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RONIN (1998) - ANÁLISE DO FILME

Ronin

Um ronin era um samurai que perdeu seu senhor feudal no Japão, especialmente durante o Período Edo. Na sociedade japonesa tradicional, o samurai existia para servir com lealdade absoluta a um daimyō, que era o senhor de terras e autoridade local. Quando esse senhor morria, era derrotado, perdia seu território ou era obrigado a cometer suicídio ritual, seus guerreiros ficavam sem função oficial. Nesse momento, tornavam-se ronins.

Ser um ronin significava perder posição social, renda e estabilidade. O samurai tinha seu papel definido dentro de uma estrutura rígida de hierarquia e honra. Sem mestre, ele ficava à margem desse sistema. Alguns passavam a trabalhar como mercenários, guardas ou professores de artes marciais. Outros tentavam entrar no comércio ou em atividades comuns, algo incomum para um guerreiro. Também havia aqueles que acabavam envolvidos em atividades ilegais.

A própria palavra “ronin” significa “homem onda”, dando a ideia de alguém que vaga sem rumo fixo, como uma onda no mar. Assim, o ronin representava o samurai que, embora mantivesse sua habilidade e seu código de honra, já não tinha um senhor a quem dedicar sua lealdade.

Os 47 Ronin.

A história dos 47 Ronin ocorreu no Japão, durante o Período Edo, no início do século XVIII. Ela começa com um senhor feudal chamado Asano Naganori, que governava a região de Akō. Ele foi designado para receber emissários imperiais em Edo (atual Tóquio) e, para isso, deveria seguir orientações cerimoniais dadas por um oficial da corte chamado Kira Yoshinaka.

Segundo os relatos históricos, Kira teria tratado Asano com arrogância e desprezo, exigindo presentes e favores. Sentindo-se humilhado, Asano perdeu o controle e atacou Kira dentro do castelo do xogum, ferindo-o levemente. Atacar alguém dentro do castelo era uma ofensa gravíssima. Como punição, o xogum ordenou que Asano cometesse seppuku, o suicídio ritual dos samurais. Suas terras foram confiscadas e seus guerreiros ficaram sem senhor. Assim, tornaram-se ronins.

Entre esses homens estava Ōishi Yoshio, que passou a liderar o grupo. Em vez de reagirem imediatamente, os ronins esperaram quase dois anos, fingindo ter abandonado qualquer intenção de vingança. Essa estratégia tinha como objetivo evitar suspeitas das autoridades.

Quando acreditaram que não estavam mais sendo vigiados com rigor, os 47 homens se reuniram secretamente e atacaram a residência de Kira. Após uma luta, encontraram-no escondido e o executaram, vingando a morte de seu antigo senhor. Em seguida, levaram a cabeça de Kira ao túmulo de Asano, no templo Sengaku-ji, como prova de que haviam cumprido seu dever de lealdade.

As autoridades do xogunato reconheceram a coragem e a fidelidade do grupo, mas não podiam ignorar o fato de que haviam cometido assassinato. Como solução, permitiram que os 47 ronins realizassem seppuku, preservando sua honra. Eles morreram como samurais leais e foram enterrados ao lado de seu senhor, tornando-se uma das histórias mais famosas da tradição japonesa.

Significados.

Os acontecimentos envolvendo os 47 ronins simbolizam, acima de tudo, a lealdade absoluta ao senhor, mesmo após a morte. Em uma sociedade como a do Japão feudal, a relação entre samurai e daimyō não era apenas profissional, mas moral e espiritual. Ao aguardarem pacientemente por quase dois anos e depois vingarem Asano Naganori, os ronins demonstraram que sua fidelidade não dependia de recompensas materiais nem de reconhecimento imediato.

A história também simboliza o conflito entre dois princípios fundamentais: a lei do Estado e o código de honra dos samurais, conhecido como bushidō. Do ponto de vista legal, eles cometeram assassinato ao matar Kira Yoshinaka. Do ponto de vista moral, cumpriram o dever de vingança e restauraram a honra de seu senhor. O xogunato permitiu que realizassem seppuku, reconhecendo que haviam agido por lealdade, ainda que tivessem violado a ordem pública. Isso revela a tensão entre justiça institucional e justiça moral.

Além disso, o episódio simboliza disciplina e autocontrole. Diferente de uma vingança impulsiva, os 47 homens planejaram cuidadosamente sua ação, suportaram humilhações públicas e fingiram desinteresse para enganar a vigilância. A liderança de Ōishi Yoshio representa prudência estratégica aliada à determinação.

Com o tempo, a história tornou-se um símbolo nacional de honra, perseverança e sacrifício. Ela ultrapassou o fato histórico e passou a representar um ideal: o de que a fidelidade, a honra e o dever podem exigir renúncia extrema, inclusive da própria vida. Por isso, os 47 ronins permanecem como um dos exemplos mais fortes, na tradição japonesa, de compromisso inabalável com princípios e valores.

Vingança.

A vingança é a resposta emocional e prática que nasce quando alguém sente que sofreu uma injustiça e acredita que precisa restaurar o equilíbrio por conta própria. Diferente da justiça institucional, que é mediada por leis e autoridades, a vingança é pessoal, movida por honra, dor, orgulho ou desejo de reparação. 

Historicamente, a vingança já foi vista como legítima em muitas sociedades. No antigo Código de Hamurabi, encontramos a famosa ideia do “olho por olho, dente por dente”. Esse princípio, conhecido como lei de talião, não incentivava violência ilimitada; ao contrário, buscava limitar a punição ao mesmo nível do dano causado. Era uma forma primitiva de conter ciclos infinitos de retaliação.

