PECADORES (2025) - FILM REVIEW
Pecadores e o estudo sobre a apropriação cultural através do vampirismo.
É provável que vá ao cinema assistir Pecadores só pelo hype, ou por ser um recomendável filme de vampiros. E talvez ate se surpreenda com a semelhança brutal entre ele e Um Drink no Inferno, clássico noventista com Tarantino, Clooney e Cia. Na realidade, o diretor até confessou que o filme de Robert Rodriguez foi seu pilar.
Mas não se engane. Ryan Coogler é outro patamar, capaz de tornar um filme de herói no Pantera negra. Em Pecadores, há camadas, das visíveis, como as cores contrastantes das roupas dos irmãos, às quase invisíveis, como a razão do vampiro ser irlandês. É um filme para ser degustado, digerido, revisto, estudado.
E é exatamente o que vou fazer aqui: estudá-lo, enquanto reviso, pois já degustei e digeri.
Fé demais não cheira bem
Pecadores começa e termina na igreja (espero que tenha tido paciência de assistir as duas cenas pós-créditos). A presença da religião estrutura a percepção de mundo dos personagens e organiza a dinâmica social da comunidade retratada. Desde a cena inicial, quando Sammie, visivelmente machucado e segurando seu violão, interrompe o sermão conduzido por seu pai em uma pequena igreja, o filme estabelece de forma contundente o eixo central de seu conflito: a tensão entre fé institucionalizada e expressão individual.
O personagem do pai, um pregador rigoroso, materializa o embate geracional entre uma moralidade calcada na obediência religiosa e o desejo de autonomia criativa, sobretudo entre os mais jovens. Nesse contexto, o cristianismo funciona simultaneamente como espaço de acolhimento e instrumento de repressão. A própria trajetória de Sammie evidencia essa ambiguidade, sua música é constantemente associada ao pecado, quando não diretamente ao demoníaco, revelando como a religiosidade pode operar tanto como suporte quanto como mecanismo de controle social e subjetivo.
Contudo, o filme se distancia de leituras simplistas, especialmente daquelas comuns no cinema de horror, que costumam posicionar a religião cristã como barreira definitiva contra o sobrenatural. Pecadores problematiza esse tropeço narrativo ao apresentar vampiros que recitam orações e fazem o sinal da cruz sem sofrer qualquer consequência. Tal escolha narrativa sublinha uma crítica clara: rituais desprovidos de convicção são inócuos.
A eficácia da fé surge apenas quando ela é vivida de forma autêntica e relacional. Esse princípio se concretiza na figura de um caçador de vampiros indígena, que combina elementos do cristianismo com práticas espirituais ancestrais, produzindo um campo simbólico que não só é eficaz contra o mal, como também ilustra a lógica do sincretismo religioso característico das comunidades pretas do sul dos Estados Unidos.
A leitura que o filme oferece da religião, portanto, é profundamente ambígua. A fé não aparece nem como solução mágica nem como fonte exclusiva de opressão, mas como uma força que, dependendo de como é mobilizada, pode tanto curar quanto ferir, tanto libertar quanto aprisionar. Essa abordagem reflete de maneira sofisticada as contradições presentes na vivência religiosa afro-americana, onde a espiritualidade tem sido, historicamente, tanto um refúgio contra as violências estruturais quanto um campo de disputa simbólica e política.
O Pecado mora ao lado
No universo de Pecadores, o Mississippi não se limita a servir como cenário físico, mas atua como um marcador simbólico de memória coletiva, trauma histórico e resistência da população preta. A serraria adquirida pelos irmãos Smoke e Stack, centro das ações no filme, concentra em si um passado profundamente violento. O local, que anteriormente funcionou como matadouro da KKK durante o auge da supremacia branca, carrega marcas materiais e simbólicas desse legado.
O sangue impregnado no chão opera como um signo persistente do trauma intergeracional, reaparecendo visual e narrativamente como uma constante que impede qualquer tentativa de apagar o passado. Esse espaço, carregado de violência histórica, é ressignificado pelos irmãos ao ser transformado em uma juke joint, espaço culturalmente significativo para a comunidade preta, associado à celebração, à música e à afirmação identitária.
No entanto, essa tentativa de reapropriação não elimina as marcas do passado. A mancha permanece, funcionando como metáfora da permanência dos efeitos do racismo estrutural e da dificuldade em dissociar progresso comunitário de um passado que insiste em se fazer presente.
