sempre debatido Poltergeist. Seu cinema visceral, barulhento e inquieto influenciou boa parte das obras de horror das décadas seguintes. The Mangler, embora não seja um de seus trabalhos mais celebrados, carrega sua assinatura: um horror sujo, exagerado e pulsante, quase teatral, filmado como se a câmera estivesse o tempo todo sendo engolida pela ferrugem da própria máquina.
O filme adapta o conto “A Máquina de Passar Roupa”, presente na coletânea Sombras da Noite. Na história original, o guarda Hutton atende a uma ocorrência em uma lavanderia e encontra um cenário de puro massacre. A cada etapa da investigação, ele descobre detalhes ainda mais perturbadores sobre aquela máquina aparentemente inofensiva. Tanto o conto quanto o filme misturam o espírito de um slasher com elementos de possessão demoníaca, criando uma combinação improvável que explica por que a obra é vista como curiosa, estranha e, para muitos, altamente divertida.
Durante as filmagens, Hooper inicialmente planejava algo mais sério, mais terral, mais voltado ao horror investigativo. Mas a produção acabou tomando outro rumo, e ele resolveu abraçar o exagero completo. A máquina usada era enorme e realmente funcional em algumas partes, pesando centenas de quilos, o que tornava as cenas ainda mais claustrofóbicas. Robert Englund — sim, o eterno Freddy Krueger — aparece em um papel tão caricato que beira a caricatura teatral, reforçando o espírito exagerado do filme.
Vale lembrar que The Mangler ganhou duas sequências de baixo orçamento, feitas sem Hooper e sem qualquer envolvimento de King, e que são ainda mais extravagantes. O próprio King, anos depois, contou que escreveu o conto inspirado por uma máquina industrial que viu durante um trabalho de reportagem, descrevendo-a como “uma fera metálica prestes a devorar alguém”.
No Brasil, o segundo filme chegou com o título Pânico Virtual — um nome que não conversa com o original e que, admito, me fez alugá‑lo no impulso, sem imaginar que era uma sequência de Mangler. A história acompanha a estudante Jo Newton, que decide instalar o vírus experimental “Mangler 2.0” no sistema ultraavançado de informática de seu colégio, apenas para pregar uma peça no Reitor Bradeen e aproveitar a ausência dos colegas.
O plano, claro, dá errado: o vírus parece ganhar vida própria, assume o controle total da rede, usa câmeras de vigilância como olhos e transforma o campus em um campo de caça, perseguindo quem tenta detê‑lo. Quando a realidade virtual começa a significar morte real, o filme mergulha sem pudor na mistura de terror tecnológico e exagero proposital que marcava muitos filmes dos anos 2000.
Já no terceiro longa, a trama retorna às origens, trazendo novamente a máquina assassina ao centro da narrativa. Uma década depois do massacre inicial, um homem obcecado decide reconstruir a Mangler e acaba possuído por ela, transformando‑se num monstro que precisa alimentá‑la com carne humana. As pessoas presas em sua casa percebem cedo demais que já não estão diante de um ser humano, mas de algo muito além — talvez até diabólico. É um filme que abraça completamente o absurdo e entrega exatamente o que promete: horror exagerado, violento e sem pretensão de ser algo maior do que um entretenimento para quem aprecia esse tipo de experiência.
The Mangler jamais buscou realismo. Ele funciona melhor quando visto como uma brincadeira séria do horror, uma obra consciente de sua própria esquisitice, que abraça o absurdo ao invés de tentar escondê-lo. A crítica da época foi dura, acusando o filme de exagero, falta de foco e de uma premissa impossível de levar a sério. Mas, com o tempo, como tantos títulos injustiçados, ele encontrou seu público. Hoje, é lembrado como um pequeno cult, um filme que exagera em tudo o que pode — e talvez seja justamente por isso que permanece tão peculiar e tão singular entre as adaptações de Stephen King.
Tanto a história original quanto o filme são uma mistura curiosa de slasher com possessão demoníaca. Aliás, muita gente sempre pergunta quais são, afinal, os contos da coletânea Sombras da Noite e quais viraram filmes. A resposta é simples: quase todos. E aqui vão eles, fluindo como parte de uma mesma conversa sobre o universo de Stephen King.
