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SOBRENATURAL - SAGA REVIEW

 

É um mistério para mim como franquias persistem, mesmo tendo resultados inferiores a cada filme. De fato, parece uma missão impossível fazer continuações com qualidade superior (menos para Tom Cruise, claro). Caso raro ocorre com a saga Sobrenatural: ela mantém o nível, com apenas poucas variações.

Hora de rever a saga do garoto Dalton e família. 


🔷Sobrenatural (2010)

A família Lambert, formada por Josh (Patrick Wilson), Renai (Rose Byrne) e os filhos Dalton (Ty Simpkins) e Foster (Andrew Astor), acaba de se mudar. Logo, uma das crianças entra em coma de forma inexplicável, o que faz os pais pensarem que a nova casa abriga algum tipo de espírito do mal. Mas eles logo se mudam do local e, nos dias seguintes, acabam descobrindo que o problema não estava na casa, e sim no próprio filho.

Sobrenatural reúne os criadores de duas das séries de terror mais populares dos últimos tempos. O diretor James Wan é o responsável por Jogos Mortais (2004), enquanto o produtor Oren Peli dirigiu Atividade Paranormal (2007). E James Wan é um gênio em fazer dinheiro com orçamento reduzido. Ele filmou em apenas três semanas, com um orçamento de 1,5 milhão e fazendo o filme render mais de 100 milhões.

E ele consegue aproveitar o melhor do que já foi feito, dando identidade à sua obra. Nem todos percebem que, durante os créditos iniciais, quando aparece "Insidious" na tela, o som de violinos remete à abertura de O Exorcista. 

A cena em que Rose Byrne sobe ao sótão, se assusta com os móveis e, de repente, há um clarão, foi retirada diretamente de O Exorcista, na cena em que Ellen Burstyn faz o mesmo. Em outro momento, Dalton acerta Specs (Leigh Whannell, um dos parapsicólogos presentes) no rosto, jogando-o do outro lado da sala, similar à cena de Linda Blair com Ellen.

Noutra ocasião que remete ao filme de Friedkin, a parapsicóloga (Barbara Hershey) chama atenção para algo errado com o menino no quarto. E, quando eles sobem, o pai abre a porta, encontrando o quarto bagunçado. A situação é similar em O Exorcista, com sutis diferenças (o quarto de Regan está bagunçado, mas quem abre a porta é a mãe).

A própria ideia de uma família assombrada com um filho sequestrado por fantasmas remete a Poltergeist. Mas, após um momento de tensão, os dois cinegrafistas vão para a cozinha para se recuperar. Um deles deita a cabeça sobre uma bancada de azulejos brancos, exatamente como a de Poltergeist. Ele então coloca um bife cru no rosto, uma homenagem à cena do bife rastejante no filme de Tobe Hooper.

A cena da sessão espírita, em que Elise tenta entrar em contato com Dalton e Specs rabisca continuamente "Ajuda" em folhas de papel com giz de cera preto, é idêntica a uma cena de "A Troca", dos anos 1980, estrelado por George C. Scott. 

Conceitos Insidiosos

Certamente, "The Further" ou "O além" é um conceito central na série de filmes. É retratado como um reino espiritual sombrio que existe ao lado de nossa própria realidade física. O Além é descrito como um plano de existência habitado por entidades malévolas, espíritos e almas perdidas. É um reino além do mundo dos vivos e do reino dos mortos, servindo como meio-termo entre a vida e a vida após a morte.

"O além" é retratado como um reflexo distorcido do mundo físico: locais que podem se assemelhar a lugares do passado ou do presente dos personagens, mas com um toque assustador e sobrenatural. Isso adiciona uma sensação de familiaridade misturada com uma atmosfera misteriosa e perturbadora.

A projeção astral é a capacidade de separar o espírito ou consciência do corpo físico e atravessar outros planos de existência. Nos filmes "Sobrenatural", personagens como Dalton e Josh Lambert projetam-se inadvertidamente astralmente e ficam presos no "O distante". Os espíritos no Além também podem interagir com o mundo vivo e possuir indivíduos.

Dentro do além, existem várias entidades malévolas e criaturas demoníacas que procuram prejudicar e atormentar os vivos. Essas entidades, como o Lipstick-Face Demon, a Noiva de Preto e KeyFace, são frequentemente descritas como seres poderosos e implacáveis ​​que atacam os vulneráveis.

