IT - A COISA (2017) - FILM REVIEW
It
Existe uma diferença enorme entre fazer um filme que carrega a identidade de uma geração e simplesmente reproduzir os elementos que ficaram associados a uma determinada época. Parece uma diferença pequena, mas não é. Uma coisa é um filme nascer daquele espírito, daquela maneira de contar histórias, daquela estética e daquele comportamento. Outra é olhar para trás, recolher referências e montar uma espécie de álbum de lembranças para o público reconhecer.
"Stranger Things" é um bom exemplo. A série é toda construída em cima dos anos 80, recuperando filmes, músicas, personagens, situações e referências daquela década. E funciona, tanto que virou um dos maiores fenômenos dos últimos anos. Mas sempre fico com a mesma pergunta: se a graça está em reconhecer aquilo que já existia, por que assistir à cópia quando podemos voltar ao original?
"Deadpool" fez algo parecido quando colocou, na cena pós-créditos, uma homenagem a "Curtindo a Vida Adoidado". É divertido, claro, e não existe problema algum em homenagear aquilo que você gosta. A questão é outra. Até que ponto uma obra consegue existir por conta própria quando passa boa parte do tempo lembrando outra?
É por isso que gosto de dar a Lua como exemplo. Ela pode ser linda, enorme, imponente, romantizar momentos e músicas, mas não produz a própria luz. Precisa do Sol para aparecer. Para mim, muitas dessas produções funcionam assim. Elas podem ser extremamente competentes, divertidas e até apaixonantes para quem viveu aquela época, mas sua força depende justamente daquilo que estão recuperando.
E os anos 80, convenhamos, estão vivendo uma espécie de revanche histórica. Aquela década, que durante muito tempo foi tratada como exagerada, hoje é revisitada com um carinho enorme. Os chamados brucutus, que por muito tempo eram vistos apenas como atores de filmes de ação, ganharam status de cult. Filmes que passavam tranquilamente na Sessão da Tarde agora são chamados de clássicos. A cultura pop descobriu que aquilo que parecia descartável há algumas décadas podia, afinal, ter muito mais importância do que imaginávamos.
É... o mundo dá voltas. E é justamente aí que "It: A Coisa" se diferencia. Porque o filme não parece estar tentando reproduzir os anos 80. Ele parece ter sido feito naquela época. E isso é muito diferente. A história se passa entre 1988 e 1989, e existe uma coerência tão grande entre os personagens, os ambientes, as roupas, a fotografia e a maneira como aquelas crianças se relacionam que o resultado não transmite a sensação de uma produção atual brincando de ser antiga. Parece simplesmente uma história que aconteceu naquele período.
A trama acompanha sete adolescentes de Derry, no Maine, que se autointitulam Clube dos Perdedores. A cidade, aparentemente tranquila, começa a conviver com o desaparecimento de crianças, e os integrantes do grupo percebem que existe alguma coisa muito errada acontecendo. Aos poucos, eles passam a compartilhar visões relacionadas a Pennywise, o palhaço, e descobrem que aquilo que estão enfrentando assume formas diferentes para cada um deles.
Essa diferença é importante porque Pennywise não está simplesmente perseguindo crianças. Ele encontra aquilo que mais assusta cada uma delas e transforma seus próprios medos em armas. O monstro pode aparecer de várias maneiras, porque o medo também tem várias formas. Para uma criança, pode ser uma criatura. Para outra, uma doença. Para outra, a violência dentro da própria casa. Pennywise não precisa inventar todos esses horrores. Ele apenas encontra aquilo que já está dentro delas.
O filme é baseado no enorme romance de Stephen King, publicado em 1986, que já havia sido adaptado para a televisão em 1990. A minissérie contava a história de maneira mais ampla, acompanhando os personagens quando crianças e depois já adultos, quando retornavam a Derry para enfrentar novamente aquilo que haviam deixado para trás. No universo de King, Derry também aparece em outras histórias, como "Insônia", "Saco de Ossos" e "O Apanhador de Sonhos", reforçando a ideia de que aquela cidade existe como um ponto recorrente dentro do imaginário do autor.
E Pennywise ganhou um intérprete à altura. Bill Skarsgård realmente mergulhou no personagem. O ator chegou a contar que conseguiu assustar algumas das crianças durante as filmagens a ponto de fazê-las chorar de verdade. E isso diz muito sobre a presença que ele criou. Curiosamente, Will Poulter chegou a ser escolhido para interpretar Pennywise, mas acabou deixando o projeto por causa de conflitos de agenda. E, olhando para o resultado, é fácil imaginar que ele poderia ter funcionado muito bem no papel. Skarsgård, porém, encontrou uma maneira tão particular de interpretar o personagem que até ele próprio admitiu ter pesadelos durante a produção.
