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LEMBRANÇAS DE UM VERÃO (2001) - FILM REVIEW


Corações na Atlântida

Existe uma associação quase automática entre Stephen King e o horror. Por isso, quem conhece o autor apenas por suas histórias de terror pode acabar deixando passar algumas belas adaptações de sua obra. Basta lembrar de Conta Comigo e Um Sonho de Liberdade, dois filmes que mostram como King também sabe falar de amizade, amadurecimento, perdas e das marcas que carregamos pela vida. Lembranças de um Verão faz parte desse grupo e merece ser descoberto por quem ainda o associa exclusivamente ao sobrenatural.

A história acompanha Robert Garfield (David Morse), um fotógrafo de meia-idade que, depois da morte de um amigo, começa a revisitar as lembranças de sua infância. O pensamento o leva de volta ao verão em que tinha apenas 11 anos, quando sua vida foi marcada pela amizade com Carol (Mika Boorem) e Sully (Will Rothhaar), além da chegada de um novo vizinho, Ted Brautigan (Anthony Hopkins).

Naquela época, Robert já havia perdido o pai e vivia com a mãe (Hope Davis), uma mulher amarga que, com o passar dos anos, parecia querer apagar da memória do filho qualquer lembrança positiva do homem que havia morrido. A aproximação com Ted muda essa situação. A atenção e a amizade do vizinho ajudam o garoto a enxergar o pai por outro ângulo e a perceber que ainda havia muitas possibilidades diante dele. Para Robert, aquele verão acaba tendo uma importância que só consegue compreender por completo quando adulto.

Sabe, quando você é jovem, você tem momentos de tanta felicidade, você pensa que está vivendo em algum lugar mágico, como Atlantis deve ter vivido. Então crescemos e nossos corações se partem em dois.

Ted 


Kingverso da Loucura

Desde os primeiros minutos, o filme apresenta pequenas referências a outras obras ligadas a Stephen King. Uma delas aparece na cozinha da casa de Robert, onde vemos um balão vermelho, imagem que remete imediatamente a IT: Uma Obra-Prima do Medo, adaptação lançada em 1990, bem antes da versão cinematográfica de 2017. Em outra lembrança da infância, as crianças brincam em um túnel que também lembra os cenários associados à história de Pennywise.

Sully, por sua vez, chama a atenção por sua semelhança com o personagem de River Phoenix em Conta Comigo. O corte de cabelo, as roupas e até a luva de beisebol ajudam a estabelecer essa ligação. A referência combina com o espírito de Lembranças de um Verão, já que os dois filmes acompanham crianças vivendo experiências que terão consequências para o resto de suas vidas.

Por volta dos 24 minutos, enquanto os garotos se divertem, ouvimos o tema musical de Sonâmbulos (1992). Logo depois, eles caminham sobre trilhos, outra lembrança direta de Conta Comigo. São detalhes rápidos, inseridos sem interromper o desenvolvimento da trama, que funcionam como pequenas homenagens para quem acompanha as adaptações das obras de King.

Há também uma referência literária importante. Ted menciona os chamados policiais da biblioteca, expressão que dá título a uma das histórias da coletânea Four Past Midnight. Sua presença, assim como a dos misteriosos homens baixos, está ligada ao universo fantástico de A Torre Negra. No material literário, a natureza dos poderes de Ted e sua relação com esses perseguidores são exploradas com muito mais detalhes. Em determinado momento, ele leva outros personagens para dentro de um armário e os transporta para uma terra distante, numa passagem que pode até lembrar As Crônicas de Nárnia. Scott Hicks, porém, optou por não seguir esse caminho na adaptação, mantendo o foco na experiência de Bobby e nas lembranças daquele verão.


Do livro ao filme

O livro Hearts in Atlantis, publicado por Stephen King em 1999, reúne cinco histórias: Low Men in Yellow Coats, Hearts in Atlantis, Blind Willie, Why We're in Vietnam e Heavenly Shades of Night Are Falling. Embora os contos apresentem personagens e períodos diferentes, existem conexões entre eles, e a obra constrói um retrato de uma geração acompanhando as mudanças provocadas pelo tempo.