O Além é também um lugar onde os espíritos podem ficar presos ou perdidos, incapazes de seguir para a vida após a morte. Esses espíritos aprisionados muitas vezes abrigam raiva, dor ou assuntos inacabados, tornando-os vulneráveis ​​à manipulação por forças mais sombrias. Os personagens podem encontrar essas almas atormentadas durante suas jornadas pelo Além.

A Porta Vermelha: nos filmes, é símbolo visual recorrente que serve como porta de entrada entre o mundo físico e o "O distante". A porta vermelha representa um portal que permite aos espíritos atravessar e interagir com os vivos. Muitas vezes é visto como um limite perigoso que deve ser evitado.

E, por fim, Elise Rainier, uma médium que desempenha um papel significativo na navegação no "O distante". Ela possui a habilidade de se comunicar com espíritos e navegar no reino das trevas. Elise serve como guia e protetora para aqueles presos ou afetados pelo local.

James Wan fez um filme certo do sucesso. E acertou o alvo sucessivas vezes.


🔷Sobrenatural - Capítulo 2 (2013)

Em uma franquia como Sobrenatural, seria natural explorar o passado dos personagens, principalmente do pai do garoto sequestrado no primeiro filme. Investigar nuances, motivações e mostrar consequências de tudo, quando colocado em perspectiva.

A história de Sobrenatural: Capítulo 2 acontece logo após os eventos do filme de 2010. Ela mostra, inicialmente, o passado de Josh e sua relação com a entidade (a noiva de preto) que o assombrava. Em contrapartida, continua do momento em que Elise é morta por um Josh possuído.

O filme flui de uma forma que parece parte do primeiro filme e não uma segunda parte. Um dos pontos fortes está em suas fortes atuações. O elenco, incluindo Patrick Wilson, Rose Byrne e Lin Shaye, apresentou atuações que transmitem com eficácia o medo e o desespero de seus personagens. 

A história também se aprofunda na mitologia estabelecida no primeiro filme, explorando as origens da assombração e fornecendo mais informações sobre o reino sobrenatural conhecido como “O distante”. 

Encontrei apenas dois pontos baixos no filme: o enredo do filme foi por vezes confuso, introduzindo múltiplas subtramas e reviravoltas que nem sempre eram satisfatórias. Outro ponto é o ritmo do filme, com momentos de terror intenso, mas, em contrapartida, momentos em que a construção das cenas é lenta, dispersando a atenção.

Como o primeiro filme foi inspirado em Poltergeist: O Fenômeno (1982), este filme também compartilha algumas semelhanças com Poltergeist II: O Outro Lado (1986). Em ambos os filmes, o pai de família é possuído pelo espírito maligno de um idoso (a) louco (a). O filme também tem forte influência de "O Iluminado", com o pai sendo uma variação de Jack Torrance e o garoto, Danny. 

Quando Specs e Tucker entram na casa de Elise, há uma pintura tribal africana pendurada na parede. É a mesma pintura pendurada no escritório de Daniel em Atividade Paranormal 2 (2010) e na casa da avó em Atividade Paranormal 3 (2011). Quando Lorraine tem os flashbacks hospitalares de Parker Crane, é o mesmo hospital usado em Halloween II: O Pesadelo Continua! (1981). 

E um último detalhe, na cena final: quando Specs e Tucker chegam à porta de uma família aparentemente angustiada, uma menina (ninguém menos que a atriz Jenna Ortega) vê Elise agora em sua forma fantasma. Enquanto Specs e Tucker explicam aos pais quem eles são, Elise entra na casa e se aproxima de outra garota que está aparentemente em coma e começa a falar com ela. 

Ela então ouve um barulho e, ao olhar para trás da garota, vê algo horrível e engasga. O som que ela ouve é do demônio do primeiro filme, movendo suas garras. A cena é o prenúncio do terceiro filme, gerando uma grande expectativa, sobre a qual falarei a seguir.

Aliás, toda a sequência é uma forma perspicaz de montar um trailer para o próximo filme, instigando o público a continuar fiel ao mundo insidioso criado pelo diretor. Considerando que, com um orçamento de 5 milhões, o filme rendeu 161, o diretor sabe, de fato, provocar o público.


🔷Sobrenatural - A origem (2015)

O filme anterior termina com um gancho que faria o público voltar no capítulo seguinte. E, definitivamente, contar outra história neste terceiro filme é algo entre arriscado e um tiro no pé. Mas Sobrenatural faz uma aposta certa: mostrar ao mesmo público que a saga não é apenas uma "rua" que leva a um ponto. É uma estrada que leva a diversas cidades. 

