CEMITÉRIO MALDITO: A ORIGEM (2023) - FILM REVIEW
É inegável o poder que Stephen King tem de criar universos imaginários e, mais do que isso, de fazer com que eles se instalem na vida dos fãs. São histórias que continuam gerando discussões, interpretações e, inevitavelmente, novas maneiras de explorar aquele mesmo universo. O filme em questão hoje é "Cemitério Maldito: A Origem", ou "Como Tudo Começou", dependendo da fonte.
Como o próprio título indica, trata-se de um prelúdio do livro de King e, consequentemente, dos filmes que vieram depois. A história se passa em 1969 e acompanha o jovem Jud Crandall (Jackson White), que sonha em deixar a cidade onde nasceu. O problema é que, ao descobrir alguns segredos macabros relacionados à sua família, Jud percebe que talvez esteja condenado a permanecer naquele lugar. Ao lado de seus amigos de infância, ele acaba sendo obrigado a enfrentar uma entidade maligna que assombra a cidade desde seu surgimento, uma força com potencial para provocar uma destruição sem limites.
"Cemitério Maldito: A Origem" foi lançado diretamente no streaming e recebeu elogios do próprio Stephen King. Imagino que, para os responsáveis pelo projeto, isso tenha um peso considerável. Afinal, não é exatamente fácil mexer em uma obra tão conhecida de alguém que criou um universo tão particular e ainda conseguir a aprovação do próprio autor.
Origem do começo que conta o princípio do início
Curiosamente, revi pouco antes de escrever este texto "Annabelle 2" e "Predador: A Caçada", dois ótimos exemplos de que prelúdios não devem necessariamente ser vistos com desconfiança. Existe sempre o risco de uma história voltar demais no tempo apenas para explicar aquilo que funcionava melhor quando permanecia misterioso, mas também existe a possibilidade de preencher espaços que anteriormente conhecíamos apenas de passagem. E "Cemitério Maldito: A Origem" me parece funcionar melhor justamente quando entende essa diferença.
Já nos primeiros 15 minutos, percebemos que a direção é muito boa. Lindsey Anderson Beer, nome ainda pouco ou nada conhecido para o grande público cinematográfico, faz um trabalho bastante digno. Não é uma direção que tenta chamar atenção a todo instante, mas existe segurança na maneira como ela conduz o terror e apresenta aquele universo.
Beer também não chegou ao projeto completamente sem experiência. Ela teve participação no roteiro de "Mundo em Caos" e está associada a diversas produções que retomam propriedades conhecidas, remakes ou novas versões de obras anteriores, como "O Senhor das Moscas", "Bambi" em live action, "Star Trek" e "Um Robô em Curto-Circuito".
Isso ajuda a entender por que sua participação aqui é interessante. "Cemitério Maldito: A Origem" não parte de uma história completamente nova. Seu desafio é justamente voltar para um território conhecido e encontrar alguma coisa que ainda possa ser contada.
A origem literária
"Cemitério Maldito" é um romance de terror escrito por Stephen King, publicado pela primeira vez em 1983 e que rapidamente se tornou uma de suas obras mais populares e icônicas. A história acompanha a família Creed, que se muda para uma cidade rural no Maine e descobre, em uma floresta próxima, um cemitério de animais de estimação.
À primeira vista, não há nada de particularmente assustador naquele lugar. O problema é que, por trás do cemitério, existe algo muito mais antigo e perigoso. Quando o gato da família morre, ele é enterrado naquele local e volta à vida. A partir daí, o que parecia ser uma espécie de milagre começa a revelar sua verdadeira natureza.
O que torna a história especialmente perturbadora é justamente a maneira como King trabalha o luto. O horror não nasce apenas da existência de uma força sobrenatural, mas da dificuldade humana de aceitar que determinadas perdas são definitivas. Quando alguém que amamos morre, existe sempre a tentação de imaginar que seria possível desfazer aquilo, mesmo que o preço seja alto demais.
O romance explora exatamente esse limite, investigando até onde uma pessoa pode chegar por não aceitar a morte e quais são as consequências psicológicas e devastadoras de tentar interferir naquilo que deveria permanecer intocado. É esse conflito entre o desejo de recuperar alguém e a necessidade de aceitar sua perda que dá ao livro boa parte de sua força.
A história já havia chegado ao cinema em 1989, sob a direção de Mary Lambert, e novamente em 2019, dirigido por Kevin Kölsch e Dennis Widmyer. O filme de 1989 ainda gerou uma continuação. Portanto, quando surge "Cemitério Maldito: A Origem", não estamos simplesmente diante de uma nova adaptação. Estamos voltando para dentro de uma história que o público já conhece por diferentes versões.
E é justamente aí que o prelúdio encontra seu espaço. O novo filme investiga a origem de acontecimentos que eram apenas mencionados brevemente nos filmes anteriores, além de aproveitar informações relacionadas à pesquisa realizada pelo personagem no filme de 2019. Aquilo que antes era apenas uma referência ganha agora tempo de tela para ser desenvolvido.
A Origem do Wendigo
Para entender o que existe por trás do cemitério, porém, é preciso falar sobre o Wendigo. No romance, acredita-se que a região além do cemitério de animais seja habitada por uma entidade sobrenatural malévola conhecida por esse nome. O Wendigo é uma figura do folclore de povos indígenas de língua algonquina do norte dos Estados Unidos e do Canadá, frequentemente associada ao canibalismo, à fome e à possessão. Na tradição cultural, o conceito possui diferentes significados e representações, portanto não existe uma única descrição universal da criatura.