A direção ficou com Andy Muschietti, que havia chamado atenção alguns anos antes com "Mama" (2013), seu primeiro longa-metragem, um filme que acabou se tornando cult e também foi um sucesso comercial considerável, tendo custado cerca de US$ 15 milhões e arrecadado aproximadamente US$ 146 milhões. Antes de Muschietti assumir, o projeto estava nas mãos de Cary Fukunaga, que deixou a produção por diferenças criativas.
Uma das pequenas demonstrações do quanto Skarsgård incorporou Pennywise aconteceu com os próprios olhos do personagem. A ideia inicial era recorrer à computação gráfica para fazer com que um olho olhasse para uma direção e o outro para outra. Só que o ator descobriu que conseguia fazer isso sozinho. Então, em vez de criar digitalmente aquilo que parecia impossível, bastava colocar a câmera diante dele e deixar Bill fazer o trabalho.
O filme e o livro
Uma das maiores discussões envolvendo a adaptação apareceu antes mesmo da estreia. Como a história original contém uma passagem extremamente controversa envolvendo as crianças do Clube dos Perdedores, muita gente imaginou que a classificação indicativa poderia significar que aquela cena também estaria no filme.
No romance, depois de vencerem Pennywise quando ainda são crianças, os integrantes do grupo acabam perdidos nos esgotos. Bev faz sexo com cada um dos garotos, em uma passagem que sempre provocou enorme discussão e que, evidentemente, não foi transportada para a adaptação cinematográfica.
O filme substitui aquele acontecimento por outra forma de ligação entre os personagens. A ideia de intimidade permanece de maneira muito mais sutil, associada à amizade, ao vínculo criado entre eles e, principalmente, à relação de Bev com os demais. Algumas dessas relações também funcionam como preparação para acontecimentos que serão desenvolvidos na segunda parte. Outra diferença importante está na estrutura. King brinca constantemente com passado e presente, alternando os períodos da vida dos personagens até fazer com que os dois momentos praticamente se encontrem. Quando eles voltam a Derry adultos, aquilo que aconteceu na infância volta a se repetir, como se a cidade tivesse permanecido esperando por eles.
O filme escolhe um caminho mais direto. Não existe essa fragmentação temporal porque a intenção é dividir a história em dois momentos diferentes, deixando a infância para um filme e a fase adulta para a continuação. É uma mudança estrutural necessária para que a adaptação funcione dentro da proposta cinematográfica. E funciona porque It: A Coisa entende que o verdadeiro assunto da história não é simplesmente um palhaço assassino escondido em uma cidade do Maine. É o medo. E, principalmente, aquilo que o medo provoca nas pessoas.
Os jovens atores são fundamentais para que isso funcione. Cada um consegue imprimir uma personalidade muito própria ao personagem, e não demora para que saibamos quem eles são, o que temem e por que aquela amizade se tornou tão importante. Quando Pennywise começa a explorar essas fraquezas, já estamos envolvidos demais com aquelas crianças para enxergá-las apenas como vítimas de um monstro.
E existe uma ironia interessante nisso tudo. Pennywise precisa do medo para se alimentar, mas, ao obrigá-los a enfrentar justamente aquilo que mais os assusta, acaba fortalecendo a ligação entre eles. O que deveria destruí-los termina contribuindo para que encontrem coragem. As crianças não deixam de ter problemas, não deixam de carregar suas marcas, mas aprendem que podem enfrentá-las juntas.
É por isso que vejo It: A Coisa como um verdadeiro espelho de uma época. Não porque o filme fique apontando para os anos 80 e dizendo “olhem como isto é anos 80”, mas porque aquela década simplesmente está dentro dele. Está nas crianças, na cidade, nos conflitos, na maneira como elas enxergam o mundo e até nos medos que carregam.
Ele não precisa ficar citando outros filmes para provar de onde veio. Não precisa reproduzir cenas conhecidas, fazer referências a todo instante ou depender da nostalgia para conquistar quem está assistindo. Ele simplesmente constrói seu próprio universo.
Não emula.
Não homenageia.
Apenas é.
E o que ele é, no fim das contas, remete diretamente àquele título usado no Brasil para a primeira adaptação: Uma Obra-Prima do Medo.








