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LOBO (1994) - FILM REVIEW

Pelo mais puro acaso, revi Lobo na sequência de Um Lobisomem Americano em Londres. O detalhe é que Rick Baker trabalhou em ambos. Lobo foi um filme que assisti pela primeira vez no lançamento, no saudoso cinema Excelsior, e que conta a história do editor de livros Will Randall (Jack Nicholson) que, ao retornar para casa de uma viagem, atropela um lobo. Quando sai do carro para ver a condição do animal, acaba sendo mordido. 

Deste instante em diante, começa a se transformar em algo que ainda não compreende. Paralelamente, sua vida particular e profissional é afetada, pois é traído por sua mulher e está prestes a ser despedido. Além disto, Laura Alden (Michelle Pfeiffer), a bela filha de Raymond Alden (Christopher Plummer), futuro comprador da editora, se apaixona por Randall, sem imaginar que o homem está se transformando em uma fera.

Jamais revi este, que na época, saí do cinema com uma sensação bem negativa. Da trilha com um tema que me incomodou muito (do gênio Morricone) à direção de Mike Nichols, acostumado com filmes que investem nos personagens, mas que aqui parece fora de seus gêneros mais adequados, passando pela duração (que na época pareceu excessiva): nada foi positivamente marcante, a não ser o pôster de divulgação.

No desenvolvimento do roteiro, o projeto acabou marcado por um choque de concepções criativas. O roteirista Jim Harrison deixou a produção após divergências com o diretor Mike Nichols, afirmando que buscava um filme de natureza “dionisíaca”, mais instintiva, sombria e selvagem, enquanto Nichols pretendia uma abordagem “apolínea”, mais controlada e elegante — diferença que o próprio Harrison resumiu com ironia ao dizer que o diretor havia transformado o seu “lobo em um chihuahua”, episódio que o levou, inclusive, a se afastar definitivamente de Hollywood depois do filme. 

Para substituir Harrison, o estúdio contratou Wesley Strick, numa tentativa de tornar o material mais claramente cinematográfico, já que, segundo a avaliação interna, o texto original se aproximava excessivamente de um romance literário. Strick relatou que nunca chegou a se encontrar com Harrison, mas percebeu um certo ressentimento em relação à sua entrada no projeto, situação ainda mais delicada pelo fato de Jack Nicholson, protagonista do filme, ser amigo pessoal de longa data de Harrison. 

Apesar disso, Mike Nichols apoiou plenamente a reescrita e via Lobo como uma chance de se reposicionar na indústria como um diretor contemporâneo, capaz de comandar um thriller fantástico de grande orçamento, mais alinhado ao cinema comercial dos anos 1990; dentro da equipe, Strick encontrou respaldo criativo sobretudo em Michelle Pfeiffer, com quem já havia trabalhado em Batman: O Retorno (1992), além de colaborar na reorganização do tom do roteiro para equilibrar romance, sátira corporativa e elementos de horror, ajustando o material também às expectativas de um estúdio que buscava um veículo de prestígio para Nicholson naquele momento de sua carreira.

O filme articula o mito do lobisomem como um dispositivo dramático para examinar estruturas de poder, envelhecimento e identidade no capitalismo urbano dos anos 1990. A licantropia não é tratada prioritariamente como horror corporal, mas como mecanismo que reorganiza a posição social do protagonista dentro de um ambiente corporativo competitivo e predatório.

Esta dinâmica, inclusive, combina com o diretor. Mas, como eu disse, talvez a estranheza dele dirigindo um filme de horror tenha até mesmo me bloqueado. Randall é o veterano em processo de obsolescência. A substituição progressiva por um subordinado mais jovem expõe a lógica darwinista do mercado editorial retratado no filme. A mordida do lobo funciona, nesse contexto, como reativação do instinto competitivo. 

O que surge, além da força física ampliada, é uma intensificação da percepção — olfato aguçado, leitura precisa das intenções alheias, intolerância à dissimulação. O instinto animal age como ferramenta de sobrevivência num sistema já estruturado sobre a predatividade simbólica.

Esse processo dialoga diretamente com uma crise de masculinidade associada ao envelhecimento. A transformação devolve a Will atributos tradicionalmente vinculados à virilidade: potência, assertividade, magnetismo sexual. O filme constrói uma equivalência entre vigor biológico e relevância social. Em um ambiente que descarta o envelhecido, a metamorfose restaura capital simbólico. A figura pública de Nicholson naquele período — frequentemente associada a personagens dominantes e carismáticos — reforça essa leitura de recuperação de centralidade masculina.

Paralelamente, a oposição entre instinto e civilização estrutura a narrativa. O espaço corporativo é codificado como território de formalidade, cálculo estratégico e violência institucionalizada. A animalidade, por sua vez, não aparece como regressão irracional, mas como forma alternativa de conhecimento. Ao tornar-se mais “animal”, Will torna-se também mais lúcido quanto às relações de poder que o cercam. O filme sugere que a civilização corporativa já vive segundo princípios de caça e hierarquia; a diferença é que o predador explícito substitui o predador dissimulado.

A dimensão erótica acompanha esse deslocamento. A relação com Laura integra desejo e perigo. A sexualidade é representada como força catalisadora da metamorfose. O erotismo possui contornos góticos, vinculando atração à ameaça e ao fascínio pelo que é indomável. A transformação física intensifica a carga do desejo como energia transgressora.

Em contraste com obras centradas na espetacularização do horror, como o filme de John Landis ou Grito de Horror, o filme privilegia a progressividade da mudança e o drama social. A licantropia funciona como uma gradual reconfiguração da identidade do personagem central. A ênfase recai sobre consequências psicológicas e sociais da transformação, deslocando o mito para um campo alegórico.

No conjunto, o filme articula o lobisomem como figura de adaptação evolutiva dentro de um ecossistema urbano competitivo. A monstruosidade não rompe a ordem existente; ela a explicita. O que se revela é a continuidade entre a selva corporativa e a floresta literal: ambos agindo por hierarquia, território e sobrevivência.

E o mais curioso, que evidentemente não gostei na época, é a transformação "econômica" dos personagens. É algo genial, já que aproxima intencionalmente o lobo do homem, mas distancia do horror esperado. Revendo, é difícil ignorar o elenco sensacional, mas a trilha continua soando sem inspiração, e no final das contas, com suas tramas corporativas e de relacionamentos interpessoais, Lobo parece muito mais um filme de Mike Nichols do que um filme de horror autoral. 

Para o bem ou para o mal.

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