DEADPOOL (2016) - FILM REVIEW
🔷 Deadpool (2016)
Ou flerte com Wolverine - Parte 1
A trajetória de desenvolvimento de Deadpool é quase tão caótica quanto a personalidade do próprio Wade Wilson. Desde o início dos anos 2000, o personagem parecia condenado a viver num limbo industrial. Em 2004, Ryan Reynolds e o diretor David S. Goyer já tentavam tirar o projeto do papel na New Line Cinema, impulsionados pela curiosa coincidência de que, nos quadrinhos, o próprio Deadpool descrevia sua aparência como “Ryan Reynolds cruzado com um Shar-Pei”. Era uma piada metalinguística que acabou virando destino: Reynolds se tornou inseparável do personagem, como se ambos fossem condenados a compartilhar a mesma trajetória tortuosa.
Mas o primeiro grande tropeço veio em X-Men Origens: Wolverine (2009), em que Deadpool foi radicalmente alterado — ganhou poderes extras e, em uma decisão que beira o absurdo conceitual, teve a boca costurada, justamente ele, o personagem mais famoso por falar sem parar. Aquela versão foi recebida com perplexidade e irritação pelos fãs, criando uma situação curiosa: o personagem precisava ser salvo de si mesmo. Porém, é interessante perceber como Wade, quando aparece e tem uma cena de luta em Wolverine, mesmo que seja breve, sequestra o filme para si.
O desenvolvimento do filme solo seguiu lentamente ao longo dos anos seguintes, como um projeto que ninguém tinha coragem de abandonar, mas também não tinha pressa em aprovar. Os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick passaram cerca de seis anos escrevendo versões anuais do roteiro, refinando o tom irreverente e tentando preservar o espírito dos quadrinhos. Ryan Reynolds, por sua vez, assumiu o papel de guardião obsessivo do personagem, intervindo sempre que o projeto ameaçava se tornar genérico.
A grande barreira sempre foi o mesmo fator: o medo do estúdio diante de um filme para maiores de 18 anos. Na era dominada por blockbusters com classificação indicativa mais leve, apostar em um herói violento, sarcástico e obsceno parecia um risco desnecessário. A Fox chegou a autorizar a produção de cenas-teste em 2012, criadas por Tim Miller com animação digital, mas mesmo esse material não convenceu os executivos a liberar o orçamento completo. E é nesse ponto que a história de Deadpool assume um tom quase lendário — digno do próprio personagem.
Em 2014, as filmagens de teste vazaram na internet. Em poucos dias, o material viralizou e foi recebido com entusiasmo esmagador do público. A reação foi tão positiva que o estúdio, até então hesitante, não teve muita escolha além de aprovar oficialmente o projeto. Anos depois, Ryan Reynolds admitiria ter sido responsável pelo vazamento — um gesto que soa como a versão industrial de uma piada típica do personagem: quebrar regras para sobreviver. Há uma ironia irresistível nisso tudo. Deadpool só nasceu porque alguém fez exatamente aquilo que um herói tradicional jamais faria: trapacear o sistema.
Mesmo aprovado, o filme continuou enfrentando limitações severas. Apenas 48 horas antes do sinal verde definitivo, o estúdio reduziu o orçamento em cerca de 7 a 8 milhões de dólares, forçando uma reescrita emergencial do roteiro. Sequências caras foram cortadas, incluindo perseguições e batalhas mais ambiciosas. Em vez de prejudicar o filme, essa limitação acabou definindo sua identidade: um blockbuster enxuto, focado em criatividade e humor em vez de espetáculo excessivo.
Cansaram de dar dinheiro para filmes errados, mas não investiram no certo. Essa restrição orçamentária gerou algumas das piadas mais emblemáticas do filme. Uma das falas improvisadas por Reynolds — sobre só haver dois X-Men porque o estúdio não podia pagar por mais — funciona como uma confissão disfarçada de humor. O filme reconhece suas próprias limitações e as transforma em piada. Poucos blockbusters tiveram coragem de rir tão abertamente de si mesmos.
O processo de produção também reforçou essa lógica de improvisação e adaptação constante. Muitas falas foram criadas no set, com os atores gerando múltiplas variações para cada piada escrita. A pós-produção continuou esse espírito experimental: Reynolds gravou novos diálogos até mesmo com seu próprio celular, ajustando o humor até os últimos momentos antes do lançamento.
Visualmente, Deadpool também representa um triunfo da engenhosidade sobre o orçamento limitado. O personagem Colossus foi inteiramente criado em CGI, e a máscara do próprio Deadpool recebeu animações sutis ao redor dos olhos para preservar a expressividade típica dos quadrinhos. Mas talvez o elemento mais fascinante de toda essa trajetória seja a forma como o filme se construiu em oposição ao próprio sistema que o produziu.
Enquanto muitos filmes de super-heróis foram cuidadosamente planejados, Deadpool parece ter sobrevivido por pura insistência. Foi um projeto que passou anos sendo considerado arriscado, inadequado ou inviável — até que a própria audiência demonstrou que havia espaço para algo diferente. Há um paralelo curioso entre o personagem e o filme que o trouxe à vida. Wade Wilson é alguém que sobrevive a tudo — doenças, torturas, explosões — muitas vezes de forma grotesca e improvável. O filme Deadpool teve uma trajetória semelhante: foi rejeitado, mutilado conceitualmente em outras produções, ignorado por executivos e quase abandonado diversas vezes. Ainda assim, regenerou-se.
