JAY KELLY (2025) - UM ENSAIO SOBRE O FILME
A Verdade Que Brilha na Pele do Outro: Um Ensaio Sobre Jay Kelly
Há carreiras que parecem feitas de luz e vidas que parecem feitas de silêncio. Jay Kelly (2025) se coloca nesse intervalo entre o brilho e o mutismo, observando a figura de um astro de cinema que caminha pela Europa ao lado de seu empresário não como quem busca fama, mas como quem tenta descobrir, tarde demais, se a fama já lhe cobrou algo irreparável. Nesse percurso, a sensação que o filme transmite não é a de uma viagem turística ou de uma despedida melodramática; é o lento reconhecimento de que, por trás da imagem pública, pode existir um sujeito que nunca aprendeu a ser ele mesmo.
Com Jay, a persona precede o indivíduo. Ele é amado antes de ser compreendido. A multidão aplaude, sem nunca saber exatamente quem está aplaudindo. Esse é o paradoxo do intérprete: vive ganhando a vida emprestando rostos, vozes e sentimentos, mas quando precisa se reconhecer diante do espelho, encontra apenas fragmentos abandonados de personagens que já não lhe pertencem. Para o público, há a ilusão de que ele vive uma existência extraordinária; para ele, muitas vezes, resta apenas a incógnita de ter sacrificado partes de sua vida íntima para sustentar um espetáculo contínuo, um espetáculo que não o deixa respirar.
A jornada europeia, portanto, não parece ser apenas geográfica. Ela marca o desmoronamento simbólico dessa persona. Ao caminhar por capitais carregadas de história, Jay é confrontado com algo que sua profissão lhe negou: uma narrativa que não depende de espetáculo. Monumentos antigos não precisam performar para existir; apenas resistiram ao tempo. O ator, ao contrário, precisa constantemente provar que merece ser lembrado. A permanência, para ele, nunca é conquista: é disputa.
Ron (Adam Sandler), seu empresário, acompanha o processo com o olhar de quem viveu a vida inteira na sombra, entendendo que sua função sempre foi sustentar a luz alheia. O filme o trata não como um coadjuvante funcional, mas como uma presença silenciosa que carrega consigo o peso das vidas invisíveis, aquelas que alimentam o brilho sem jamais recebê-lo. Sua relação com Jay oscila entre afeto genuíno e pragmatismo profissional, revelando que até mesmo a amizade pode se contaminar quando o sucesso se torna moeda. É difícil identificar, ali, se Ron ama o amigo ou se ama a máquina que o amigo se tornou; talvez ambas as coisas sejam verdade, e talvez nenhuma delas consiga sobreviver sem a outra.
Há inclusive uma fala que provoca diversas sensações contraditórias. Um diálogo entre os dois, em que Ron diz ser amigo de Jay, reclamando que ele não é recíproco. Jay responde: "Mas você é um amigo que ganha 15% do que recebo". É uma fala cruel, reflexiva e realista, ao mesmo tempo.
Essa tensão dá ao filme um tema sensível: até que ponto os vínculos pessoais resistem quando o mercado transforma relações em contratos? Jay e Ron não são apenas amigos; são sócios do mesmo sonho. Quando um envelhece, o outro perde parte do próprio propósito.
É impossível compreender a identidade de um sem considerar o outro. O empresário vive da projeção do astro; o astro só pode existir publicamente porque o empresário gerencia sua existência. É uma simbiose afetiva e profissional que resiste enquanto há algo a ser explorado; não se sabe se é amizade ou dependência. E talvez seja justamente o fato de não haver resposta que torna a relação tão humana.
A viagem desperta algo que ambos tentaram ignorar por décadas: o tempo passou. O corpo já não responde com a mesma agilidade diante das câmeras. O público envelheceu ou se renovou. A indústria já não os trata como promessas, mas como arquivos. O legado começa a se impor como uma pergunta angustiante: o que permanece de um ator quando já não há mais papéis a interpretar?
O artista cuida do presente a ponto de negligenciar o futuro; quando percebe, o passado se tornou seu único capital. E o passado, para quem viveu interpretando personagens, pode ser um território confuso, um arquivo de identidades que nunca foram suas.
É nesse ponto que o filme realiza seu gesto mais arriscado: os protagonistas compreendem que o legado não é o que se viveu, mas o que os outros registraram sobre o que se viveu. Para o público, Jay é um conjunto de filmes; para Jay, sua vida é um conjunto de renúncias. Ele sacrificou relacionamentos, fragilizou laços familiares, perdeu aniversários e nascimentos e até a experiência banal de envelhecer com naturalidade. Viver como personagem exige sempre permanecer apresentável, desejável, vendável. É uma vida mediada, nunca espontânea.
