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BOOGEYMAN: SEU MEDO É REAL (2023) - FILM REVIEW

Boogeyman

O termo boogeyman, conhecido no Brasil como bicho-papão, refere-se a uma criatura mítica ou personagem fictício usado para assustar crianças. Normalmente, ele é retratado como um ser malévolo que se esconde em armários, debaixo das camas ou em espaços escuros, à espera de uma oportunidade para assustar ou prejudicar aqueles que se comportam mal ou se recusam a dormir.

O bicho-papão é uma figura de advertência, frequentemente utilizada por pais e cuidadores para incentivar o bom comportamento e a obediência. A ameaça de sua presença serviria para impedir que as crianças se comportassem mal ou vagassem por lugares perigosos. Não há, talvez, uma forma mais precoce de intimidação do que essa, praticada pelos próprios pais na tentativa de impor limites aos filhos — e, em certa medida, refletindo a incapacidade deles de educá-los sem recorrer ao medo.

O conceito varia entre diferentes culturas e tradições folclóricas. É um tema comum em várias partes do mundo, embora suas características e seu nome mudem. Na América Latina, por exemplo, existe o El Coco ou Cucuy. No Japão, há figuras como o Bakemono e o Obake. Na cultura popular, o bicho-papão já apareceu na literatura, no cinema e nos videogames, quase sempre como uma figura sombria ou um monstro escondido na escuridão.

Um dos autores que mais utilizam o bullying, o medo e a violência como elementos fundamentais de suas histórias é justamente Stephen King. Em seu conto “O Fantasma”, publicado originalmente na edição de março de 1973 da revista Cavalier e mais tarde reunido na coletânea Sombras da Noite, King associa o bicho-papão a outro elemento essencial de sua obra: o medo, especialmente aquele que nasce durante a infância e permanece mesmo depois da vida adulta.

O filme parte dessa ideia, mas amplia bastante a história original. Após a trágica morte da mãe, a família Harper tenta lidar com um luto que ainda não foi elaborado. Sadie Harper (Sophie Thatcher), uma adolescente de 16 anos, precisa enfrentar a própria dor e, ao mesmo tempo, assumir uma posição quase materna em relação à irmã mais nova, Sawyer (Vivien Lyra Blair).

Sawyer começa a ser atormentada por uma presença sádica e maligna que parece habitar os espaços escuros da casa. As duas irmãs tentam convencer o pai, Will (Chris Messina), de que um bicho-papão com poderes sobrenaturais está à espreita. O problema é que Will também está lidando com a perda da esposa e, incapaz de compreender o sofrimento das filhas, não acredita no que elas estão vendo.

Uma das hipóteses para o pesadelo é que a entidade esteja perseguindo a família desde que um paciente desesperado visitou Will, que trabalha em casa como psiquiatra. A partir desse momento, o monstro parece se alimentar não apenas do medo, mas também do silêncio, da culpa e da dificuldade que os personagens têm de enfrentar a própria dor.

O diretor Rob Savage, responsável pelo ótimo Cuidado com Quem Chama (2020), e os roteiristas Scott Beck e Bryan Woods, de Um Lugar Silencioso, conseguem transportar para as telas o clima tenso do conto de King. Inicialmente, o filme estava previsto para estrear diretamente no Hulu ainda naquele ano. No entanto, tudo mudou depois de uma exibição-teste realizada em dezembro de 2022, cuja recepção foi tão positiva que os responsáveis pelo projeto começaram a considerar seriamente um lançamento nos cinemas.

Segundo o diretor Rob Savage, a reação do público foi tão entusiasmada que surgiu a ideia de mostrar o filme ao próprio Stephen King. Para isso, a equipe alugou um de seus cinemas favoritos no Maine. Savage sabia que aquela seria uma espécie de teste definitivo, afinal, King nunca teve o hábito de esconder sua opinião quando algo baseado em sua obra não o agradava.

Mas a resposta foi melhor do que poderiam esperar. Em vez de críticas ou ressalvas, King enviou uma longa e calorosa mensagem falando sobre o quanto havia gostado do filme. A aprovação não ficou restrita a esse primeiro contato. No dia seguinte, Savage encontrou um novo e-mail do escritor em sua caixa de entrada. King ainda estava pensando no filme e aproveitou para fazer novos elogios.

Entre todos os comentários, porém, um se destacou. Convencido de que o filme merecia ser visto em uma sala de cinema, Stephen King foi direto ao ponto: lançá-lo apenas no streaming, em vez de levá-lo às telas, seria uma tremenda burrice.

Algumas cenas foram tão intensas que precisaram ser alteradas depois das sessões de teste. O público gritou tão alto que um diálogo importante exibido logo após uma dessas cenas acabou sendo perdido. A edição foi modificada para incluir pausas que permitissem a compreensão da conversa.

O filme trabalha principalmente com a atmosfera. Armários, corredores, quartos escuros e espaços vazios são usados para criar a sensação de que há algo escondido sempre que os personagens deixam de olhar. Ainda assim, Boogeyman também recorre bastante aos jump scares, buscando surpreender o público e provocar uma descarga imediata de adrenalina.

A criatura representa o medo do desconhecido e do escuro, sensações comuns durante a infância, mas também funciona como uma manifestação dos traumas da família Harper. O monstro aparece em uma casa marcada pela ausência da mãe e cresce à medida que os personagens tentam ignorar o que sentem. Nesse sentido, o bicho-papão não está apenas debaixo da cama: ele também está presente naquilo que a família não consegue dizer.

O "Kingverso" aparece de maneira discreta, provavelmente para não causar distrações. O endereço de Lester Billings é 217 Oak Drive, uma referência ao quarto 217 de O Iluminado. Já a família Harper mora no número 19, um número importante no universo de Stephen King. Há também referências sutis a Pennywise adicionadas à textura facial do monstro. Outro detalhe para quem leu o livro: enquanto Lester Billings (David Dastmalchian) tem apenas um pequeno personagem coadjuvante, ele é o protagonista do conto original de Stephen King.

Boogeyman é um exercício de tensão e deve ser aproveitado principalmente como tal. Não apresenta uma abordagem especialmente inovadora, mas constrói uma atmosfera eficiente e compreende que o medo funciona melhor quando se mistura a algo familiar. No fim, o filme reforça uma ideia simples: não há forma melhor de vencer o medo do que enfrentá-lo.

E, numa revisão, seu impacto não desaparece, porque, embora seja um horror acima da média, o filme não depende de momentos grandiosos ou de cenas que precisem permanecer na memória para funcionar. Ele constrói sua tensão de maneira direta, sustentando o desconforto até o fim. Pode parecer uma característica pouco elogiosa dizer que não se trata de uma obra memorável, mas, neste caso, é quase o contrário: sua simplicidade impede que o suspense envelheça ou perca força depois que já conhecemos a história.

Com um ótimo elenco, uma direção segura e uma narrativa que sabe explorar suas limitações em benefício da tensão, o resultado é um daqueles filmes que talvez não entrem para a lista dos grandes clássicos do gênero, mas certamente merecem ser descobertos. Entre as produções de horror lançadas em 2023, é uma das escolhas mais interessantes para quem procura uma história eficiente, desconfortável e, acima de tudo, capaz de prender a atenção até o último minuto.

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