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IT: BEM-VINDOS A DERRY - 1ª TEMPORADA (2025) - SERIE REVIEW

Derry

Há algo quase instintivo em nós, amantes do terror, que reage com desconfiança sempre que alguém anuncia um prequel. A palavra em si já acende alertas: é realmente necessário? Havia mesmo algo ali, entre as frestas da obra original, clamando por explicação? Quase sempre, não. Quase sempre, um prequel entrega aquilo que nunca pedimos, respostas que diluem o mistério, explicações que quebram a magia, mitologias que jamais deveriam ter sido detalhadas. A sensação é familiar: aquilo que não precisava existir… existe. E então surge IT: Bem-Vindos a Derry, e tudo isso se despedaça num instante.

Porque a série comete justamente o crime que tememos, voltar no tempo, explicar, expandir, revisitar e, ainda assim, faz tudo isso com uma genialidade tão inesperada que derruba qualquer argumento contrário. A atmosfera se justifica. A história pulsa. A origem da maldade em Derry não surge como resposta, mas como revelação. É como se o prequel, tão temido, de repente se tornasse não apenas digno, mas indispensável. Uma exceção brilhante à regra.

E essa catarse, curiosamente, ecoa a mesma experiência provocada por outro “prequel desnecessário” que ousou existir: Doutor Sono. Outro mergulho para trás, outra tentativa de ampliar um universo já perfeito em si. E, mais uma vez, contra toda a lógica, contra toda a prudência, a obra se revela extraordinária. O impossível acontece duas vezes: duas continuações tardias que ninguém pediu, encapsulando um terror emocional, íntimo, angustiante… e funcionando.

Mas é quando percebemos um detalhe que a catarse explode de vez: Dick Hallorann. O mentor sensitivo de Danny Torrance, o sobrevivente espiritual de O Iluminado, está presente tanto em Doutor Sono quanto em IT: Bem-Vindos a Derry. De repente, duas obras que não deveriam existir, mas existem e são ótimas, se tocam por meio do mesmo personagem. Dois prequels improváveis, de universos aparentemente desconectados, unidos por uma figura que transita entre histórias como se carregasse consigo o próprio tecido do medo. É como se o terror de Stephen King piscasse para nós: você achou que isto era desnecessário? Então observe como tudo conversa.

Bem-vindos?

A volta a Derry nunca é apenas geografia; é um retorno às zonas frágeis da mente, onde o horror encontra terreno fértil. Em IT, monstros prosperam justamente ali: no momento em que a identidade ainda se forma e os medos não têm nome. É nesse espaço que Pennywise reina.

O primeiro episódio estabelece o tom ao acompanhar Matty, cuja fuga termina na carona com uma família que se revela um pesadelo. A criança soletrando ameaças, a irmã brincando com carne crua e o pai indiferente criam um desconforto crescente, mas nada se compara ao nascimento da criatura alada no banco de trás, uma síntese do que IT representa: o familiar corrompido e a proteção que se transforma em ameaça.

A partir daí, o terror se espalha. Lilly, já abalada pela perda do pai e pela internação psiquiátrica, ouve a voz de Matty ecoando pelo encanamento. A esperança dura pouco: dedos ensanguentados surgem da pia, mostrando que Pennywise invade até o espaço mais íntimo. Teddy, por sua vez, tem seus medos culturais distorcidos quando o discurso do pai sobre horrores históricos é transformado em uma visão aterradora de peles humanas envolvidas em uma luminária.

O massacre no Capitol Theater é o ápice do episódio. Enquanto assistem The Music Man, Matty surge dentro da projeção, carregando o bebê monstruoso, e a criatura atravessa a tela. A morte de Phil, Teddy e Suzy rompe a lógica das narrativas juvenis e deixa claro que Bem Vindo a Derry não pretende poupar ninguém.

O segundo episódio leva o horror ao subconsciente no pesadelo de Ronnie, presa dentro das próprias cobertas e obrigada a reviver um nascimento distorcido sob a figura de uma mãe acusatória. Já Lilly enfrenta um terror público no supermercado, onde olhares fixos e comportamentos ritualísticos criam uma atmosfera de paranoia. Sua visão de tentáculos feitos de picles, eco do acidente que matou o pai, reforça o contraste entre o banal e o perturbador.

Já no terceiro, o passado entra em cena com a perseguição de 1908, quando Francis é caçado por uma criatura aracnídea e decrépita. Paralelamente, Lilly, Ronnie, Will e Rich testemunham cadáveres de amigos emergindo do solo no cemitério, numa sequência que transforma uma busca por provas em luta pela sobrevivência. A visão de Dick Hallorann, um espaço de esgoto onde corpos flutuam e fragmentos de Pennywise ecoam, amplia a sensação de que a ameaça atravessa tempo e consciência.

