O FUNDO DO CORAÇÃO (1981) - FILM REVIEW
Francis Ford Coppola é (ou foi) um cineasta do caos. Talvez por isso, suas obras mais revisitadas são os épicos com elenco passando por furacões, drogas, infartos, egos inflados, sangue, suor e Brando (que o levava às lágrimas, com certeza). Não há como negar, se compararmos ele a outros amigos da época (como Scorsese, Spielberg, De Palma), apenas ele e George Lucas fizeram poucas obras-primas que ganharam status de "eternizadas". Porém, a diferença capital entre ele e Lucas, é que este soube fazer dinheiro em cima do seu filme/produto, enquanto Francis foi um caos.
Não estou aqui desmerecendo o cineasta que fez os dois melhores filmes de máfia do cinema e o melhor filme de guerra da história. Mas enfatizando que ele, aparentemente, não soube conduzir a carreira fora das hastes da loucura. Ainda que tenha uma carreira de respeito, o efeito destes 3 filmes que citei foi devastador, para o bem e para o mal, em tudo o que viria a seguir.
O Fundo do poço
Em tempos em que um filme da série James Bond custa quase 300 milhões de dólares e rende 774, é difícil assimilar que uma obra com Ishtar ou O Fundo do Coração, pode levar alguém a falência. Mas acontecia. Um monte de carreiras fora para o ralo e costumeiramente, por filmes aparentemente comuns (lógico que ocasionalmente surge um como A Reconquista), geralmente comédias românticas ou dramas.
O Fundo do Coração é um destes filmes. Bons de assistir, com grandes qualidades, mas que você não entende (vendo a película) o que pode ter dado errado, já que é um filme que não ofende em momento algum. No filme, no dia quatro de julho, Hank (Frederick Forrest) e Frannie (Terri Garr), um casal trabalhador que vive nos arredores de Las Vegas, completam cinco anos juntos. Eles planejam comemorar, só que ao invés disso, brigam e terminam tudo. Mesmo com o recente fim do relacionamento, os dois resolvem sair à procura de novos parceiros: Frannie conhece um cantor e garçom (Raul Julia) e Hank se envolve com uma bela artista de circo (Nastassja Kinski). Só que eles ainda se amam, mas não dão o braço a torcer.
Paris, Texas
Confesso que tomei um baita susto ao reconhecer, no início do filme, tons exatamente iguais da obra-prima de Wim Wenders, Paris, Texas, que trata justamente de um desencontro amoroso. E minutos depois, vejo Harry Dean Stanton ao telefone (remetendo a cena capital do filme de Wenders), cujo relacionamento catártico seja justamente Nastassja Kinski. Como Paris, Texas foi filmado pouco depois, acho difícil que seja tudo fruto de coincidência.
O Fundo do Coração é um espetáculo, principalmente visual, e com uma edição primorosa. Repare na cena em que Teri Garr sai de casa e anda pela rua, aos 42 minutos. Inacreditavelmente bela. Em cenas como esta, vemos que o diretor não economizou.
Em vez de filmar no local, o diretor Francis Ford Coppola insistiu em construir cenários, para aumentar a artificialidade do proscênio. A construção do set prosseguiu a tal ponto que uma réplica do Aeroporto McCarran de Las Vegas, completo com um hangar e um avião a jato (construído a partir da seção do nariz de um avião acidentado) foi construído e usado para a penúltima cena.
Os cenários do filme consumiram todo o espaço do estúdio American Zoetrope de Coppola, que ele havia fundado (este foi o único filme dirigido por Francis a ser filmado em seus estúdios). Devido ao labirinto de fiação e telas inflamáveis, cenários e outros materiais, o desenhista de produção Dean Tavoularis se referiu ao set de Vegas, a peça central do filme, como uma "armadilha de fogo", dizendo que o levou a ter "pesadelos sobre incêndios".
O custo extraordinário da produção levou à falência o diretor. Originalmente concebido como um pequeno filme após o enorme custo, pressões e problemas de produção de Apocalypse Now (1979), O Fundo do Coração saltou de um orçamento projetado de US$ 2 milhões para mais de US$ 25 milhões. Coppola afirmou que os filmes que realizou durante o resto da década de 1980 e grande parte da década de 1990, como Vidas sem Rumo (1983), Cotton Club (1984), O Poderoso Chefão III (1990), Jack (1996) e O Homem Que Fazia Chover (1997), foram feitos para quitar as dívidas contraídas pela produção.
Inclusive o magnífico "O Poderoso Chefão III" foi uma tentativa desesperada de reviver a glória, voltando ao seu grande épico. Porém, não só NÃO venceu o Oscar (que disputou com Bons Companheiros, Ghost, Tempo de Despertar e Dança com Lobos), mas também não teve unanimidade de crítica e público. Ele foi indicado nas categorias de Melhor Filme (Francis Ford Coppola), Melhor Diretor (Francis Ford Coppola), Melhor Ator Coadjuvante (Andy Garcia), Melhor Canção (Carmine Coppola e John Bettis por Promise Me You'll Remember), Melhor Montagem (Barry Malkin, Lisa Fruchtman e Walter Murch), Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia (Gordon Willis). Perdeu tudo. Um pecado, mas isso é uma outra história.
Desconstruindo o sonho americano
Criar Las Vegas foi uma alternativa consciente para desmitificar o sonho americano. De fora para dentro. Do exterior para o interior. Do glamour visual para o abismo emocional. Coppola se sentiu a vontade de inovar, porque caso dar certo geraria nova tendência. E como vinha desfrutando de moral e sucessos, era um caminho natural tentar se reinventar. É um musical tão fake quanto os cenários, cujas cores te fazem imergir na artificialidade do cenário (deslumbrante, o que torna um absurdo suas derrotas no Oscar de Fotografia).
Originalmente seria financiado pela MGM, com o estúdio dando a Coppola um recorde de US$ 2 milhões para dirigir. Coppola rejeitou inicialmente a oferta, depois comprou os direitos da propriedade através de sua Zoetrope Studios, com a MGM permanecendo como distribuidora para a América do Norte. A Zoetrope levantou financiamento por meio de pré-vendas no exterior e um empréstimo do Chase Manhattan Bank. A MGM retirou seu apoio ao projeto e Coppola conseguiu o apoio do empresário canadense Jack Singer, que concordou em emprestar US$ 8 milhões para a Zoetrope. Em fevereiro de 1981, a Paramount Pictures assumiu como distribuidora.
No final das contas, o filme rendeu em torno de 600 mil dólares. Considerando o orçamento batendo na casa dos 26 milhões, O Fundo do coração deixou Coppola como o personagem Travis, de Paris, Texas: perdido, à deriva e precisando de sorte para se reencontrar. E quem viu a filmografia dele nas décadas a seguir, concluiu que ele não teve, mesmo acertando em diversos filmes.
De certa forma, todo filme que ele fazia parecia aquém do seu talento. E isto se deve aos monstros que ele criou (O Poderoso Chefão, O Poderoso Chefão II e Apocalypse Now), que sempre pareceram muito maiores que qualquer obra que ele dirigisse posteriormente.




