UM SONHO DE LIBERDADE (1994) - FILM REVIEW
Brooks was here.
Afinal, o que é liberdade? O que significa ser livre? Há diferença entre estar livre e se sentir livre? Algumas prisões são visíveis, estruturadas em concreto e grades; outras, porém, são interiores, silenciosas, profundas. Para muitas pessoas, liberdade é menos uma condição objetiva e mais um estado de espírito. No caso de Andy Dufresne (Tim Robbins), ficar preso em Shawshank por tantos anos acabou se tornando uma oportunidade de reconstrução pessoal, de ressignificar sua existência, de encontrar amizades verdadeiras e dar sentido a um mundo completamente novo, já que o anterior havia perdido qualquer significado possível.
Olhando para o personagem, percebemos que Andy parecia mais aprisionado fora da cadeia do que dentro dela. Sua relação conjugal era vazia, marcada por traições e desencontros emocionais. Mesmo sendo jovem, bem‑sucedido e respeitado como banqueiro, sua vida carregava uma apatia silenciosa, como se ele já estivesse enclausurado em si mesmo antes mesmo de ser condenado. Por isso, sua prisão — injusta, pois foi acusado de matar a esposa e o amante dela — acaba funcionando como catalisadora de transformação. É paradoxal, mas coerente dentro da lógica do filme: sua pena perpétua torna-se, em última instância, a chave de sua redenção.
Ao chegar à Penitenciária Estadual de Shawshank, no Maine, Andy se depara com um pesadelo institucional. O diretor Warden Norton (Bob Gunton) é um homem corrupto, hipócrita e perverso, que usa a Bíblia como instrumento de controle. Já o Capitão Byron Hadley (Clancy Brown) governa os prisioneiros com brutalidade, tratando-os como animais. Ainda assim, é nesse ambiente hostil que Andy encontra Ellis Boyd “Red” Redding (Morgan Freeman), preso há vinte anos, responsável por comandar o mercado paralelo da cadeia e conhecido como “o sujeito que consegue coisas”.
O ano do lançamento do filme, 1994, foi marcante em muitos aspectos. O Brasil conquistou o tetracampeonato mundial, Ayrton Senna faleceu em um acidente que chocou o planeta, e o cinema viveu um momento de efervescência criativa com títulos como Pulp Fiction, Forrest Gump, Entrevista com o Vampiro, Velocidade Máxima, O Rei Leão, O Corvo e, claro, Um Sonho de Liberdade. Entre todas essas obras, a adaptação do conto de Stephen King foi, e ainda é, considerada sua melhor tradução para o cinema em termos de crítica e público. Em cifras, It (2017) ultrapassou todas, mas em prestígio, Shawshank permanece insuperável.
Indicado a sete Oscars, não venceu nenhum — simplesmente porque disputava com Forrest Gump e Pulp Fiction, duas potências cinematográficas. Ainda assim, o tempo fez sua justiça. Basta uma pesquisa rápida para perceber que o filme ocupa o topo dos principais rankings e se tornou “o filme da vida” de milhões de pessoas. Mais do que isso: transformou-se em símbolo universal de esperança.
Grande parte das gravações ocorreu na Penitenciária Estadual de Mansfield, em Ohio, então desativada. O local estava deteriorado, e era necessário restaurá-lo minimamente para que pudesse receber equipes e câmeras. O trabalho de design de produção de Terence Marsh — inexplicavelmente ignorado pelo Oscar — foi tão convincente que muitos espectadores acreditaram que se tratava de uma prisão ainda em funcionamento. A atmosfera pesada, claustrofóbica e realista reforça o impacto emocional do filme.
A fotografia de Roger Deakins, naquela época indicada pela primeira vez ao Oscar, também merece destaque. Seriam necessários vinte e três anos e doze indicações até que ele finalmente ganhasse sua estatueta, por Blade Runner 2049. Deakins já mostrava ali sua capacidade única de transformar luz, sombra e espaço em narrativa.
Frank Darabont, diretor do filme, inspirou-se profundamente em Os Bons Companheiros. Assistia ao filme religiosamente todos os domingos durante as filmagens, buscando referências para o uso de narração em off e para a fluidez da passagem do tempo. Essa influência é perceptível, mas nunca imitativa: Darabont cria sua própria poesia visual.
Tim Robbins, por sua vez, mergulhou de maneira intensa na construção do personagem. Pediu para ficar trancado voluntariamente em confinamento solitário por algumas horas, apenas para sentir, ainda que de forma incomparavelmente branda, o choque psicológico do isolamento. O resultado é uma interpretação contida, delicada e extremamente humana.
Morgan Freeman também tem um destaque importante: foi em Shawshank que ele narrou um filme pela primeira vez, inaugurando um dos elementos mais icônicos de sua carreira. Curiosamente, as fotos de Red jovem usadas na cena da condicional são do próprio filho de Freeman, Alfonso, que também aparece brevemente gritando “Peixe fresco!” enquanto novos prisioneiros chegam.
