MEGALÓPOLIS (2024) - FILM REVIEW
Se eu olhar alguns dos cineastas que mais amo, do passado, que ainda estão em atividade no ano de 2026, como Steven Spielberg, Martin Scorsese, Ridley Scott, Francis Ford Coppola, o único ponto fora da curva é justamente este último, que emplacou alguns dos melhores filmes da minha vida quase em sequência (Poderoso Chefão, Poderoso Chefão - Parte II, Apocalypse Now), além de outros que adoro rever, como Poderoso Chefão - Parte 3 e Drácula de Bram Stoker), mas que, basicamente, ficou neste passado, lançando apenas filmes menores ao longo dos anos.
Entre um filme esquecível e outro, um projeto o acompanhou, e logicamente, a curiosidade de quem torce pelo diretor: Megalópolis. Seria uma continuação de Metrópolis (1927), obra-prima de Fritz Lang? Seria outro épico à altura do diretor? Ou seria a tampa do caixão de uma carreira que cometeu mais erros que acertos, porém, quando acertou, entregou tudo?
A verdade é que Megalópolis passou décadas existindo quase como uma lenda. Daquelas histórias que todo cinéfilo conhece, mas ninguém acredita que realmente verá concluída. Coppola concebeu a ideia ainda durante o período de Apocalypse Now, no final dos anos 1970. O projeto era gigantesco desde o início. Não apenas em escala, mas em ambição. Seu objetivo não era fazer simplesmente mais um épico. Ele queria criar uma obra que misturasse política, filosofia, arquitetura, história romana, ficção científica e reflexões sobre o futuro das cidades.
A inspiração vinha de várias direções ao mesmo tempo. Coppola era fascinado por clássicos como o próprio Metrópolis e também pela figura histórica de Lúcio Sérgio Catilina, o político romano acusado de conspirar contra a República em 63 a.C. A ideia era transportar esses conflitos para uma versão moderna da América, transformando Nova York em uma espécie de Roma contemporânea. Não por acaso, durante anos o diretor descreveu o projeto como uma fusão entre o mundo antigo e o presente.
O curioso é que Megalópolis nunca foi apenas um roteiro. Durante mais de quarenta anos, Coppola acumulou cadernos, recortes de jornais, anotações e referências que poderiam ser incorporadas ao filme. O projeto crescia, mudava de forma e parecia sempre estar esperando o momento certo para existir.
Em diferentes momentos, chegou a parecer que esse momento finalmente havia chegado. No final dos anos 1980, Coppola cogitou se mudar para a Itália para desenvolver uma produção monumental inspirada na conspiração de Catilina. Depois, no início dos anos 1990, a American Zoetrope anunciou planos concretos para filmar Megalópolis. Nada aconteceu. O diretor acabou priorizando outros projetos, muitos deles motivados por questões financeiras. Filmes como Drácula de Bram Stoker e Jack e O Homem da Chuva surgiram, em parte, porque Coppola precisava equilibrar as contas após alguns fracassos comerciais.
Mesmo assim, Megalópolis nunca desapareceu completamente. No início dos anos 2000, o projeto voltou a ganhar força. Coppola chegou a reunir um elenco impressionante para leituras de roteiro. Nomes como Robert De Niro, Al Pacino, Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Nicolas Cage, Uma Thurman, James Gandolfini e Giancarlo Esposito passaram, em algum momento, pela órbita do filme. Ao mesmo tempo, artistas conceituais já desenvolviam imagens de uma cidade futurista que misturava arquitetura romana, art déco e ficção científica.
Então aconteceu o 11 de Setembro. A coincidência foi quase cruel. O roteiro envolvia a destruição de parte de Manhattan e a reconstrução de uma cidade idealizada a partir da tragédia. Após os atentados, Coppola percebeu que já não conseguia abordar aquele material da mesma forma. O projeto foi interrompido. Parte das imagens que ele havia filmado em Nova York acabou arquivada e o cineasta voltou à estaca zero.