Em algumas versões do mito, o Wendigo está relacionado à transformação provocada pelo canibalismo, especialmente em situações de fome extrema ou desespero. O ato de consumir carne humana corromperia o indivíduo, transformando-o em uma criatura marcada por uma fome insaciável. As representações populares posteriores acabaram consolidando uma imagem de uma criatura magra, de membros longos e aparência cadavérica, frequentemente associada ao frio e à floresta.
Mais importante do que sua aparência, entretanto, é aquilo que o Wendigo representa. A criatura pode ser interpretada como uma personificação da ganância, do excesso e da incapacidade de estabelecer limites para o próprio desejo. É uma força destrutiva ligada à transgressão de limites morais e naturais. E esse conceito se encaixa perfeitamente em "Cemitério Maldito". Afinal, a grande questão da história nunca foi simplesmente “o que existe naquele cemitério?”, mas o que uma pessoa está disposta a fazer quando acredita ter encontrado uma maneira de vencer a morte.
É importante lembrar também que as representações do Wendigo variam entre diferentes povos, comunidades e interpretações culturais. Stephen King incorpora esse elemento do folclore à sua própria mitologia e o adapta às necessidades de sua narrativa, transformando-o em parte fundamental da atmosfera de "Cemitério Maldito".
A origem do ano 1874
É nesse ponto que "Cemitério Maldito: A Origem" encontra uma oportunidade interessante. Se o cemitério já era conhecido, se o Wendigo já fazia parte da mitologia e se sabíamos que aquela região escondia algo muito antigo, como voltar no tempo sem simplesmente explicar aquilo que funcionava melhor como mistério? A resposta encontrada pelo roteiro é justamente retornar a 1874.
O Wendigo em "Cemitério Maldito" funciona como uma presença associada às consequências destrutivas de interferir na morte e ao desejo de desafiar a ordem natural. Ele representa o fascínio pelo poder proibido e os perigos de sucumbir aos impulsos mais sombrios. Os personagens que entram em contato com o cemitério são colocados diante de escolhas e, invariavelmente, precisam lidar com as consequências delas.
Por isso, conhecer melhor o passado daquele lugar não serve apenas para acrescentar uma data à mitologia. Serve para mostrar que aquilo que Jud e os demais personagens encontram em 1969 não começou com eles. Existe uma história muito anterior, e o mal que parece estar adormecido possui raízes profundas. A volta no tempo, portanto, é fundamental para entender melhor o papel dos envolvidos nos acontecimentos atuais e, principalmente, para estreitar nossa relação com o próprio cemitério.
E foi uma manobra bastante astuta do roteiro retornar justamente à história de Jud Crandall. No filme original de 1989, ele foi interpretado por Fred Gwynne; no remake, três décadas depois, por John Lithgow. Nas duas versões, porém, conhecíamos apenas alguns fragmentos de sua relação com aquele lugar. Agora, aquilo que antes era mencionado de passagem ganha corpo, forma e conteúdo.
Esse é, para mim, o maior mérito de um prelúdio como este. Ele não precisa necessariamente revelar um segredo que vai mudar tudo o que conhecíamos. Às vezes, basta pegar uma história que existia nas margens da narrativa e finalmente colocá-la no centro. Algumas situações que antes pertenciam apenas ao nosso imaginário passam a existir diante de nós, e isso pode ser muito interessante quando feito com cuidado.
É claro que "Cemitério Maldito: A Origem" não é uma obra que redefine a franquia, nem precisa ser. Sua função é outra. Ele olha para trás, recupera personagens, acontecimentos e elementos que já conhecíamos e tenta preencher os espaços deixados pelas histórias anteriores. E, se isso não representa um novo começo de fato, certamente não decreta o fim.
O que pensei ao rever
Assisti ao filme no momento em que foi lançado no streaming. Mas hoje, três anos depois, a internet está inundada de opinadores inveterados, dispostos a odiar tudo e todos, e este filme parece ter sido especialmente atingido por isso, acumulando críticas negativas e notas baixas. Vi até uma discussão em um fórum de pessoas que preferiam Birdemic a este. Não discuto opinião, mas uma pessoa chegou a argumentar que as qualidades de Birdemic eram maiores. Isto, sim, é passível de explicação para mostrar que ela está completamente errada.
Não é porque curto Tuff Turf ou American Ninja que vou sair por aí dizendo que eles são melhores que 2001 ou O Poderoso Chefão. As pessoas estão muito passionais, inclusive elevando Cemitério Maldito, de 1989, ao status de obra-prima. Bom, não é e nunca foi. Aliás, de maneira geral, as adaptações de King sempre tenderam para o mediano. Mas isso jamais impediu que fãs, como eu, criassem carinho por elas.
Fora as continuações de Colheita Maldita, que ficam piores a cada filme, o único que considero um caso perdido é Pacto Maligno (2014), seguido de perto por Conexão Mortal (2016). Fora esses, tenho carinho por todas as adaptações e jamais poderia classificar este Cemitério Maldito como ruim.
Enfim, parece existir um consenso de que este Cemitério Maldito é algo que ninguém pediu, desnecessário e coisas do tipo. Mas quem tem raízes nos filmes feitos para a televisão dos anos 70, 80 e 90 sabe reconhecer uma produção simples, bem executada e esquecível. A "Origem" está mais ou menos nesta linha. E, ao rever, não melhorou, mas também não piorou. Julgo isso um mérito do filme.
Porém, fiquei com a nítida sensação de que cortaram meia hora de filme, tornando-o menos memorável do que poderia ser.


