O ILUMINADO (1997) - SÉRIE REVIEW
O Iluminado
É curioso pensar em como algumas histórias de Stephen King encontraram no cinema e na televisão uma segunda vida tão forte quanto o livro original, enquanto outras simplesmente não tiveram a mesma sorte. "Carrie", por exemplo, ganhou uma obra-prima em 1976 pelas mãos de Brian De Palma e, desde então, nenhuma das outras versões conseguiu chegar perto do mesmo impacto. "A Maldição de Carrie" foi esquecida, assim como o telefilme de 2002 e a versão de 2013. A história continuou sendo adaptada, mas aquela primeira combinação entre material, diretor e elenco se mostrou difícil de repetir. Isto, até 2026, e antes da série de Mike Flanagan.
Com "O Iluminado", a situação é ainda mais interessante porque existem duas adaptações que partiram de propostas completamente diferentes. Stanley Kubrick transformou o romance de King em um dos filmes mais conhecidos da história do horror, enquanto Mick Garris levou o livro novamente para as telas, desta vez em formato de minissérie, com a intenção declarada de seguir mais de perto o material original.
É justamente aí que entra a importância dos realizadores. Garris já tinha uma relação bastante próxima com a obra de King e dirigiria outras adaptações do escritor, como "Sonâmbulos" (1992), "A Dança da Morte" (1994), "A Maldição de Quicksilver" (1997), "Montado na Bala" (2004), "Desespero" (2006) e "Saco de Ossos" (2011). Anos depois, Mike Flanagan assumiria "Doutor Sono", continuação direta da história de Danny Torrance.
Existe, portanto, uma espécie de passagem de bastão. Garris voltou ao livro que Kubrick havia transformado em outra coisa, enquanto Flanagan retomou o personagem criado por King décadas depois. Cada um, à sua maneira, precisou lidar com o peso de uma obra que já tinha uma adaptação cinematográfica gigantesca.
O "Iluminado" de 1997 foi escrito e produzido pelo próprio King, justamente por causa de sua insatisfação com o caminho seguido por Kubrick. A minissérie ainda teve como locação o próprio The Stanley Hotel, em Estes Park, Colorado, o lugar que havia inspirado King na criação do romance.
Originalmente exibida pela ABC entre 27 de abril e 1º de maio de 1997, a produção foi dividida em três episódios. A história acompanha Jack Torrance, professor em Stovington, uma respeitável escola preparatória, que perde o emprego por causa do alcoolismo e do temperamento explosivo.
O problema de Jack não está apenas no emprego perdido. Um ano antes, em um acesso de raiva provocado pela bebida, ele havia agredido Danny. O episódio o choca, principalmente porque ele começa a perceber no que está se transformando. Jack promete a Wendy que, se voltar a beber, deixará a família de alguma maneira, chegando a considerar a própria morte como alternativa à vida de um alcoólatra.
Com o tempo, ele consegue controlar o vício e começa a reconstruir a própria vida. Torna-se escritor e aceita o trabalho de zelador do Overlook Hotel durante o período de inverno. Para Jack, aquele emprego representa uma oportunidade de ganhar algum dinheiro e, principalmente, terminar o livro que está escrevendo. Só que o isolamento do hotel e as habilidades psíquicas de Danny colocam a família diante de algo que Jack não poderia controlar. O Overlook possui um passado próprio, e quanto mais os Torrance ficam presos naquele lugar, mais esse passado começa a interferir no presente.
Overlook
O hotel que inspirou King também possui uma história que parece saída de um romance. Em 1903, o inventor do carro a vapor, Freelan Oscar Stanley, foi diagnosticado com tuberculose. Na época, um dos tratamentos recomendados envolvia ar fresco e seco, bastante luz solar e uma alimentação saudável.
Stanley decidiu então procurar as condições ideais nas Montanhas Rochosas. Ele e sua esposa, Flora, chegaram a Denver em março e, alguns meses depois, por recomendação do médico Sherman Grant Bonney, seguiram para Estes Park. A mudança fez diferença em sua saúde, que melhorou de maneira significativa.
Impressionado com a região e convencido de que aquele lugar havia contribuído para sua recuperação, Stanley passou a retornar todos os anos. Em 1907, já recuperado, decidiu transformar Estes Park em um destino turístico e iniciou a construção do Stanley Hotel, com 48 quartos.
Stanley morreu aos 91 anos, em Newton, Massachusetts, um ano depois da morte de sua esposa. O hotel, porém, continuou ali, cercado pelas montanhas e por uma história que acabaria ganhando uma dimensão muito maior quando Stephen King passou uma noite entre aqueles corredores.