Talvez o aspecto mais fascinante dessa história seja que o maior obstáculo para Megalópolis não foi a falta de dinheiro. Durante muito tempo, Coppola teve recursos suficientes para financiá-lo sozinho, graças ao sucesso de seus negócios fora do cinema, especialmente seus vinhedos. O problema era outro. Como observou uma amiga próxima do diretor, pela primeira vez ele tinha liberdade absoluta para fazer exatamente o filme que queria. E isso o paralisava. Se desse errado, não haveria produtores para culpar, estúdios para responsabilizar ou interferências externas para justificar o fracasso. O filme seria cem por cento dele.
Durante anos, Megalópolis permaneceu nesse limbo. Um projeto tão pessoal que seu próprio criador parecia incapaz de enfrentá-lo. Algo semelhante ocorreu com Scorsese em "Gangues de Nova York", seu projeto dos sonhos, mas com resultados imperfeitos.
Só na década de 2010 o roteiro começou a assumir uma forma definitiva. Mesmo assim, continuou sendo constantemente revisado. Coppola chegou aos seus oitenta anos ainda trabalhando na história que havia concebido quando estava na casa dos trinta. Isso significa que Megalópolis não é apenas um filme. É o resultado de quase meio século de obsessão.
E talvez seja justamente aí que esteja seu aspecto mais interessante. Antes mesmo de assistirmos a um único minuto, Megalópolis já carrega o peso de uma pergunta inevitável: o que acontece quando um cineasta passa quarenta anos tentando realizar o filme dos seus sonhos?
Um filme que custou uma fortuna pessoal.
Megalópolis foi anunciado, reformulado, abandonado e retomado. Em certos momentos parecia impossível que saísse do papel. Ainda assim, Coppola nunca desistiu dele. Talvez porque este não fosse apenas mais um filme. Ou talvez porque não fosse para existir? Para muitos diretores, um projeto dessa magnitude seria financiado por um grande estúdio. Coppola escolheu outro caminho. Depois de concluir o roteiro definitivo, decidiu financiar a produção praticamente do próprio bolso. Em 2021, reorganizou seus negócios ligados ao setor vinícola e utilizou parte de seu patrimônio para levantar cerca de 120 milhões de dólares destinados ao filme.
É um gesto difícil de imaginar dentro da Hollywood contemporânea. Algo, digamos, megalomaníaco. Estamos falando de um cineasta octogenário que poderia simplesmente aproveitar o prestígio conquistado com O Poderoso Chefão e Apocalypse Now. Em vez disso, resolveu apostar uma parcela significativa de sua fortuna em uma obra original, sem franquias, sem personagens conhecidos e sem qualquer garantia de retorno financeiro.
De certa forma, Megalópolis já era um projeto radical antes mesmo de uma única cena ser filmada. O elenco também ajuda a entender a dimensão da empreitada. Coppola reuniu nomes de gerações completamente diferentes. Adam Driver assumiu o papel central após longas conversas com o diretor sobre o personagem. Inicialmente, o ator recusou a proposta, mas voltou atrás quando Coppola incorporou algumas ideias desenvolvidas pelos dois durante o processo de preparação.
Ao seu redor surgiram nomes como Giancarlo Esposito, Laurence Fishburne, Nathalie Emmanuel, Aubrey Plaza, Shia LaBeouf, Jon Voight, Dustin Hoffman, Jason Schwartzman e Forest Whitaker. Coppola afirmou que procurou reunir atores com visões de mundo distintas, evitando que o filme fosse percebido como uma obra ideologicamente uniforme. Em um momento em que Hollywood costuma ser acusada de pensar de maneira homogênea, ele queria justamente o contrário: um ambiente de confronto criativo.
