STRANGER THINGS: ANÁLISE DO SUBTEXTO QUEER
A leitura de Stranger Things como uma narrativa que sugere, em subtexto, que Will Byers e Eleven são duas manifestações de uma mesma pessoa não apenas é possível como encontra sustentação simbólica consistente ao longo da série, especialmente nas duas primeiras temporadas. Não se trata de afirmar que a obra “esconde” literalmente essa identidade dupla, mas de reconhecer que a linguagem do fantástico, do horror e da ficção científica é usada para dramatizar conflitos internos ligados à identidade, à sexualidade e ao sentimento de não pertencimento. Nesse sentido, Stranger Things opera como uma fábula sobre subjetividade fragmentada e Will e Eleven surgem como seus polos complementares.
O ponto de partida dessa leitura é profundamente significativo: Will desaparece enquanto joga Dungeons & Dragons, um jogo baseado em imaginação, mundos paralelos e identidades projetadas. A série faz questão de associar Will, desde o primeiro episódio, à sensibilidade, à fantasia e à criação simbólica. Seu sumiço não ocorre num espaço qualquer, mas no limiar entre o real e o imaginado. Imediatamente após sua ausência, Eleven surge. A montagem da narrativa sugere não apenas uma substituição dramática, mas uma espécie de deslocamento de presença: quando Will some, Eleven aparece. Como se algo tivesse mudado de forma, não de essência.
Essa ideia ganha força quando observamos a primeira imagem de Eleven na clínica. Ela é colocada num quarto fechado, isolada, pedindo socorro ao “pai”. É uma cena de confinamento e controle, marcada por violência simbólica e silêncio forçado, imagens que ecoam fortemente o que o “armário” representa na experiência queer. O Mundo Invertido, desde sua concepção visual, funciona como um espaço liminar: igual ao mundo real, mas distorcido, escuro, tomado por uma matéria orgânica que sufoca e vigia. É um mundo reconhecível, mas hostil. Um lugar onde se vive escondido, em constante alerta. Exatamente o espaço psíquico que a série associa a Will.
Eleven, ou melhor, 11, entre os principais significados da numerologia, está sinalizar um chamado para o autoconhecimento e o desenvolvimento espiritual, um portal para novas possibilidades e para o propósito da alma.
A sexualidade de Will não é apenas sugerida, mas sistematicamente inscrita na narrativa por meio de humilhações, silêncios e deslocamentos. O comentário dos bullies — “ele deve ter sido morto por outra bicha” — surge cedo demais para ser gratuito. A série planta essa violência verbal como um marcador identitário antes mesmo de Will poder se afirmar. Em contraste direto, nesse mesmo momento, Lucas diz a Mike que ele está apaixonado por Eleven. A justaposição não é acidental: o desejo heterossexual pode ser declarado, nomeado, discutido; o desejo de Will só pode existir como insulto ou ausência.
Mike ocupa um papel central nesse espelhamento. Ele é o primeiro a se aproximar de Eleven com empatia, cuidado e acolhimento — exatamente no momento em que Will está ausente. Mike ama Eleven, mas esse amor é construído sobre gestos que antes pertenciam à amizade com Will: o cuidado, a proteção, a escuta. Quando Will “morre” simbolicamente, é através de Eleven que ele fala com Mike. Essa mediação é crucial: Eleven funciona como canal de expressão de algo que Will, naquele estágio, não consegue verbalizar. Ela age, fala e reage onde Will permanece silenciado.
A cena da escola em que um garoto chama Will de gay explicita essa dinâmica de forma quase didática. Mike reage verbalmente, defendendo Will (que não estava presente). Eleven reage fisicamente, usando seus poderes. São duas respostas complementares ao mesmo ataque, como se partissem de um mesmo núcleo emocional, mas expressas por corpos distintos. A série constrói esse paralelismo sem nunca precisar verbalizá-lo.
O falso corpo encontrado de Will aprofunda essa leitura. O “Will morto” é um simulacro, um eco — uma versão aceitável para o mundo exterior. O verdadeiro Will está no Mundo Invertido, um espaço que só ele conhece plenamente. É um mundo que existe em relação direta com sua subjetividade, com sua experiência interna. Quando Nancy e Jonathan veem o veado sendo arrastado e morto ao atravessar o portal, a imagem funciona como metáfora brutal da violência que esse trânsito impõe: cruzar entre mundos não é neutro, é traumático.
