JUSSARA CALMON - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS
Jussara Calmon nasceu em 17 de fevereiro de 1958 no Brasil. Ela teve uma infância difícil e, aos 12 anos, fugiu de casa, enfrentando a dura realidade das ruas. Inspirada pela mãe, seguiu o sonho artístico. Apesar das adversidades, conseguiu transformar sua realidade. Nos anos 1980, atuou como bailarina no espetáculo Brasil Canta e Dança, viajando por diversos países.
Sua estreia no cinema foi como bailarina em Luz del Fuego (1981), e logo passou a atuar, seguindo com trabalhos no teatro, no cinema e em novelas da Globo, como Meu bem, meu mal, Tieta e Despedida de Solteiro.
Na Boca do Lixo, participou de diversas produções dirigidas por Ary Fernandes, Conrado Sanchez, Osvaldo de Oliveira e Francisco Cavalcanti, entre outros. Sua trajetória foi contada na biografia Jussara Calmon: Muito Prazer, escrita por Fábio Fabrício Fabretti.
1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa relação com o cinema. Os filmes ruins que nos marcaram, os cinemas frequentados (que hoje, provavelmente, estão fechados), as extintas locadoras de VHS e DVD que faziam parte do nosso cotidiano. Você é uma apaixonada por cinema? Conte um pouco de como é sua relação com a 7ª arte.
J.C.: Sim, eu assisti a bastante filmes. O filme que eu revi várias vezes foi E O Vento Levou. Eu acho que ele tem paralelos com a minha vida. É bem nostálgico. Foi esse filme que eu assisti mais. Mas eu gostava mesmo de filmes nacionais. Central do Brasil, para mim, foi um dos melhores filmes brasileiros. Pena que ele não ganhou o Oscar. Mas eu assistia a muitos filmes brasileiros, muito... Mesmo.
Mas o E o Vento Levou... assisti muito. Às vezes, quando reprisa, eu ainda assisto.
2) O que desencadeou seu desejo de se tornar atriz?
J.C.: Sobre meu desejo de ser atriz, eu sou de uma família de circenses por parte da minha mãe. Então, na minha família, nós temos dois artistas, sou eu e meu irmão. Meu irmão tem um grupo que se chama Estripulia, em Vitória, no Espírito Santo, e somos os dois artistas da casa. Desde pequena, eu tinha vontade de ser artista. Já bem pequena, com oito, dez anos, eu me oferecia nos circos para que eles me levassem com eles.
A minha mãe abandonou o circo muito cedo, porque ela conheceu o meu pai, teve que abandonar para ser mãe, aos quinze, dezesseis anos, já engravidando, um filho atrás do outro. Minha mãe era uma pessoa autodidata, ela fazia tudo no circo, tocava vários instrumentos, inclusive violino, era trapezista, enfim. Então, a arte acho que vem daí, já está no DNA.
3) Trabalhou no marcante ciclo de filmes eróticos nos anos 80 e logo depois atuou em algumas das novelas mais importantes da história da TV. Como foi esta transição? Por que ela ocorreu?
J.C.: Eu acho que é uma coisa normal, né? Na realidade, eu comecei em teatro. Eu não comecei nem fazendo filmes; foi no teatro infantil. Depois eu fiz duas, três peças, com o Fernando Palitô e o Haroldo de Oliveira, que já se foi. E, depois que comecei a fazer cinema, meu primeiro filme foi Luz del Fuego (1982). Por incrível que pareça, acabei de fazer o papel dela no teatro. No filme, eu fazia uma bailarina, que dançava nos teatros com as cobras. E daí iniciei no cinema.
Desse filme, que foi com Lucélia Santos, eu conheci uma pessoa que falou que ia me levar para São Paulo. E assim fui e conheci a Boca do Lixo, que eles chamavam desta forma na época. E lá eu fiz vários filmes eróticos, que eles chamam de pornochanchada.
E para eu migrar para a televisão, acho que é um caminho mesmo. Depois dali, você tem que expandir. Eu fiz Tieta. Vale Tudo (eu fazia uma das secretárias). Na época, era da revista Tomorrow. Hoje não é a revista mais, é uma agência de modelos. Eu fiz várias novelas na Globo. E é isso, acho que é um processo natural. Você tem de teatro, cinema, televisão...
M.V.: Verdade, várias opções para explorar.
J.C.: É normal.
M.V.: Quais eram os maiores desafios de fazer filmes com muita nudez?
J.C.: Bem, se você for ver, comparando com hoje, na época, o que a gente fazia não era nada. Porque hoje em dia está aí nas novelas, todo mundo transando enlouquecidamente. Os filmes da época eram isso, a nudez era aquilo ali só. Para mim era natural, fazia parte do contexto ficar nua.
4) Algumas profissões rendem histórias interessantes, curiosas e, às vezes, engraçadas. E certamente, quem trabalha com cinema, tem suas pérolas. Se lembra de alguma história divertida que tenha acontecido durante a execução de algum trabalho seu e que possa compartilhar?
