google-site-verification=21d6hN1qv4Gg7Q1Cw4ScYzSz7jRaXi6w1uq24bgnPQc

JASON X (2001) - FILM REVIEW

 

🔷 Jason X (2001)

A esta altura, Jason já tinha passado por tudo na "vida". Foi eletrocutado, explodiu, foi executado, tomou uma quantidade absurda de tiros, foi para o inferno, Nova York, e, digamos, só não tinha enfrentado Freddy Krueger ainda. Depois de oito filmes, a continuidade já tinha sido destruída no filme anterior, Jason Vai para o Inferno (1993), que transformou o personagem em uma entidade capaz de trocar de corpo. A série estava cada vez mais distante da simplicidade dos primeiros filmes.

Então fizeram o que restava. Mandaram Jason para o espaço, uma ideia que franquias famosas como Sharknado e Velozes e Furiosos se apropriaram justamente pelo teatro do absurdo que se forma.

Jason X é o último filme solo do personagem antes do remake de 2009 e, de certa forma, representa o ponto máximo da falta de compromisso da franquia com sua própria continuidade. Jason já não precisa mais pertencer a Crystal Lake. Agora ele pode ir para o ano 2455. 

Ao longo da série, mesmo com todas as mudanças, existia uma evolução física perceptível. Em Jason X, porém, algumas características são preservadas, como as correntes ao redor do pescoço e o rachado da máscara, mas sua pele parece praticamente intacta. Isso chama atenção principalmente no rosto e nas mãos. Depois de tudo o que aconteceu com ele, o Jason de Jason X parece ter envelhecido bem menos do que deveria.

Mas o filme tem seus momentos. E um deles está entre os mais memoráveis de toda a franquia. Uma morte que dura aproximadamente dez segundos e consegue resumir perfeitamente o espírito de Jason X: exagero, humor e violência transformados em espetáculo.

400 anos depois

Na trama, Jason Voorhees, interpretado novamente por Kane Hodder, está confinado no mais alto nível de segurança do Centro de Pesquisa Crystal Lake. O governo finalmente conseguiu capturá-lo e, desta vez, parece ter encontrado uma maneira de mantê-lo preso. Parece.

Enquanto o Dr. Wimmer, interpretado por David Cronenberg, discute o que fazer com Jason com Rowan (Lexa Doig), o assassino consegue escapar. Quando está prestes a matar Rowan, os dois acabam congelados criogenicamente. E permanecem assim por mais de quatrocentos anos. Em 2455, uma equipe de jovens exploradores chega à Terra, agora abandonada pela humanidade. O planeta se tornou praticamente inabitável, com oceanos contaminados, solos estéreis e violentas tempestades. A humanidade encontrou outro lugar para viver e deixou seu antigo lar para trás.

Durante a exploração, o professor Loew (Jonathan Potts) e seus alunos encontram os dois corpos congelados. O sistema de autorregeneração dos compartimentos criogênicos ainda está funcionando e os corpos são levados para a nave, com a intenção de estudá-los em Terra II. Só que existe uma diferença importante entre Rowan e Jason: Rowan quer sobreviver; Jason quer matar todo mundo.

Quando o assassino desperta, começa mais uma contagem de corpos, só que agora em uma nave espacial, a mais de quatro séculos de distância de Crystal Lake. 

Jason 10 (em um universo paralelo)

Curiosamente, Jason X quase foi outro filme. No início de 1999, os roteiristas David Buchert e Robert Ziegler escreveram um projeto chamado Jason X: Hell Freezes Over. E o título já entregava a ideia: antes de colocar Jason no espaço, a intenção era colocá-lo de volta em um Crystal Lake coberto de neve. 

O roteiro funcionava praticamente como uma carta de amor aos fãs da série. Personagens antigos retornariam, incluindo Tommy Jarvis, Ginny, Paul, Trish, Tina e Megan. Crystal Lake teria se transformado em uma comunidade residencial à beira do lago. Ginny teria se tornado terapeuta infantil e seria casada com Paul. Tommy e Megan administrariam juntos o Karloff's Market, enquanto Cologne seria a xerife da região.