Na Roma Antiga e em sociedades tribais, a vingança familiar era comum quando o Estado não tinha força suficiente para impor justiça. Já em períodos feudais, como no Japão dos samurais, a vingança podia ser entendida como dever moral, especialmente quando ligada à honra e lealdade, como no caso dos 47 ronins.

Do ponto de vista filosófico, pensadores divergem. Aristóteles via a ira como uma emoção natural que, quando moderada pela razão, poderia ser justa. Já Friedrich Nietzsche analisou a vingança como expressão do ressentimento, uma força psicológica que pode aprisionar o indivíduo ao passado. Para ele, o desejo constante de retribuição mantém a pessoa ligada à ofensa, impedindo sua superação.

A literatura também reforça o tema. Em Hamlet, de William Shakespeare, a vingança é o motor da trama, mas conduz à tragédia e à destruição geral. Já em O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, a vingança é meticulosamente planejada e executada, mas o próprio protagonista descobre que a reparação não devolve o tempo perdido nem apaga totalmente a dor.

Em síntese, a vingança é uma resposta humana compreensível diante da injustiça. Ao longo da história, foi vista ora como dever, ora como fraqueza moral. O que nos leva ao filme Ronin, dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Robert de Niro, Jean Reno, Natascha McElhone, Stellan Skarsgård, Sean Bean, Jonathan Pryce, Michael Lonsdale, Féodor Atkine.

No filme, os personagens são ex-agentes de inteligência e militares que perderam seus “mestres” — governos, ideologias ou estruturas de poder que antes lhes davam identidade e propósito. São profissionais altamente treinados, agora atuando como mercenários, vendendo suas habilidades a quem pagar mais. 

A história começa com uma missão aparentemente simples: capturar uma maleta misteriosa. Um grupo é contratado para interceptar o objeto, mas o conteúdo da maleta nunca é revelado ao público. Essa ausência de explicação não é descuido; é uma escolha narrativa. A maleta funciona como um “MacGuffin”, um termo popularizado por Alfred Hitchcock para definir um elemento que move a trama, mas cujo conteúdo real é irrelevante. O que importa não é o que está dentro da maleta, mas como a busca por ela expõe as relações de confiança, traição e lealdade entre os personagens.

O personagem de De Niro, Sam, aparenta ser apenas mais um mercenário experiente. Ele demonstra profissionalismo, frieza e habilidade tática. Porém, ao longo do filme, percebe-se que sua motivação é mais complexa. Sam age com disciplina e princípios que não combinam totalmente com um simples caçador de recompensas. Sua verdadeira identidade — ligada a estruturas oficiais de inteligência — sugere que ele não é apenas um homem sem senhor, mas alguém que ainda serve a uma causa maior, mesmo que isso não seja explicitado de início. Diferente de outros membros do grupo, movidos por dinheiro ou ambição pessoal, Sam mantém um código interno, lembrando o ideal clássico do ronin que, mesmo sem mestre visível, preserva honra e propósito.

O filme também dialoga com o tema da vingança, mas de forma indireta. Não há uma vingança declarada como no caso dos 47 ronins, mas há constantes acertos de contas, traições e ajustes de lealdade. A tensão entre confiança e interesse próprio cria um ambiente onde todos parecem deslocados, vivendo num mundo pós-Guerra Fria em que antigas lealdades desapareceram. São guerreiros treinados para conflitos ideológicos que já não existem, agora orbitando contratos obscuros.

A missão da maleta engana o público porque sugere que o objetivo é material: capturar algo valioso. No entanto, o verdadeiro foco está na identidade dos personagens. Quem ainda é leal? Quem trai? Quem realmente sabe para quem trabalha? A narrativa usa perseguições e ação intensa como superfície, mas o tema central é a condição de homens treinados para servir que já não pertencem claramente a lugar algum.

Assim, o título “Ronin” não se refere apenas a mercenários modernos. Ele aponta para a ideia de guerreiros deslocados, vivendo entre a honra e o pragmatismo, entre a lealdade e o interesse próprio. Como os ronins históricos, esses personagens operam num mundo em que a antiga ordem desapareceu — e precisam decidir, individualmente, qual código ainda vale a pena seguir. 

E aliado à ideia do samurai sem mestre, cujo título nos entrega uma direção, à maquete dos 47 Ronin, que nos mostra que mesmo do caos, um grupo pode ser formado com um ideal em comum, Sam revela, em um momento rápido, para a personagem vivida por Natascha Mcelhone, que sua missão era Seamus (Jonathan Pryce). Ou seja, ele estava ali apenas para se infiltrar e vingar algo. 

É particularmente interessante o fato de que quem mata Seamus é o personagem de Jean Reno, único elo forte de Sam que se forma, explicitando como a lealdade se forma durante este processo. Outro ponto que traduz o filme como história de vingança é o contratante sendo referido como "homem na cadeira de rodas", uma alusão ao livro "A Identidade Bourne" (1980), de Robert Ludlum. O homem na cadeira de rodas era M. Chernak, um corretor mercenário que Jason Bourne matou.

Com ecos do cinema francês dos anos 60, especialmente de Jean Pierre Melville, pontuado por uma trilha memorável de Elia Cmiral, com influências de jazz e orquestra e uma direção inspirada de John Frankenheimer, já em final de carreira, Ronin se destaca como uma obra-prima policial dos anos 90.

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