As histórias têm amplitude, extensão, densidade e abrangência. O filme começa com Quinn (Stefanie Scott) procurando ajuda de Elise para entrar em contato com a mãe que morreu de câncer. Elise então explica que parou de atuar como médium, mas tenta ajudar a garota. Porém, ela parece conectar acidentalmente a menina a uma entidade chamada "O homem que não respira".  

Quinn volta para casa e logo depois sofre um chocante acidente de carro que a deixa com as duas pernas quebradas. De volta para casa, a garota começa a ver um estranho ser que parece cada vez mais próximo e violento. 

Este terceiro filme não foi dirigido por Wan, pois ele estava ocupado dirigindo Velozes e Furiosos 7. E, só para confirmar que o cara é mágico em fazer dinheiro, o filme, que nada tem a ver com sua filmografia (filme de ação, orçamento alto), rendeu 1 bilhão e meio e é a décima primeira maior bilheteria da história do cinema. Mesmo assim, ele faz uma breve aparição como diretor de teatro durante a cena do teste de Quinn. 

O roteirista e diretor Leigh Whannell disse que queria que "O homem que não consegue respirar" se parecesse com a vítima da preguiça em Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995). O mesmo ator, Michael Reid MacKay, foi escalado para o papel.

Aliás, Sobrenatural: A Origem é uma agonia. Poderia muito bem ser o subtítulo do filme. Ver a impotência da menina desesperada, com as pernas quebradas, enquanto um fantasma se aproxima, é agonizante. E, de forma perspicaz, o diretor alterna momentos intimistas com jump scares, que parecem programados para assustar, não importa o quão preparado esteja. 

A cena em que Elise conversa com a mãe da menina, por exemplo, é de uma sensibilidade tremenda. Foi uma forma de agregar camadas ao personagem, sendo que é um filme de horror, teoricamente com apenas a missão de assustar. De tão bela, a cena dá conforto para quem perdeu alguém, o que é raro em filmes como esse.

A ausência de trilha sonora em muitos momentos, ou apenas pequenas pontuações, causa uma proposital imersão na história. E, a partir dela, temos empatia com os personagens e, ao mesmo tempo, ficamos desprotegidos quanto aos sustos. E é dessa forma que o horror se instala. 

E, por fim, algumas referências interessantes:

O tapete do corredor do prédio onde os Brenner moram é fortemente inspirado no tapete do hotel The Overlook em O Iluminado (1980). Inclusive a cor das paredes. 

O momento em que Elise é atacada pela Noiva de Preto, ouvimos a impactante trilha de O Iluminado. 

Elise tem um cachorro chamado Warren. O nome é uma referência aos paranormais Ed Warren e Lorraine Warren, que apareceram no filme Invocação do Mal (2013), de James Wan, interpretado por Patrick Wilson e Vera Farmiga.

Já a mãe de Josh Lambert se chama Lorraine.

O caderno de anotações de Elise tem um boneco Billy, da série Jogos Mortais, desenhado.

Considerando que a intenção de Jason Blum, da Blumhouse, é fazer crossovers, podemos estar diante de um futuro Jogos Mortais sobrenaturais.


🔷Sobrenatural - A Última Chave (2018)

Um filme pode até ser bom, mas, se a história não se vender, o boca a boca não acontece, e o filme, que poderia ser inesquecível, se perde, enlatado num galpão, esquecido pelo tempo. A produtora Blumhouse é um dos casos de sucesso mais claros nos últimos tempos. Criada por Jason Blum, ela investe em longas de baixo orçamento, geralmente de suspense ou terror, mas com grande potencial de bilheteria. 

Criaram pérolas, que se tornaram franquias do horror, como Atividade Paranormal, Uma Noite de Crime e Sobrenatural. E, quando chegamos ao quarto filme da maratona, com Sobrenatural: A Última Chave, que até esse ponto se tornou o maior sucesso da franquia, com um orçamento de 10 milhões e rendendo 167.

Na trama, Elise Rainier (Lin Shaye) é chamada para resolver o caso de uma assombração no Novo México. O que seria apenas mais um caso ganha ares especiais quando Elise descobre que a atividade sobrenatural está acontecendo justamente na casa em que ela passou a infância. 

Enquanto tenta resolver o caso do morador de sua antiga casa, ela será obrigada a confrontar vários fantasmas e demônios de sua infância, alguns literais. Ao lado de Specs (Leigh Whannell) e Tucker (Angus Sampson), Elise se depara com seu caso mais pessoal.

