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SACO DE OSSOS (2011) - SÉRIE REVIEW


A dor da perda e o saco de ossos que nos resta

Perder alguém que amamos muda a maneira como enxergamos tudo ao nosso redor. A casa fica diferente, os objetos passam a carregar outro peso e até as coisas mais comuns podem trazer uma lembrança que preferiríamos deixar de lado. Para quem perde o companheiro de uma vida inteira, não existe simplesmente a ausência de uma pessoa. Existe também a sensação de que uma parte da própria vida foi arrancada junto com ela.

É justamente nesse ponto que "Saco de Ossos" encontra seu protagonista. Mike Noonan (Pierce Brosnan) é um renomado romancista que, depois da morte repentina de sua esposa, Jo, fica sem saber o que fazer com a própria vida. E existe ainda um problema adicional: Mike é escritor, mas já não consegue escrever. O bloqueio criativo acompanha o luto. Ele não consegue continuar o livro que estava escrevendo e passa a viver preso às lembranças da mulher que perdeu. Por isso, dois anos depois da morte de Jo, Mike decide voltar para a casa do lago que os dois tinham no Maine. A intenção é encontrar um pouco de paz, talvez até descobrir se consegue retomar a própria vida.

Só que a casa não está tão vazia quanto ele imaginava. Lá, Mike conhece a pequena Kyra (Caitlin Carmichael) e sua mãe, Mattie (Melissa George). Viúva, Mattie luta na Justiça pela guarda da filha contra Max Devore (William Schallert), seu rico ex-sogro. Mike decide ajudá-las e acaba entrando em uma disputa que vai muito além de uma questão familiar. Ao mesmo tempo, começa a ter contato com acontecimentos sobrenaturais e com a presença de fantasmas que parecem querer transmitir uma mensagem deixada por Jo.

É quando a casa passa a funcionar como uma espécie de arquivo da vida de Mike. Ele foi até lá para se afastar das lembranças, mas acaba encontrando justamente aquilo que precisava enfrentar.

Dando um novo sentido à perda

O romance "Bag of Bones", publicado por Stephen King em 1998, transforma o luto em ponto de partida para uma história que mistura terror, romance, fantasmas e investigação. A adaptação para a televisão foi dirigida por Mick Garris, um dos diretores que mais vezes levou obras de King para as telas. A escolha de Garris faz sentido dentro da própria história do autor. Antes de "Saco de Ossos", ele já havia dirigido adaptações como "A Dança da Morte", "O Iluminado", "Sonâmbulos" e "Desespero". A minissérie foi produzida para a televisão em 2011 e tem Pierce Brosnan, Melissa George, Matt Frewer, William Schallert e Anika Noni Rose no elenco.

Mas, acima de fantasmas e acontecimentos sobrenaturais, o que movimenta "Saco de Ossos" é uma pergunta muito mais humana: o que fazemos depois que alguém importante deixa de fazer parte da nossa vida? Mike não pode recuperar Jo. Não existe uma maneira de voltar no tempo e impedir sua morte. O que ele pode fazer é decidir o que fazer com aquilo que restou. E esse “resto” inclui a casa, os objetos, as lembranças, seus livros e, principalmente, a própria vida.

Por isso, o bloqueio para escrever ganha tanta importância. Mike não perdeu apenas a esposa. Perdeu também a capacidade de continuar fazendo aquilo que fazia antes. Como escritor, ele dependia da imaginação para construir outras vidas, mas não conseguia encontrar uma saída para a própria. A volta à casa do lago começa a mudar isso.

Entre fantasmas, corvos e o Kingverso

Apesar de a minissérie dedicar boa parte de sua história à dor da perda, Stephen King continua espalhando pelo caminho algumas das conexões que seus leitores gostam de encontrar. Uma delas aparece logo no início, durante uma sessão de autógrafos. Na fila, uma pessoa diz ser o fã número um de Mike. É uma referência bastante clara a "Louca Obsessão" (1990), adaptação do romance "Misery", também de King, na qual Annie Wilkes se apresenta como a fã número um do escritor Paul Sheldon.

Outra associação aparece quando Mike está diante do computador, tentando começar seu novo livro. A situação lembra Mort Rainey (Johnny Depp) em "Janela Secreta" (2004), outro escritor de King enfrentando dificuldades para produzir seu trabalho.

A própria presença dos telefones também chama atenção. Depois da morte de Jo, aparelhos começam a tocar como se fosse a própria esposa de Mike tentando entrar em contato. A ideia encontra uma curiosa companhia posterior em "O Telefone do Sr. Harrigan", conto publicado na coletânea "Com Sangue", de 2020, e adaptado para o cinema em 2022.

É interessante como King consegue voltar várias vezes ao mesmo território: escritores, mortes, culpa, fantasmas e personagens tentando entender se aquilo que estão vivendo pertence ao mundo real ou à imaginação.