E fica difícil imaginar o que um escritor de histórias de terror poderia pensar diante de um hotel antigo, enorme, praticamente vazio e cercado por montanhas. King encontrou ali o cenário perfeito para juntar isolamento, memória, alcoolismo, relações familiares e, claro, uma presença sobrenatural.
O mais interessante é que o hotel real acabou entrando para o imaginário de "O Iluminado" de uma maneira quase tão forte quanto o próprio Overlook.
A origem do mal
Publicado em 1977, "O Iluminado" foi o terceiro romance de Stephen King e seu primeiro best-seller em capa dura. O livro consolidou a posição do escritor dentro do horror e também carregava elementos bastante pessoais, especialmente a relação de Jack com o alcoolismo. A história acompanha um escritor que tenta reconstruir a própria vida depois de destruir boa parte dela. Jack Torrance aceita trabalhar no Overlook durante o inverno, levando Wendy e Danny consigo. O filho possui o chamado “brilho”, uma capacidade psíquica que permite perceber coisas que outras pessoas não conseguem.
Quando uma tempestade de inverno deixa a família isolada pela neve, o hotel passa a exercer uma influência cada vez maior sobre Jack. A bebida, a frustração profissional, a culpa e a própria história do Overlook começam a se misturar até que fica difícil separar o homem daquilo que o hotel quer fazer dele.
A experiência de King com o próprio alcoolismo ajuda a explicar por que Jack funciona tão bem como personagem. O horror do livro nunca depende apenas dos fantasmas. Existe um homem tentando fugir de seus próprios demônios e encontrando um lugar que sabe exatamente como explorá-los. A história continuaria muitos anos depois com "Doutor Sono", publicado em 2013 e levado aos cinemas em 2019. Danny, agora adulto, carrega as marcas daquela experiência e precisa lidar novamente com o passado que tentou deixar para trás.
A concepção do mal
Depois de "Carrie" e "'Salem's Lot", ambos ambientados no Maine, Stephen King decidiu mudar de cenário. Queria passar algum tempo longe de casa e acabou escolhendo Boulder, no Colorado. Em 30 de outubro de 1974, King e Tabitha fizeram check-in no The Stanley Hotel, perto de Estes Park. O hotel estava prestes a fechar para a temporada e os dois eram seus únicos hóspedes naquela noite. O cenário, portanto, já trazia uma condição que parecia pronta para um romance de terror: corredores vazios, um prédio enorme e a sensação de estar completamente afastado do resto do mundo.
King já havia tentado desenvolver uma história chamada "Darkshine", inspirada pelo conto "The Veldt", de Ray Bradbury, publicado em 1950. O projeto havia sido abandonado em 1972, mas a ideia voltou durante a estadia no Stanley. Depois de um jantar solitário na grande sala de refeições, acompanhado por música orquestral, King teve um sonho no qual seu filho era perseguido por uma mangueira de incêndio pelos corredores do hotel. A experiência acabou servindo como um dos gatilhos para aquilo que viria a ser "O Iluminado".
O livro também bebeu de outras fontes do terror. "A Assombração da Casa da Colina", de Shirley Jackson, publicado em 1959, teve influência importante na atmosfera e na construção do ambiente. Edgar Allan Poe também aparece como uma referência natural, especialmente em histórias como "A Queda da Casa de Usher" e "A Máscara da Morte Vermelha", que trabalham com espaços opressivos, decadência e terror psicológico. E existe uma conexão que considero particularmente interessante. Mike Flanagan, diretor de "Doutor Sono", adaptaria justamente "A Assombração da Casa da Colina" para a série "A Maldição da Residência Hill", em 2018, e voltaria ao universo de Poe com "A Queda da Casa de Usher", em 2023.
É como se uma parte das influências que ajudaram a formar "O Iluminado" tivesse encontrado novamente o caminho até uma adaptação de King décadas depois.
1980 versus 1997
É impossível falar da minissérie de 1997 sem voltar ao filme de Stanley Kubrick. A comparação existe desde o primeiro minuto porque as duas produções partiram do mesmo romance e chegaram a resultados muito diferentes.
Uma das principais críticas de Stephen King à versão de Kubrick está na maneira como Jack Torrance foi construído. No filme, Jack já apresenta sinais de desequilíbrio desde o começo. O comportamento de Nicholson, sua maneira de falar e aquele sorriso que se tornou uma de suas marcas fazem com que o espectador perceba rapidamente que existe alguma coisa errada com aquele homem.
Para King, a transformação de Jack deveria ser mais gradual. O personagem começa tentando se recuperar, tentando reconstruir a família e recuperar a própria carreira. Quanto mais o hotel interfere nele, mais difícil fica saber onde termina Jack e começa a influência do Overlook.
