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MISSISSIPPI EM CHAMAS: A VERDADEIRA HISTÓRIA

O caso

Em junho de 1964, James Chaney, Andrew Goodman e Michael Schwerner, todos envolvidos no Movimento dos Direitos Civis, foram investigar o incêndio de uma igreja perto de Filadélfia, Mississippi. Eles estavam trabalhando para registrar os afro-americanos para votar como parte da campanha “Freedom Summer”. No entanto, ao chegarem, foram presos por infração de trânsito e levados sob custódia pela polícia local.

Após a sua libertação, os três ativistas foram emboscados por membros da Ku Klux Klan (KKK) no caminho de volta para Meridian, Mississippi. Chaney, Goodman e Schwerner foram brutalmente espancados e assassinados. Seus corpos foram enterrados em uma barragem de terra no condado de Neshoba, Mississippi.

O FBI se envolveu no caso e uma grande investigação se seguiu. O filme "Mississippi em chamas" mostra os esforços de dois agentes, interpretados por Gene Hackman e Willem Dafoe, enquanto tentam resolver os assassinatos e levar os perpetradores à justiça. Retrata as tensões raciais, a corrupção política e a violência que prevaleciam no Mississippi na época.

“Você não me deixou nada além de um negro”, diz o assassino de James Chaney no filme. “Mas pelo menos matei um negro.” 

Esse diálogo vem diretamente dos arquivos do FBI, a confissão de um dos participantes.

O caminho dos corpos

Como visto no filme, houve vários percalços enfrentados pelos investigadores. Começando pela resistência da comunidade local, que era formada basicamente por racistas, agentes da lei (muitos envolvidos nos crimes), membros da Ku Klux Klan e moradores que tinham receio de colaborar e sofrerem represálias. 

Durante este processo, os agentes tentaram ganhar confiança dos moradores enquanto eram assediados pela autoridade local que obstruíam continuamente a investigação. Além disto, havia outras dificuldades como restrições de recursos, tanto em termos de pessoal como de equipamento. Como era uma época de tensões, muitos casos eram investigados, simultaneamente.

A investigação enfrentou pressão política tanto local como federal. Alguns políticos e funcionários locais foram cúmplices dos crimes ou tinham ligações com o KKK, dificultando prosseguir a justiça sem interferência. Os agentes tiveram de navegar por meio de uma complexa rede de corrupção e influência política.  Para se ter uma ideia, o então governador do Mississippi alegou que o desaparecimento dos rapazes era uma farsa, e o senador segregacionista Jim Eastland disse ao presidente Johnson que tudo fazia parte de um "golpe publicitário".

Os agentes trabalharam para estabelecer relacionamentos e ganhar a confiança de indivíduos da comunidade local que simpatizassem com a causa dos direitos civis ou tivessem informações cruciais. Finalmente, em 4 de agosto de 1964, os corpos foram encontrados enterrados na propriedade isolada de um membro da Klan. Todos os três homens foram baleados à queima-roupa.

Dezenove homens foram indiciados por acusações federais em 1967. Sete foram condenados por violar os direitos civis das vítimas. Nenhum serviu mais de seis anos. Em 2004, o gabinete do Procurador-Geral local reabriu a investigação e, um ano depois, Edgar Ray Killen, líder da Ku Klux Klan na época, foi condenado sob acusação de homicídio culposo.

Segundo testemunhas, Killen reuniu homens da Klan para emboscar Schwerner, Chaney e Goodman, dizendo para eles que levasse luvas de plástico ou borracha, demonstrando a intenção de matá-los e esconder os corpos. Depois de "dar a ordem", ele viajou para Filadélfia, como álibi. 

Killen morreu na prisão em 2018. Parece justo, mas toda opressão e mal que ele causou jamais será revertida. Portanto, ao morrer na prisão, podemos afirmar que ele ainda teve a oportunidade de viver, ao contrário daqueles 3 jovens brutalizados por quem deveria os proteger, em uma época que a América parecia estar em guerra consigo mesma.


Prefeito Tilman: Você gosta de beisebol, não é, Anderson?

Anderson: Sim, eu quero. Você sabe, é o único momento em que um homem negro pode levantar um bastão para um homem branco e não iniciar uma revolta.

Fato ou Fake

Determinar o que é fato e o que é fake no filme depende de fatores que precisamos compreender antes. Primeiramente, uma história simples, contada em dias diferentes, por uma mesma pessoa, sofre variações. Então afirmar que o filme "altera" fatos é impossível, já que os próprios fatos sofrem alterações.   