Até Elias Voorhees, o misterioso pai de Jason, apareceria. Era uma tentativa de recuperar a continuidade perdida e reunir diferentes fases da franquia em uma única história. Sean S. Cunningham ficou impressionado com o projeto e chegou a discutir a possibilidade de utilizá-lo como base para futuros filmes. O problema era justamente aquilo que vinha dificultando a existência de Freddy vs. Jason: direitos.

A New Line Cinema possuía os direitos de Jason Voorhees, mas os personagens criados nos filmes anteriores pertenciam à Paramount. Sem poder utilizar livremente Tommy, Ginny, Trish e os demais, o projeto foi abandonado. E Jason foi para o espaço. Essa mudança explica bastante coisa. Jason X não é simplesmente uma continuação que decidiu utilizar uma ambientação diferente. É o resultado de uma franquia que já não conseguia utilizar vários dos elementos que ajudaram a construir sua própria história.

Jason: do slasher à ficção científica

O roteiro de Todd Farmer assume, sem vergonha alguma, que estamos diante de um filme de ficção científica. A principal referência é Alien - O 8º Passageiro (1979), de Ridley Scott. Farmer chegou a batizar um dos personagens como Dallas, homenagem direta ao personagem interpretado por Tom Skerritt no clássico. Waylander também aparece no filme e, em algumas versões, é chamado de Wayland. A referência novamente aponta para Alien, desta vez para a companhia Weyland-Yutani.

E existe ainda uma coincidência curiosa envolvendo Kane Hodder. Em Alien, o personagem Kane é a primeira vítima da criatura. Já a máscara que Jason utiliza depois de sua atualização é uma homenagem ao visual de Predador (1987), outra maneira de deixar claro que o filme não está interessado em esconder suas referências. 

A produção, portanto, transforma Jason em uma espécie de visitante de diferentes universos da ficção científica. A nave, os laboratórios, as armas futuristas e os efeitos digitais fazem parte dessa tentativa de atualizar o personagem para uma nova geração. Só que o resultado foi irregular.

Os cenários da nave, por exemplo, têm momentos que parecem saídos de uma ficção científica de baixo orçamento. Em algumas passagens, confesso, me lembram aqueles cenários de Emmanuelle no Espaço, clássicos do Cine Privê. E isso não é necessariamente uma crítica. É apenas uma constatação.

Cronenberg e a produção

Um dos maiores nomes envolvidos no filme é David Cronenberg, que aparece logo no início interpretando o Dr. Wimmer.A participação aconteceu por uma razão bastante pessoal. O diretor de Jason X, James Isaac, havia sido aluno de Cronenberg e pediu sua participação como um favor. Cronenberg também emprestou parte de sua equipe de produção canadense para o projeto.

Em troca, queria uma coisa bastante simples: ser morto por Jason. 

E foi.

Uma vez envolvido, Cronenberg percebeu problemas nos diálogos de seu personagem e acabou reescrevendo boa parte das próprias falas. Sua participação é curta, mas acabou se tornando uma das curiosidades mais conhecidas da produção.

As filmagens aconteceram em Toronto, tornando Jason X o segundo filme da série a utilizar o Canadá como locação importante, depois de Sexta-Feira 13 - Parte VIII: Jason Ataca em Nova York (1989), que utilizou Vancouver para representar Nova York. A escolha tinha uma razão bastante prática: dinheiro. Era mais barato contratar atores canadenses e profissionais locais do que transportar uma equipe inteira de americanos para o Canadá. Por isso, boa parte do elenco é formada por canadenses.

A New Line Cinema gostou tanto do roteiro que autorizou um orçamento três vezes maior que o do filme anterior. Só que dinheiro adicional não significa dinheiro suficiente para realizar tudo. Durante a produção, ficou evidente que algumas ideias do roteiro eram grandes demais para o orçamento disponível. Cenários e efeitos precisaram ser reduzidos, e algumas cenas foram modificadas ou simplesmente retiradas.

Isso também ajuda a explicar a aparência irregular do filme. Há momentos em que Jason X parece querer ser uma superprodução de ficção científica e outros em que lembra uma produção de televisão que recebeu uma nave espacial de presente.

