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O CEMITÉRIO MALDITO 2 (1992) - FILM REVIEW

Semitério de animais II

Fazer continuações de filmes de sucesso ou produzir remakes é uma prática bastante comum em Hollywood. A indústria busca lucro, e poucas coisas parecem mais seguras do que investir em uma história que já conquistou o público. Afinal, se um filme deu certo, por que não tentar repetir a fórmula? No caso de "Cemitério Maldito II", a produção ainda tinha outro argumento a seu favor: a volta de Mary Lambert, diretora do primeiro longa. O que poderia dar errado?

Bom, bastante coisa, como veremos.

Lambert tinha uma ideia diferente para a continuação. Sua intenção original era colocar Ellie Creed no centro da trama, agora como a única sobrevivente dos acontecimentos do filme anterior. Seria uma maneira de dar continuidade à história da família, acompanhando a personagem depois de tudo o que viveu. A Paramount, porém, não estava convencida de que uma adolescente deveria protagonizar o filme. A proposta foi abandonada, e a sequência ganhou personagens completamente novos, além de um protagonista masculino.

A escolha de Edward Furlong para o papel principal também não foi por acaso. Com apenas treze anos, o ator havia acabado de chamar a atenção do público em "O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final" (1991), um dos grandes sucessos daquele ano. Hollywood não perde tempo quando encontra um rosto em evidência, e a produção de "Cemitério Maldito II" tratou de aproveitar o momento.

Na trama, Jeff Matthews (Edward Furlong) é filho de Renee Hallow (Darlanne Fluegel), uma atriz de filmes de terror que morreu em um acidente durante uma filmagem, ao receber uma descarga elétrica. Após a morte da mãe, Jeff se muda com o pai, Chase Matthews (Anthony Edwards), um veterinário, para a pequena cidade de Ludlow.

É lá que o garoto conhece Drew Gilbert (Jason McGuire), um menino tímido que sofre nas mãos do padrasto, Gus Gilbert (Clancy Brown), o xerife local. A relação entre os dois garotos acaba colocando Jeff em contato com uma realidade de violência doméstica e abuso de autoridade. E, como se isso não fosse suficiente, ele também descobre o antigo cemitério indígena, onde os mortos podem voltar à vida.

A premissa mantém a ligação com o filme original, mas a situação dos personagens é bem diferente. No primeiro longa, Louis Creed tenta trazer o filho de volta porque não consegue aceitar a perda e se sente culpado pelo acidente que provocou sua morte. Aqui, Jeff também precisa lidar com o luto, mas sua relação com o cemitério passa por outro tipo de conflito. Ele quer ajudar o amigo e acredita que pode corrigir uma injustiça. O problema é que, naquele lugar, até as melhores intenções podem terminar em desastre.

Um novo cenário para a mesma maldição

As filmagens começaram em janeiro de 1992, e a intenção inicial era voltar ao Maine, onde o primeiro filme havia sido rodado. A produção acabou seguindo para a Geórgia, pois os responsáveis temiam que o inverno do Maine atrapalhasse o cronograma. A região escolhida também oferecia uma vegetação semelhante à do estado onde a história se passa, permitindo manter parte da identidade visual da obra original.

A mudança de locação, por si só, não seria um problema. O que faz falta é a maneira como o primeiro filme utilizava seus espaços. Em "Cemitério Maldito", a paisagem ao redor da casa dos Creed ajudava a construir a sensação de isolamento, enquanto a floresta e o cemitério faziam parte da ameaça. O ambiente parecia existir além dos personagens, como se houvesse algo antigo escondido naquele terreno.

Na continuação, essa relação com o espaço é bem menos convincente. A história se concentra muito mais em ambientes fechados, e até o cemitério parece um cenário montado dentro de um galpão. A diferença fica ainda mais evidente quando lembramos da fotografia do primeiro filme, que aproveitava os espaços abertos para criar uma atmosfera de estranhamento.

