STIGMA (QUE NÃO) MATA: O FILME E ALGUNS CASOS
Stigma, que não mata
Texto: M.V.Pacheco e Thais A.F. Melo
Revisão: Thais A.F. Melo
Revendo o filme Stigmata, resolvi investigar melhor os relatos em que casos parecidos ocorreram. O suspense sobrenatural lançado em 1999 foi dirigido por Rupert Wainwright e estrelado por Patricia Arquette e Gabriel Byrne. O enredo gira em torno de uma jovem chamada Frankie Paige (interpretada por Patricia Arquette), que começa a sofrer de estigmas, marcas semelhantes às feridas de Cristo na cruz.
Enquanto as feridas se manifestam, Frankie começa a ter visões misteriosas e perturbadoras. O padre Andrew Kiernan (interpretado por Gabriel Byrne), um experiente investigador do Vaticano, é enviado para determinar se elas são de natureza divina.
Ao longo do filme, o padre Kiernan descobre uma conspiração dentro da Igreja Católica Romana que visa suprimir a verdade sobre os estigmas de Frankie. Ele deve protegê-la e desvendar o mistério por trás de suas experiências sobrenaturais.
Estigma
Quem nunca ouviu a expressão "estigmatizado"? É comum frases como "A pessoa ficou estigmatizada" em nosso dia a dia. Ainda que a palavra carregue significados literais e figurados, eles convergem para uma ideia em comum: marcado (no caso, concordando com a palavra estigmatizado).
A palavra "estigma" tem origem etimológica no termo grego "stigma" (στίγμα), que significa "marca" ou "sinal". No contexto original, o termo era utilizado para se referir a uma marca física ou tatuagem feita no corpo de escravos ou criminosos como forma de identificação ou punição.
Com o tempo, o significado do termo "estigma" se ampliou para abranger também marcas ou sinais simbólicos que denotam uma desaprovação social, uma desgraça ou uma desonra. Na sociologia, o conceito de estigma foi popularizado pelo sociólogo Erving Goffman, que o definiu como uma característica ou atributo que é profundamente desvalorizado por uma sociedade e que pode levar à exclusão ou discriminação daqueles que a possuem.
Assim, a palavra "estigma" adquiriu um significado mais abstrato, referindo-se a uma marca socialmente desfavorável, algo que leva à marginalização ou à desvalorização de uma pessoa, ou grupo com base em características percebidas como negativas.
Os estigmatizados de Cristo
A crença nos estigmas de Cristo remonta à tradição cristã e está associada a indivíduos que afirmam apresentar feridas nas mãos, pés, costas e cabeça, que correspondem aos lugares onde Jesus teria sido crucificado. Essas feridas geralmente sangram e causam dor nas pessoas afetadas.
Ao longo da história, houve casos documentados de pessoas que afirmaram ter estigmas semelhantes aos de Cristo. Alguns casos notáveis incluem: São Francisco de Assis (1181/1182-1226), que teria recebido as marcas das chagas de Cristo em seu corpo durante uma visão em La Verna, na Itália; Santa Catarina de Siena (1347-1380), que somente na ocasião de sua morte foi descoberto que ela era estigmatizada; Padre Pio (1887-1968), um sacerdote italiano que alegou ter estigmas visíveis em suas mãos e pés na maior parte de sua vida.
No entanto, é importante ressaltar que nem todos os casos de alegada estigmatização foram aceitos pela Igreja Católica ou pelos estudiosos. Alguns foram objeto de investigação e ceticismo por parte da comunidade científica, enquanto outros foram aceitos como fenômenos religiosos.
Os casos de estigmatização são complexos e têm sido objeto de estudo e debate teológico, histórico e científico. As opiniões sobre a autenticidade e a origem dessas experiências variam, e diferentes interpretações podem ser encontradas entre os estudiosos e as pessoas de fé.
A verdade é que, como envolve fé, relatos, religião e igreja, é mais que complexo. É praticamente impossível provar principalmente pela óbvia "contaminação" das evidências, ou seja, ou você acredita pela fé, ou duvida e jamais será convencido do contrário.
Estudo de caso
Os estigmas são alvo de muita curiosidade, suspeita e pelos mais religiosos, de veneração. Uma das mais conhecidas manifestações das chagas é a do padre Pio de Pietrelcina. Considerando os casos anteriores, seus estigmas foram muito comentados, isso ocorreu principalmente pela recenticidade dos fenômenos. Pelo que foi relatado por seus fiéis e amigos, os estigmas do Padre Pio sangraram continuamente por cinquenta anos desde que se manifestaram de maneira visível em 1918, tornando este um dos casos mais populares da história.
