A CIDADE DOS AMALDIÇOADOS (1995) - FILM REVIEW
Vila dos condenados.
Não é todo dia que somos brindados com um John Carpenter realizando um remake (como O Enigma do Outro Mundo) de um clássico B, estrelado pelo próprio Superman (o saudoso Christopher Reeve) e Luke Skywalker (Mark Hamill). E logo no início, uma sequência remete a Dança da Morte (lançado um ano antes) de Stephen King. Nada mal, não é?
Baseado no livro The Midwich Cukkoos, de John Wyndham, e lançado em 1957, o filme trata de um conflito insólito na cidade interiorana, onde certo dia, de maneira súbita, todos os moradores desmaiam ao mesmo tempo, e ficam assim por algumas horas, até que estranhamente todos despertam. Meses depois, doze mulheres dão à luz, ao mesmo tempo, a crianças assustadoramente idênticas: inteligentes, platinadas e que não demonstram sentimentos por ninguém, exalando frieza diante de seus olhares penetrantes e posturas manipuladoras.
O título do livro refere-se ao fato de que, quando os cucos põem ovos, eles os depositam nos ninhos de outros pássaros (insuspeitos), que então criam os filhotes de cuco como seus. Para agravar a natureza insidiosa desse processo, os filhotes dos cucos muitas vezes matam seus companheiros de ninho em competição por comida e atenção dos pais.
Este foi o último filme estrelado por Christopher Reeve antes do acidente de cavalo que o deixou tetraplégico, ocorrido em 27 de maio de 1995. O diretor John Carpenter aparece em uma pequena ponta, como um homem ao telefone no posto de gasolina. O filme é refilmagem de A Aldeia dos Amaldiçoados (1960).
O filme foi rodado no oeste do condado de Marin, Califórnia. O diretor John Carpenter teve uma casa em Inverness por vários anos, então o local era essencialmente sua segunda casa naquela época (como diz o diretor, "seu próprio quintal"). No entanto, os moradores locais não ficaram felizes em ver a equipe na área, então dificultaram muito a filmagem por meio de assédio e vandalismo.
Carpenter conta que enquanto filmavam, por exemplo, uma tomada de som, um vizinho começava a cortar a grama ou a ligar uma motosserra até ser pago para parar. Algumas pessoas até tentaram arrombar os caminhões de equipamentos. Toda a experiência basicamente azedou Carpenter por morar na área, onde também foram filmadas várias cenas de seu filme anterior " A Bruma Assassina (1980).
John Carpenter convidou para o set Wolf Rilla, realizador da versão original de "A Aldeia dos Amaldiçoados (1960) ". Rilla agradeceu e visitou o set com sua esposa. Este é o segundo remake de um filme antigo dirigido por Carpenter. Anteriormente dirigiu " O Enigma de Outro Mundo (1982) ", um remake de " O Monstro do Ártico (1951) ".
Ele planejava trabalhar novamente com a "Universal" no remake de "O Monstro da Lagoa Negra (1954)", mas o fracasso de bilheteria do filme acabou com esses planos. Aliás, o diretor carrega o peso de ser cult e muito amado por todos que curtem horror, mas seus filmes nunca rendem o esperado no cinema.
John Carpenter viu o original quando tinha 12 anos. E segundo ele, "o filme ficou em sua minha mente por vários motivos''. A ideia de uma cidade inteira desmaiar era 'Uau!' Além disso, de alguma forma, ele teve uma paixão avassaladora por uma das garotas do original. Ela foi o seu primeiro amor.
Ele disse: "Eu queria que ela me atacasse, me assumisse e me obrigasse a fazer o que ela quisesse. Eu também sabia exatamente onde filmar. Moro lá, Inverness, Califórnia, e Point Reyes. Tenho uma casa lá. É o paraíso."
Ela está lá. Então voltei às raízes originais dela.“Você não precisa fazer muito no original, na verdade”, disse ele. “É preciso atualizá-lo, humanizá-lo um pouco e enriquecer os personagens. Quando o original foi feito, não era possível dizer a palavra 'grávida' na tela."
