ÀS VEZES ELES VOLTAM (1991) - FILM REVIEW
Às Vezes Eles Voltam: Sombras, Fantasmas e Memória
Às Vezes Eles Voltam, adaptação televisiva de 1991 baseada no conto homônimo de Stephen King, é o encontro entre trauma e fantasia, e se apoia na fronteira tênue entre o real e o sobrenatural para narrar histórias que, no fundo, falam sobre aquilo que mais tememos: o retorno do passado.
Não é apenas um filme de fantasmas, nem apenas um thriller sobrenatural; é uma obra que tenta compreender como a memória pode aprisionar, deformar e, em casos extremos, ressuscitar aquilo que deveria permanecer enterrado. Revisitar essa produção é revisitar também o espírito das primeiras adaptações de King, com seus horrores compactos, seus vilões icônicos e suas paisagens melancólicas onde o passado insiste em abrir caminho entre os vivos.
A história acompanha Jim Norman, interpretado por Tim Matheson, um professor que retorna à sua cidade natal após 27 anos, acompanhado da esposa, Sally, e do filho, Scott. Essa volta involuntária, motivada por falta de oportunidades em Chicago, é o ponto de partida de um reencontro doloroso com a infância. Jim carrega consigo o trauma de ter testemunhado o assassinato brutal de seu irmão mais velho, Wayne, morto por uma gangue de adolescentes violentos.
Logo após o crime, os assassinos também morreram em um acidente — um equilíbrio quase poético, como se o universo tentasse acertar suas contas. No entanto, quando os alunos de Jim começam a morrer misteriosamente e, em seguida, serem substituídos pelos mesmos greasers que mataram Wayne, o passado rompe definitivamente a barreira entre memória e realidade, como se um túnel invisível se abrisse entre os mundos.
É significativo que Jim seja o único capaz de perceber essa distorção sobrenatural, pois sua mente é um terreno fértil para assombrações. A culpa que ele carrega, a dor nunca resolvida, os anos de repressão emocional: tudo isso cria um clima de dúvida permanente, tanto para os personagens quanto para o espectador. Sally, sua esposa, não acredita em suas suspeitas, achando que ele sofre de algum colapso nervoso.
O isolamento psicológico de Jim aumenta, tornando-o uma figura fragilizada e à beira do desespero. À medida que a gangue demoníaca assume a sala de aula e elimina seus estudantes um por um, Jim percebe que precisa enfrentar literalmente os fantasmas da própria infância — e talvez, ao fazê-lo, reencontrar Wayne de uma maneira que finalmente lhe permita fechar aquele ciclo.
O filme traz fortes ressonâncias com Conta Comigo, outra adaptação de King que explora memórias infantis marcadas por violência e amizade. Há elementos similares: o trem como símbolo de morte iminente, a presença de um narrador que costura passado e presente, os greasers como antagonistas juvenis emblemáticos do universo kinguiano. No entanto, Às Vezes Eles Voltam vai além da mera revisitação nostálgica; ele lida com a morte como força ativa e inevitável, que se impõe sobre os vivos não apenas como ausência, mas como culpa.
A morte, nesse caso, é fio condutor, motor da narrativa e elemento transformador. Tudo no filme aponta para o fato de que Jim jamais conseguiu lidar com o que viu. E quando finalmente retorna ao cenário original do trauma, ele se vê preso em um ciclo de lembranças que ganham corpo e voz, repetindo-se até que o enfrentamento se torne incontornável.
A trama, embora simples, ganha densidade graças aos ecos da literatura. O conto original foi publicado por Stephen King em março de 1974 na revista Cavalier, e mais tarde incluído na antologia Sombras da Noite (Night Shift), de 1978. Parte do charme dessa narrativa está justamente na concisão: King sabia extrair o máximo de tensão e significado em poucas páginas, e isso se reflete no filme, embora nem sempre de maneira equilibrada.
Dirigido por Tom McLoughlin — que também comandou Sexta-Feira 13: Parte VI, um dos capítulos mais queridos da franquia — o longa carrega a assinatura de alguém que conhece profundamente o gênero e é apaixonado por histórias de fantasmas. O próprio McLoughlin, em uma conversa que tive com ele posteriormente, admitiu ter estudado fenômenos paranormais, poltergeists e eventos psíquicos, algo que influencia a sensibilidade com que ele aborda o sobrenatural.
Em suas mãos, os greasers não são apenas antagonistas violentos; são espíritos presos, incompletos, movidos pela vingança como tentativa distorcida de paz — uma ideia que remete a produções como Evocando Espíritos, onde o horror visual mascara pedidos de ajuda vindos do além.