Ron, por sua vez, começa a perceber que viveu para sustentar o brilho do outro e não teve tempo de construir o seu próprio. Ele não é uma persona pública, não terá homenagem, não terá retrospectiva. Sua existência está intrinsecamente ligada ao destino de Jay, como um editor cuja obra ninguém conhece porque sempre aparece apenas o nome do autor. Ali está a tragédia íntima do bastidor: a vida que se consome para que outras possam ser vistas.
Quando o filme se encaminha para seu final, Jay recebe uma homenagem e aqui o filme provoca uma catarse singular. Na cerimônia, os trechos exibidos na tela não pertencem a Jay Kelly, o personagem, mas ao ator do mundo real, George Clooney. São fragmentos de obras que o público conhece e carrega emocionalmente. Imagens que pertencem à nossa memória cinematográfica invadem a narrativa fictícia, rompendo a fronteira entre espectador e personagem. A homenagem, então, não é apenas ao Jay que o filme construiu, mas ao Clooney que o cinema nos ensinou a amar.
Esse gesto é mais do que metalinguagem; é um comentário sobre o próprio poder do cinema. Quando o público vê cenas reais de Clooney, traz consigo uma bagagem afetiva prévia, lembranças de filmes que marcaram sua vida, seus relacionamentos, suas memórias. A emoção que sentimos ao rever tais imagens não pertence ao personagem, mas à nossa própria história. Ainda assim, o personagem chora, emocionado, como se reconhecesse, finalmente, que, mesmo interpretando existências que não eram suas, ele participou de emoções verdadeiras.
E aqui surge o ponto mais belo da obra: a vida do ator adquire sentido não porque ele viveu as emoções que representou, mas porque ele tornou possível que outros as sentissem. Sua jornada, aparentemente vazia e artificial, provocou experiências reais nas vidas de milhões de espectadores. Não importa que Jay não tenha vivido aquelas histórias; ele as ofereceu. O artista não precisa possuir a emoção para que ela exista; basta encarná-la. A autenticidade não está na vida que ele tem, mas na vida que ele toca.
Assim, a homenagem que para Jay parece um acerto de contas, para nós, espectadores, se torna um espelho. Ele olha para um passado que nunca foi verdadeiramente seu, mas que, de algum modo, acabou pertencendo ao mundo e, portanto, o inclui. O cinema restitui ao ator aquilo que o mercado lhe roubou: o sentido. Se o ator passou a vida sendo outro, agora reconhece que esse “outro” não era um impostor, mas uma via para afetos compartilhados. O personagem que ele interpretou era, afinal, sua forma de existir no mundo.
Nesse momento final, o que parecia vazio revela sua plenitude. A arte que consome o indivíduo devolve-lhe um significado tardio. Jay percebe que, mesmo que sua existência pessoal tenha sido de lacunas, ausências, mal-entendidos e sacrifícios silenciosos, aquilo que entregou ao público não foi uma mentira, mas uma forma rara de verdade; a verdade que brilha na pele do outro.
Ron, ao observar a cerimônia, também entende que sua dedicação não foi uma servidão inútil. Ele também é parte daquelas memórias. O bastidor, finalmente, é reconhecido, não no palco, não na tela, mas na emoção que compartilha com todos. Ele percebe que sustentou uma história que se tornou parte de tantas outras histórias. E assim, o filme honra não apenas o astro, mas o operário anônimo que fez possível a trajetória do astro.
No fim, o filme Jay Kelly não fala sobre fama, carreira, arte ou legado de maneira óbvia. Ele revela que a vida não precisa ter coerência para ter valor, que o ator não precisa viver intensamente para que sua arte seja intensa, que o empresário não precisa brilhar para que sua existência ilumine o caminho do outro, e que o público, ao amar o personagem, também salva o sujeito que se escondia atrás dele.
A jornada do personagem, ao longo do filme, é de tentar se redimir com as vidas que ele pensava ter deixado de lado, quando, na realidade, ele esteve mais presente do que poderia jamais supor.
O filme termina com Clooney, mas nos atinge como se terminasse conosco. Inevitavelmente, somos levados a pensar sobre nossos próprios legados, nossos afetos, nossas máscaras. Somos todos, em algum grau, intérpretes diante do mundo e talvez, como Jay, passemos boa parte da vida acreditando que nossa jornada é vazia, sem perceber que nossas pequenas presenças provocam emoções que nunca saberemos medir.
O que o filme parece nos ensinar é simples: não se vive para ser lembrado, mas para provocar alguma vibração no mundo. Existir é alcançar alguém. Mesmo que seja na pele de outro. E, às vezes, só percebemos isso quando quase já não há tempo para descobrir quem éramos.
Aí resta para nós a nostalgia do que foi. Ou até, de quem fomos. E a lembrança não nos pertence, mas de quem alcançamos, enquanto existimos...

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