Essa filosofia também se refletiu nos ensaios. Antes das filmagens, os atores participaram de exercícios inspirados em oficinas de teatro. Improvisações, experimentações e leituras coletivas faziam parte da rotina. Coppola estimulava constantemente que os intérpretes questionassem cenas, propusessem mudanças e até criassem novos diálogos. Aubrey Plaza descreveu o processo quase como um laboratório artístico. Algumas sequências acabaram surgindo diretamente dessas trocas entre elenco e diretor, reforçando a impressão de que Megalópolis foi construído de forma muito menos convencional do que a maioria das superproduções atuais.
E talvez isso faça sentido, afinal, seria estranho se um filme que passou mais de quarenta anos sendo sonhado por Francis Ford Coppola nascesse de um processo convencional.
Dando vida à Megalópolis.
Se existe uma palavra que acompanha Francis Ford Coppola desde os anos 1970, ela é ambição. Foi assim em O Poderoso Chefão. Foi assim em Apocalypse Now. E, naturalmente, foi assim em Megalópolis. As filmagens começaram em novembro de 2022, nos estúdios Trilith, na Geórgia, e se estenderam até março do ano seguinte. Embora a história se passe em uma versão futurista de Nova York, a produção optou pela Geórgia por razões bastante pragmáticas: incentivos fiscais, infraestrutura já disponível e custos muito menores do que aqueles encontrados na cidade que inspirava o cenário.
Coppola decidiu estruturar sua própria base de operações, comprando um antigo motel da rede Days Inn para servir como quartel-general do projeto. O local foi reformado para abrigar salas de ensaio, ilhas de edição, espaços de pós-produção e acomodações para parte da equipe. Mais tarde, a propriedade seria transformada em um empreendimento permanente ligado ao cinema, funcionando simultaneamente como hotel e centro de produção audiovisual.
É uma decisão que parece saída do próprio universo de Coppola: se a estrutura necessária não existe, ele a constrói. Visualmente, Megalópolis também nasceu de escolhas pouco convencionais. Embora inicialmente houvesse planos para utilizar uma gigantesca estrutura virtual de painéis LED semelhante à usada em séries como O Mandaloriano, os custos levaram a equipe a optar por métodos mais tradicionais envolvendo chroma key e efeitos visuais posteriores.
A fotografia ficou novamente a cargo de Mihai Mălaimare Jr., colaborador de longa data do diretor. Juntos, buscaram uma estética que misturasse grandiosidade clássica e experimentação visual. Coppola chegou a instruir o diretor de fotografia a manter as câmeras gravando mesmo após o tradicional "corta", numa tentativa de capturar reações espontâneas e momentos que normalmente ficariam fora do filme.
Essa busca pela espontaneidade também marcou o relacionamento com o elenco. Naturalmente, um método tão aberto também trouxe problemas. Conforme as filmagens avançavam, começaram a surgir relatos de conflitos criativos nos bastidores. Integrantes da equipe afirmaram que Coppola frequentemente alterava planos de filmagem de última hora, mudava conceitos visuais já estabelecidos e improvisava soluções no próprio set. Para alguns colaboradores, tratava-se de um processo caótico. Para outros, era simplesmente Francis Ford Coppola fazendo aquilo que sempre fez.
Em determinado momento, divergências sobre os efeitos visuais levaram à saída de parte da equipe responsável pela área. O mesmo aconteceu com membros do departamento de arte. Coppola alegou que muitos dos profissionais contratados estavam acostumados ao modelo industrial das grandes franquias contemporâneas, enquanto ele buscava algo mais artesanal, menos hierárquico e visualmente mais ousado.
As comparações com Apocalypse Now surgiram quase imediatamente. Assim como aconteceu durante a produção daquele clássico, rumores de orçamento fora de controle, mudanças constantes e conflitos internos começaram a circular pela imprensa especializada. Coppola rejeitou boa parte dessas versões, argumentando que o projeto permaneceu dentro dos limites financeiros que havia estabelecido e que muitas das divergências refletiam apenas diferenças criativas normais em uma produção daquela escala.