A diferença também aparece nos animais de sebe. No livro, eles são uma ameaça concreta e fazem parte do modo encontrado pelo hotel para aterrorizar a família. Kubrick substituiu essa ideia por um labirinto de sebes, uma solução visualmente poderosa que acabou se tornando uma das imagens mais conhecidas do filme. É nesse labirinto que acontece a perseguição final. Jack segue Danny pela neve, perde-se entre os corredores vegetais e acaba morrendo congelado. Na versão de Garris, mais próxima do romance, o destino de Jack está ligado à caldeira do hotel.
Esse detalhe muda bastante o sentido do encerramento. Jack, já dominado pelo Overlook, deixa de cuidar da caldeira e permite que a pressão aumente. Quando percebe o que está acontecendo, ainda existe nele uma última tentativa de resistir à influência do hotel e salvar a família. A explosão destrói o Overlook e encerra a trajetória de Jack.
É uma diferença importante porque a morte de Jack ganha um componente de redenção que não existe da mesma maneira no filme de Kubrick. No filme, ele é consumido pelo próprio labirinto. Na minissérie, existe um último gesto em que o personagem tenta recuperar aquilo que havia perdido. O próprio hotel também tem destinos diferentes. Na versão de Kubrick, o Overlook continua de pé depois da morte de Jack, como se estivesse pronto para receber novos hóspedes quando o inverno terminar. Na minissérie, a explosão da caldeira coloca um ponto final na construção.
E a caldeira não está ali por acaso. Ela exige manutenção constante e funciona como uma ameaça que Jack conhece, mas escolhe ignorar enquanto está cada vez mais dominado pelo hotel.
Outro momento que mostra como as duas produções seguem caminhos próprios é o encontro de Danny com as gêmeas. No filme de Kubrick, elas aparecem no corredor e convidam Danny para brincar. Depois, o menino tem uma visão do destino que tiveram pelas mãos de seu pai, Delbert Grady. É uma cena criada para o filme e que acabou se tornando uma de suas imagens mais reconhecíveis. A própria localização das filmagens ajuda a separar as duas versões. A minissérie foi gravada no Stanley Hotel, em Colorado, justamente o local que inspirou King. Kubrick utilizou o Timberline Lodge, no Oregon, como referência visual para o exterior do Overlook.
Wendy também recebe tratamentos bastante diferentes. Shelley Duvall interpreta uma personagem muito mais frágil e assustada, enquanto Rebecca De Mornay apresenta uma Wendy mais próxima da esposa que tenta compreender e apoiar Jack durante o processo de deterioração.
Há ainda outras diferenças. Lloyd, o barman, não aparece da mesma maneira na minissérie, que utiliza Delbert Grady como uma das figuras que influenciam Jack. Os fantasmas têm presença mais evidente na versão de Garris, enquanto Kubrick trabalha muito mais com a sugestão. Até a famosa imagem do elevador despejando sangue é uma criação de Kubrick e não faz parte da minissérie.
E existe ainda uma diferença curiosa no encerramento. Enquanto o filme de Kubrick termina com a morte de Jack e a saída de Danny e Wendy do hotel, a minissérie acrescenta um epílogo no qual descobrimos que Tony é uma versão adulta de Danny. São, portanto, duas maneiras de contar a mesma história. Kubrick pegou o romance de King e construiu uma obra com identidade própria. Garris tentou fazer o caminho contrário, aproximando-se o máximo possível do livro.
E é justamente aí que começa a discussão mais interessante.
Kingverso da loucura
As adaptações de Stephen King também costumam oferecer pequenas conexões que funcionam como uma espécie de jogo para quem acompanha a obra do escritor. Em "O Iluminado", algumas dessas relações aparecem em detalhes que poderiam passar despercebidos.
Quando Jack entra no Colorado Lounge no último dia, ele coloca "In the Mood", de Glenn Miller, para tocar na jukebox. A mesma música aparece em "Rose Red: A Casa Adormecida" (2002), uma das favoritas de Annie Wheaton. Ela consegue fazê-la tocar em um aparelho quebrado durante a investigação da casa, e a música acompanha uma cena em que Annie e Nick chegam a dançar alguns centímetros acima do chão.
"In the Mood" também aparece no romance "11/22/63", embora não tenha sido utilizada na adaptação televisiva.
Outro detalhe curioso está no nome Gage Creed. O próprio Stephen King faz uma participação na minissérie como o maestro da banda, e Gage Creed é, obviamente, o nome do menino de "Cemitério Maldito", interpretado por Miko Hughes na adaptação de 1989. Jack também faz referências ao Batman e ao Homem-Aranha. Pat Hingle, que interpreta o pai de Jack, ficou conhecido por viver o Comissário Gordon nos filmes do Batman, enquanto Jack Nicholson, protagonista da versão de Kubrick, interpretou o Coringa.