O Demogorgon, nesse contexto, deixa de ser apenas um monstro externo e passa a funcionar como uma ponte simbólica entre Will e Eleven. Ele transita entre mundos, rompe fronteiras, conecta espaços que deveriam permanecer separados. Não é à toa que Eleven é quem o enfrenta, e que sua destruição coincide com o reaparecimento de Will. Quando Eleven desaparece ao destruir o Demogorgon, Will retorna. A narrativa sugere que ambos não podem coexistir plenamente no mesmo espaço ao mesmo tempo. Quando uma parte se manifesta, a outra precisa se recolher.
Visualmente, essa leitura é reforçada de maneira sutil, mas persistente. Mike se declara para Eleven quando ela ainda tem cabelo curto, roupas largas, uma aparência andrógina que ecoa o corpo infantil de Will. Ela ainda não performa plenamente o feminino; ela está em transição. Já Will, ao longo da série, torna-se cada vez mais sensível, expressivo, vulnerável emocionalmente. A segunda temporada acentua esse deslocamento: Eleven se veste e se comporta como menino enquanto Will se fragiliza, chora, sente, reage com intensidade quase corporal às forças do Mundo Invertido. É como se a energia masculina e feminina circulasse entre eles.
O resgate final de Will pela mãe é um detalhe fundamental. Joyce é a única adulta que acredita, que escuta sinais invisíveis, que aceita a existência de um outro mundo. Ela atravessa o limiar para trazer o filho de volta. Em termos simbólicos, é o acolhimento materno que permite a reintegração do eu fragmentado.
Quando avançamos para temporadas posteriores, essa leitura não desaparece, mas se transforma. Vecna, especialmente na quarta temporada, funciona como uma figura de pregador ou inquisidor: ele faz lavagem cerebral, aprisiona crianças em traumas, congela seus “eus” em estados de culpa e medo. É a personificação da violência normativa que captura subjetividades dissidentes. Se Will e Eleven são duas partes de um mesmo ser, Vecna é a força que tenta esmagar essa complexidade, impondo um único modo de existir.
Assim, lida como subtexto, Stranger Things propõe algo profundamente melancólico e poderoso: Eleven seria a parte feminina, potente e visível desse sujeito fragmentado; Will, a parte sensível, escondida, colocada no Mundo Invertido quando não pode existir à luz do dia. O “armário” não é apenas um espaço social, mas um mundo inteiro. E a série sugere, com insistência poética, que, enquanto uma parte luta para existir no mundo real, a outra paga o preço do exílio.
Não é uma tese literal, nem uma chave definitiva de interpretação. Mas, como todo grande subtexto, ela não precisa ser confirmada para ser verdadeira. Ela funciona porque organiza símbolos, gestos, ausências e retornos em torno de uma mesma dor: a de não poder ser inteiro.
No episódio final da quinta temporada, o sacrifício de Eleven não funciona como morte, mas como retorno ao silêncio. Desde o primeiro capítulo, Stranger Things nos ensinou que desaparecer é sua forma mais íntima de falar sobre identidade: Will some quando a imaginação se abre, e Eleven surge como aquilo que não podia ser dito. Quando Will finalmente sai do armário e o Mundo Invertido se desfaz, não se trata de uma vitória plena, mas de um gesto possível dentro de um espaço ainda limitado. O mundo que o perseguiu continua exigindo que certas partes permaneçam invisíveis.
Por isso, Eleven precisa parecer morta. Sua ausência é o preço simbólico da permanência de Will no mundo real. No entanto, a série se recusa a encerrar essa história como aniquilação. Eleven não deixa de existir; ela apenas se desloca. Torna-se memória, afeto, linguagem íntima. Ela sobrevive em Mike, que a amou desde o início — não apenas como garota, mas como aquilo que Will sempre foi e não pôde nomear. Assim, Stranger Things termina como começou: não com a reconciliação total do eu, mas com a certeza melancólica de que algumas identidades só podem existir plenamente quando aprendem a habitar o outro.


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