A realidade virtual dos anos 80

Uma das sequências mais divertidas acontece quando Jason entra em uma realidade virtual que reproduz Crystal Lake nos anos 1980. A ideia originalmente era muito mais exagerada. O roteiro previa duas garotas de topless jogando vôlei, além de outras situações envolvendo nudez. O diretor de elenco, Robin Cook, considerava a sequência gratuita demais e chegou a se recusar a escalar as duas garotas. As funções acabaram sendo assumidas por sua assistente de elenco, Andrea Kool.

James Isaac também tinha suas reservas. Para ele, a única maneira de fazer aquela nudez funcionar era assumir a própria artificialidade da situação e transformar a sequência em uma brincadeira com o gênero. E foi exatamente isso que fizeram. O resultado é uma das cenas que melhor entende o que Jason X pretende ser: uma piada com os próprios clichês de Sexta-Feira 13.

A sequência chegou a ter ideias ainda mais absurdas. Uma delas envolvia Pamela Voorhees, a mãe de Jason, aparecendo na realidade virtual. Jason chegaria a atacá-la, numa tentativa de mostrar o quanto havia se tornado monstruoso. Betsy Palmer, porém, recusou retornar ao papel. Na época, estava trabalhando em uma peça em Toronto, justamente durante as filmagens. A ideia morreu ali.

Delay

Apesar de ter terminado suas filmagens em abril de 2000, Jason X demorou bastante para chegar aos cinemas americanos. O filme foi lançado na Europa em 2001, mas só chegou aos Estados Unidos em 26 de abril de 2002. A razão principal foi uma mudança dentro da própria New Line Cinema. Michael De Luca, então presidente de produção do estúdio, havia sido um dos grandes defensores do projeto. Foi ele quem deu sinal verde para Jason X e continuou acreditando no filme enquanto outros dentro do estúdio tinham dúvidas.

Quando De Luca deixou o cargo, em janeiro de 2001, seus substitutos não demonstraram o mesmo entusiasmo. O filme acabou praticamente colocado na prateleira. Durante esse período, chegou a ser considerado um lançamento direto em vídeo. E então aconteceu algo que começava a se tornar cada vez mais comum naquela época: o filme vazou na internet. Quando finalmente chegou aos cinemas americanos, parte do público que acompanhava a franquia já tinha conseguido assistir ao filme de maneira ilegal. E no seu caso, não ajudou.

No lançamento, Jason X foi massacrado pela crítica e teve um desempenho decepcionante nas bilheterias. O filme custou muito mais e arrecadou pouco nos cinemas. Mas a história não terminou ali. Quando chegaram as vendas e locações em DVD, o resultado foi muito melhor. O filme conseguiu mais do que triplicar seu custo de produção com as receitas posteriores ao lançamento cinematográfico.

Isso criou uma situação curiosa. Jason X fracassou como experiência de cinema, mas se tornou um produto bem-sucedido no mercado doméstico. É também por isso que sua reputação mudou um pouco com o tempo. Hoje, existe uma parcela significativa dos fãs que olha para o filme com mais simpatia. Ele é exagerado, tem problemas evidentes e abandona quase completamente a identidade original da série. Mas também tem consciência de que é assim.

O último salto

O final deixa a possibilidade de continuação aberta. A máscara de Jason cai em um lago em Terra II, sugerindo que o assassino poderia sobreviver mais uma vez. A ideia nunca foi adiante por conta da má recepção. E, enquanto isso, a New Line continuava tentando realizar o encontro que havia provocado durante anos: Freddy contra Jason, que finalmente tomaria os cinemas em 2003. 

Uma pena, já que boas ideias cercaram este décimo filme. Jason no espaço poderia ter sido apenas uma piada desesperada para manter a franquia viva, mas havia ali material suficiente para algo mais interessante. O problema é que o filme acabou ficando no meio do caminho, grande demais para ser um simples Sexta-Feira 13 e modesto demais para funcionar plenamente como ficção científica. Ainda assim, depois de tudo o que Jason já havia enfrentado, mandar o 'zumbi entidade" para o espaço parecia mesmo o único destino possível. 

E, convenhamos, depois de dez filmes, ele merecia umas férias.




Tecnologia do Blogger.