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SEXTA-FEIRA 13, PARTE 8: JASON ATACA NOVA YORK (1989) - FILM REVIEW


"Do pó veio, ao pó retornou". A frase que poderia abrir um epitáfio serve também como síntese perfeita de Sexta-Feira 13 – Parte VIII: Jason Ataca Nova York (1989). Um filme que nasce do cansaço criativo de uma franquia, tenta se reinventar pela grandiosidade do título e termina revelando, com uma honestidade quase cruel, os limites industriais, narrativos e financeiros que já cercavam Jason Voorhees ao final dos anos 1980. 

É um capítulo que carrega ambição demais para um corpo que já dava sinais claros de esgotamento e talvez por isso seja tão incrível. Ou melhor, talvez por isso eu ache tão incrível, já que é meu "guilty pleasure" da franquia. O que gosto mais é o sexto, mas ele é bom demais para qualquer fã, não é? Então, não posso chamá-lo de "guilty pleasure"... 


Mas voltando ao filme. Despertado por uma descarga elétrica vinda de um cabo submerso, Jason ressurge mais uma vez das profundezas. Tal como no sexto filme, o relâmpago funciona como força vital, aproximando-o definitivamente do arquétipo do monstro de Frankenstein: uma criatura reanimada não por lógica, mas por insistência. A diferença é que, desta vez, Jason não permanece em Crystal Lake. 
Ele embarca, literalmente, em um iate de excursão escolar, em que um grupo de estudantes celebra a formatura enquanto ignora todos os sinais de que algo está profundamente errado. Um a um, Jason elimina os jovens das formas mais imaginativas que o orçamento permite, até que finalmente desembarca em Nova York, espalhando horror em plena “selva de pedra”.


É nesse deslocamento que o filme revela sua maior ruptura. Ao abandonar o acampamento, a floresta e o isolamento, Parte VIII se distancia definitivamente do slasher que deu origem à série. O cenário sempre foi mais do que pano de fundo: era parte essencial da ameaça. Crystal Lake funcionava como espaço ritualístico, quase mitológico. Ao levá-lo para um grande centro urbano, a franquia sacrifica uma de suas características mais fundamentais em nome da promessa de novidade. A necessidade de adicionar elementos cada vez mais extravagantes para manter o interesse do público já beira o surreal e não deixa de ser irônico lembrar que, poucos anos depois, Jason acabaria literalmente no espaço.

O diretor e roteirista Rob Hedden tinha planos muito mais ambiciosos. Sua intenção original era explorar Nova York de forma plena, incluindo sequências no Madison Square Garden, no Empire State e na Ponte do Brooklyn. Jason confrontando ícones urbanos era o grande atrativo do projeto. No entanto, a Paramount foi direta: o orçamento simplesmente não permitia filmar na cidade por tempo suficiente. Diante disso, Hedden foi forçado a reescrever o roteiro, estendendo consideravelmente os eventos a bordo do navio e reduzindo drasticamente a parte ambientada, de fato, em Nova York.


O resultado é conhecido e virou piada interna no set. Com exceção de apenas dois dias de filmagem na Times Square, todas as cenas de docas, becos, esgotos e até da lanchonete foram rodadas em Vancouver, no Canadá. O elenco, com humor resignado, passou a se referir ao filme como Jason Takes Vancouver. A ironia é que o título promete uma invasão urbana épica, mas o filme entrega apenas fragmentos disso, quase sempre noturnos, genéricos e cuidadosamente enquadrados para esconder o que não poderia ser mostrado.

Para quem assiste à versão dublada, há ainda a curiosa pérola “Jason Yorker”, dita pelo personagem Jimmy logo no início do filme. Uma tentativa quase involuntária de inserir o mito urbano de Jason no imaginário nova-iorquino. A sequência, no entanto, levanta mais perguntas do que respostas. Em uma brincadeira pré-coito de gosto duvidoso, Jimmy simula atacar a namorada usando uma máscara de Jason que contém a rachadura característica dos filmes anteriores, um detalhe impossível de explicar, considerando que a máscara foi destruída no capítulo anterior e que essa versão “rachada” remete a eventos de quase uma década antes dentro da cronologia da série. Tudo soa como um acessório comprado em loja de fantasias… com memória própria.