Jerusalem’s Lot: Em Chapelwaite, no ano de 1850, Charles Boone e seu amigo Calvin McCaan mudam‑se para uma mansão misteriosa, viva, rangente e repleta de manifestações perturbadoras; nela, Charles encontra um mapa que o leva à cidade abandonada de Jerusalem’s Lot, mas uma expedição até lá promete tudo, menos um desfecho feliz. Dessa história nasceram Vampiros de Salem (1979), sua continuação que reaproveita apenas personagens e A Mansão Marsten (2004).
Último Turno: Limpar os porões de uma fábrica têxtil abandonada parecia uma forma fácil de ganhar dinheiro, mas assim que o grupo de trabalhadores desce até o porão, percebe que um mal indescritível habita o lugar, tornando o amanhecer um privilégio para poucos. Daí surgiu A Criatura do Cemitério (1990); Ondas Noturnas: Em Anson Beach, um grupo reduzido de sobreviventes de um vírus devastador tenta lidar com a ausência de futuro e com uma nova realidade sombria, atuando como continuação direta — e mais curta — de A Dança da Morte.
Eu Sou o Portal: Um astronauta recém‑retornado de órbita venusiana desconfia que uma forma alienígena esteja usando seu corpo como canal para sondar a Terra, manifestando‑se como pequenos olhos em suas mãos, e decide impedir seus planos mesmo que precise recorrer a medidas extremas, percebendo que livrar‑se do invasor será tudo menos simples; A Máquina de Passar Roupa: A lavanderia Blue Ribbon sempre teve azar, mas ingredientes involuntários de um ritual demoníaco — inclusive o sangue de uma virgem — acabam por possuir uma das máquinas de prensar roupas, que passa a aniquilar quem chega perto; apenas um policial percebe a verdade e decide realizar o exorcismo por conta própria. Dessa história nasceu The Mangler (1995);
O Bicho‑Papão: Um homem traumatizado pela morte dos filhos conta a um psiquiatra que um monstro os matou, sem acreditar que será levado a sério — até descobrir da pior forma possível que sua história não é tão absurda assim. Virou o curta O Bicho‑Papão (1982), lançado no pacote Night Shift Collection, que inclui também A Mulher no Quarto, dirigido por Frank Darabont; Massa Cinzenta: Um homem bebe uma cerveja com algo estranho e, algum tempo depois, seu filho pede ajuda aos amigos do bar, mas quando retornam, descobrem que algo terrível tomou conta dele e será preciso muita coragem para enfrentar o mal que o corrompeu.
Campo de Batalha: Após assassinar seu alvo, um matador de aluguel chega a casa e encontra um pacote contendo um baú de brinquedos de guerra — soldados, tanques, mísseis — que ganham vida para vingar seu criador, desencadeando uma batalha mortal. A história virou episódio da minissérie Pesadelos e Paisagens Noturnas (2006); Caminhões: Um grupo fica sitiado num posto de gasolina quando caminhões ao redor criam vida e começam a matar qualquer pessoa à vista, forçando os sobreviventes a enfrentar máquinas incontroláveis. Dessa premissa nasceu Comboio do Terror (1986), dirigido pelo próprio King, além do remake Trucks (1997).
Às Vezes Eles Voltam: Um professor, traumatizado pelo assassinato do irmão por uma gangue durante sua infância, percebe que os agressores retornaram exatamente como eram, sem envelhecer um dia sequer, e agora querem fazer dele a próxima vítima. Inspirou o filme homônimo de 1991 e diversas continuações; Primavera Vermelha: Em um campus universitário, uma série de assassinatos brutais ocorridos no passado volta a se repetir no presente, sugerindo que algo nunca foi realmente resolvido; O Ressalto: Um magnata sequestra o amante tenista de sua esposa e faz uma proposta macabra: se ele conseguir contornar o prédio apenas pelo ressalto, ganha dinheiro e a liberdade; caso contrário... bem, o final não é o que se espera. A história virou segmento do filme Olhos de Gato (1985).