J.C.: Quando eu estava fazendo Rio Babilônia (1982), tinha um ator que ficou muito afim de mim e ficava me chamando toda hora. Um dia, eu era muito amiga do pessoal das revistas, da Manchete, da Amiga, e um amigo meu, jornalista, mandou uma equipe lá para fazer umas fotos e pediu que esse ator, que vinha me cantando, fizesse uma foto comigo. Ninguém sabia dessa história, entendeu? E ele se recusou a fazer a foto.
Diz que só, que não se deixava fotografar nem ao lado de grandes estrelas, tá? Aí passou o tempo. Então a gente filmou, eu tinha uma cena com ele, depois, no outro dia, a gente voltou, e ele continuou insistindo. Ele ficava lá, a gente filmava na rua Barbosa, num apartamento enorme que tinha lá. Ele insistia sempre, e aí me chamou um dia. Ele estava lá na cozinha bebendo seu uísque, e eu falei: "Engraçado, né?" Você disse que não deixa fotografar nem ao lado de grandes estrelas, mas você está querendo me levar para a cama.
Levar para a cama eu sirvo, mas não sirvo para você fazer uma foto comigo. Então, meu amigo, esquece, esquece. Foi assim que eu me livrei dele (risos).
M.V.: Muito bom... (risos).
5) Fazer cinema envolve muitas variáveis. Esforço, investimento, paixão, talento... E a sinergia destes elementos faz o resultado. Qual trabalho em sua carreira considera o melhor?
J.C.: Bem, eu estou há muito tempo sem fazer cinema, muito tempo mesmo. O filme que me representa, ou me representou, foram vários, vários. Para mim, o melhor filme que fiz foi o de Afrânio Vital, "A Longa Noite do Prazer" (1983). Um dos melhores que fiz, com certeza. Principalmente pelo ambiente e pela gentileza; inclusive, ele era um diretor que, na hora da nudez, determinava que usássemos um tipo de tapa-sexo. Quando tinha cena de sexo, a gente usava; ele tinha esse cuidado com o elenco, tinha que botar algo por baixo para não ter esse contato diretamente.
M.V.: Em contrapartida, há arrependimentos?
J.C.: E eu falo o seguinte, as pessoas ficam muito incomodadas, porque os filmes da Boca eram o que tinha na época. A gente veio primeiro com o Oscarito, com a chanchada, depois veio a pornochanchada, depois veio o Cinema Novo e por aí adiante. Se você for analisar, é o que tinha. Era o tipo de filme que tinha na época, nos anos 70, 80, até final de 90, era o que tinha.
Não havia opções. Infelizmente, ficou marcado por esse nome, com a Boca do Lixo em São Paulo, que fazia um filme atrás do outro, com poucos recursos. Mas é isso, é o que tinha na época.
M.V.: De fato, pornochanchada é pejorativo, já que havia diversos gêneros, como comédia, drama, aventura...
J.C.: Bem, sobre os filmes ruins, eu fiz alguns. Eu não quero citar nomes, porque é estranho. Porque eu era muito nova, então eu não escolhia bem. Naquela época, a gente não era assessorada por ninguém. Então, eu não gostaria de falar nomes. Bons, eu fiz vários. Eu fiz com o Franio Vital, que é um diretor que me ensinou tudo sobre o cinema. Fiz com ele "A Longa Noite do Prazer". Eu conheci o Franio Vital quando eu estava fazendo um filme do Zé Louseiro, "A Escalada da Violência" (1982).
Eu fazia uma pequena participação, e ele falou um dia: "ainda vou fazer um filme para você ser protagonista", e ele disse que eu tenho um xodó com as câmeras, que as câmeras me amam, e até botou isso no livro dele. Então tem também Rio, Babilônia, que foi um filme do Neville de Almeida, que eu gostei. De São Paulo tem alguns também, que foram mais de 18 no total. São Paulo tem alguns filmes com Ary Fernandes, que tinha muito cuidado com a gente na época. Vital, fiz também outro; fiz dois filmes com Galante. Mas, quanto aos ruins, prefiro não citar.
6) Com relação às suas preferências cinematográficas, há uma lista dos filmes de sua vida? Um Top 10 ou mesmo, o filme mais importante?
J.C.: Não tenho um específico. Agora a gente está aí, por exemplo, com o filme da Fernanda Torres, que fomos premiados. Isso é muito bom para o Brasil, apesar de que nós, da minoria, não fazemos parte, porque a Lei Rouanet não chega até a gente. E nessas grandes empresas também, que é o caso do filme da Fernandinha, que foi feito por uma outra plataforma, mas também deve ter tido a Lei Rouanet, com certeza.
Mas preferências são vários. Posso citar mais uma vez: "E o Vento Levou"... Eu também assistia a muitos filmes de faroeste na época; os brasileiros tinham muitos filmes de faroeste que eu gostava também. E não sou muito de filmes de ficção. Prefiro histórias reais, como aquele filme dos cantores, Zezé de Camargo e Luciano.
M.V.: 2 filhos de Francisco.
J.C.: Isso, filmes que relatam histórias de vida. É o que eu gosto mais.
7) Para finalizar, deixe uma frase ou pensamento envolvendo o cinema que representa você.
J.C.: "Por pior que seja a noite, amanhã é outro dia". Aí você tem que adivinhar de que filme foi essa frase.
M.V.: E o vento levou... (1939)
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