Ao vincular elementos sobrenaturais, como o vampirismo, a uma paisagem social marcada pela segregação racial, pela exploração econômica e pela constante ameaça de violência (materializada, entre outros, na presença da Ku Klux Klan e dos latifundiários brancos), Pecadores estabelece uma interseção contundente entre horror fantástico e horror histórico.
A ameaça dos vampiros não é apenas literal, mas profundamente alegórica, funcionando como extensão metafórica das forças que historicamente exploram, sugam e desumanizam corpos pretos.
O próprio Juke Joint assume, assim, uma função que transcende sua materialidade: torna-se um território de disputa simbólica, onde se decide não apenas a sobrevivência física dos personagens, mas a preservação de sua cultura, de sua autonomia e de sua memória coletiva.
O embate contra os vampiros explicita um dilema recorrente nas narrativas sobre resistência preta: submeter-se, adaptar-se às lógicas opressoras, ou enfrentar a destruição como preço da afirmação cultural. Nesse sentido, o filme ativa discussões sobre os riscos da assimilação, a mercantilização da cultura preta e as tensões constantes entre preservação identitária e forças externas de apagamento.
Dizem que é pecado
No filme, a música não é apenas um elemento estético, mas emerge como um dispositivo narrativo central, operando simultaneamente como instrumento de resistência e locus de vulnerabilidade. A guitarra de Sammie, cuja origem remete à figura mítica de Charley Patton, uma das maiores referências do blues, transcende sua função de objeto material, assumindo propriedades quase xamânicas.
Ela atua como catalisadora de processos espirituais, capaz de evocar presenças ancestrais, de operar curas e de estabelecer pontes simbólicas entre os mundos dos vivos e dos mortos. A trilha sonora, ancorada no blues e carregada de ressonâncias históricas, não apenas ambienta a narrativa, mas afirma a música como um arquivo vivo de memória coletiva e resistência cultural.
Isso se torna particularmente evidente em uma das cenas mais potentes do filme, quando a performance de Sammie convoca uma banda espectral composta por músicos de diferentes gerações, transformando o espaço da Juke Joint em um território de comunhão intergeracional e espiritual (a cena em questão, terminando com uma visual libertação, está entre as imagens mais belas e importantes do cinema).
Contudo, Pecadores não romantiza esse poder. Ao contrário, o filme evidencia como a própria força simbólica da música preta também atrai formas predatórias de exploração. A presença dos vampiros na Juke Joint não é motivada unicamente pela busca de sangue, mas pela energia vital, quase mística, que emana do blues.
Essa configuração funciona como uma metáfora sofisticada para os processos históricos de apropriação cultural, nos quais a criatividade negra é sistematicamente extraída, comercializada e esvaziada por agentes externos.
Nesse sentido, a obra aciona diretamente o imaginário do pacto na encruzilhada, um mito profundamente enraizado na cultura do blues, reinterpretando-o não como uma narrativa de condenação individual, mas como uma alegoria das negociações forçadas que artistas pretos historicamente precisaram realizar para sobreviver em sistemas que lucram com sua produção simbólica, ao mesmo tempo que lhes negam agência, autoria e direitos.
Assim, a música do filme se estabelece como um campo profundamente ambíguo. Ela é, simultaneamente, uma tecnologia de empoderamento e um vetor de exposição à exploração. Essa ambivalência reflete, de maneira incisiva, as contradições inerentes à experiência cultural preta em contextos marcados por dinâmicas coloniais, raciais e capitalistas.
Pecado original
Os personagens são construídos como representações vivas das tensões entre sobrevivência, resistência e assimilação. Sammie, protagonista da narrativa, encarna a intersecção entre trauma e resiliência. Suas cicatrizes corporais, reveladas em um momento decisivo do filme, não operam apenas como vestígios da violência racial, mas como inscrições visíveis de uma história coletiva de dor e, simultaneamente, como marcas da persistência e da recusa em sucumbir.
Smoke e Stack, interpretados por Michael B. Jordan em um exercício simbólico de duplicidade, funcionam como personificações das respostas divergentes ao sistema opressor. Smoke representa a defesa intransigente da comunidade e de sua integridade cultural.
Stack, por sua vez, assume uma postura mais ambígua, flertando com a promessa da imortalidade oferecida pelos vampiros, metáfora potente para as seduções da assimilação e do abandono de raízes em troca de poder e segurança. O conflito entre eles reflete não apenas uma disputa fraternal, mas um debate interno da própria diáspora negra sobre os custos da sobrevivência em sistemas hostis.