Mas a questão principal está na própria história. Mary Lambert queria explorar a maneira como um adolescente pensa e toma decisões. Em uma entrevista, explicou que seu interesse pela sequência vinha da curiosidade sobre a cabeça dos jovens, justamente porque eles fazem coisas estúpidas.

E aqui chegamos a um ponto curioso. Louis Creed enterra o próprio filho porque está devastado pela culpa e pela dor da perda. É uma decisão terrível, mas conseguimos compreender o desespero que o leva até ali. Jeff, por sua vez, decide usar o cemitério para se livrar de Gus Gilbert. E qual é a justificativa? Ele é adolescente e faz coisas estúpidas!

Bom, pelo menos essa é a explicação que o filme parece oferecer em alguns momentos. Jeff sabe que o cemitério é um lugar perigoso, conhece o que aconteceu com os mortos que voltaram e, ainda assim, acredita que pode controlar a situação. A motivação é compreensível, pois ele quer proteger Drew, mas a maneira como tudo se desenrola exige uma boa dose de tolerância do espectador.

E há um detalhe que não dá para ignorar: estamos falando de um adolescente que acaba de perder a mãe, que está tentando se adaptar a uma nova cidade e que encontra no amigo uma situação de violência que considera intolerável. São conflitos suficientes para construir um personagem interessante. O filme até tem esses elementos à disposição, mas nem sempre consegue transformá-los em decisões que pareçam naturais.

Quanto à frase de Lambert sobre os adolescentes fazerem coisas estúpidas, não deixa de ser uma explicação para boa parte do roteiro. Afinal, quando falta uma justificativa convincente, basta lembrar que o personagem ainda está naquela idade em que o sangue parece ir para outro lugar, e não para o cérebro.

Kingverso da loucura

Apesar dos problemas, "Cemitério Maldito II" guarda algumas referências divertidas ao universo de Stephen King. A mais evidente acontece quando Jeff persegue o valentão que está com seu gato. Durante a perseguição, ele passa pela casa onde os Creed moravam no primeiro filme. O nome da família ainda pode ser visto na caixa de correio, uma conexão direta entre as duas histórias.

É um detalhe simples, mas que ajuda a situar a continuação no mesmo espaço da produção anterior. A casa continua ali, como uma lembrança dos acontecimentos que deram origem à nova tragédia. Pena que o filme não tenha aproveitado melhor essa ligação, especialmente considerando a ideia inicial de Mary Lambert de continuar a história de Ellie.

Outra referência aparece logo no início, durante a cena em que um braço monstruoso é utilizado no set de filmagem. O objeto, na verdade, é o mesmo braço do esqueleto encontrado na lagoa em "It: Uma Obra-Prima do Medo" (1990), a minissérie baseada no romance de King. É o tipo de conexão que faz a alegria de quem gosta de procurar essas pequenas brincadeiras espalhadas pelas adaptações do escritor.

E Clancy Brown também voltaria ao universo de King pouco depois. Em 1994, o ator participou de "Um Sonho de Liberdade", adaptação do conto "Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank". Uma carreira que, felizmente, não ficou marcada apenas pelo xerife Gus Gilbert.

Às vezes, não fazer o filme é melhor

Não considero o primeiro "Cemitério Maldito" uma obra tão magistral que torne a continuação automaticamente inferior por existir. O filme de 1989 tem seus méritos e sua importância, mas isso não significa que qualquer tentativa de continuar aquela história estivesse condenada ao fracasso. A própria ideia de Mary Lambert, centrada em Ellie, poderia ter oferecido uma ligação interessante entre os dois longas.

O problema é que "Cemitério Maldito II" parece ter várias ideias, mas não consegue organizá-las de maneira satisfatória. A história aborda a má educação, o abuso de autoridade, o bullying e a violência dentro de casa. Drew é um garoto que sofre nas mãos do padrasto, e Jeff tenta fazer alguma coisa a respeito. Existe uma motivação emocional para o que acontece, e a vingança acaba conduzindo a alguns momentos genuinamente angustiantes.

