CREEPSHOW 2 - SHOW DE HORRORES (1987) - FILM REVIEW
Aviso de Gatilhos e Temas Sensíveis. Este texto apresenta uma análise crítica e cultural sobre a obra cinematográfica de ficção.
Show de Horrores 2
Não há nada tão extraordinário em adaptações (ou roteiros) do mestre Stephen King quanto a realização proporcional à densidade da história. E, como tenho revisto diariamente todas as adaptações, fica evidente quando uma trama merece uma série ou minissérie, quando funciona bem em um filme ou, ainda, quando precisa de menos tempo para ficar perfeita — como um curta ou média-metragem, que nesse caso pode ser colocado em uma antologia. O que nos leva a Creepshow 2 – Show de Horrores. A produção tem um prólogo que introduz três histórias.
Um caminhão de entrega encosta perto de uma banca de jornal em uma pequena cidade, onde um garoto chamado Billy (de Creepshow) espera ansiosamente por ele. A cortina na parte de trás do caminhão se abre, revelando uma figura sinistra que joga um pacote na calçada: a última edição da Creepshow, para grande alegria de Billy. Quando o pacote se abre sozinho, Billy começa a ler e o homem revela sua verdadeira identidade: o Creepshow Creepy.
Primeira história: “O Velho Chefe Cabeça de Madeira”
Ray e Martha Spruce são um casal de idosos que administra o armazém de uma pequena cidade, cuja decoração inclui um índio de madeira chamado “Old Chief Wood’nhead”. Os Spruce recebem a visita de Benjamin Whitemoon, ancião de uma tribo nativo-americana local, que lhes entrega um saco de joias turquesa — tesouros sagrados da tribo — como garantia de uma dívida.
Mais tarde, os Spruce são assaltados pelo sobrinho de Benjamin, Sam Whitemoon, armado com uma espingarda, e seus dois amigos, Andy Cavanaugh e Vince Gribbens. Durante o confronto, a arma dispara e mata Martha. Sam também mata Ray antes de fugir com as joias. Depois que eles partem, o Velho Chefe Wood’nhead ganha vida e vai atrás dos bandidos. Ele mata Vince com flechas, Andy com uma machadinha e escalpela Sam com uma faca de caça. Na manhã seguinte, Benjamin encontra as joias turquesa em sua cama. Ao visitar a loja destruída, encontra o Chefe Wood’nhead de volta à varanda, segurando o couro cabeludo ensanguentado de Sam.
Considerações:
Desde que me lembro, esta antologia é uma das melhores. Assisti nos anos 90 e cada história me marcou de uma forma. Esta primeira, do chefe apache que vinga a morte dos donos, é muito interessante. Além de mostrar a lealdade dos povos indígenas, é uma bela trama de vingança, perfeita em cerca de meia hora de exibição.
O ator David Holbrook aparece neste segmento. Seu pai, Hal Holbrook, estrelou Creepshow: Arrepio do Medo (1982), no segmento “A Caixa”. Quando Andy Cavanaugh, um dos três punks, observa o gibi e a estante de revistas na Spruce's General Store, várias edições da Creepshow podem ser vistas com a mesma capa da adaptação em graphic novel de Creepshow: Arrepio do Medo (1982). A arte é do famoso artista da EC, Jack Kamen.
Como a história é centrada em nativo-americanos, Benjamin dirige um Pontiac Chieftain — “Chieftain” é um título indígena, e Pontiac foi um importante líder nativo. O relógio de neon vermelho da loja Spruce’s General é o mesmo usado anteriormente em O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986).
Segunda história: “A Balsa”
Em meados de outubro, quatro estudantes universitários — Deke, Laverne, Randy e Rachel — chegam ao lago Cascade Beach para se divertir. Ao nadar até uma jangada no meio do lago, Randy testemunha um pato sendo puxado para baixo por algo invisível. Quando todos estão na jangada, descobrem uma criatura negra e viscosa, semelhante a uma mancha de óleo, flutuando na água.
Rachel tenta tocá-la e é imediatamente capturada e digerida. Os três restantes entram em pânico. Deke planeja nadar até a costa, mas a criatura se infiltra pelas rachaduras da jangada, o agarra e o mata. Randy e Laverne sobrevivem à noite, revezando-se na vigília.
Na manhã seguinte, Randy, acreditando estarem seguros, começa a acariciar Laverne adormecida — mas a criatura já havia atravessado as rachaduras e tomado metade de seu rosto. Enquanto ela é puxada para fora da jangada, Randy tenta fugir nadando e chega à margem, gritando “Eu venci você!”. Mas a criatura se ergue como uma onda e o engole.
A bolha retorna ao lago, deixando apenas roupas e um carro funcionando. Atrás de uma vegetação densa, uma placa quase invisível diz: “Proibido nadar”.
Considerações:
Esse não é apenas o melhor episódio da antologia, como o que mais me marcou entre todas que já assisti. Irônico, bem feito e, revisto hoje, percebi como os atores eram amadores, com reações visivelmente forçadas nos momentos mais tensos.
