google-site-verification=21d6hN1qv4Gg7Q1Cw4ScYzSz7jRaXi6w1uq24bgnPQc

FELIPE AYRES - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS


Felipe Ayres é músico e compositor, com uma carreira marcada por trabalhos em filmes e séries. Entre seus projetos mais recentes no cinema, destaca-se a trilha sonora original de Deserto Particular, que lhe rendeu o prêmio de Melhor Trilha Sonora no Cine PE e uma indicação ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Na televisão, Felipe é o autor das músicas originais de séries de destaque como O Caso Evandro (Globoplay), Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez e Bateau Mouche (ambas da HBO Max). Além do trabalho em trilhas sonoras, ele também produz álbuns solo e integra a banda curitibana Ruído por Milímetro.

Vamos às 7 perguntas capitais:


1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa relação com o cinema. Os filmes ruins que nos marcaram, os cinemas frequentados (que hoje, provavelmente, estão fechados), as extintas locadoras de VHS e DVD que faziam parte do nosso cotidiano. Você é um apaixonado por cinema? Conte um pouco de como é sua relação com a 7ª arte.

F.A.: Nossa casa sempre foi cheia de filmes, primeiro em VHS, depois em DVD. Ir até a locadora era um costume de fim de semana. Meu irmão, que é seis anos mais velho, sempre foi muito fã de ficção científica e de outros gêneros que fizeram sucesso nos anos 70 e 80, e eu acabei entrando nesse mundo com ele. Lembro da gente conversando sobre por que Star Wars começava pelo episódio IV (risos), ou de quando assistimos Sonhos, do Kurosawa — não entendemos muita coisa na época, mas o filme ficou ali, guardado na memória, esperando a hora certa de fazer sentido.


Acho que a primeira vez em que percebi um envolvimento mais profundo com o cinema foi em 2003, quando fui ao cinema com amigos ver As Horas. Mesmo sem entender completamente o que o filme trazia em termos psicológicos, ficou claro para mim que aquilo tinha despertado um interesse diferente. Até hoje ele continua sendo um dos meus filmes e trilhas sonoras favoritos.

Depois disso, comecei aquela clássica coleção de DVDs das Lojas Americanas (risos), sempre procurando filmes com uma sensibilidade parecida. Nessa época, eu já tinha um envolvimento com música, comecei a tocar guitarra aos 10 ou 11 anos, e em 2003, com 17, já estudava harpa e fazia minhas próprias composições. Então a ligação entre música e cinema veio de forma muito natural. Era só uma questão de tempo.


2) Você foi o responsável por belas trilhas de documentários como Bateau Mouche, Caso Evandro, Pacto Brutal - O Assassinato de Daniella Perez. Fale um pouco sobre como é seu processo criativo.

F.A.: Acho que, para mim, o ponto de virada foi O Caso Evandro. Na época, o true crime ainda era um gênero bem novo por aqui, e não existia um modelo claro de como deveria soar uma trilha para esse tipo de narrativa. Então, como não havia uma “referência de trilha de true crime” na minha cabeça, eu simplesmente compus músicas que eu gostaria de ouvir, quase como se estivesse criando um disco meu.

 

Claro, sempre em diálogo com o Ivan, que dava direcionamentos sobre o clima e a intenção de cada momento. Mas, por ser um podcast, havia uma liberdade enorme: eu não precisava me preocupar com tempo de cena ou sincronização, então pude experimentar bastante com formas livres. Acho que essa espontaneidade acabou se refletindo na boa recepção do público também.

A partir daí, comecei a mergulhar mais fundo no papel da música dentro da narrativa audiovisual. Projetos como Pacto Brutal e Bateau Mouche já me pediram um cuidado maior com a imagem, com a emoção do espectador em cada momento, e fui desenvolvendo um processo mais estruturado: entender o tom da obra, a linguagem do diretor, e a função emocional da trilha dentro da história. Ainda é um processo muito intuitivo, mas hoje ele é mais afiado, tanto tecnicamente quanto criativamente.


3) Para a trilha de O Caso Evandro, em especial, há uma faixa intitulada ''Olhando para o sol''. Considero essa, um das mais impactantes que já vi. De onde partiu o insight para criá-la?