Annie desempenha um papel crucial ao introduzir uma dimensão espiritual que escapa às dicotomias impostas pela colonização. Como praticante de saberes ancestrais, que combinam elementos da magia popular, da fitoterapia e do cristianismo reinterpretado, ela não apenas oferece resistência simbólica, mas propõe uma epistemologia alternativa.
Seu sacrifício final, recusar a imortalidade vampírica é menos um ato de morte e mais uma afirmação radical de agência e de rejeição aos sistemas que tentam capturar corpos e almas pretas.
Já Cornbread, arquétipo do protetor comunitário, incorpora a força silenciosa e a lealdade cotidiana que frequentemente permanece invisível nas narrativas heroicas tradicionais. Sua trajetória, sobretudo quando é convertido em vampiro, funciona como advertência sobre como até os mais sólidos podem ser capturados por dinâmicas destrutivas quando as fronteiras da vigilância e da autodeterminação são corroídas.
O casal Bo e Grace, donos do mercado local, expande a análise do filme ao incluir a experiência de outras comunidades marginalizadas no Sul dos Estados Unidos. A decisão trágica de Grace abrir as portas para os vampiros movida pelo desespero de proteger a filha revela as zonas cinzentas da sobrevivência sob opressão. Sua morte brutal simboliza os custos, não apenas da resistência, mas também das negociações forçadas que grupos racializados muitas vezes enfrentam.
Delta Slim surge como uma figura liminar ao mesmo tempo guardião da memória e homem à deriva. Seu corpo e sua música são depositários das dores e dos saberes do Delta. Seu ato final, sacrificando-se para garantir a continuidade dos mais jovens, funciona como ritual de passagem e transmissão intergeracional, reafirmando a ideia de que a preservação cultural muitas vezes se sustenta em perdas irreparáveis.
Mary, mulher mestiça ligada afetivamente a Stack, representa uma camada adicional das tensões identitárias. Sua trajetória espelha os dilemas de quem ocupa espaços fronteiriços dentro de sistemas racializados. O desejo de pertencimento, cruzado com o risco da assimilação, aqui simbolizado pela atração pelo mundo vampírico, constrói um arco narrativo que reflete os dilemas de navegar entre múltiplas identidades dentro de estruturas rigidamente excludentes.
Até mesmo Remmick, líder dos vampiros, é construído não como vilão unidimensional, mas como alegoria sofisticada das forças que tornam a assimilação sedutora. Seu carisma e sua retórica refletem os mecanismos históricos através dos quais os sistemas coloniais e capitalistas capturam sujeitos, prometendo segurança, poder e permanência, à custa da entrega de autonomia, cultura e memória.
Cada cicatriz, cada perda e cada ato de afirmação torna-se parte de um mosaico que evidencia que a luta pela preservação cultural e pela autonomia exige, continuamente, vigilância, solidariedade e sacrifício.
Os vampiros transcendem a função tradicional de antagonistas sobrenaturais, operando como metáforas densas das dinâmicas históricas de colonização, exploração econômica e apropriação cultural. A imortalidade que oferecem carrega, na verdade, o preço da desconexão: viver para sempre, mas alienado da própria história, da comunidade e das raízes.
Particularmente significativa é a maneira como o filme mobiliza o conceito do convite, regra clássica do folclore vampírico, segundo a qual essas criaturas não podem atravessar uma porta sem permissão. Dentro da narrativa, esse detalhe se torna um poderoso marcador simbólico.
A Juke Joint, espaço de resistência cultural e coletiva, permanece protegida enquanto os membros da comunidade mantêm seus limites claros. No entanto, no momento em que, por medo, desespero ou sedução, alguém cede e concede acesso, o colapso se torna imediato e irreversível.
Ao aceitar os termos do opressor, mesmo que temporariamente sedutores, os sujeitos se tornam, muitas vezes, agentes involuntários da destruição de seus próprios espaços culturais. É um comentário incisivo sobre como o próprio desejo de escapar da opressão pode, se canalizado por vias assimétricas, levar à perpetuação da própria dominação.
Ao recusar uma visão maniqueísta do vampirismo, o filme oferece uma reflexão mais complexa sobre o que significa resistir, negociar ou ceder frente às forças da exploração sistêmica. O filme articula um alerta: os pactos feitos em nome da sobrevivência podem, paradoxalmente, comprometer aquilo que se busca preservar a cultura, a comunidade e a própria alma.
Como eu disse, é um filme para ser degustado, digerido, revisto, estudado.
Obra-prima. E seria um pecado não entender o filme que ele é. Mas se pensarmos bem, somos todos pecadores.
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