A criança que poderia morrer

Um dos acenos mais interessantes está em uma situação aparentemente simples. Mike salva Kyra de um possível atropelamento. Para quem conhece a obra de King, a cena imediatamente pode lembrar "Cemitério Maldito" (1989). A associação fica ainda mais curiosa quando pensamos no que cada história faz com a ideia da perda de uma criança.

Em "Cemitério Maldito", a morte do pequeno Gage desencadeia uma sequência de acontecimentos que destrói a família Creed. Louis não consegue aceitar aquilo que aconteceu e tenta desafiar a própria morte para recuperar o filho. Em "Saco de Ossos", Mike faz o movimento contrário. Ele impede que uma criança morra.

É como se as duas histórias colocassem o personagem diante da mesma questão, mas em momentos diferentes. Uma fala sobre a impossibilidade de aceitar a perda e sobre até onde alguém pode ir para desfazê-la. A outra apresenta uma oportunidade de preservar uma vida e, a partir disso, encontrar uma nova direção. Mike não consegue salvar Jo. Mas consegue salvar Kyra. E isso tem um peso simbólico importante, porque sua história passa justamente pela tentativa de descobrir o que fazer com a vida depois de perder alguém.

A árvore e aquilo que ainda pode nascer

A cena da árvore, em que Mike enxerga no tronco as formas de uma mulher, segue essa mesma linha. Ele está diante de algo que não consegue explicar racionalmente, mas que também parece relacionado àquilo que vem tentando compreender desde que perdeu Jo. A imagem funciona como uma representação de sua própria tentativa de encontrar sentido em uma vida que ficou diferente depois da morte da esposa.

Mike voltou ao Maine para se esconder das lembranças, mas acaba encontrando novas perspectivas justamente dentro delas. A casa, então, deixa de ser apenas o lugar onde ele e Jo viveram momentos importantes. Ela se transforma em um espaço onde passado e presente se encontram. Os fantasmas não estão ali apenas para assustá-lo. Eles fazem Mike olhar novamente para acontecimentos que ele ainda não tinha compreendido. E talvez seja esse o aspecto mais interessante de "Saco de Ossos": o sobrenatural não existe apenas para criar medo. Ele dá uma forma concreta ao que Mike carrega por dentro.

O que resta

O próprio título, "Saco de Ossos", pode ser lido a partir dessa ideia. Depois da morte, resta o corpo, os ossos, aquilo que sobra fisicamente de uma pessoa. Só que Mike está cercado por outra espécie de resto. Ficam as fotografias, a casa, os livros, os objetos, as lembranças e tudo aquilo que Jo deixou na vida dele. É por isso que o retorno ao Maine é tão importante. Mike precisa aprender que seguir em frente não significa apagar Jo. Significa encontrar uma maneira de continuar carregando aquilo que viveu com ela sem transformar essa lembrança em uma prisão.

As frases de "O Curioso Caso de Benjamin Button" ajudam a traduzir essa ideia. A carta de Benjamin para a filha fala justamente sobre a passagem do tempo, sobre as perdas inevitáveis e sobre a possibilidade de recomeçar mesmo quando parece tarde demais.

“Às vezes estamos em rota de colisão e apenas não sabemos. Seja por acidente ou por destino, não há mais nada que possamos fazer.”

E existe outra frase que parece feita para Mike:

“Estamos destinados a perder as pessoas que amamos. De que outra forma saberíamos o quanto elas foram importantes?”

A terceira conversa diretamente com a necessidade de continuar vivendo:

“Você pode ficar irado como um cão raivoso da forma como as coisas acontecem... pode praguejar e amaldiçoar o destino... mas, quando chega perto do fim... tem que relaxar e parar de se importar.”

E, por fim:

“Para as coisas importantes, nunca é tarde demais, ou muito cedo, para sermos quem queremos. Não há um limite de tempo; comece quando quiser. Você pode mudar ou não. Não há regras. Podemos fazer o melhor ou o pior. Espero que você faça o melhor. Espero que veja as coisas que a assustam. Espero que sinta coisas que nunca sentiu antes. Espero que conheça pessoas com diferentes opiniões. Espero que viva uma vida da qual se orgulhe. Se você achar que não tem, espero que tenha a força para começar novamente.”

No caso de Mike, começar novamente não significa esquecer Jo ou fingir que ela nunca existiu. É justamente o contrário. Ele precisa aceitar o que aconteceu, guardar o que foi importante e entender que a vida que ficou não precisa ser apenas uma continuação daquilo que terminou.

"Saco de Ossos" é sobre a perda, mas é também sobre o que fazemos com aquilo que sobra. Mike começa a história cercado pelos restos de uma vida que perdeu e termina entendendo que ainda existe uma vida para construir a partir deles.

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