É justamente por isso que acho injusto descartar o filme como se não houvesse nada de interessante ali. A relação entre os dois garotos dá à trama um conflito que vai além da maldição do cemitério. Gus é um homem que usa sua posição de xerife para intimidar e agredir, enquanto Drew vive com medo de contrariá-lo. Quando Jeff entra nessa história, o desejo de justiça acaba se misturando à raiva, e a possibilidade de trazer alguém de volta da morte oferece uma solução que parece tentadora demais para um garoto da sua idade.

O filme, no entanto, nem sempre sabe como trabalhar essas questões. Os personagens são pouco desenvolvidos, e algumas decisões dificultam nossa identificação com eles. A trama também perde coesão quando tenta equilibrar o drama familiar, o conflito entre os adolescentes e o horror sobrenatural. Há material para uma história mais consistente, mas as peças nem sempre se encaixam.

Visualmente, a situação não melhora muito. As cenas em câmera lenta estão entre as escolhas que mais me incomodam. A intenção parece ser prolongar o momento e aumentar o impacto do horror, mas o efeito acaba chamando atenção para o próprio recurso. Em vez de intensificar a tensão, a lentidão tira a força da cena e deixa tudo com um aspecto artificial. É uma decisão de direção que, para mim, não funciona.

Também falta ao filme a atmosfera que tornava o primeiro tão eficiente. A sensação é de que quase tudo acontece dentro de casas, hospitais ou estúdios de filmagem. Até o cemitério parece um cenário fechado, com um fundo falso que denuncia a artificialidade da produção. No longa de 1989, os ambientes externos tinham um papel importante, e a fotografia aproveitava a paisagem para criar uma sensação de ameaça. Aqui, o mundo ao redor dos personagens parece pequeno demais para a história que está sendo contada.

O gato voador e outros exageros

E então temos a cena do gato voando em direção a um ator. É difícil pensar em um "jump scare" mais gratuito. A sequência parece existir apenas para provocar um susto imediato, sem que o momento tenha sido construído de maneira convincente. O resultado é tão artificial que acaba desviando a atenção do próprio horror.

A violência também merece uma observação. Filmes de terror podem, naturalmente, recorrer a mortes explícitas e situações brutais. Isso faz parte do gênero e não é um problema por si só. Em "Cemitério Maldito II", porém, há momentos em que o excesso parece tentar compensar as fragilidades do roteiro. As mortes se acumulam, a violência ganha espaço, mas nem sempre existe um desenvolvimento dramático que dê peso ao que estamos vendo.

E isso é uma pena, porque a história tem elementos que poderiam sustentar um horror mais eficiente. A morte de Renee, a relação abusiva entre Gus e Drew, o luto de Jeff e a própria natureza do cemitério oferecem caminhos suficientes para construir uma sequência que tenha algo a dizer. Em vez disso, o filme frequentemente prefere recorrer ao choque, como se mostrar mais fosse o mesmo que causar mais medo.

Ainda assim, não acho que "Cemitério Maldito II" seja um filme ruim. Há uma história interessante escondida ali, algumas boas ideias e um conflito que poderia funcionar muito melhor com personagens mais bem desenvolvidos e uma direção visual menos artificial. A continuação tenta encontrar uma perspectiva própria para a maldição, mas acaba se afastando justamente daquilo que tornava o primeiro filme tão eficaz.

No fim, o problema não é ter mudado a história de Stephen King, nem ter abandonado a ideia de continuar a trajetória de Ellie. Uma sequência precisa ter liberdade para seguir por outros caminhos. O problema é não conseguir transformar essas mudanças em uma narrativa coesa, com personagens que nos façam acreditar em suas escolhas.

Não é um filme sem méritos. Mas errou o alvo.

E, em alguns momentos, dá a impressão de que nem sabia direito para que lado estava mirando.

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