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O SOBREVIVENTE (2025) - FILM REVIEW

Stephen King publicou The Running Man em 1982, ainda sob o pseudônimo Richard Bachman, imaginando um futuro distópico em que a desigualdade econômica e o colapso social empurravam pessoas comuns para formas extremas de sobrevivência. No centro dessa narrativa estava Ben Richards, um homem marcado pela pobreza, pela urgência de conseguir dinheiro para tratar a filha doente e pela sensação de que o sistema havia sido projetado para esmagar indivíduos como ele.

O romance constrói sua crítica por meio da dramaturgia de um game show que transforma seres humanos em presas televisionadas. A violência não é gratuita: ela funciona como espelho da fome por entretenimento, da perversidade institucionalizada e da transformação da vida humana em mercadoria. O tom do livro é árido, pessimista e politicamente incisivo; King estrutura a história como uma espiral de tensão crescente, conduzida por um protagonista fisicamente frágil, porém emocionalmente determinado, que navega entre o desespero e a resistência.

Quando o romance foi adaptado pela primeira vez em 1987, em um filme estrelado por Arnold Schwarzenegger, a abordagem mudou radicalmente. A produção de então incorporou apenas a premissa original, um programa televisivo mortal no qual um homem é caçado, e substituiu todo o restante por um espetáculo de ação típico da década. O Ben Richards literário deu lugar a um herói musculoso, quase invencível, envolvido em coreografias de luta e confrontos estilizados que tinham pouca ligação com o clima de miséria e crítica social do romance. 

O universo opressivo e sujo do livro foi adaptado para um cenário futurista mais colorido, em que antagonistas caricatos disputavam a tela com efeitos especiais que privilegiavam humor involuntário e entretenimento direto. Embora o filme de 1987 tenha se tornado um produto cultural marcante de sua época, sua relação com a obra de King permaneceu superficial: tratava-se menos de uma adaptação e mais de uma reinvenção livre da premissa central.

Quase quarenta anos depois, a adaptação de 2025 surge com a proposta de reposicionar o material literário dentro de uma moldura contemporânea. Dirigido por Edgar Wright e estrelado por Glen Powell, o novo filme procura reaproximar o núcleo temático concebido por King do debate atual sobre mídia, tecnologia e consumo de violência. 

Em vez de replicar apenas a ação, Wright toma como ponto de partida o espírito crítico do romance: a ideia de um sistema de entretenimento que devora indivíduos e molda percepções públicas, ampliada agora para um ecossistema digital em que transmissões em tempo real, viralização e algoritmos definem o que vale a atenção coletiva. O resultado é um thriller que combina a dureza distópica da fonte literária com a linguagem audiovisual energética do cineasta.

A caracterização de Ben Richards exemplifica esse deslocamento. No romance, ele é descrito como um homem comum, desgastado pela pobreza e pela falta de oportunidades. Já no filme de 1987, Richards se transforma em uma figura icônica de ação. A versão de 2025 tenta equilibrar essas leituras: Glen Powell interpreta um protagonista mais complexo, com vulnerabilidade emocional e senso de urgência humana que remetem ao romance, mas sem abrir mão do carisma e da fisicalidade necessários a um filme de grande público. O Richards de 2025 não é um super-herói; é alguém que tenta sobreviver a uma engrenagem midiática que o consome, consciente tanto da injustiça estrutural quanto do papel simbólico que lhe é imposto.

A ambientação também ganha contornos novos. King imaginou seu futuro sombrio como uma extrapolação das tensões econômicas do início dos anos 1980, enquanto o filme de 1987 tratou o cenário futurista mais como adereço estilizado do que como estrutura narrativa. Em 2025, a distopia toma forma por meio da estética digital contemporânea: telas, transmissões, feeds, comentários instantâneos e métricas de engajamento que definem o destino dos participantes. 

