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SEXTA-FEIRA 13 - PARTE 7: A MATANÇA CONTINUA (1988) - FILM REVIEW


Chegando ao sétimo exemplar, Sexta-Feira 13 – Parte VII: A Nova Força surge como um ponto curioso e revelador dentro da própria lógica da franquia. Se os filmes anteriores giravam em torno da repetição quase ritualística de assassinatos, aqui a série decide, pela primeira vez, alterar o eixo do confronto. Não se trata mais apenas de jovens indefesos cruzando o caminho errado, mas de colocar Jason Voorhees diante de algo que, em tese, poderia rivalizar com ele. Uma força nova, como o título promete. Ainda que essa promessa seja cumprida apenas parcialmente, o filme ocupa um lugar singular: é ao mesmo tempo tentativa de renovação, síntese do desgaste criativo da série e reflexo direto das tensões industriais que cercavam o terror hollywoodiano no fim dos anos 1980.

Na trama, conhecemos Tina Shepard (Lar Park-Lincoln), uma adolescente com poderes telecinéticos. Quando criança, durante férias em Crystal Lake, Tina acaba matando o pai abusivo ao perder o controle de suas habilidades mentais. O trauma define sua vida. Anos depois, sob os cuidados do Dr. Crews (Terry Kiser), um psicólogo manipulador e claramente mais interessado em reconhecimento profissional do que no bem-estar da paciente, Tina aceita participar de uma terapia radical que a leva de volta ao local do trauma. Crystal Lake, mais uma vez, não é apenas cenário: é memória, culpa e repetição.


O que ninguém previa, embora o espectador saiba desde o primeiro minuto, é que os poderes psíquicos de Tina despertariam Jason Voorhees (Kane Hodder), sepultado no fundo do lago desde os eventos anteriores. O gesto é simbólico: Jason não retorna porque quer, mas porque é chamado. Literalmente puxado de volta à superfície por forças que ele próprio não compreende. A partir daí, a engrenagem conhecida entra em funcionamento. Um grupo de adolescentes ocupa uma casa próxima, trazendo consigo festas, conflitos banais e a costumeira despreocupação. Jason responde da única forma que conhece, enquanto Tina se vê forçada a usar seus poderes não mais como instrumento de culpa, mas como possível contenção da violência.

O filme se permite algo que, àquela altura, já soava quase anacrônico: uma longa recapitulação inicial, com quase quatro minutos de imagens de capítulos anteriores. Este é o último Sexta-Feira 13 a utilizar cenas de filmes passados. A montagem revisita Parte 2 (1981), Parte 4: O Capítulo Final (1984) e Parte 6: Jason Vive (1986), além de reutilizar imagens do trailer oficial da Parte 6, como a famosa panorâmica lenta do cemitério e a explosão da lápide. É como se a franquia sentisse necessidade de reafirmar sua própria existência, lembrando ao público que aquela história não começa ali e talvez já estivesse perto de se esgotar.


Este também marca a consolidação do Jason mais icônico visualmente, interpretado por Kane Hodder, que assumiria o papel nas Partes 7, 8, 9 e 10. Sua presença redefine o personagem fisicamente: mais pesado, mais agressivo, mais “presente” em cena. Hodder trouxe uma fisicalidade quase performática ao papel, tratando Jason menos como uma figura abstrata e mais como um corpo em constante tensão. Curiosamente, os bastidores reforçam essa ideia. Durante as filmagens, o camarim de Hodder ficava a cerca de quatrocentos metros, acessível apenas por uma estrada de terra e um trecho de floresta. Em uma noite em que as filmagens terminaram por volta das duas da manhã, ainda vestindo o figurino completo de Jason, ele decidiu caminhar até o camarim.

No meio do caminho, um homem se aproximou e perguntou se ele estava “com o filme”. Hodder, achando a pergunta absurda, afinal, estava vestido da cabeça aos pés como Jason Voorhees, permaneceu em silêncio. Quando o homem insistiu, Hodder deu uma pequena estocada em sua direção e grunhiu. O sujeito saiu correndo, tropeçando pela estrada. Histórias que a vida conta e que ilustram bem o tipo de presença que Hodder imprimiu ao personagem, mesmo fora das câmeras.


