JASON VAI PARA O INFERNO: A ÚLTIMA SEXTA-FEIRA (1993) - FILM REVIEW
🔷Jason Vai para o Inferno: a Última Sexta-feira (1993)
Confesso que, apesar dos problemas que tenho com a Parte 4, a Parte 5 e das ressalvas com a Parte 8, vejo esses filmes com um carinho que supera seus eventuais problemas. Já os três filmes seguintes, produzidos pela New Line Cinema, parecem viver em outro universo. A continuidade praticamente desaparece, a mitologia é modificada e a franquia começa a seguir por caminhos que pouco têm a ver com o que havia sido estabelecido anteriormente.
E Jason Vai para o Inferno: A Última Sexta-Feira é o primeiro grande exemplo dessa ruptura. Na trama, o FBI finalmente prepara uma armadilha para eliminar Jason Voorhees, interpretado novamente por Kane Hodder. O plano funciona. O corpo de Jason é destruído e seus restos são levados para o necrotério. Só que existe um pequeno problema: Jason não morreu. Seu espírito passa para o corpo do legista, que come o coração de Jason e passa a carregar sua essência. A partir daí, o assassino começa a trocar de corpo, utilizando diferentes pessoas como hospedeiros sempre que seu corpo atual é destruído ou enfraquecido.
O objetivo é encontrar sua irmã, Jessica Kimble (Kari Keegan), que vive em Crystal Lake. A diferença é que, desta vez, Jason não precisa apenas perseguir suas vítimas. Ele precisa encontrar um novo corpo para continuar existindo.
Uma nova Sexta-Feira 13
A ideia inicial era ainda mais distante do que o filme que chegou às telas. Uma das primeiras propostas colocava Jason em Los Angeles, onde ele enfrentaria duas gangues rivais. O título provisório também deixava claro que a produção pretendia explorar um lado mais sombrio do personagem: Friday the 13th Part IX: The Dark Heart of Jason Voorhees. A direção chegou a ser oferecida a John McTiernan, que "preferiu" trabalhar em O Último Grande Herói (1993).
Quando Adam Marcus assumiu o projeto, a história tomou outro caminho. O diretor queria explicar a origem da capacidade de Jason de sobreviver a praticamente qualquer coisa e encontrou uma solução bastante peculiar: o Necronomicon. O livro aparece na casa dos Voorhees e é o mesmo objeto utilizado em Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio (1981) e Uma Noite Alucinante 2 (1987). A intenção original de Marcus era estabelecer que Pamela Voorhees havia utilizado o livro para ressuscitar o filho depois de seu afogamento, explicando por que Jason se tornou praticamente impossível de matar.
A explicação acabou não sendo apresentada de maneira explícita. Por questões de direitos autorais, o Necronomicon ficou no filme como uma espécie de easter egg. A brincadeira, porém, não passou despercebida. Sam Raimi chegou a escrever uma carta ao roteirista Tom Sullivan, responsável pelo livro nos filmes de A Morte do Demônio, comentando o uso do objeto sem autorização. Sullivan declarou posteriormente que não recebeu qualquer pagamento pela utilização e que não emprestaria novamente um objeto de sua criação sem garantias de que ele seria utilizado legalmente.
E a situação ficou ainda mais curiosa porque, nos Estados Unidos, foi publicada uma história em quadrinhos que narrava os acontecimentos entre Sexta-Feira 13 - Parte VIII: Jason Ataca em Nova York (1989) e Jason Vai para o Inferno. Era uma tentativa de preencher a enorme distância existente entre as duas histórias.
Um filme escrito no caminho
A produção também enfrentou problemas de roteiro. Diversos enredos eram abandonados durante o desenvolvimento, personagens desapareciam e algumas subtramas simplesmente deixavam de ser exploradas. A sensação é de uma história sendo construída enquanto o próprio filme avançava. A atriz Rusty Schwimmer, que interpreta Joey B, contou que boa parte dos diálogos entre sua personagem e Shelby, interpretado por Leslie Jordan, foi improvisada no set. “Eles apenas ligaram as câmeras e nos deixaram ir.”
Esse método ajudou a criar alguns momentos mais espontâneos, mas também combina com a irregularidade do resultado final. "Jason vai para o inferno", parece ter muitas ideias, mas nem sempre sabe exatamente o que fazer com elas. E existe ainda uma coincidência interessante envolvendo dois atores do elenco. Michael B. Silver e Michelle Clunie, que interpretam Luke e Deborah, haviam sido um casal na vida real, mas se separaram pouco antes de serem escalados. Os dois descobriram que teriam de trabalhar juntos justamente em uma cena íntima, o que provocou um certo constrangimento inicial.