É o seguinte. A vida é uma série interminável de naufrágios, com apenas breves pausas de felicidade semelhantes a comerciais. Esse foi o melhor intervalo comercial. O que significava que era hora de retornar à nossa programação regular.
Deadpool foi dirigido por Tim Miller, que é irmão de Frank Miller (Sin City), primo de Mark Millar (Kick Ass), pai de Wentworth Miller (Prison Break) e Penelope Ann Miller (Pagamento Final), além de ser avô de Ezra Miller (The Flash) e vizinho-sobrinho George Miller (Mad Max), cujo filho, Jonny Lee Miller, fez Hackers.
No monólogo de 1 hora e 44 minutos, Wade Wilson (antes de se tornar náufrago com Chuck Noland) descobre que está com câncer terminal. Para ter alguma chance de sobreviver e voltar para sua namorada Vanessa (e também esposa do Rei do Crime, Wilson Fisk, primo de Wade), ele busca a ajuda de uma organização misteriosa que não só pode curá-lo do câncer, como também transformá-lo em um super-herói, liderada pelo vilão Ajax (após Mortal Kombat).
Embora Deadpool seja claramente dominado pela presença de Ryan Reynolds — quase como se fosse um espetáculo solo sustentado por sua energia —, o restante do elenco consegue contribuir com bons momentos, ainda que nem todos recebam o mesmo espaço. TJ Miller (filho de Wentworth Miller e Ezra Miller), por exemplo, se destaca como Weasel, oferecendo algumas das falas mais divertidas do filme. Depois de já ter participado de uma animação de super-herói como Operação Big Hero, aqui ele parece muito mais à vontade, com um humor que se encaixa perfeitamente na proposta irreverente do longa.
No entanto, quando se trata dos antagonistas, o filme mostra algumas limitações evidentes. Ajax cumpre seu papel básico como rival direto de Deadpool, mas nunca chega a se tornar um vilão realmente marcante. Ao longo da história, suas motivações permanecem rasas, e falta a ele um plano consistente que sustente a narrativa. Em vez disso, tudo acaba girando em torno de um desejo bastante direto e pouco sofisticado: derrotar Deadpool. Isso faz com que o personagem pareça subaproveitado, quase como um antagonista que existe apenas para preencher a função de obstáculo, sem uma identidade própria forte. Curiosamente, essa simplicidade lembra vilões de épocas passadas, movidos por pura maldade, mas sem a complexidade que o público contemporâneo costuma esperar.
O mesmo sentimento de oportunidade perdida aparece em relação à personagem Vanessa. Sua introdução é promissora: ela surge como alguém independente, espirituosa e perfeitamente capaz de se defender. No início, parece claro que ela poderia ocupar um espaço mais ativo na narrativa. No entanto, à medida que a história avança, sua presença diminui drasticamente. Durante boa parte do segundo ato, ela praticamente desaparece, retornando apenas no final — e, mesmo assim, com uma função bastante limitada, quase reduzida ao papel clássico de interesse amoroso em perigo.
Outros personagens também acabam ficando à margem do protagonismo. Míssil Adolescente Megassônico, por exemplo, é uma presença curiosa e até carismática, mas recebe pouco material para trabalhar. Apesar de ser bem caracterizada, sua participação é pequena e suas falas são limitadas. Para muitos espectadores, ela pode soar como uma criação inédita, especialmente porque sua presença prévia nas histórias em quadrinhos não é das mais populares. Já Colossus, por outro lado, surge com uma personalidade um pouco diferente daquelas vistas em adaptações anteriores. Ainda assim, essa mudança funciona bem dentro da lógica do filme, já que sua postura moral rígida contrasta diretamente com o comportamento caótico e amoral de Deadpool.
Mas acredito que seja a intenção do filme, pois este elemento se torna plot no terceiro, até porque estes pontos que eu disse são evidentes. O humor, claro, é o verdadeiro coração da produção — e também um dos elementos mais polarizadores. A quebra constante da quarta parede é uma das marcas registradas do personagem e aparece aqui com frequência.
Entre os atores, Ryan Reynolds se destaca com absoluta facilidade. Sua interpretação é tão natural e alinhada ao personagem que se torna difícil imaginar outra pessoa no papel. Trata-se de um daqueles raros encontros perfeitos entre ator e personagem, semelhantes ao que aconteceu com Robert Downey Jr. como Tony Stark ou Johnny Depp como Jack Sparrow. Reynolds demonstra um nível de comprometimento evidente, sustentando praticamente todo o filme com seu carisma e senso de humor.
Outro aspecto marcante é a forma como o filme abraça a violência gráfica sem hesitação. O uso de sangue e efeitos físicos é explícito e, em alguns momentos, bastante intenso. Há cenas que podem causar desconforto, mas que estão alinhadas com a proposta exagerada e provocativa do personagem.
E por isso, o maior mérito do filme é justamente sua autenticidade. Ele não tenta agradar a todos nem suavizar seu conteúdo para se encaixar em padrões mais seguros. Em vez disso, assume sua identidade irreverente e segue até o fim com confiança. E o público respondeu com 782 milhões de bilheteria para um orçamento de 58.
Ryan Reynolds provou que Deadpool era o anti-herói que ele queria, e nós precisávamos.
A pior parte do câncer não é o que ele faz com você. É o que ele faz com as pessoas que você ama.
Diverte e faz pensar.

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