A famosa cena da campista dentro do saco de dormir, jogada contra a árvore, também carrega sua própria história. Hodder relatou dificuldades inesperadas: o boneco usado era mais pesado do que ele imaginava. Foram necessárias várias tomadas, pois o impacto não parecia convincente. Na tomada final, já visivelmente irritado, ele arremessa o saco e, num gesto de raiva, ainda o chuta. O resultado acabou se tornando uma de suas mortes favoritas da série, tanto que ele a recriou anos depois em Jason X (2001).

Ironicamente, essa cena está entre as várias que sofreram cortes severos. Parte VII é, sem dúvida, o filme mais mutilado pela censura na história da franquia. Além da cena do saco de dormir, foram parcialmente ou totalmente removidas: Maddy sendo esfaqueada no galpão, o corpo do Dr. Crews sendo partido ao meio na floresta, o machado cravado no rosto de Russell à beira do lago, Jason segurando a cabeça de David e até um final alternativo em que Jason salta da água e agarra um pescador. 


O diretor John Carl Buechler manifestou publicamente sua frustração inúmeras vezes. O filme foi submetido nove vezes à MPAA para evitar a classificação “X”, algo praticamente letal para o circuito comercial da época. O resultado é um filme em que a violência é sentida mais pela sugestão do que pela explicitação, muitas vezes de maneira frustrante.

Essa interferência ajuda a explicar por que o clímax soa estranho. O final, envolvendo o pai de Tina emergindo do lago para arrastar Jason, desafia qualquer lógica interna, mesmo considerando o elemento paranormal. O pai está morto há cerca de uma década, mas surge praticamente intacto, com apenas o rosto sujo de lama. A cena parece mais um compromisso mal resolvido entre intenção original e limitações impostas do que uma escolha narrativa plenamente consciente.


O curioso é que a Parte VII nasceu de uma ambição surpreendente. Originalmente, o projeto previa o primeiro encontro entre Jason Voorhees e Freddy Krueger. No entanto, a Paramount Pictures, então detentora dos direitos de Sexta-Feira 13, e a New Line Cinema, responsável por A Hora do Pesadelo, não chegaram a um acordo. O roteiro precisou ser reescrito às pressas, substituindo Freddy pela telecinética Tina Shepard. A ideia do crossover não morreria ali, apenas ficaria adormecida por mais de uma década, até Freddy vs. Jason (2003).

A produtora Barbara Sachs tinha planos ainda mais ousados. Ela desejava que este fosse o filme de maior prestígio da série. Em um delírio que hoje soa quase surreal, tentou convencer Federico Fellini a dirigir o longa e acreditava que o filme poderia até mesmo conquistar um Oscar. Evidentemente, nenhuma das duas ambições se concretizou. Ainda assim, essa discrepância entre intenção e resultado ajuda a explicar as tensões nos bastidores.


Buechler afirmou ter entrado em conflito constante com Sachs. Entre suas ideias vetadas estava a de mostrar Jason sem a máscara por boa parte do filme. Ele chegou a filmar algumas dessas cenas sem o consentimento da produtora. Também revelou que o final envolvendo o pai de Tina seria muito mais elaborado, com próteses completas e um manequim em tamanho real. O orçamento e as imposições do estúdio reduziram tudo a uma versão que o próprio diretor considera inferior.

Lançado em 1988, Sexta-Feira 13 – Parte VII: A Matança Continua teve desempenho moderado nas bilheterias. Com orçamento de cerca de dois milhões de dólares, arrecadou aproximadamente vinte milhões. Um lucro considerável, ainda que menor do que capítulos anteriores, e irrisório quando comparado aos padrões da indústria atual, em que esse valor mal cobre o salário de uma estrela de médio escalão.


Ainda assim, o filme permanece como um capítulo emblemático. O número sete, tradicionalmente associado a encerramentos simbólicos e ciclos completos, aqui funciona quase como ironia. Parte VII tenta encerrar uma fase ao mesmo tempo em que revela o esgotamento de um modelo. Jason enfrenta algo diferente, mas o mundo ao seu redor parece incapaz de acompanhá-lo. Talvez por isso o filme seja tão fascinante: não pelo que consegue ser plenamente, mas pelo que tenta ser. Como uma sexta-feira 13, ele carrega a promessa de algo extraordinário, mesmo que o destino, como sempre, tenha outros planos.







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