A violência permanece presente, mas é enquadrada de forma a questionar o espetáculo, não a glorificá-lo. Em vez de uma sucessão de confrontos puramente físicos, a narrativa enfatiza como o sistema manipula percepções, distorce narrativas pessoais e alimenta a audiência com doses calculadas de indignação, choque e entretenimento.

O elenco ampliado da nova adaptação contribui para construir um universo mais robusto. A presença de atores conhecidos dá corpo à maquinaria midiática do próprio programa, criando apresentadores, produtores, executivos e personalidades influenciadoras que representam diferentes camadas da indústria do espetáculo. 

Esse conjunto de personagens reforça a intenção do filme de satirizar o ecossistema de entretenimento sem perder de vista a ação e a tensão dramática. Enquanto o filme de 1987 tratava seus antagonistas como figuras exageradas e quase cartunescas, a versão de 2025 os apresenta como agentes de um sistema que se pretende realista, familiar ao público contemporâneo e, justamente por isso, mais perturbador.

A direção de Edgar Wright imprime outro diferencial marcante. Seu estilo, conhecido por montagem rítmica, humor irônico e domínio preciso do tempo cinematográfico, injeta energia e modernidade na história. Embora a adaptação não se torne uma comédia, há um uso deliberado do humor como ferramenta de crítica, uma estratégia que permite ao filme navegar entre tensão, estranhamento e comentário social. Essa assinatura estilística funciona como ponte entre o material literário, mais sombrio, e a necessidade de criar um produto cinematográfico acessível e envolvente.

Assim, a adaptação de 2025 se posiciona como uma síntese: acolhe a crítica política, a gravidade moral e a dureza emocional do romance de King, mas as entrega dentro de uma estética audiovisual contemporânea que dialoga com a cultura de mídia atual. Diferencia-se da versão de 1987 justamente por reintroduzir densidade temática, sem perder o senso de espetáculo necessário a um filme de grande alcance. 

O resultado é uma releitura moderna que preserva o espírito distópico do livro e, ao mesmo tempo, imprime uma identidade própria, alinhada à sensibilidade de seu diretor e às inquietações culturais de nosso tempo.

Batalha em campo aberto

Se a primeira metade da obra de 2025 se dedica a reposicionar o universo de Stephen King dentro da moldura tecnológica contemporânea, a outra metade se empenha em mostrar como esse universo se desdobra quando o jogo realmente começa. A narrativa acompanha Ben Richards à medida que ele se torna, simultaneamente, protagonista e refém de um espetáculo que alimenta uma audiência nacional. 

O filme estrutura essa trajetória com um senso de progressão dramática que não depende apenas das perseguições físicas, mas da revelação gradual do funcionamento interno do programa. Caminhando por cenários urbanos que misturam degradação e hiperexposição, Richards se depara com corredores, zonas de exclusão, bolsões de pobreza e espaços controlados por patrocinadores, nos quais cada movimento é registrado, enquadrado e monetizado. Essa lógica transforma a própria geografia do filme em uma extensão da crítica social: a cidade é um imenso estúdio, e o cidadão comum, um extra descartável.

O programa não é apenas um jogo violento, mas uma indústria com cadeia produtiva, metas de rentabilidade e estratégias de marketing que se sobrepõem à dignidade humana. Esse tratamento se conecta de modo especialmente interessante com outra adaptação recente de Stephen King, lançada no mesmo ano: A Longa Marcha, dirigida por Francis Lawrence. Ainda que sejam histórias distintas, ambas exploram como a sociedade transforma o sofrimento humano em entretenimento ritualizado. 

Em A Longa Marcha, jovens concorrentes marcham até a exaustão sob os olhos de espectadores hipnotizados pelo sacrifício progressivo; no filme de Wright, o espetáculo é mais tecnológico, mais ruidoso, mas igualmente centrado na banalização da morte. Essa coincidência temática ressalta como a obra de King, escrita décadas antes da explosão da cultura digital, permanece atual e talvez mais relevante na medida em que a realidade contemporânea se aproxima da ficção distópica.