O Homem do Cortador de Grama: Com o jardim tomado e a máquina quebrada, um homem contrata um jardineiro que utiliza métodos perturbadores para realizar seu trabalho, transformando um serviço banal em um pesadelo. Tornou‑se a inspiração remota de O Passageiro do Futuro (1992); Ex‑Fumantes Ltda.: Tentando abandonar o cigarro, um homem entra em um programa cuja regra é simples: se fumar, será torturado; se reincidir, sua esposa sofrerá no lugar; e se persistir, a situação se tornará ainda pior. Também virou episódio de Olhos de Gato (1985); Eu Sei o que Você Precisa: Um rapaz aparentemente comum conquista uma jovem ao prever exatamente o que ela deseja, mas a precisão excessiva começa a soar perigosa, revelando que nada ali é natural.
As Crianças do Milharal: Um casal que viaja enquanto tenta consertar o relacionamento acaba preso em uma cidade onde crianças psicopatas assassinam qualquer adulto, transformando um contratempo mecânico em corrida pela sobrevivência. Originou Colheita Maldita (1984) e uma infinidade de continuações; O Último Degrau da Escada: Relata a trágica história de um irmão que salva a irmã de uma queda no celeiro certa vez, mas não pôde estar presente em todas as outras; O Homem Que Adorava Flores: Um rapaz anda pela cidade com um buquê, cantarolando alegremente, e todos imaginam que ele vai encontrar sua amada Nona — mas, ao abordar outras mulheres por engano, o resultado é sempre fatal.
A Saideira: Continuação direta de A Hora do Vampiro, acompanha dois homens que atravessam uma nevasca para resgatar uma família, sabendo que o frio é o menor dos perigos, porque ’Salem’s Lot queimou, mas o mal não morreu por completo; A Mulher no Quarto: Um homem precisa decidir entre a eutanásia ou continuar vendo a mãe definhar no hospital, enfrentando um dilema devastador que nenhum filho deveria ter de suportar — conto também presente no Night Shift Collection.
Kingverso da loucura
No filme, como sempre acontece quando se fala de adaptações do universo de Stephen King, há referências espalhadas como pequenos acenos ao leitor atento. A própria empresa responsável pela máquina assassina carrega esse tipo de brincadeira: o nome Hadley Watson combina dois sobrenomes ligados ao mundo de King — Byron Hadley, o chefe de guarda brutal de Um Sonho de Liberdade, e Billy Watson, personagem associado aos construtores do Hotel Overlook em O Iluminado, além de lembrar Norma Watson, figura importante em Carrie, a Estranha.
O detalhe curioso é que tanto “Hadley” quanto “Watson” têm seis letras, e logo abaixo delas há um grande número 6, formando a sequência 666, o famoso número da Besta, reforçando a ideia de que a máquina carrega um mal que não é apenas mecânico, mas espiritual.
A presença de Robert Englund no elenco inspira outra referência ao público: logo após o acidente envolvendo Adelle Frawley, o fotógrafo da cena do crime surge usando um chapéu semelhante e um lenço nas mesmas cores de Freddy Krueger, como se o filme reconhecesse silenciosamente a trajetória do ator.
Há ainda uma referência mais pesada, conectada diretamente ao tema da opressão industrializada: em uma das primeiras cenas, logo após o ferimento de Sherry, é possível ver no fundo um portão com uma faixa onde se lê “o trabalho liberta”, a mesma frase presente no portão de Auschwitz. Esse detalhe, proposital ou não, reforça o caráter tirânico do ambiente, aproximando o filme de uma crítica ao sofrimento imposto por estruturas que devoram vidas humanas — seja literal ou simbolicamente.
Mangler é, sem dúvida, um filme peculiar, exagerado e estranho da melhor maneira possível. Tem falhas? Muitas. Mas tem personalidade, atmosfera e aquela sensação de “filme que você precisa ter na coleção se gosta de King”. De modo geral, os filmes baseados na obra de Stephen King valem a visita, mesmo quando se desviam do texto original — algo que nem sempre agrada, mas que faz parte desse universo adaptado tantas vezes. Já as continuações, em sua grande maioria, costumam agradar principalmente ao público que ama o cinema de horror como um todo, especialmente aqueles que apreciam o charme imperfeito das produções feitas para satisfazer o fandom e manter vivo o imaginário de King nas telas.


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