O quarto episódio retorna ao horror íntimo com Will sendo arrastado para a água por uma versão carbonizada do pai morto, deixando marcas físicas e emocionais. Marge, envolvida em um plano cruel contra Lilly, sofre uma metamorfose grotesca, enquanto Hallorann testemunha distorções corporais que insinuam a origem da criatura.

E no quinto, o sobrenatural invade a normalidade quando Charlotte Hanlon vê, no reflexo, um policial sorrindo de forma impossível. A cena sugere que Pennywise amplia seu alcance e que a autoridade não significa segurança. O clímax ocorre nos túneis subterrâneos, onde ilusões, mortes súbitas e a falsa aparição de Matty desorientam personagens e espectadores. A aproximação de Pennywise por Lilly e as visões que assaltam Hallorann encerram o episódio com a sensação de um mal inevitável. 


O sexto episódio, que eu diria que é o mais ousado, mergulha diretamente em 1935, levando o espectador de volta a Juniper Hill, um espaço que já carrega em si o peso do abandono e da loucura institucionalizada. É ali que conhecemos Mabel, uma jovem residente cuja inocência se torna combustível para mais um ritual de morte. Ao comentar sobre um palhaço que a convidou para encontrá-lo no porão, Mabel é ignorada pelos adultos ao redor, uma constante na história de Derry, onde avisos costumam ser tratados como delírios infantis. Ingrid, ainda jovem, escuta a conversa e decide levá-la até o subsolo. 

O gesto, que poderia ser interpretado como cuidado, revela-se trágico: Pennywise está à espera. O que torna a cena particularmente cruel não é apenas a morte de Mabel, mas o fato de Ingrid ainda acreditar que seu pai, agora assumido pela entidade, possa ser salvo. A ilusão de redenção leva diretamente à destruição, e o sangue da garota se espalhando sob a porta do porão sintetiza a brutalidade silenciosa do episódio.


No presente, Lilly continua sendo atormentada pelo espectro do pai. Desta vez, a assombração invade o espaço escolar, quando ele surge rastejando de dentro de sua carteira. O ataque não é apenas visualmente perturbador, mas emocionalmente devastador, culminando em um colapso público que reforça o isolamento da personagem. Incapaz de suportar o ambiente, Lilly abandona a escola em busca de Ingrid, acreditando encontrar acolhimento. O que ela encontra, porém, é uma revelação ainda mais perturbadora.

Aos poucos, Lilly descobre que Ingrid mantém uma ligação direta com Pennywise: seu pai foi o primeiro a assumir a persona do palhaço, um artista itinerante de maquiagem grotesca que acabou absorvido pela entidade. Ingrid vive em negação, convencida de que ainda pode recuperar o pai de alguma forma. Essa crença a coloca perigosamente próxima do delírio, levando-a a manipular Lilly como peça-chave de um plano que só pode terminar em desastre. Quando Lilly reage, ferindo Ingrid e fugindo, já é tarde demais; a obsessão de Ingrid com Pennywise está em pleno movimento, pronta para desencadear consequências irreversíveis.


O sétimo episódio, o mais chocante e estarrecedor até aqui, amplia ainda mais o escopo da tragédia ao retornar mais uma vez a 1908. A série revela o momento exato em que a forma definitiva de Pennywise nasce. Vemos Ingrid criança ao lado do pai, então um palhaço querido, até que ele é atraído por um menino estranho para dentro da floresta. A cena não aposta no susto imediato, mas em um desconforto progressivo: o espectador entende que está testemunhando o instante em que o rosto mais famoso do horror de Derry é moldado. Não é apenas uma origem sobrenatural, mas uma corrupção gradual do humano.

Essa herança maldita culmina nos eventos do Black Spot, talvez o momento mais brutal da série até então. O incêndio do clube se transforma em um verdadeiro inferno coletivo: pessoas queimando vivas, execuções sumárias, o caos absoluto misturado às visões de Hallorann e à presença explícita de Pennywise, que chega a devorar o rosto de uma vítima. No meio desse massacre, a morte de Rich se impõe como um golpe emocional definitivo, deixando-nos sem chão, reforçando a ideia de que ninguém está protegido, nem mesmo aqueles que pareciam centrais à narrativa.


Em paralelo, Ingrid finalmente confronta Pennywise frente a frente. A cena é perturbadora não apenas pela violência, mas pelo peso moral que carrega. A morte de Stan Kersch, um homem marcado pelo racismo e pelo abuso, não desperta exatamente empatia, mas evidencia como Pennywise se alimenta de contextos já apodrecidos. Ingrid, por sua vez, precisa encarar a verdade: sua obsessão foi responsável por reacender o ciclo de mortes. Quando finalmente aceita que o pai está perdido, a entidade projeta sobre ela aquela luz horrenda, um gesto que simboliza não apenas a morte física, mas a completa aniquilação de sua identidade. Pennywise não mata apenas corpos; ele apaga esperanças.