Mas no filme há um sensacional prólogo, mostrando a infância da personagem Elise, como ela lidava com suas visões e como seus pais, especialmente o pai violento, reagiam ao dom da menina. 

A cena em que ela é punida, sendo colocada no porão, é de cortar o coração. Ainda que o horror reine durante toda a sequência, a empatia que sentimos com a menina nos faz pensar o quão terrível pode ser uma punição, vista da perspectiva de uma criança. 

E como os pais devem ter cuidado com suas reações, porque, na maioria das vezes, os monstros são reais para quem os vê.

O prólogo se passa em 1953, quando Elise Rainier vivia com sua mãe amorosa, seu pai, que era um guarda penitenciário abusivo, e seu irmão mais novo. Quando o pai a tranca no tal porão, ela é induzida por um demônio a destrancar a porta (vermelha), permitindo que ele escape. E, para a sua infelicidade, a mãe é morta no processo. 

Insidious

Traiçoeiro, enganador, pérfido, falso, infiel, traidor, desleal. Assim são os sinônimos da tradução literal do título principal dos filmes: Insidioso. E são apenas algumas poucas definições do mal que ronda Elise. E às vezes, ronda de forma tão atmosférica, que vemos fantasmas onde não tem. Se no filme anterior os jumpscares eram precedidos de longos silêncios, aqui eles ocorrem de forma enganosa, por motivos que nossa mente criou. 

"Sobrenatural" mostra que o medo é o mais fiel amigo do mal. E que uma mente com medo se torna traiçoeira, enganadora, insidiosa.

 

🔷Sobrenatural - A Porta Vermelha (2023)

Ao assistirmos Sobrenatural: A Porta Vermelha, a primeira situação que podemos imaginar é que o desgaste tomou conta da saga insidiosa. Principalmente por focar em um elemento presente desde o primeiro filme: a tal porta vermelha. Além do mais, continuações tendem a desgastar a ideia original. 

Mas o filme se prova com fôlego, principalmente ao olhar para seu próprio passado e estabelecer sua trama em consequências de atos. A trama de Sobrenatural: A Porta Vermelha volta a seguir a família Lambert, formada por Renai (Rose Byrne), Josh (Patrick Wilson), Foster (Andrew Astor), Dalton (Ty Simpkins) e Kali (Juliana Davies). Josh segue para o leste para deixar seu filho, Dalton, na faculdade. 


Dalton acabou de ingressar na faculdade; no entanto, o sonho do jovem logo se torna um pesadelo, e ele se dá conta de que ainda está muito longe de conseguir levar uma vida normal. Quando os demônios reprimidos de seu passado voltam repentinamente para assombrar os dois, ele e o pai são obrigados a retornar à macabra dimensão da Porta Vermelha, enfrentando uma série de novas e ainda mais terríveis ameaças e encarando seus medos mais profundos para, só assim, banirem seus demônios de uma vez por todas.

A história começa uma década após o capítulo 2, quando pai e filho, os projetores astrais Josh (Patrick Wilson) e Dalton (Ty Simpkins), escolhem ter suas memórias e habilidades eliminadas em um esforço para impedir que as entidades famintas do "Distante" retornem. 


Mas, embora Josh e Dalton não consigam se lembrar de nenhum detalhe específico, a cicatriz psicológica dos ataques do demônio fraturou sua família, com Josh em particular incapaz de expressar ele mesmo no meio de uma névoa cerebral cada vez maior. Dalton é igualmente assombrado, mas uma paixão pela arte parece tê-lo mantido nos trilhos.

O filme traça um paralelo interessante com Doutor Sono. Em ambos os casos, Dalton e Danny Torrence cresceram e guardam seus demônios em baús, escondidos nas profundezas de suas mentes. E tudo fica mais curioso se pensarmos que o segundo filme tem conexões profundas com O Iluminado. A diferença é que "A Porta Vermelha" é um elemento usado para o auxílio da jornada em direção à reconciliação entre Dalton e Josh, enquanto o Hotel Overlook é um agente do caos, que separa Danny de Jack.


O ator Patrick Wilson, que interpreta Josh na franquia, fez sua estreia como diretor em Sobrenatural: A Porta Vermelha. Ao contrário dos demais filmes, este não foi escrito por Leigh Whannell. O responsável pelo roteiro foi Scott Teems, conhecido por filmes como Halloween Kills: O Terror Continua.

Considerando que o filme foi orçado nos tradicionais 10 milhões e rendeu 187 milhões, o maior sucesso da franquia até agora, é natural pensarmos que a franquia será mesmo explorada até o bagaço. E que ótimo, já que parecem saber o que estão fazendo.