No caso de O Sobrevivente de 2025, essa crítica à banalização da vida é apresentada com nuances visuais e narrativas bem calculadas. O filme mostra que a audiência se acostumou a consumir violência como se fosse uma commodity; cada momento de perigo para Richards é imediatamente comentado, remixado e compartilhado por espectadores empolgados, influenciadores oportunistas e comentaristas especializados. 

A morte, quando ocorre, assume uma dimensão de espetáculo, cercada por gráficos, estímulos sonoros e slogans publicitários. A lógica de performance domina tudo: até a resistência de Richards é interpretada como um produto, um diferencial de marketing, um elemento que amplia o engajamento. Essa abordagem aproxima a narrativa de reflexões mais amplas sobre moralidade pública, saturação midiática e indiferença coletiva.

A forma como Wright articula essas dimensões se reflete na recepção crítica da obra. Desde sua estreia, o filme foi analisado como uma das adaptações mais conscientes do catálogo de King, não porque reproduz fielmente o texto literário, mas porque compreende o que existe de estrutural em suas críticas. 

A montagem recebeu particular atenção, elogiada pela forma como alterna ritmo acelerado com momentos de suspensão emocional, criando um balanço entre ação, satírica e inquietação moral. Glen Powell, por sua vez, foi apontado como uma das escolhas de elenco mais bem-sucedidas do ano, equilibrando presença física e profundidade dramática com fluidez.

Do ponto de vista comercial, o filme se beneficiou de ampla curiosidade pública. A combinação entre o prestígio do nome de Stephen King, o histórico criativo de Edgar Wright e o debate crescente sobre o papel da mídia na sociedade contemporânea contribuiu para uma bilheteria sólida. O marketing explorou intensamente a atmosfera do filme, com campanhas que mimetizavam transmissões ao vivo e simulavam interações de audiência, reforçando o tom satírico da própria narrativa. 

Esse alinhamento entre estratégia promocional e crítica interna fortaleceu a identidade do produto e ampliou seu alcance. Embora não tenha se posicionado como um blockbuster estritamente convencional, o filme encontrou seu espaço como um thriller distópico. Ao articular espetáculo, crítica social e reflexão sobre a violência como entretenimento, o filme se projeta não apenas como uma atualização da premissa, mas como um comentário incisivo sobre o modo como consumimos mídia e participamos coletivamente da construção de narrativas que, muitas vezes, dependem da dor e da destruição de outros. É nesse equilíbrio entre denúncia e espetáculo que a obra encontra sua força.

Kingverso da Loucura

Em última instância, o filme dialoga muito com The Most Dangerous Game, conto de Richard Connell, principalmente quando as adaptações cinematográficas são na cidade, com o personagem, basicamente, sendo um "running man". Outro paralelo é com um filme recente de Powell.  Edgar Wright disse a Stephen King para assistir Assassino por Acaso (2023) para convencê-lo de que Glen Powell era a escolha certa para interpretar Ben Richards. E no filme O Sobrevivente, ele se disfarça de uma maneira semelhante ao seu personagem do filme de Richard Linklater.

Quando Ben começa a "correr" e, mais tarde, quando pega um táxi, há um bar/restaurante chamado Bachman's ao fundo. King usou o pseudônimo Richard Bachman. Uma placa com os dizeres "Tabby's" é visível na rua quando Richards está vestido de padre. Isso é uma referência a Tabitha King, esposa de Stephen King.

Em uma das primeiras cenas, uma caixa de fósforos traz a inscrição: "Garagem do Darnell", um local do livro "Christine", escrito por King. Ben se esconde em uma casa com o número 1708, uma referência à história de Stephen sobre um quarto de hotel assombrado, "1408". No final do filme, há uma placa indicando Derry, Maine, local importante nas histórias de King, principalmente em "It".

O Sobrevivente é um bom filme. Mas é também uma demonstração prática de que fidelidade à história original não garante algo memorável. Neste ponto, aproveitando que Longa marcha foi lançado apenas dois meses antes, descobrimos que é melhor ir devagar e sempre do que correr...

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