Na manhã seguinte ao incêndio, Hallorann aparece profundamente abalado. Ao ser visitado por Hanlon, fica claro que o trauma não terminou com o fogo: ele continua vendo os rostos dos mortos, carregando-os como uma maldição pessoal. O horror, mais uma vez, se estende além do evento em si, sobrevivendo como resíduo psicológico. 


É também nesse ponto que a série revela a verdadeira dimensão da insanidade de General Shaw. Seu plano nunca foi conter Pennywise, mas utilizá-lo como ferramenta de controle, liberando a entidade para manter a população em estado permanente de medo. A revelação não apenas revolta Hanlon como escancara a crítica central da série: o verdadeiro terror muitas vezes nasce da arrogância humana, da crença de que forças incontroláveis podem ser instrumentalizadas sem consequências.

O episódio se encerra com Pennywise plenamente desperto, graças às ações militares, agora livre para se manifestar onde quiser. Sua primeira visita é a Will Hanlon, que novamente é exposto àquela luz hipnótica e ameaçadora. O ciclo recomeça, deixando claro que, em Derry, cada tentativa de dominar o mal apenas o torna mais forte.


Dando sequência ao percurso de horror que a série vinha construindo, o oitavo episódio funciona como um ponto de ebulição em que Pennywise deixa qualquer sutileza de lado e assume o controle absoluto da cidade. Se antes o medo se infiltrava em espaços íntimos ou surgia em explosões localizadas de violência, aqui ele se manifesta de forma aberta, quase performática, como se a entidade finalmente não precisasse mais se esconder.

Um dos momentos mais perturbadores do episódio acontece logo no colégio de Derry. Pennywise surge em plena luz do dia, invade a escola e impõe sua própria lógica ao espaço.  É um momento em que a série abandona qualquer tentativa de moderação e expõe o terror como um show cruel, pensado para humilhar, dominar e marcar uma geração inteira.


O confronto seguinte desloca o terror para um cenário inóspito e simbólico: o rio congelado. Lilly, Ronnie e Marge seguem o rastro de Pennywise e das crianças esvaziadas de alma que ele conduz como um cortejo. Inicialmente, Ronnie consegue contê-lo usando a adaga, forçando-o a recuar. No entanto, diferentemente dos túneis, ali não há barreiras físicas que limitem os movimentos da entidade. Pennywise começa a girar ao redor do grupo, obrigando-as a rodar junto com a lâmina, criando uma coreografia macabra que intensifica o desespero. 

O jogo termina quando ele demonstra ser mais astuto do que aparenta e captura Marge. Ao quase matá-la, Pennywise revela informações perturbadoras sobre o futuro dela, incluindo referências a seu filho, Richie Tozier, transformando a ameaça imediata em um presságio de longo alcance. A cena combina ação, tensão psicológica e a sensação de que o mal de Derry atravessa gerações. Descobrimos, por meio desta revelação, que o personagem dos filmes tem o nome do menino que morre no incêndio, dando uma cama emocional extra aos personagens.


A queda de General Shaw acontece logo em seguida e funciona quase como uma conclusão moral. Convencido de que poderia controlar Pennywise, Shaw tenta argumentar com a entidade, lembrando que foi ele quem a libertou. Mas Pennywise não negocia, não reconhece pactos humanos e não responde a lógicas de poder. Em um gesto rápido e brutal, morde o rosto de Shaw, encerrando sua trajetória de arrogância e irresponsabilidade. A morte é direta, quase seca, mas carrega um peso simbólico enorme: ninguém que acredita poder instrumentalizar o mal sai ileso.

O episódio culmina na batalha final, em que todas as linhas narrativas convergem. As crianças tentam posicionar a adaga enquanto o exército se aproxima, transformando o confronto em uma corrida contra o tempo. Pennywise, por sua vez, assume uma forma ainda mais monstruosa, revelando asas e reforçando sua natureza abertamente predatória. O caos é total: forças humanas e sobrenaturais colidem, estratégias falham, e cada decisão parece carregar consequências irreversíveis. O medo aqui não vem apenas da ameaça física, mas da incerteza absoluta sobre quem sobreviverá e a que custo.


Ao final, Pennywise volta a adormecer, encerrando temporariamente seu ciclo de destruição. Mas a sensação não é de alívio, é de suspensão. O passado continua chamando, especialmente o ano de 1935, sugerindo que ainda há camadas não reveladas dessa história de horror. A série fecha a temporada não como um encerramento definitivo, mas como uma pausa inquietante, deixando claro que Derry jamais se livra completamente de seus monstros. O fogo pode apagar, o gelo pode cobrir, mas o medo sempre encontra uma forma de retornar.

A série ainda coloca a cereja do bolo, com Dick indo para o Overlook Hotel, acreditando que lá será mais tranquilo que servir no exército.

Ele só não imaginava que lá encontraria o iluminado... Mas aí, já é outra história...

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