F.A.: Também gosto muito dessa faixa. Um dos focos dela é o violoncelo, inclusive, foi uma das coisas que pedi para o Ivan comprar para mim durante o processo (risos). Era um VST (instrumento virtual) de violoncelo que eu gostava muito e achava que se encaixava bem nas ideias que eu estava desenvolvendo para o Caso Evandro. Depois, quando a trilha foi adaptada para a série de TV, esse violoncelo virtual acabou sendo substituído por uma cellista de verdade.

A parte das cordas dedilhadas, como ukulele, bandolim, etc. veio muito de uma influência do Gustavo Santaolalla, especialmente pelo trabalho dele em The Last of Us, que era um jogo que eu e um amigo éramos muito fãs. Acho que essas referências foram se misturando de forma bem natural na criação da faixa.


4) Quais são suas inspirações?

F.A.: Essa é difícil, porque depende muito do momento, da fase, do ciclo... e até do estilo. Na adolescência, o metal, especialmente o doom metal, foi muito presente na minha vida, e até hoje dá para encontrar traços disso nas minhas músicas. Depois veio a Björk, que teve um papel enorme nas minhas composições com harpa e elementos eletrônicos.

Tem também influências muito fortes de Radiohead, Portishead, Cocteau Twins, Massive Attack, Sigur Rós, Müm, Slowdive, Mogwai, Aphex Twin, Fever Ray… e nomes brasileiros como Grupo Rumo, ruído por milímetro, Arrigo Barnabé etc

Também me marcaram muito artistas como Michael Hedges, Alice Coltrane, Tricky, Toe, Rachel’s, A Winged Victory for the Sullen, Joni Mitchell, Savatage, Anathema, Gregor Samsa, Nils Frahm, Arvo Pärt, Ryuichi Sakamoto, Ryoji Ikeda, Alva Noto, Meredith Monk, Philip Glass, Yann Tiersen, John Williams e Jonny Greenwood.

Cada novo trabalho acaba acessando uma parte diferente desse DNA musical que fui acumulando ao longo do tempo. 


5) Qual trabalho em sua carreira considera o melhor? Em contrapartida, há algum que faria diferente?

F.A.: É difícil escolher um “melhor”, porque cada trabalho me trouxe experiências únicas e foi importante para minha evolução. O Caso Evandro tem um lugar especial justamente por ter sido talvez o mais espontâneo. Ele é tecnicamente mais simples do que os trabalhos que vieram depois, mas acho que isso também deu à trilha uma personalidade muito forte e experimental, o que acabou ressoando bastante com o público do podcast.

Já em Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez, houve um salto em termos de produção e linguagem audiovisual. Esse projeto me deu mais confiança para compor diretamente para a imagem, e aprendi muito no processo — então coloco ele no mesmo nível de importância.


Deserto Particular também foi uma trilha marcante, por ser mais centrada em cordas e arranjos mais delicados. Foi um desafio diferente, e um ótimo aprendizado. No fim, cada trilha abre espaço para eu explorar algo novo, uma linguagem, uma textura, uma abordagem. Isso torna todas importantes de algum jeito.

Sobre o que eu faria diferente... acho que só gostaria que meu processo criativo fosse menos caótico (risos). Mas, por enquanto, ainda estou tentando chegar lá.


6) Com relação às suas preferências cinematográficas, há uma lista dos filmes de sua vida? Um Top 10 ou mesmo, o filme mais importante?

F.A.: Não consigo fazer uma ordem, mas de cabeça, alguns filmes que considero extremamente inspiradores e que me influenciaram bastante, tanto no cinema quanto na música, são: Twin Peaks, Cidade dos Sonhos, Eraserhead, As Horas, Sangue Negro, Trama Fantasma, Os Excêntricos Tenenbaums, Paris, Texas, Uma Vida Iluminada, Flores Partidas, entre outros.

Cada um desses filmes tem algo que, de alguma forma, reverbera dentro de mim, seja pela sua estética, narrativa ou pela trilha sonora que, muitas vezes, acaba me influenciando diretamente.


7) Para finalizar, deixe uma frase ou pensamento envolvendo o cinema que representa você.

F.A.: “There was a fish in the percolator” Twin Peaks.

M.V.: Obrigado amigo. A gente se vê nos filmes.



Tecnologia do Blogger.