Ao mesmo tempo, algumas controvérsias mais delicadas passaram a cercar o filme. Durante uma sequência ambientada em uma boate, figurantes e membros da equipe apresentaram relatos divergentes sobre o comportamento do diretor no set. Enquanto algumas pessoas afirmaram não ter presenciado qualquer problema, outras descreveram situações consideradas inadequadas. As alegações resultaram em processos judiciais, negativas públicas por parte de Coppola e uma longa disputa que continuou após o encerramento das filmagens.
Independentemente das versões conflitantes, uma coisa parece inegável: Megalópolis foi produzido de maneira tão turbulenta quanto muitos dos grandes projetos que definiram a carreira do diretor. E isso não é coincidência. Ao longo de sua trajetória, Coppola sempre pareceu mais confortável trabalhando na beira do precipício criativo do que seguindo caminhos seguros. Em alguns casos, o resultado foi revolucionário. Em outros, desastroso.
Megalópolis, de certa forma, pertence exatamente a essa tradição. Não é apenas um filme sobre a construção de uma utopia. É também uma obra cuja própria existência exigiu décadas de insistência, milhões de dólares do patrimônio pessoal de seu criador e uma produção marcada por riscos que poucos cineastas estariam dispostos a assumir.
O fracasso comercial do longa-metragem chamou atenção pela dimensão de seus números. A produção teve um orçamento estimado entre US$ 120 milhões e US$ 140 milhões, aos quais se somaram gastos de marketing de aproximadamente US$ 15 milhões a US$ 20 milhões — despesas que Francis Ford Coppola também precisou assumir para garantir a distribuição do filme. Apesar do alto investimento, a obra arrecadou apenas cerca de US$ 14 milhões nas bilheterias mundiais. Para alcançar o ponto de equilíbrio financeiro, seria necessário superar a marca de US$ 337 milhões em receita, o que resultou em um prejuízo de dezenas de milhões de dólares para o cineasta.
Como questionei no início, seria outro épico à altura do diretor? Ou seria a tampa do caixão de uma carreira que cometeu mais erros que acertos, porém, quando acertou, entregou tudo?
A resposta, que antes estava em storyboard, agora ficou impressa em película.
Megalocoppola
Megalópolis é um filme que parece se orgulhar da própria dissonância. Talvez o maior erro ao abordar Megalópolis seja tentar julgá-lo como julgamos um filme convencional. Funciona? Não funciona? É bom? É ruim? Quanto mais penso no filme, mais tenho a sensação de que essas perguntas são insuficientes. Megalópolis é uma bagunça. Uma bagunça fascinante, ambiciosa, frustrante, pretensiosa, brilhante e, por vezes, quase constrangedora.
Existem diálogos que parecem saídos de uma obra-prima e outros que soam como algo que seria reprovado numa aula de roteiro. Há momentos de genuína inspiração visual convivendo com cenas que desafiam qualquer noção tradicional de construção narrativa. Personagens surgem, desaparecem, mudam de função. Tramas parecem importantes até deixarem de ser. Ideias gigantescas disputam espaço com momentos quase absurdos. E, estranhamente, tudo isso faz parte da experiência.
Durante décadas, aprendemos a analisar filmes observando estrutura, ritmo, desenvolvimento de personagens, progressão dramática e coerência narrativa. Megalópolis parece pouco interessado em obedecer a qualquer uma dessas regras. Em muitos momentos, ele não se comporta como um filme tradicional. Aproxima-se mais de um sonho, de uma memória fragmentada ou mesmo de uma colagem de ideias acumuladas ao longo de uma vida inteira.
É justamente por isso que a comparação com Império dos Sonhos, de David Lynch, me parece inevitável. Assim como o filme de Lynch, Megalópolis tem a sensação de ser uma obra criada sem a presença constante daqueles filtros que normalmente moldam uma produção cinematográfica. Não parece existir alguém dizendo "isso não funciona", "isso precisa ser cortado" ou "o público não vai entender". O resultado é uma obra que ganha uma liberdade rara, mas também carrega todos os riscos que acompanham essa liberdade.