Aliás, coerência não é o ponto forte do filme. Como exatamente um navio sai de Crystal Lake, um lago interior, e chega ao Oceano Atlântico? A geografia simplesmente colapsa. Em outro momento igualmente inexplicável, uma personagem é agarrada pela figura de Jason criança em pleno alto-mar, aos 32 minutos de filme, introduzindo uma dimensão fantasmagórica que nunca é plenamente desenvolvida ou explicada. É delírio? Trauma? Manifestação sobrenatural? O filme não parece interessado em responder.

Curiosamente, Parte VIII poderia ter seguido um caminho completamente diferente. Lar Park-Lincoln manifestou interesse em retornar ao papel de Tina Shepard, da Parte 7, mas solicitou um salário maior. A Paramount, já operando com orçamento restrito, recusou. Diante disso, o estúdio optou por descartar completamente qualquer continuidade com o filme anterior e reescrever o roteiro do zero. A decisão de não trazer nenhum personagem da Parte 7 de volta não foi criativa, mas financeira, um sintoma claro de que a franquia já era administrada mais por contenção de danos do que por visão artística.


Este também marca um ponto histórico importante: foi o último Sexta-Feira 13 produzido e distribuído exclusivamente pela Paramount Pictures. Após o desempenho abaixo do esperado, o estúdio decidiu vender os direitos de Jason Voorhees, Pamela Voorhees, o nome Crystal Lake e a marca Friday the 13th para a New Line Cinema. A venda não representou apenas uma transação comercial, mas o fim de uma era. Jason deixava a casa onde havia sido criado, não por escolha, mas por desgaste.

Durante as cenas da Times Square, um detalhe curioso salta aos olhos: um enorme pôster de Batman (1989) domina o cenário. As filmagens coincidiram com a campanha promocional massiva do filme de Tim Burton, estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson. A coincidência vai além do visual. No roteiro original de Jason Takes Manhattan, o vilão seria completamente derretido por lixo tóxico no clímax, uma ideia que ecoa diretamente o destino do Coringa em Batman. Essa versão sugeria um encerramento definitivo, com a “alma” de Jason finalmente liberta. O estúdio, no entanto, exigiu alterações para manter aberta a possibilidade de sequências.


E elas viriam, ainda que por outros caminhos. O próprio Rob Hedden, descontente com o resultado final, tornou-se um dos críticos mais duros do filme. Em comentários de áudio e entrevistas posteriores, ele se desculpou repetidamente com os fãs, afirmando que Parte VIII não era o filme que ele havia idealizado. Desde então, praticamente renegou a obra. Uma atitude rara, ainda mais em uma franquia acostumada a seguir adiante sem olhar para trás.

O curioso é que, apesar de todas as falhas, há algo de estranhamente cativante em Jason Ataca Nova York. Talvez seja justamente sua natureza desajustada, sua tentativa desesperada de ser maior do que pode. Um último detalhe revela bem essa ambiguidade: a referência ao tão desejado crossover entre Freddy Krueger e Jason Voorhees. Após o “quase” da Parte 7, este inclui uma referência discreta, mas clara. Quando Jason enfrenta dois drogados em Nova York, a cena da seringa remete diretamente a A Hora do Pesadelo 3, enquanto a bandana de um dos bandidos lembra visualmente as queimaduras icônicas de Freddy. Pequenos gestos, quase clandestinos, que mantêm vivo um desejo que só seria realizado anos depois.


Financeiramente, o filme arrecadou apenas US$ 14.343.976 com um orçamento de US$ 5 milhões, tornando-se, à época, o capítulo de menor bilheteria da série. O fracasso comercial selou o destino da franquia na Paramount e acelerou a venda dos direitos. Era o fim de um ciclo e, simbolicamente, o início de outro.

O número oito, frequentemente associado ao infinito quando deitado, aqui parece representar o oposto: a incapacidade de encerrar um ciclo de forma limpa. Jason cai, levanta, se dissolve, retorna. Do pó veio, ao pó retornou e ainda assim insiste em continuar. Sexta-Feira 13 – Parte VIII é um filme sobre deslocamento: de espaço, de identidade e de pertencimento. Jason fora de Crystal Lake já não é exatamente Jason. Mas talvez o verdadeiro horror não seja vê-lo em Nova York, e sim perceber que, naquele momento, a franquia já não sabia mais onde pertencia.

E se até o próprio diretor se desculpou… quem sou eu para não reclamar? 




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