OLHOS DE GATO (1985) - FILM REVIEW
Kingverso da loucura
Muito se falou da série Castle Rock, que faz um grande crossover com personagens, lugares e mitologias do universo criado por Stephen King ao longo de sua carreira. Evidentemente, King nunca planejou um “universo compartilhado” nos moldes atuais da cultura pop. Isso simplesmente aconteceu. Conforme suas histórias foram se acumulando, repetindo temas, cidades, traumas e até personagens secundários, o mundo de King passou a funcionar como um grande mosaico interligado. O curioso é que esses cruzamentos sempre existiram — muito antes de alguém usar o termo multiverso com seriedade.
Olhos de Gato (1985) talvez seja uma das provas mais divertidas disso. Logo na primeira cena, aparece o cachorro Cujo — e não qualquer Cujo, mas já em seu estado sarnento, reconhecível para quem conhece o livro ou o filme de 1983. Quatorze minutos depois, o personagem interpretado por James Woods assiste Na Hora da Zona Morta na televisão e dispara a frase: “Quem escreve essa porcaria?”. Em outro momento, o gato quase é atropelado por um Plymouth Fury vermelho ostentando um adesivo que diz: “Cuidado comigo. Eu sou o mal puro. Eu sou Christine.”
Esses detalhes não são essenciais para a compreensão da narrativa, mas valem o ingresso. Funcionam como recompensas para o espectador atento — uma sensação de cumplicidade entre autor, filme e público. Em outro instante, a mãe da pequena Amanda lê Cemitério Maldito na cama. Aos 27 minutos, vemos a ponte levadiça Isabel Holmes, em Wilmington, na Carolina do Norte, às margens da Highway 421 North — o mesmo local da cena inicial de Comboio do Terror. O gato para ali, observa e segue adiante, como se soubesse que aquele espaço já foi marcado por algo errado.
Nada disso é gratuito. Em Stephen King, os lugares importam. Eles acumulam memória, trauma e resíduo sobrenatural.
Três histórias, um observador silencioso.
A produção apresenta três histórias diferentes, conectadas pela presença silenciosa de um gato aparentemente comum. Um homem descobre que parar de fumar será um pesadelo maior do que qualquer vício químico. Um jogador de tênis é forçado a participar de um jogo mortal porque mantinha um caso com a esposa de um mafioso impiedoso. Por fim, uma menina é aterrorizada por um pequeno monstro que tenta sugar sua vida durante a noite.
Essas histórias não são unidas por causalidade direta, mas por observação. O gato não é apenas um elo narrativo: ele é testemunha, guardião e, em certo sentido, agente moral. Existe uma leitura quase mitológica do personagem — um psicopompo, uma criatura que transita entre mundos, algo muito presente no folclore e, claro, na obra de King (Cemitério Maldito está aí para provar).
Contra a vontade do diretor Lewis Teague, o estúdio cortou o prólogo que explicava as motivações do gato. Nessa introdução, ficaria claro que ele atravessa o país com um objetivo específico: proteger a criança do terceiro segmento. Sem essa explicação, muitos espectadores ficaram confusos, mas paradoxalmente o mistério acabou funcionando a favor do filme. O gato se tornou menos racional e mais simbólico.
As duas primeiras histórias vieram da coletânea Night Shift. Havia a intenção de incluir “Às Vezes Eles Voltam”, mas Dino De Laurentiis percebeu — corretamente — que aquela história tinha potencial para um longa-metragem. Anos depois, Tom McLoughlin dirigiria uma adaptação sólida para a televisão, que ainda renderia continuações.
Antologias, TV e a alma dos anos 80.
Antologias sempre apresentam variações de impacto. Algumas histórias marcam mais do que outras, e isso nem sempre está ligado à qualidade objetiva, mas à experiência pessoal de quem assiste. Olhos de Gato segue essa lógica. Suas histórias lembram episódios da clássica Além da Imaginação — aliás, quase toda a obra de Stephen King poderia facilmente ser adaptada para aquele formato.