Afinal, boa parte dos grandes filmes nasce justamente do conflito entre a visão do artista e os limites impostos pela realidade. Em Megalópolis, Coppola removeu quase todos esses limites. E isso torna o filme um objeto extremamente singular. Não porque seja perfeito. Muito pelo contrário. Ele expõe todas as qualidades e todos os defeitos de seu criador sem qualquer proteção.
É desconcertante assistir a um diretor de mais de oitenta anos, responsável por alguns dos filmes mais celebrados da história, simplesmente ignorar convenções narrativas, tendências de mercado e preocupações comerciais para realizar uma ideia que o acompanha há décadas. É um gesto artístico raro. Até mesmo irresponsável.
Por isso, ao terminar Megalópolis, a pergunta que ficou na minha cabeça não foi se gostei ou não do filme. A pergunta foi outra: quantos diretores ainda têm liberdade para fazer algo assim? A resposta provavelmente é muito próxima de zero. Acredito que Ari Aster com Beau tem medo (2023) e Damien Chazelle com Babilônia (2022) tenham feito algo assim, mas, como sabemos, eles não são imunes como Coppola.
Megalópolis é como a experiência numa montanha-russa. Alguns passam mal, outros saem eufóricos, alguns juram que nunca mais vão repetir o passeio, enquanto outros entram novamente na fila assim que termina. Mas quase ninguém desce indiferente.
A diferença é que, no caso do filme de Coppola, a sensação não vem apenas das curvas bruscas, dos altos e baixos ou dos momentos em que parece prestes a sair dos trilhos. Ela surge justamente da percepção de que estamos diante de algo que não foi projetado para agradar todo mundo. Não há preocupação em tornar a viagem confortável. Em vários momentos, Coppola parece mais interessado em provocar, confundir ou desafiar o espectador do que em guiá-lo pela mão.
Por isso, talvez a pergunta correta não seja se Megalópolis é um bom filme. A pergunta é se estamos dispostos a embarcar numa obra que se permite errar, exagerar, contradizer a si mesma e até parecer ridícula em alguns momentos na tentativa de alcançar algo maior. Nem sempre consegue. Mas, quando consegue, alcança imagens, ideias e sensações que dificilmente nasceriam de uma produção mais controlada, mais segura ou mais preocupada em seguir regras.
Obras assim são raras, justamente porque, para existirem, alguém precisa ter a coragem — ou a teimosia — de ignorar todos os avisos para não seguir por aquele caminho.
Existe uma frase famosa atribuída a Santo Agostinho que diz que Roma não caiu em um dia. A verdade é que, para quem viveu naquele império, provavelmente parecia impossível imaginar que um dia ela cairia.
Roma era rica, poderosa, influente e parecia destinada a durar para sempre. De certa forma, é difícil não enxergar um paralelo com os Estados Unidos modernos, ou até mesmo com qualquer grande potência que tenha acreditado estar acima da passagem do tempo. Coppola escolhe Nova Roma como cenário para sua história porque Roma continua sendo uma das maiores metáforas já criadas para falar sobre ascensão, poder, decadência e queda.
O curioso é que, durante boa parte da primeira metade de Megalópolis, Coppola evita transformar César Catilina e Franklyn Cicero em adversários simplistas. Seria fácil apresentar um como herói visionário e o outro como um conservador ultrapassado. Mas o filme não parece interessado nisso.
César acredita no futuro, na transformação e na capacidade humana de reinventar o mundo. Ao mesmo tempo, carrega uma arrogância monumental, típica de quem acredita enxergar coisas que ninguém mais consegue ver. Já Cícero representa estabilidade, experiência e cautela, mas também a lentidão de sistemas incapazes de se adaptar quando a realidade muda. No fundo, não é difícil enxergar ali um debate entre progresso e tradição. Coppola parece sugerir que ambos possuem virtudes e defeitos. O problema começa quando um lado deixa de ouvir o outro.
