JOGO PERIGOSO (2017) - FILM REVIEW
Stephen King tem algumas histórias que parecem impossíveis de adaptar para o cinema. Em Jogo Perigoso, boa parte da narrativa acontece dentro da cabeça de uma mulher algemada a uma cama, sem condições de escapar e obrigada a enfrentar lembranças que passou a vida tentando esquecer. Como transformar pensamentos, memórias e conflitos internos em imagens capazes de sustentar um filme inteiro? Mike Flanagan encontrou uma solução para esse desafio em sua adaptação de 2017, estrelada por Carla Gugino e Bruce Greenwood.
Jessie Burlingame (Carla Gugino) e seu marido, Gerald (Bruce Greenwood), atravessam uma crise no casamento e decidem passar um fim de semana em uma casa isolada, na esperança de recuperar alguma intimidade. Gerald leva algemas e propõe um jogo sexual no qual Jessie ficará presa à cama. Ela hesita, mas acaba aceitando. O que deveria ser uma experiência íntima entre os dois toma um rumo trágico quando Gerald sofre um ataque cardíaco e morre, deixando a esposa acorrentada e sem ninguém por perto para ajudá-la.
A partir daí, a situação se transforma em uma luta pela sobrevivência. Jessie precisa encontrar uma maneira de se libertar, lidar com a sede, o cansaço e o desespero, enquanto sua mente começa a trazer de volta acontecimentos de sua infância. O perigo físico já seria suficiente para sustentar a tensão, mas o verdadeiro tormento da personagem está naquilo que ela precisa enfrentar dentro de si mesma.
Flanagan mantém boa parte da estrutura do romance publicado por King em 1992, embora faça alterações e elimine subtramas e personagens para concentrar a narrativa na experiência de Jessie. O livro dedica mais espaço aos pensamentos da personagem, às suas lembranças e à relação com o pai. No filme, parte desse material é condensada, e alguns elementos ganham uma representação visual própria. A adaptação também modifica aspectos do desfecho, sem abandonar o peso psicológico da história original.
O gatilho
O termo gatilho passou a fazer parte das conversas sobre saúde mental, especialmente quando falamos de experiências traumáticas. Em Jogo Perigoso, esse conceito está diretamente ligado à situação vivida por Jessie. A proposta de Gerald envolve uma prática sexual que, para ela, acaba trazendo à tona uma experiência de abuso sofrida na infância. O que acontece no presente se mistura à lembrança do passado, e a personagem é obrigada a enfrentar algo que tentou manter escondido durante anos.
É importante entender que o problema não está simplesmente na prática sexual em si. O BDSM reúne diferentes atividades e dinâmicas de poder que podem ser vividas consensualmente entre adultos. Bondage, disciplina, dominação, submissão e outras práticas fazem parte desse universo, desde que haja consentimento, comunicação e respeito aos limites envolvidos. No caso de Jessie, porém, a situação toca em uma ferida que Gerald desconhece, e o ambiente íntimo passa a estar associado a uma experiência de violência.
A conversa entre os parceiros poderia ter ajudado a estabelecer limites e a identificar situações que Jessie não se sentia confortável em experimentar. Isso não significa que ela necessariamente precisasse contar todos os detalhes de seu passado, mas que o diálogo e a atenção aos sinais de desconforto são fundamentais para que uma experiência compartilhada seja segura. O consentimento não deve ser tratado como uma autorização definitiva para qualquer coisa, e sim como algo que exige respeito durante toda a situação.
O filme também estabelece uma ligação entre o abuso sofrido por Jessie e a maneira como seu pai consegue manipulá-la. Na lembrança da infância, ele usa a culpa e o medo para convencê-la a esconder o que aconteceu da própria mãe. A menina é colocada em uma posição na qual se sente responsável por proteger o homem que a violentou. É uma forma cruel de manipulação, pois transfere à vítima o peso de uma situação pela qual ela não deveria ser responsabilizada.
Essa lembrança ajuda a compreender por que Jessie tem tanta dificuldade para lidar com o passado. O abuso não ficou restrito ao acontecimento em si. Ele também afetou a maneira como ela aprendeu a reagir, a guardar segredos e a conviver com sentimentos que não sabia como expressar. Anos depois, presa à cama, ela precisa encarar as consequências dessa experiência enquanto tenta sobreviver.
Kingverso da Loucura
Como acontece em várias adaptações de Stephen King, Jogo Perigoso está repleto de referências que ampliam a experiência de quem conhece os livros e suas versões para o cinema.