E o público aprova.


🔷Sobrenatural - Agora entre nós (2026)

Quem despreza continuações, ao se aventurar por "Sobrenatural - Agora entre nós", vai se deparar com outra grata surpresa. Sem um diretor que convença pela filmografia pregressa e pela mudança quase total do elenco — apenas Lin Shaye retorna —, o filme é perturbador. Desde a primeira sequência, seu cartão de visitas é dado.  

Na história, duas décadas depois de testemunhar o suicídio da mãe em circunstâncias inexplicáveis, Gemma Hall tenta levar uma vida normal ao lado da filha Maya, vivendo na mesma casa onde passou a infância. Porém, quando começa a ter estranhas experiências de projeção astral e a enxergar figuras misteriosas que parecem ligadas ao seu passado, Gemma percebe que algo sobrenatural voltou a persegui-la.

Ao descobrir que possui uma rara capacidade de transportar objetos entre o mundo dos vivos e o chamado Further, uma dimensão habitada por espíritos, Gemma conhece uma presença ligada à lendária Elise Rainer e descobre uma terrível conspiração. Um antigo líder de culto, Cyrus Lam, pretende usar seus poderes para trazer os mortos de volta ao mundo material, contando com a ajuda de um grupo de seguidores que se submetem a experiências extremas para alcançar a dimensão espiritual.

Enquanto tenta impedir Cyrus, Gemma começa a compreender que sua mãe também conhecia os segredos do Further e que seu suicídio pode ter sido uma tentativa desesperada de protegê-la. Quando Maya manifesta os mesmos poderes da mãe e se torna o novo alvo de Cyrus, Gemma precisa enfrentar seus próprios traumas e mergulhar definitivamente no mundo dos mortos para salvar a filha e impedir que uma legião de espíritos seja libertada.

Traiçoeiro

"Sobrenatural - Agora entre nós" encontra uma maneira interessante de mexer em uma das regras mais conhecidas da franquia. Até aqui, o Além (Further) sempre funcionou como aquele lugar para onde os personagens precisam entrar, quase como uma dimensão paralela onde os mortos esperam, observam e, eventualmente, encontram uma maneira de voltar. Desta vez, a ideia é justamente inverter esse movimento. O problema deixa de ser apenas entrar no local. O verdadeiro perigo está na possibilidade de aquilo que existe do outro lado conseguir atravessar para o nosso mundo de uma maneira muito mais concreta.

Essa mudança dá ao filme uma identidade própria dentro da série e permite que algumas situações sejam diferentes do que já vimos nos capítulos anteriores. Ainda estamos diante de fantasmas, possessões, projeções astrais e sustos acompanhados por efeitos sonoros que praticamente anunciam o momento em que devemos pular da cadeira, mas existe uma preocupação maior em fazer com que a fronteira entre os dois mundos fique cada vez menos segura.

É aí que o filme encontra seu melhor elemento dramático, ainda que o roteiro de Jacob Chase tenha uma tendência evidente a explicar demais aquilo que já está suficientemente claro nas imagens e nas atuações. A ideia de um trauma familiar passando de uma geração para outra não chega a ser novidade dentro de Insidious. Afinal, boa parte de "Sobrenatural: A Porta Vermelha" já trabalhava justamente com as consequências emocionais da experiência vivida por Josh e Dalton Lambert. Aqui, a mesma questão aparece sob outra perspectiva. Gemma vê na filha algumas possibilidades assustadoras de repetição de sua própria história e, conforme sua estabilidade começa a desaparecer, Maya passa a testemunhar a transformação da mãe.

Amelia Eve consegue sustentar bem esse processo. Gemma começa o filme tentando controlar aquilo que está acontecendo ao seu redor e termina cada vez mais próxima de perder essa capacidade. Island Austin também funciona muito bem como Maya, principalmente porque a personagem não é construída apenas como uma criança indefesa esperando ser salva. Existe fragilidade, evidentemente, mas também uma resistência que cresce conforme ela passa a compreender que existe algo muito errado acontecendo com sua mãe.

O que realmente diferencia este novo capítulo, entretanto, é a maneira como Jacob Chase utiliza essa nova relação entre as duas dimensões para criar algumas situações que a franquia ainda não havia explorado dessa forma. O diretor conhece muito bem a linguagem visual da franquia. Ele sabe quando esconder uma ameaça, quando prolongar um silêncio e, principalmente, quando deixar o espectador esperando por alguma coisa que pode ou não acontecer.