Daniel Beer, que interpretou Randy, quase morreu de hipotermia. A água estava tão fria que sua pele ficou esverdeada. Ele foi levado ao hospital e depois retornou para concluir o segmento. O maquiador Ed French deixou o filme após se sentir desprezado pelo diretor Michael Gornick, que pediu conselhos a Howard Berger sobre como consertar o monstro do lago. Berger e Greg Nicotero concluíram os efeitos restantes.
“A Balsa” é baseada no conto de King de 1982. Os outros segmentos são histórias originais do filme. King aparece como o caminhoneiro após o atropelamento.
Terceira história: “O Carona”
Annie Lansing, uma empresária infiel do Maine, desperta ao lado de seu amante e percebe que tem apenas 15 minutos para chegar em casa antes do marido, George. No trajeto, ao perder o controle em uma curva molhada, atropela um caroneiro com destino a Dover. Vendo que ninguém testemunhou, foge. Logo após, o local se enche de testemunhas, e George relata o atropelamento.
A quilômetros dali, Annie considera se entregar, mas decide que está segura — até que o caroneiro aparece ao lado do carro dizendo “Obrigado pela carona, senhora!”, frase repetida durante a história. Ela tenta fugir, mas ele reaparece, invade o carro e a ataca diversas vezes. Annie o atropela repetidamente, mas ele continua voltando, cada vez mais mutilado.
Após um acidente grave, ela acredita ter se livrado do morto-vivo e chega em casa antes do marido. Mas, ao sair do carro, o caroneiro mutilado a surpreende e a ataca. A garagem se fecha e ela morre por envenenamento por monóxido de carbono. George chega e encontra seu corpo com a placa “DOVER” ensanguentada em seu colo.
Considerações:
Com um fundo moral, todos os episódios apresentam figuras sobrenaturais que punem personagens imorais, criminosos, infiéis ou abusadores. Até nas sequências entre histórias, o desfecho segue essa lógica.
A antologia foi dirigida por Michael Gornick, diretor de fotografia do primeiro filme, com roteiro de George Romero. O maquiador Ed French seria o intérprete de The Creep, mas deixou a produção; Tom Savini assumiu o papel.
Originalmente, assim como no primeiro Creepshow, o filme teria cinco histórias. “The Cat From Hell” acabou sendo usada em Contos da Escuridão (1990), dirigida por John Harrison. Outra história planejada era “Pinfall”, sobre times de boliche rivais e fantasmagóricos. Contos da Escuridão foi considerado uma sequência espiritual de Creepshow 2.
De toda forma, em uma lista de antologias essenciais de horror, Creepshow 2 certamente estaria no Top 1.
Conclusão
Creepshow 2 é um exemplo curioso de como três histórias podem carregar tons, ritmos e intenções diversas, mas ainda assim formar um conjunto coeso. Cada segmento explora um tipo diferente de temor humano, todos com a assinatura moralizante que já era marca registrada de George Romero e Stephen King: ninguém escapa impune de seus próprios pecados.
“O Velho Chefe Cabeça de Madeira” talvez seja o episódio mais clássico em estrutura. Ele utiliza elementos tradicionais de histórias de vingança, trabalha com figuras arquetípicas e entrega exatamente o que promete. Mesmo previsível em alguns pontos, funciona por sua atmosfera de western sobrenatural e pela força simbólica da figura indígena vingadora. É um conto sobre honra — destruída por alguns, restaurada por outro.
“A Balsa” é, por outro lado, o mais visceral. Ele troca a moralidade explícita por um terror mais primitivo: o medo da natureza desconhecida, incontrolável e indiferente. A criatura pegajosa, quase abstrata, é a ameaça perfeita para um episódio que se apoia mais no desconforto crescente do que no susto. Seu final irônico sintetiza bem o espírito dos EC Comics que inspiraram a antologia. Contudo, seus personagens rasos e a atuação irregular acabam revelando algumas fragilidades quando revistos hoje — o que, paradoxalmente, reforça seu charme anos 80.
“O Carona” fecha a antologia com a história mais frenética e pessimista. Aqui, a moralidade é clara: a culpa não dá trégua, e a tentativa de fugir das responsabilidades sempre cobra seu preço. É o episódio mais repetitivo, mas também o mais tenso, criando um ciclo de perseguição que beira o cômico, mas nunca perde o impacto. Sua força está na metáfora visual do caroneiro mutilado que insiste em voltar — a culpa que sempre retorna, independentemente do quanto se tente atropelá-la.
No conjunto, Creepshow 2 entrega um equilíbrio interessante entre simbolismo, ironia e terror físico. Mesmo com orçamento menor e menos histórias que o original, mantém a essência da proposta: contos de horror que funcionam como pequenas fábulas sangrentas. E justamente por essa soma de enfoques — da vingança mítica ao terror ecológico e à culpa obsessiva — a antologia continua sendo lembrada como uma das mais marcantes do gênero.


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