A adaptação dirigida por Scott Hicks concentra sua atenção em Low Men in Yellow Coats, a primeira história da coletânea, que acompanha Bobby Garfield e sua relação com Ted Brautigan. O título original do filme, entretanto, veio do segundo conto, Hearts in Atlantis, que acabou dando nome à produção.

O roteirista William Goldman tomou algumas liberdades para transformar o material em uma narrativa mais direta. Como Bobby aparece na primeira e na última histórias, separadas por cerca de quarenta anos, Goldman aproveitou a estrutura da última como moldura para as lembranças da infância. Assim, a história de Low Men in Yellow Coats funciona como um longo flashback, enquanto os outros três contos foram deixados de fora.

A escolha faz sentido para o formato cinematográfico. Em vez de tentar acomodar todas as histórias do livro, o filme se concentra no vínculo entre Bobby e Ted, nas dificuldades familiares do garoto e na maneira como aquele encontro interfere em sua formação. O resultado é uma adaptação que preserva o coração emocional do material escolhido, mesmo deixando de lado boa parte de suas conexões com o universo fantástico de King.


É engraçado como, quando você é criança, um dia pode durar para sempre. Agora, todos esses anos parecem apenas um piscar de olhos.

Ted 


Lembranças de bastidores

Uma das cenas mais curiosas dos bastidores envolve o jovem Anton Yelchin, que interpreta Bobby. Segundo o diretor Scott Hicks, foi especialmente difícil conseguir que o garoto risse durante a cena em que Ted, vivido por Anthony Hopkins, imita o som de um peido. Yelchin havia sido criado com a ideia de que rir de boca aberta era falta de educação, e por isso não conseguia fazer aquilo com naturalidade. Às vezes, uma cena aparentemente simples exige um esforço inesperado de quem está diante da câmera.

O roteiro ficou a cargo de William Goldman, conhecido por trabalhos como Butch Cassidy e Todos os Homens do Presidente. Sua ligação com Stephen King não se limitou a Lembranças de um Verão: Goldman também escreveu as adaptações de Louca Obsessão e Apanhador de Sonhos. O roteirista morreu em 2018.

A trajetória de Anton Yelchin teve um fim trágico. O ator morreu em 2016, aos 27 anos, depois de ser atingido pelo próprio carro em um acidente. É difícil não pensar na carreira que ainda poderia ter construído, especialmente porque já demonstrava talento desde muito jovem.

Scott Hicks, por sua vez, dirigiu relativamente poucos filmes, mas conquistou reconhecimento com Shine, que lhe rendeu indicações ao Oscar tanto pela direção quanto pelo roteiro. O cineasta também reuniu no elenco atores que já haviam trabalhado juntos em outras produções. Hope Davis e Anton Yelchin, por exemplo, interpretaram mãe e filho em Charlie, Um Grande Garoto (2007). Yelchin e Mika Boorem também estiveram juntos em Na Teia da Aranha (2001), ao lado de Morgan Freeman, novamente como jovens amigos. Já Anthony Hopkins e Hope Davis contracenaram em A Prova (2005).

Um filme para redescobrir

Lembranças de um Verão tem uma qualidade que nem sempre recebe a devida atenção quando falamos das adaptações de Stephen King. É uma história de amizade, infância e perda, contada com sensibilidade e sem depender do horror para emocionar. O passado de Robert é atravessado por momentos felizes, conflitos familiares e descobertas que ganham outro significado quando ele olha para trás.

Há também algo de muito familiar em seu clima, aquela sensação de filme que poderia passar na Sessão da Tarde e acabar ficando na memória por muito tempo. A comparação não é um defeito. Pelo contrário, combina com uma história que encontra sua força nas relações entre os personagens e na maneira como certas pessoas podem mudar o rumo de nossas vidas.

Belo, tocante e sensível, Lembranças de um Verão merece um lugar entre as boas adaptações de Stephen King. É um daqueles filmes que podem passar despercebidos por quem espera encontrar monstros e sustos, mas que oferecem uma experiência bastante diferente e igualmente marcante.


Bobby: — Ted, "meu pai nunca comprou uma bebida para um bêbado". O que isso significa exatamente?

Ted: — Significa que ele era um bom homem, era honesto e nunca aumentava os problemas do mundo.

 

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