Steven Weber, por sua vez, emprestaria sua voz a Norman Osborn, o Duende Verde, na animação "Ultimate Spider-Man", de 2012. Pat Hingle ainda havia trabalhado em "Comboio do Terror" (1986), filme escrito e dirigido pelo próprio Stephen King.
E aqui entra uma conexão que também passa pelo meu próprio histórico com essas produções. Sam Raimi dirigiu a trilogia de "Homem-Aranha" entre 2002 e 2007 e, anos depois, comandou "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura". Foi justamente esse filme que acabou me dando a ideia do título que passei a usar em todos os meus textos sobre filmes e séries ligados à obra de Stephen King.
O elenco da minissérie também guarda algumas histórias interessantes. O papel de Jack Torrance foi oferecido inicialmente a Tim Daly. Ele tinha interesse no personagem, mas não estava disponível e sugeriu seu colega de elenco de "De Pernas Pro Ar" (1990) e amigo, Steven Weber. Daly acabaria trabalhando com Stephen King alguns anos depois, em "A Tempestade do Século" (1999).
Quando Jack escuta o pai pelo rádio CB, a voz é de Miguel Ferrer. O ator também participou de "Vôo Noturno" (1997), adaptação de um conto de King, e de "A Dança da Morte" (1994), outra minissérie dirigida por Mick Garris.
Rebecca De Mornay também tinha uma ligação pessoal com Harry Dean Stanton. O ator, que era amigo de Jack Nicholson, chegou a ser considerado para o papel de Lloyd no filme de 1980. Mais tarde, Stanton participaria de outras duas adaptações de Stephen King, "Christine, o Carro Assassino" (1983) e "À Espera de um Milagre" (1999).
Mick Garris ainda colocou pessoas próximas em pequenos papéis. Sua esposa, Cynthia Garris, interpreta a hóspede em decomposição do Quarto 217. A cena do baile também está cheia de amigos de Garris ligados ao cinema de terror, entre eles David J. Schow, Christa Faust, P. G. Sturges, Richard Christian Matheson e Frank Darabont. Shawnee Smith aparece como garçonete e Sam Raimi faz uma participação rápida como frentista de posto de gasolina.
O próprio Garris aparece na reunião dos Alcoólicos Anônimos. E Frank Darabont também está entre os convidados. Depois de dirigir "Um Sonho de Liberdade" (1994), baseado em um conto de King, ele visitou o escritor durante a produção e contou que dirigiria "À Espera de um Milagre". Durante a visita, acabou sendo convencido a participar da minissérie como figurante.
São pequenos detalhes que, isoladamente, não mudam a história. Mas ajudam a transformar a produção em uma espécie de encontro de pessoas que, de diferentes maneiras, acabariam fazendo parte do universo das adaptações de King.
O jeito certo
Quando uma adaptação de um romance best-seller se torna mais conhecida do que o próprio livro, atravessa décadas e entra constantemente nas listas dos grandes filmes de todos os tempos, a primeira pergunta diante de uma nova versão é inevitável: por que refazer isso?
No caso de "O Iluminado", existe uma resposta bastante clara. Stephen King não estava satisfeito com a maneira como Stanley Kubrick havia levado sua história para o cinema. Se havia alguém que poderia tentar fazer uma nova versão, seguindo o romance de maneira muito mais fiel, esse alguém era o próprio autor.
E foi exatamente o que aconteceu.
Com quatro horas e meia de duração, a minissérie tinha espaço para recuperar personagens, acontecimentos e situações que ficaram de fora do filme de Kubrick. King conseguiu levar para a televisão uma versão muito mais próxima do livro, com tempo suficiente para explorar aquilo que havia escrito. Só que existe uma armadilha nessa discussão. Quando uma adaptação se aproxima tanto do material original, isso automaticamente significa que ela funciona melhor?
"O Iluminado" de 1997 mostra que não necessariamente.
A minissérie pode ser mais fiel ao livro, pode recuperar elementos importantes que Kubrick deixou de lado e pode representar com muito mais precisão aquilo que King escreveu. Ainda assim, o filme de 1980 conseguiu transformar o material em uma experiência cinematográfica com identidade própria.
Garris procurou devolver ao público o "Iluminado" de Stephen King. Kubrick criou o seu próprio "Iluminado". Entre os dois, existe uma discussão que continua válida para praticamente toda adaptação literária: até que ponto a fidelidade ao livro deve ser o objetivo principal?
Neste caso, a resposta está justamente na comparação. Ser mais fiel não significa, por si só, ser melhor. Às vezes, a adaptação que se afasta da obra original encontra uma maneira de existir por conta própria, enquanto aquela que tenta reproduzir cada detalhe acaba carregando o peso da comparação.
E acredito que esse seja o destino inevitável de qualquer produção que tente entrar novamente no mesmo hotel onde Kubrick já deixou sua marca.
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