O título original do conto de Stephen King, Rita Hayworth and the Shawshank Redemption, não pôde ser usado no cinema. Produtores temiam que o público acreditasse se tratar de uma cinebiografia da atriz Rita Hayworth. Tanto que Darabont recebeu, pasme, pedidos de audição de inúmeras modelos e atrizes para “o papel principal”. Uma prova clara de como títulos podem criar confusões hilárias.
O papel de Andy seria originalmente de Tom Hanks, que recusou por compromissos com Forrest Gump. Ele trabalharia com Darabont alguns anos depois em À Espera de um Milagre. Já o papel de Tommy Williams quase foi de Brad Pitt, que preferiu atuar em Entrevista com o Vampiro. Assim, a função de dar ao público a prova da inocência de Andy ficou com Gil Bellows, em uma participação pequena, mas crucial.
Shawshank criou um impacto tão grande que virou referência recorrente no “multiverso King”. A prisão aparece em Eclipse Total, é citada em O Vidente, conecta-se com O Aprendiz e até com Conta Comigo, através do Royal River. O número da cela de Red, 237, é outro aceno ao kingverso, remetendo ao quarto maldito de O Iluminado.
No final, o filme é dedicado a Allen Greene, agente e amigo de Darabont, que faleceu pouco antes da estreia. Um gesto simples, carregado de emoção. Igualmente simbólico é o fato de Stephen King jamais ter descontado o cheque de cinco mil dólares pelos direitos do conto. Anos depois, devolveu-o emoldurado ao diretor, com um bilhete: “Caso você precise pagar fiança. Com amor, Steve.”
A morte de Brooks é uma das mais dolorosas e significativas do filme. Seu suicídio simboliza um paradoxo profundo: após uma vida inteira sonhando com liberdade, ele não consegue viver fora da prisão. O mundo lhe parece assustador, acelerado, irreconhecível. Não há espaço para recomeços tardios. A liberdade que deveria salvá-lo acaba por destruí-lo, revelando que a pior prisão é aquela que se torna confortável.
A primeira grande virada para Andy ocorre aos 38 minutos, quando ele se oferece para ajudar Hadley com uma questão de impostos em troca de cerveja para seus colegas. Ali, Andy se reencontra consigo mesmo: entende que ainda possui valor, talento e utilidade. Aprende que pode transformar o ambiente, e não apenas ser moldado por ele. Aos poucos, torna-se essencial para a vida da prisão.
A segunda virada vem com Tommy, que traz a revelação de sua inocência — e, com ela, a esperança concreta de sair. Mas o diretor Norton frustra esse renascimento ao mandar assassiná-lo. Andy percebe, então, que sua nova vida também era uma ilusão controlada. Ele não comandava o tabuleiro. Nunca comandou. A partir desse momento, ele muda duas vezes: perde a esperança e, ao mesmo tempo, ganha um novo tipo de determinação. A liberdade que encontrou dentro da prisão precisa ser levada para fora — de qualquer maneira.
E essa liberdade vem, em última instância, através da amizade com Red. Andy foi preso injustamente por um crime que não cometeu; Red, por outro lado, é o único assassino confesso de Shawshank. E é justamente essa amizade — improvável, humanizadora, profunda — que salva ambos.
Andy se liberta pelo único homem verdadeiramente culpado dali.
E Red se liberta pelo homem mais inocente que Shawshank já recebeu.
E é justamente essa amizade — improvável, humanizadora, profunda — que sela o sentido da história. No fim, a verdadeira redenção não vem apenas de escapar fisicamente, mas de inspirar o outro a acreditar novamente. Andy sempre teve fé, mesmo quando parecia derrotado. Red, ao contrário, tinha esquecido como se sonhava. A fuga de Andy não é apenas uma vitória pessoal; é um convite silencioso para que Red reconquiste sua própria alma. Quando Red finalmente obtém sua liberdade condicional, ele caminha sobre as mesmas linhas que Brooks percorreu, mas escolhe diferente. Ele não se entrega ao desespero. Decide honrar o amigo, seguir sua promessa e permitir-se acreditar no impossível.
E assim, a jornada culmina naquela imagem final inesquecível: o reencontro em Zihuatanejo, na imensidão azul do Pacífico, onde o tempo parece suspenso. Ali, dois homens marcados pela dor encontram paz, reconstrução e uma forma pura de liberdade. Não a liberdade jurídica, nem apenas a física, mas aquela que nasce do afeto, da esperança recuperada e do simples ato de continuar vivendo. É por isso que Um Sonho de Liberdade ecoa tanto: porque nos lembra que, mesmo nas circunstâncias mais sombrias, sempre existe uma réstia de luz capaz de atravessar muralhas. E, como diz o próprio Red, a esperança é uma coisa boa — talvez a melhor delas.
E coisas boas nunca morrem.
And so was Red.

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