A mulher que Jessie descreve como estando sobre um poço durante um eclipse é Dolores Claiborne, protagonista do romance Dolores Claiborne, publicado em 1992 e adaptado para o cinema em Eclipse Total (1995), com Kathy Bates no papel principal. Os acontecimentos das duas histórias estão ligados ao mesmo eclipse, criando uma conexão entre as narrativas.
Há também uma referência direta a Cujo. Gerald chama o cachorro por esse nome, fazendo alusão ao romance de King sobre o cão que se transforma em uma ameaça mortal. É um detalhe rápido, mas bastante apropriado para uma história em que até a presença de um animal pode aumentar a sensação de perigo.
Outra ligação aparece quando Gerald diz: “Todas as coisas servem ao feixe”. A frase remete à série de romances A Torre Negra, uma das obras que conectam diferentes histórias do universo literário de King. Jessie também menciona o Saco de Ossos do Homem do Luar, referência ao romance Saco de Ossos.
A imagem de Jessie, com a pele avermelhada e a camisola clara, também pode lembrar Carrie White durante o baile de formatura, quando a jovem é coberta por sangue de porco em Carrie, a Estranha. A associação ganha força por causa do aspecto visual da personagem naquele momento, embora as situações vividas pelas duas sejam bastante diferentes.
Uma das referências mais interessantes envolve a lembrança do pai de Jessie. Ao tentar convencê-la a esconder o abuso, ele sugere que os dois contem a verdade à mãe e “tomem o remédio”, expressão usada como eufemismo para uma punição. A frase remete a O Iluminado, de Stephen King, e à maneira como Jack Torrance emprega a mesma expressão no romance.
Essa ligação fica ainda mais curiosa quando lembramos que Henry Thomas, que interpreta o jovem Gerald em algumas cenas de Jogo Perigoso, também trabalhou com Mike Flanagan em Doutor Sono (2019), sequência de O Iluminado (1980). No filme, Thomas interpreta uma versão fantasmagórica de Jack Torrance. São conexões que ajudam a perceber como as adaptações de King acabam formando uma rede de referências, tanto literárias quanto cinematográficas.
E existe uma brincadeira metalinguística que merece atenção. O livro intitulado Midnight Mass, que Jessie joga no cachorro, foi escrito pela personagem de Kate Siegel em Hush: A Morte Ouve (2016), outro filme dirigido por Flanagan. Cinco anos depois, Missa da Meia-Noite se tornaria uma série criada pelo próprio cineasta. É uma referência que atravessa diferentes trabalhos do diretor e mostra o prazer que ele encontra em estabelecer pequenas conexões entre suas produções.
O passado não fica para trás
Existe uma ligação temática interessante entre Jogo Perigoso, Eclipse Total e Doutor Sono. As três obras acompanham personagens que carregam experiências dolorosas e tentam encontrar uma maneira de conviver com elas. Cada uma trabalha essa questão de um jeito, mas todas mostram o custo de tentar enterrar aquilo que continua afetando o presente.
Em Jogo Perigoso, Jessie passa boa parte da vida sem conseguir lidar plenamente com o abuso que sofreu. A situação na casa isolada acaba colocando seu passado diante dela de uma maneira que não pode mais ser ignorada. Enquanto luta para sair da cama, ela também precisa recuperar o controle sobre a própria história e deixar de carregar a culpa que lhe foi imposta quando era criança.
O filme não trata essa superação como algo simples. Jessie precisa enfrentar o que aconteceu, reconhecer a manipulação de seu pai e entender que a responsabilidade pelo abuso nunca foi dela. A libertação física e o enfrentamento psicológico acabam ligados, pois sair daquela cama significa também começar a romper com uma prisão que a acompanha desde a infância.
É justamente aí que a adaptação de Mike Flanagan encontra sua força. O suspense mantém a atenção na luta pela sobrevivência, enquanto as lembranças dão sentido ao sofrimento da personagem. Carla Gugino sustenta boa parte do filme praticamente sozinha, alternando desespero, medo, raiva e momentos em que Jessie precisa reunir forças para continuar.
A história nos lembra que experiências traumáticas podem deixar marcas por muitos anos e que tentar ignorá-las não significa que tenham desaparecido. Cada pessoa encontra seu próprio caminho para lidar com o passado, e esse processo pode exigir tempo, apoio e coragem para reconhecer o que aconteceu.
No fim, fica uma frase que resume bem o que Jessie precisa enfrentar: “Não quero que você se desculpe... quero que você se lembre...”


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