O túnel, símbolo recorrente no filme, funciona como metáfora dessa passagem instável entre vida e morte, entre o que foi e o que insiste em continuar sendo. É um espaço de transição, mas também de aprisionamento. A cada retorno àquele ambiente, Jim é puxado mais fundo para dentro de sua própria mente, como se fosse impossível escapar do fluxo circular de lembranças traumáticas. O diretor parece convidar o espectador a compartilhar desse loop temporal, insistindo em repetir a cena do assassinato de Wayne, quase como um mantra sombrio que recusa esquecimento.
Outro aspecto interessante é a maneira como o filme trabalha a sanidade do protagonista. Jim começa como um homem racional, disciplinado, tentando reconstruir a vida. Mas os eventos que se acumulam — os alunos mortos, os greasers materializados, as visões súbitas — corroem sua estabilidade mental. O espectador percebe seu declínio, mas também compreende que ele não está completamente à mercê de delírios.
Há algo de real, algo de concreto naquela manifestação sobrenatural, e o terror genuíno nasce justamente dessa intersecção entre trauma psicológico e fenômeno inexplicável. O filme cria uma atmosfera em que tudo pode ser interpretado como metáfora e como literalidade ao mesmo tempo.
Ao final, Às Vezes Eles Voltam revela-se menos uma história de fantasmas e mais uma narrativa familiar envolta em camadas fantasmagóricas. É a dor de um irmão que carrega a responsabilidade de ter sobrevivido. É a raiva que fermentou por décadas. É o ressentimento que permaneceu à espreita, esperando o momento certo para emergir. Ao trazer Wayne de volta na conclusão — de forma emocional e simbólica — o filme alcança um tipo de catarse simples, mas eficaz. Jim enfrenta o mal, encara sua culpa e finalmente encontra algum tipo de resolução interior. Não se trata de um final de horror, mas de uma despedida necessária.
Apesar de todos esses méritos, é impossível não sentir que o filme se estende além do necessário. Como adaptação de um conto curto, Às Vezes Eles Voltam talvez funcionasse melhor como episódio de antologia, ocupando cerca de meia hora de duração. Essa impressão não diminui sua qualidade, mas evidencia que há momentos em que a narrativa precisa preencher tempo extra com repetições e cenas de pouca progressão dramática.
É curioso notar como isso ocorre com frequência em adaptações de Stephen King: histórias compactas que ganham versões mais longas no cinema ou na televisão, guiadas pelo famoso ditado “quem conta um conto, aumenta um ponto”. King sempre soube exatamente o alcance de seus contos; já suas adaptações nem sempre acertam a medida.
Outro detalhe que merece menção é o modo sutil como o filme se conecta ao vasto kingverso. A coincidência temporal de 27 anos — mesmo intervalo que marca o retorno da entidade Pennywise em It — parece estabelecer uma rima interna, ainda que talvez involuntária. Além disso, há um pequeno easter egg literário: em uma das cenas, o romance The Drawing of the Three, da saga A Torre Negra, aparece sob o diário da mãe de John Porter. Esses elementos reforçam a sensação de que, mesmo em narrativas pequenas, o universo de King respira dobras internas e diálogos ocultos.
Mas talvez o aspecto mais curioso seja o fato de Às Vezes Eles Voltam ter ganhado duas sequências: Às Vezes Eles Voltam 2 (1996) e Às Vezes Eles Voltam... para Sempre (1999). Mesmo para os padrões das continuações televisivas dos anos 1990, trata-se de uma decisão difícil de justificar. A história original já era enxuta o suficiente para ser contada em um único filme — e ainda assim parece longa.
Estendê-la em duas novas produções soa desnecessário, quase absurdo, como se o próprio conceito de “às vezes eles voltam” tivesse sido levado ao pé da letra demais, extrapolando qualquer necessidade narrativa. As sequências não apenas carecem de conexão orgânica com o conto de King, como também não acrescentam nada ao mito construído no original.
Às Vezes Eles Voltam é sobre o medo de reviver aquilo que mais machuca e sobre a dificuldade de se libertar de fantasmas que não pediram permissão para voltar — mas voltam mesmo assim, como a sombra da infância que insiste em acompanhar cada passo adulto. E, no caso de Jim Norman, voltam com força, violência e olhos queimando em chamas. Porque, como King já ensinou várias vezes, o horror mais profundo não é o que nos assusta à noite, mas o que insiste em nos seguir ao amanhecer. E às vezes, de fato, eles voltam.
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