Outra alteração importante aconteceu com o protagonista. Adam Marcus revelou que Steven Freeman não seria originalmente o personagem principal. A intenção era utilizar Tommy Jarvis, o personagem que havia atravessado os filmes 4, 5 e 6. O problema era que a New Line Cinema não possuía os direitos sobre Tommy naquele momento. Marcus precisou criar um novo protagonista, e assim nasceu Steven Freeman.
A ausência de Tommy é mais uma demonstração de como a franquia havia mudado de mãos e de identidade. O personagem que havia sido criado para representar a continuidade da série simplesmente não podia ser utilizado.
As referências estão por toda parte
Marcus também espalhou referências ao cinema de horror pela história. O personagem Robert Campbell, por exemplo, é uma homenagem intencional a Robert Englund, o intérprete de Freddy Krueger, e Bruce Campbell, o protagonista de A Morte do Demônio. A escolha dos nomes não é gratuita. Os dois atores estavam diretamente ligados às duas grandes franquias de horror que, naquele momento, pertenciam à New Line Cinema.
E isso nos leva ao final do filme. Depois de tudo o que acontece, a famosa luva de Freddy Krueger surge e agarra a máscara de Jason, em uma das cenas mais lembradas de toda a produção. A sequência era uma piada interna e uma provocação ao público. Um projeto para colocar Jason e Freddy frente a frente estava em desenvolvimento desde 1987, quando a ideia de um crossover começou a circular. O encontro, porém, demoraria muito mais do que os fãs imaginavam.
A New Line possuía os direitos das duas propriedades, o que teoricamente facilitaria a produção, mas encontrar um roteiro satisfatório se mostrou uma tarefa complicada. O projeto passou por diversos falsos começos e permaneceu durante anos sem sair do papel. Enquanto isso, a franquia ainda teria outro filme antes do tão esperado confronto. Jason X seria produzido em 2001, e somente depois de mais de uma década de tentativas, Freddy vs. Jason chegaria aos cinemas em 2003.
O último fracasso?
Lançado em 13 de agosto de 1993, Jason Vai para o Inferno: A Última Sexta-Feira arrecadou US$ 15,9 milhões nas bilheterias americanas. Foi uma pequena melhora em relação aos US$ 14,3 milhões de Sexta-Feira 13 - Parte VIII: Jason Ataca em Nova York (1989). Ainda assim, tornou-se a segunda menor bilheteria da franquia até aquele momento. O curioso é que os US$ 15,9 milhões foram suficientes para fazer dele o filme de terror de maior bilheteria de 1993.
Ou seja, o resultado estava longe de ser um desastre absoluto, mas não representou o sucesso que a New Line esperava para uma franquia tão conhecida. E havia ainda uma possibilidade que nunca saiu do papel. Adam Marcus revelou que Duke, personagem interpretado por Steven Williams, realmente sobrevive ao ataque de Jason. O diretor tinha planos de transformá-lo no protagonista de um filme derivado, explorando sua história e seu primeiro contato com Jason.
Duke teria descoberto a existência do assassino depois que Jason matou sua namorada e, a partir daí, começaria uma busca por vingança. O projeto nunca aconteceu. O desempenho de "Jason vai para o inferno", somado ao interesse crescente da New Line em finalmente produzir Freddy vs. Jason fez com que a ideia fosse abandonada.
E é curioso olhar para Jason Vai para o Inferno hoje, porque ele representa exatamente o momento em que Sexta-Feira 13 deixou de tentar preservar sua própria continuidade. Jason deixa de ser simplesmente um homem, ou mesmo um morto-vivo, e passa a ser uma espécie de entidade capaz de trocar de corpos. Pamela Voorhees ganha uma possível ligação com o Necronomicon. Tommy desaparece. Crystal Lake continua existindo, mas a mitologia construída nos filmes anteriores é praticamente desmontada.
A franquia estava procurando um novo caminho e encontrou várias ideias, mas nenhuma delas conseguiu substituir a simplicidade que havia tornado Jason Voorhees tão eficiente: um assassino silencioso, uma máscara de hóquei, um acampamento e uma quantidade absurda de adolescentes para matar. E, ironicamente, o filme que prometia levar Jason para o inferno acabaria fazendo algo ainda mais radical.
Levou o filme inteiro.
Mas, para ser justo, o filme tem muitos fãs e se tornou cultuado principalmente pela geração que cresceu justamente com os filmes da New Line. Portanto, a importância que os filmes 6, 7 e 8 têm para mim é a mesma que o 9, X e Freddy vs. Jason tem para eles. Portanto, minha visão do filme é mais crítica que apaixonada.
E ainda há um agravante: fiquei amigo próximo de Adam Marcus e sua esposa, Debra Sullivan, que é atriz/roteirista/produtora. Inclusive, eu tive a honra de que ele e Tom McLoughlin (diretor do sexto filme) fizessem o prefácio do meu livro sobre as entrevistas que fiz ao longo de 15 anos.
Consequentemente, se existe um filme que me obriguei a ter um carinho maior, é com este Última Sexta-feira.
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