O filme continua utilizando jump scares. Muitos deles são bastante previsíveis. Há também os tradicionais ruídos repentinos, aparições e criaturas que surgem no momento calculado para provocar o susto. Isso faz parte da identidade da série e seria estranho esperar que um sexto filme simplesmente abandonasse esses recursos. A diferença está em alguns cenários que conseguem trabalhar melhor a sensação de insegurança.

Um dos melhores momentos acontece quando Gemma entra no forte de almofadas de Maya. Aquilo que deveria ser um esconderijo infantil transforma-se em um labirinto claustrofóbico. A câmera aproveita o espaço apertado e faz com que cada passagem pareça conduzir a algum lugar diferente. O espectador perde rapidamente a noção de onde está e, principalmente, de onde pode surgir alguma coisa. Chase consegue prolongar a tensão sem precisar depender imediatamente de uma criatura aparecendo diante da câmera. Me lembrou bastante um nível do jogo Backrooms, inclusive.

Mas é outra sequência que, para mim, representa o ponto alto do filme. E curiosamente ela acontece no mundo real e logo em seguida. Gemma trabalha como higienista dental, e o filme utiliza essa profissão para construir uma cena de horror físico que talvez seja uma das mais desagradáveis de toda a franquia. Não é exatamente o tipo de terror que esperamos encontrar em Sobrenatural. 

A sequência começa de maneira relativamente comum e vai ficando cada vez mais repulsiva. O diretor não tem muita pressa para terminar a situação e transformar procedimentos odontológicos em uma sucessão de imagens capazes de provocar desconforto físico no espectador. É justamente porque tudo aquilo parece tão concreto que a cena funciona tão bem. Existe uma proximidade com o corpo humano que torna o horror muito mais desagradável do que uma criatura sobrenatural aparecendo em um corredor.

É como se o filme saísse das Backrooms e fosse direto para o inferno de Hellraiser. É um daqueles momentos em que o mundo real consegue ser mais perturbador do que o mundo dos mortos. Outra decisão acertada está no antagonista. Os filmes anteriores da franquia trabalharam muito com figuras demoníacas visualmente marcantes, mas que atuam principalmente como manifestações do mal existente no Além. "Agora entre nós" tenta oferecer algo um pouco diferente por meio de Cyrus Lam, interpretado por Sam Spruell.

Cyrus possui uma história própria e, principalmente, uma motivação mais definida. Ele não é simplesmente uma criatura esperando pela próxima pessoa que irá atravessar uma porta. Existe uma lógica por trás de suas ações e uma relação direta entre seus objetivos e a maneira como o Além passa a interferir no mundo material. Não chega a ser um vilão particularmente complexo, mas a diferença é suficiente para fazer com que suas aparições sejam menos previsíveis.

O elenco secundário ajuda bastante a manter o filme funcionando. Lin Shaye retorna como Elise Rainier, e sua presença continua sendo uma das melhores conexões emocionais com os filmes anteriores. A personagem já morreu há vários capítulos, mas a franquia encontrou maneiras de mantê-la presente sem transformar seu retorno em algo completamente gratuito. Elise continua sendo aquela figura que parece conhecer as regras daquele universo melhor do que qualquer outra pessoa.

Brandon Perea também merece destaque como Nick. O personagem poderia facilmente cair naquele papel do namorado que não acredita em nada até testemunhar alguma coisa sobrenatural. O roteiro, porém, aproveita o talento cômico do ator para fazer de Nick um cético muito mais agradável. Ele questiona o que está acontecendo, mas não passa tempo demais insistindo que tudo aquilo é loucura quando a realidade começa a provar o contrário.

Mais interessante ainda é Clare, interpretada por Maisie Richardson-Sellers. A personagem é uma espécie de sucessora espiritual de Elise no mundo material e, embora ainda esteja muito ligada às necessidades da trama, existe espaço para que ela se torne mais importante caso a franquia continue seguindo esse caminho. 

Até mesmo a vizinhança de Gemma ganha uma participação que funciona melhor do que poderia parecer inicialmente. O filme sabe brincar com o próprio universo e consegue encaixar um momento de humor durante uma situação extremamente tensa sem destruir completamente o clima. 

Fazendo um paralelo à própria história, o filme fecha uma porta, mas encontra uma forma satisfatória de abrir outra, apontando para novas direções. E, de quebra, ainda se utilizou do body horror como ferramenta e sons tão perturbadores que vão tirar seu sono.

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