A vantagem está na duração. Com segmentos entre 20 e 30 minutos, não há tempo para fadiga. Se um episódio não agrada tanto, o próximo já se anuncia. Isso aproxima o filme da lógica televisiva — o que ajuda a explicar por que ele se tornou tão popular em exibições na TV aberta e no VHS. Olhos de Gato parece feito para ser revisto casualmente, fragmentado, como uma coletânea de pesadelos breves.
E vale lembrar: Stephen King escreveu o roteiro especificamente para o cinema. Não é uma adaptação direta de um livro, mas uma transposição de sua linguagem literária para o formato episódico audiovisual. Isso faz diferença.
Lewis Teague e a mão invisível da direção.
O diretor Lewis Teague é frequentemente subestimado. Antes de Olhos de Gato, ele havia produzido Woodstock – 3 Dias de Paz, Amor e Música (1970), um dos documentários mais importantes da história do cinema. Como diretor de ficção, seus trabalhos mais relevantes vieram em sequência nos anos 80: Alligator, Cujo, Olhos de Gato e A Joia do Nilo.
Teague tinha uma habilidade rara: sabia trabalhar com orçamento médio, efeitos práticos e tensão constante sem precisar de grandes arroubos autorais. Em Olhos de Gato, ele mantém um tom coeso mesmo com histórias tão distintas — algo difícil em antologias.
A fotografia ficou a cargo do lendário Jack Cardiff, um verdadeiro titã do cinema, que havia trabalhado com Powell & Pressburger e dirigido clássicos próprios. Sua experiência confere ao filme uma elegância visual inesperada, especialmente no terceiro segmento, que mistura fantasia, terror infantil e iluminação quase expressionista.
Drew Barrymore: anjo, inferno e retorno.
Stephen King escreveu o roteiro pensando especificamente em Drew Barrymore. O produtor Dino De Laurentiis havia ficado profundamente impressionado com sua atuação em Chamas da Vingança (1984) e quis capitalizar essa presença magnética.
Drew Barrymore talvez seja a estrela infantil mais improvável que o cinema já produziu. Aos 11 meses, fez um teste para um comercial com um cachorro. O animal a mordeu. Em vez de chorar, Drew riu — e riu muito. Foi contratada pelo riso.
O estrelato veio cedo demais. Com cinco anos, já fazia papéis relevantes. E, como tantas histórias parecidas em Hollywood, sua estrutura familiar instável a levou por um caminho autodestrutivo. Aos 9 anos, fumava; aos 11, bebia; aos 12, usava maconha; aos 13, cheirava cocaína, segundo sua autobiografia Little Girl Lost (1990), lançada quando ela tinha apenas 15 anos. Aos 13, já estava em reabilitação. Frequentava o Studio 54. Saiu da rehab, tentou se matar e voltou.
A virada só aconteceu quando passou a morar sozinha. Veio então uma fase igualmente controversa: ensaios nus, papéis sensuais que contrastavam com seu rosto angelical, relacionamentos turbulentos. Mas, no fim dos anos 90, ao abraçar comédias românticas, Drew encontrou seu tom. O público respondeu. Ela voltou ao “céu”.
Filmes como Chamas da Vingança, Olhos de Gato e Pânico mostram como tivemos sorte de ela ter vencido seus demônios. Em Olhos de Gato, sua atuação é um lembrete de como o terror infantil depende de verdade emocional — algo que Drew sempre teve de sobra.
Um gato, um tema e um autor.
Olhos de Gato não é uma das adaptações mais celebradas de Stephen King, mas talvez seja uma das mais reveladoras. Ele mostra um autor confortável em brincar com sua própria mitologia, rir de si mesmo e construir conexões invisíveis entre histórias.
Há ainda um detalhe curioso: aos 35 minutos, toca uma música extremamente parecida com o tema de "De Volta para o Futuro", composto por Alan Silvestri pouco depois de trabalhar em Olhos de Gato. Coincidência? Homenagem involuntária? No universo de Stephen King, tudo é possível.
No fim, Olhos de Gato é isso: um filme pequeno, esperto, cheio de piscadelas, que entende que o horror também pode ser leve, irônico e quase lúdico. Um capítulo peculiar dentro do kingverso — e mais uma prova de que, nesse universo, nada está realmente isolado.
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