Tanto Christopher Reeve quanto Mark Hamill nasceram em 25 de setembro. Além disso, eles desempenharam o papel de personagens de quadrinhos da DC. Christopher era mais conhecido por interpretar o Superman em todos os quatro filmes. e também interpretou o Dr. Virgil Swann em Smallville: As Aventuras do Superboy (2001) . Mark interpretou e dublou o vilão O Trapaceiro em The Flash (1990) , Flash (2014) e Liga da Justiça (2001). Ele também dublou o Coringa em Batman: A Série Animada (1992) .
Charlotte Gravenor, a cabeleireira, descoloriu os cabelos dos atores que interpretaram as crianças e depois aplicou laca branca em seus cabelos. Isso os fez parecer alienígenas. Bruce Nicholson e Greg Nicotero aplicaram um efeito especial onde as cores das pupilas mudam quando as crianças assumem o controle dos adultos.
E afinal, qual o motivo de tudo o que ocorre?
O final do filme “A Aldeia dos Amaldiçoados” pode ser interpretado de diferentes maneiras, pois deixa alguns aspectos abertos à interpretação individual. No clímax do filme, os aldeões descobrem que as crianças, que possuem habilidades telepáticas e de controle da mente, são uma ameaça à sua existência. As crianças foram responsáveis por diversas mortes e atos de manipulação ao longo da história. Eventualmente, os aldeões decidem isolar as crianças em uma igreja e tentam destruí-las detonando uma bomba.
No entanto, o plano falha e as crianças sobrevivem à explosão. A cena final do filme mostra as crianças saindo ilesas da igreja destruída. Eles são visivelmente mais velhos, com olhos brilhantes e um comportamento frio e sem emoção. Ao saírem da aldeia, fica implícito que continuarão a usar seus poderes para manipular e controlar outras pessoas, potencialmente causando mais danos.
O final pode ser interpretado como uma conclusão sombria e arrepiante, sugerindo que forças malignas e destrutivas podem persistir e se espalhar, mesmo quando confrontadas pela resistência humana. Destaca a ideia de que algumas ameaças não podem ser facilmente erradicadas e que as crianças representam uma força sinistra e imparável que continuará a causar estragos no mundo.
O filme também levanta questões sobre a natureza do mal e os perigos potenciais do poder desenfreado. As crianças são retratadas como sem emoção e sem empatia, usando suas habilidades para manipular e prejudicar os outros sem remorso. A sua sobrevivência e fuga no final deixam o público com uma sensação de desconforto e uma sensação de que o ciclo de destruição pode continuar, embora num local diferente.
Já o de 1995, as crianças entram em um embate psíquico com Reeve num celeiro e ele explode. Mas uma das crianças, a que não tem "par", é salva pela mãe, diluindo qualquer razão do filme existir.
Por isso, o contexto é muito importante. A paranoia americana do pós-guerra redefiniu o cinema de horror e ficção dos anos 50 e 60. Afinal, como esquecer filmes como "O Dia em que a Terra Parou", "Vampiros de Almas" e "Guerra dos Mundos"? Assim nasceu este cinema, que mostra, exatamente, as fobias sociais que se instauraram na época.
Estes tinham como base o medo. O medo dos americanos não serem eles mesmos, da iminente destruição, de perder a humanidade, de sofrerem mutações e de perder a identidade. De forma indireta, as invasões extraterrestres eram a forma que estes medos se manifestavam e se encaixavam perfeitamente, inclusive.
Percebe como A Aldeia dos Amaldiçoados reflete uma época? Já A Cidade dos Amaldiçoados, ainda que seja um bom filme, carece de sustentação histórica que forneça sentido à falta de sentido da história.
Em 1995, o medo de um desastre não era irracional e é nesta irracionalidade que o sentido do clássico reside. E resiste.
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