Padre Pio foi um frade e sacerdote católico nascido como Francesco Forgione, numa família de camponeses, em 25 de maio de 1887 na Pietrelcina, Itália. Era visto como uma pessoa íntegra e bondosa e possuindo uma saúde frágil desde sempre: sofria de dores de cabeça constantes, febres altas, problemas intestinais e ataques de asma. Além dos estigmas, muitos outros milagres e dons foram atribuídos a ele, como o da bilocação - fenômeno em que uma pessoa pode ser vista em dois lugares ao mesmo tempo. Um de seus milagres mais importantes, foi a cura de Matteo Pio Colella.
A partir desse milagre, todo o processo de canonização de Padre Pio se iniciou e ao qual se confiam a ele, pelo menos dois milagres, sendo o número que a Igreja Católica exige para conceder o título de Santo a alguém. A beatificação de Padre Pior ocorreu em 1999 e sua proclamação como santo, em 2002, ambas concedidas pelo papa João Paulo II. Diante da canonização, ele se tornou São Pio de Pietrelcina.
Padre Pio foi o primeiro sacerdote estigmatizado da Igreja Católica. É dito que as dores dos estigmas se manifestaram pela primeira vez em 1910, logo após ser ordenado padre e as chagas ainda eram invisíveis nessa ocasião. Somente em 1918, os estigmas se tornaram visíveis, e ocorreram, como ele mesmo relata, após celebrar a Santa Miss durante um momento de oração. Os estigmas de Padre Pio foram testemunhados por vários fiéis e os sangramentos eram ainda mais intensos quando celebrava missas. Com sua morte, médicos examinaram seu corpo, constatando que eles haviam desaparecido completamente sem deixar marcas.
Algumas considerações
Mesmo diante de tantos milagres e dons, é importante salientar que nem todos estavam encantados com as manifestações dos estigmas. Isso inclui até mesmo outros membros da Igreja Católica que eram descrentes da veracidade das chagas. Diante de tanta pressão, o Santo Ofício, hoje rebatizado como Sagrada Congregação para a Doutrina e a Fé, enviou, em sua primeira investigação oficial, o cardeal Dom Raffaello Carlo Rossi.
Com a chegada de Dom Rossi, vários depoimentos foram documentados em que Padre Pio respondia prontamente o que era perguntado. Diante das investigações, o cardeal concluiu que os estigmas de Padre Pio, tinham, de fato, características de uma origem divida, tendo inclusive Dom Rossi, afirmado a santidade do padre. Contudo, mesmo o Santo Ofício declarou uma vez, em 1923, não reconhecer o caráter sobrenatural dos estigmas e décadas depois, durante a canonização de Padre Pio, teriam considerado somente seus milagres de cura.
Stigmata
Quando pensamos que não é possível precisar nem mesmo o ano em que nasceu São Francisco de Assis, como eliminar a possibilidade dele não ter uma condição médica específica que lhe causou feridas? Ou mesmo, autoinfligidas de forma deliberada ou inconsciente? Quando se trata do ser humano, tudo é possível. Não quero parecer ateu, ou mesmo uma pessoa que não tem fé, e tão pouco estou aqui para questionar quem é santo, quem não é, mas também não tenho obrigação de aceitar o que é imposto como sendo certo.
Isto me faz lembrar o "Descobrimento do Brasil", que aprendi durante toda a minha vida escolar, ser uma mentira sem o menor sentido, já que Pedro Álvares Cabral chegou a uma terra já habitada enquanto explorava. Basicamente, é como se eu saísse da minha casa hoje, no estado de Minas Gerais, viajasse para o estado do Rio de Janeiro, e dissesse que descobri o Rio de Janeiro. Faz algum sentido para você? Claro que não...
A verdade é que, todo sofrimento de Cristo na cruz seguiu o padrão das crucificações daquele período e nos livros da Bíblia, encontramos o propósito de sua morte, porém não há nenhuma relação dos acontecimentos com os estigmas, considerando o que está escrito na Bíblia.
A Bíblia em nenhum lugar ensina ninguém a buscar estigmas ou que Deus os dá. Em Gálatas 6:17, Paulo declara: "Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus." Isso não significa que Paulo tinha literalmente as cicatrizes da crucificação. Em vez disso, indica que o corpo de Paulo foi marcado devido ao seu compromisso de seguir a Cristo.
Jesus sofreu as feridas para que não tivéssemos que sofrê-las. As feridas da crucificação sendo milagrosamente infligidas no corpo de um crente contradiz o fato de que o nosso sofrimento pelo pecado é desnecessário: "Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados" (Isaías 53:5).
Portanto, Stigmata faz tanto sentido quanto o Descobrimento do Brasil. Mas ainda bem que não dependemos destes conceitos para apreciar filmes como o dirigido por Rupert Wainwright; ou mesmo ter empatia pelo sofrimento de Frankie Paige (Patricia Arquette), que inclusive tem cenas no Brasil, que no filme falam tudo, menos português, o que mostra como as pessoas reproduzem o que acham estar certo sem o mínimo de empenho para entender como tudo funciona na realidade...
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