Ao mesmo tempo, Nova Roma é retratada como uma sociedade mergulhada em espetáculos, escândalos, festas extravagantes e uma elite cada vez mais desconectada dos problemas reais das pessoas. É uma visão bastante próxima daquela imagem popular que temos da Roma decadente, cercada de excessos enquanto suas estruturas começam a apodrecer por dentro. Não importa muito se essa visão é historicamente precisa. O que importa é o símbolo. E Megalópolis é um filme construído quase inteiramente por meio de símbolos.
Uma das leituras mais interessantes que encontrei é a ideia de que César não representa apenas um arquiteto ou urbanista. Ele representa um artista. Talvez um cineasta. Talvez o próprio Coppola. Pense por um instante. César passa o filme inteiro tentando convencer as pessoas da existência de algo que elas ainda não conseguem enxergar. Ele visualiza uma cidade que não existe. Sonha com possibilidades invisíveis para todos ao seu redor. Escuta constantemente que suas ideias são inviáveis, caras demais, ambiciosas demais ou simplesmente impossíveis.
Se trocarmos "cidade" por "filme", a descrição continua funcionando perfeitamente. Essa interpretação fica ainda mais curiosa quando pensamos em seu poder de controlar o tempo. Num primeiro momento, parece apenas um elemento fantástico inserido na narrativa. Mas existe uma metáfora aí. Afinal, poucas artes manipulam o tempo da forma como o cinema faz.
Um diretor pode acelerar décadas em segundos, congelar um instante, voltar ao passado, avançar ao futuro ou transformar um simples olhar em algo eterno através da montagem. O cinema sempre foi uma forma de controlar o tempo. Em determinado momento, um personagem afirma que o tempo não para para ninguém. É uma frase simples, mas ganha outra dimensão dentro da narrativa. Porque todo o filme fala justamente sobre essa batalha impossível entre a passagem inevitável do tempo e o desejo humano de deixar algo que sobreviva a ele.
Isso ajuda a explicar cenas que, à primeira vista, parecem estranhas ou até desconectadas. Quando vemos estátuas gigantes aparentando cansaço, por exemplo, não estamos olhando apenas para monumentos. Estamos vendo símbolos de uma civilização exausta. Símbolos de um passado que já não consegue sustentar o peso do presente. Enquanto a cidade começa a ruir, suas imagens de grandeza também parecem se desgastar.
Da mesma forma, a sequência da demolição no início não fala sobre estruturas antigas que perderam sua utilidade, mas continuam ocupando espaço porque ninguém teve coragem de substituí-las. E então chegamos ao Megalon.
Dentro da história, trata-se de um material revolucionário capaz de transformar completamente o futuro da cidade. Algo quase milagroso. Quase impossível. Mas, quanto mais penso sobre ele, mais tenho a sensação de que o Megalon não representa apenas uma invenção fictícia. Ele representa a própria arte. Representa aquela ideia que ninguém acredita ser possível até que alguém a realize.
Representa o ato de imaginar algo que ainda não existe. Representa o sonho de construir um futuro diferente. Até mesmo a própria ideia de dar vida ao filme. Um sonho aparentemente impossível do diretor. No final das contas, Cesar é o alter ego de Coppola. E Coppola é um representante da arte.
E, em sua visão, a arte está sendo assassinada. E, como César, por vários algozes.
Megalópolis é um filme complexo. Mas acredito que só vemos desta forma por conta de Francis Ford Coppola por trás do projeto. Se fosse um "João das Couves" qualquer, as pessoas diriam somente que é um pretensioso lixo folheado a ouro.
Inclusive eu.
'Você é anal pra caramba, Cesar. Eu, por outro lado, sou muito oral.'
Que outro filme faria um trocadilho tão podre? (A palavra "anal" é usada como gíria para descrever uma pessoa excessivamente perfeccionista, controladora ou focada em pequenos detalhes.)


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