Em segundo lugar, como dito anteriormente, a cena do crime foi adulterada, depoimentos livres de pressão só foram colhidos 40 anos depois, ou seja, mesmo que verdadeiros, o fato tempo prejudica a memória consideravelmente.

E finalmente, quando pensamos sobre o fato de que o filme se apoiou em eventos baseados em opiniões e depoimentos, traçar o que é fato, para então acomodá-lo em cena da melhor forma, é quase impossível. Dito isso, quando Ward se senta com um jovem preto no local de pretos de um restaurante e fala com ele, o jovem é mais tarde brutalmente espancado por membros da Klan. Espancamentos em circunstâncias semelhantes ocorreram na realidade. 

Há outra cena no filme no qual o agente do FBI Monk (Badja Djola) sequestra o prefeito racista da cidade e ameaça cortar suas partes íntimas se não revelar os nomes dos criminosos. É uma cena que não poderia ter acontecido como vista (não havia agentes negros do FBI em 1964). A descrição da castração de um jovem negro que Monk conta ao prefeito, no entanto, tem raízes na realidade, extraída de uma descrição de uma castração real de um homem negro feita por um membro da Klan.

Um detalhe bem interessante (e trágico), que ficou de fora da história, foi o fato de que, durante a procura dos corpos, eles encontraram muitos outros, inclusive de um menino de 14 anos, jamais identificado. E o próprio Martin Luther King Jr. foi ao local, chegando a dizer sobre lá: "Esta é uma cidade terrível. A pior que já vi. Há um reinado completo de terror aqui."

O tempo decorrido da investigação também foi muito maior, mas o filme fez o que precisava para adequar sua história da melhor forma possível. Foram 44 dias até os corpos, e 3 anos até que condenações começassem a acontecer. Em apenas seis meses, a KKK queimou 31 igrejas negras em todo o Mississippi, de acordo com registros do FBI. 


A força do filme está no conhecimento do público de que o horror que está testemunhado na tela realmente aconteceu. 

Anderson : Você sabe, se eu fosse negro, provavelmente pensaria da mesma forma que eles.

Ward : Se você fosse negro, ninguém daria a mínima para o que você pensa.


Um pouco mais de história.

Caso encontre KKK em qualquer diálogo hoje em dia nas redes sociais, é provável ser uma simples abreviatura de Kakaka, que por sua vez, é uma forma de demonstrar que a pessoa está rindo de algo. Mas ao longo da história, KKK está relacionado intimamente ao ódio. Pelo menos a partir de 1865, nos Estados Unidos após a Guerra Civil Americana.

A Ku Klux Klan (KKK) é uma organização supremacista branca fundada por ex-soldados confederados e tinha como objetivo principal manter a supremacia branca no sul do país e combater os direitos civis e políticos dos afro-americanos. A KKK ganhou notoriedade no final do século XIX e início do século XX, durante o período conhecido como Reconstrução, que ocorreu após a abolição da escravidão. 

Nessa época, a KKK utilizava a violência para intimidar, aterrorizar e assassinar afro-americanos e seus aliados brancos. Seus membros se vestiam com trajes característicos, incluindo capuzes brancos, para ocultar suas identidades e criar uma atmosfera de medo.

Durante sua primeira onda de influência, a KKK promovia linchamentos, atentados a bomba, espancamentos e outros atos de violência contra afro-americanos. Eles também buscavam impedir o acesso dos afro-americanos aos direitos civis e políticos conquistados após a Guerra Civil, mediante intimidação e supressão de votos.

Após um período de declínio, a KKK ressurgiu na década de 1920, tendo uma abordagem mais ampla em sua agenda de ódio. Nessa época, a KKK expandiu seu alvo para além dos afro-americanos, passando a promover a intolerância religiosa, o antissemitismo e a xenofobia contra imigrantes e católicos.

A segunda onda da KKK entrou em declínio devido a escândalos internos e à reação pública negativa. No entanto, a organização teve um ressurgimento significativo na década de 1960, em resposta ao Movimento pelos Direitos Civis. Durante esse período, a KKK foi responsável por ataques violentos contra ativistas dos direitos civis, como os assassinatos de James Chaney, Andrew Goodman e Michael Schwerner, retratados no filme "Mississippi em chamas".

O pior disto tudo é saber que a KKK ainda existe hoje em dia, ainda que sua influência seja consideravelmente menor.

Ward: De onde vem isso? Todo esse ódio?

Uma pergunta tão complexa, que pode ser respondida de maneira tão simples: o ódio é ensinado.


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