O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA - SAGA REVIEW
🔷O Massacre da Serra Elétrica (1974)
O Despertar da Besta
Lançado em 1974, O Massacre da Serra Elétrica foi um choque brutal para o público e redefiniu os limites do horror no cinema. Em uma época em que o gênero ainda transitava entre o sobrenatural e o gótico, o filme dirigido por Tobe Hooper trouxe algo muito mais perturbador: uma violência crua, suja e assustadoramente plausível. Sem depender de grandes efeitos ou sangue explícito em excesso, a obra construiu sua força no realismo, na atmosfera sufocante e na sensação constante de ameaça.
A experiência de assistir ao filme na época era quase física. O calor do Texas, os sons metálicos, os gritos e o silêncio desconfortável criavam um ambiente de tensão contínua que deixava o espectador à beira do colapso. Muitos acreditavam estar diante de algo próximo de um registro real, o que amplificava ainda mais o desconforto. A figura de Leatherface rapidamente se tornou um dos ícones mais perturbadores da cultura pop, não apenas pela violência, mas pela forma grotesca e desumanizada com que era apresentada.
Mais do que um simples filme de terror, O Massacre da Serra Elétrica foi um divisor de águas. Ele abriu caminho para o horror moderno, influenciando gerações de cineastas e estabelecendo um novo padrão de intensidade psicológica e estética crua. Seu impacto não foi apenas sentido, vivido, quase como um pesadelo coletivo do qual o público demorou a despertar.
Encarnação do Demônio
O personagem Leatherface é resultado de um processo criativo incomum, quase artesanal, que contribuiu diretamente para o seu impacto perturbador. Desde o início, o diretor Tobe Hooper optou por não tratar o personagem como um vilão convencional. O roteiro continha falas aparentemente sem sentido, e Hooper se sentava com Gunnar Hansen para explicar o que cada momento realmente significava. A partir disso, Hansen precisava encontrar maneiras de “dizer” tudo sem falar — construindo uma comunicação baseada em sons, gestos e linguagem corporal. Em uma das cenas, Hooper chegou a interromper o ator por considerar que havia “inteligência demais” na interpretação, reforçando que Leatherface deveria parecer limitado, quase infantil.
Para isso, estudou comportamentos reais, observando movimentos e padrões de fala, buscando uma interpretação autêntica e, ao mesmo tempo, respeitosa, algo que muitos espectadores, inclusive pessoas com deficiência, reconheceram como bem executado. Curiosamente, Hansen recusou o papel de início por causa da brutalidade da história, mas acabou convencido por sua amiga Marilyn Burns. Uma vez no projeto, recebeu liberdade criativa para desenvolver o personagem sob supervisão de Hooper.
Essa construção também se refletia na dinâmica familiar do personagem. Hansen via Leatherface como alguém completamente submisso à sua família, obedecendo a ordens por medo. O próprio Hooper descrevia o personagem como um “bebê grande”, que mata mais por reação e defesa do que por maldade consciente. Essa ambiguidade se estendia até mesmo às relações entre os personagens: há incerteza sobre o “Velho” ser pai ou avô, embora o roteiro o defina, na verdade, como irmão.
Nos sets de gravação, o ambiente no qual as cenas foram rodadas acabou por acentuar a força da interpretação. Devido ao orçamento extremamente baixo, Hansen usou a mesma roupa durante quatro semanas sob o calor intenso do Texas. Como a camisa era tingida, não podia ser lavada, o que fez com que o ator adquirisse um odor tão forte que os colegas evitavam se aproximar durante os intervalos. Isso acabou reforçando o isolamento do ator no set, algo que, involuntariamente, ajudou na composição do personagem. Além disso, a máscara limitava severamente sua visão periférica, e os sapatos com salto o deixavam mais alto, fazendo com que ele frequentemente batesse a cabeça em portas e objetos durante as filmagens.
O distanciamento entre Hansen e o restante do elenco também foi psicológico. Os atores que interpretavam os jovens se tratavam pelos nomes dos personagens mesmo fora das câmeras, imergindo completamente na narrativa e, por consequência, evitando contato com quem representava a ameaça constante. Segundo Hansen, isso fazia sentido: se eles eram aquelas pessoas, não queriam conhecer o homem que os mataria.
Curiosamente, o filme originalmente se chamaria Leatherface, algo que o próprio Hansen preferia. Ele acreditava que a mudança para The Texas Chain Saw Massacre prejudicaria suas chances de destaque, preocupação compartilhada pelo diretor de fotografia Daniel Pearl. Hooper, no entanto, defendeu a decisão, inclusive mencionando que havia considerado um título ainda mais estranho: Headcheese.
Mesmo antes de conseguir o papel, Hansen pouco sabia sobre o personagem. Aliás, ele se deparou com o papel quando estava na pós-graduação. Tobe Hooper e o roteirista explicaram que Ed Gein foi a inspiração para a máscara e os móveis de osso e pele. Com o tempo, o próprio Hansen perceberia que tudo estava concentrado justamente nesse elemento visual central. A máscara não o libertava no sentido tradicional da atuação, mas se tornava a principal forma de expressão do personagem, obrigando-o a compreender desde o início que não teria voz nem rosto visível para se apoiar. Sua interpretação dependeria inteiramente do corpo.
Ainda inexperiente, Hansen passou a desenvolver Leatherface a partir de movimentos físicos e gestos, buscando entender quem era aquele homem em termos corporais. Mais tarde, ele reconheceria que, se tivesse interpretado um personagem falante, talvez nunca tivesse pensado tão profundamente na dimensão física da atuação. A ausência de fala e a ocultação do rosto acabaram se tornando, segundo ele, uma espécie de bênção inesperada: forçaram a criação de uma presença física específica e reconhecível, permitindo que, ao ouvir o comando de “ação”, pudesse assumir imediatamente os movimentos do personagem e abandoná-los com a mesma rapidez quando a cena terminava, sem recorrer a artifícios emocionais tradicionais.
O produto final desse trabalho foi um dos personagens mais perturbadores que o cinema já viu: ele não é só um assassino, mas uma pessoa ferida, desconstruída pelo pavor, pelas relações familiares e por uma visão restrita da realidade, o que faz com que ele seja ainda mais perturbador.
🔷O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986)
Maníacos
É comum grandes obras do cinema de horror surgirem quando o orçamento é apertado. Ainda mais quando problemas ocorrem e mudam completamente a forma com que seu autor gerencia sua obra. Um caso memorável é o ocorrido no filme Tubarão (1975), quando Bruce, o bichão mecânico, insistia em não funcionar. O diretor Steven Spielberg fez do limão uma limonada. Se o tubarão não funcionava, ele transformou o desastre em triunfo, ou melhor, suspense e medo.
Tobe Hooper fez de Massacre da Serra Elétrica (1974) uma obra-prima do horror, com diversos elementos memoráveis, como atuações, fotografia, edição e direção. Tudo funciona lindamente, quase sem orçamento. E o que ele faria com orçamento maior? Com, digamos, seus Bruces funcionando? A resposta pode ser vista em O Massacre da Serra Elétrica 2, um filme mais caro e essencialmente diferente. A capa do VHS, memorável para mim, pois era da época em que eu não saía das locadoras, parecia satirizar Clube dos Cinco, de John Hughes, lançado um ano antes, o que não fez nenhum respingo de sentido para mim na época.
O filme inicia como uma produção oitentista raiz, nonsense e com muito sangue, distanciando-se completamente do original e se aproximando do gore de Herschell Gordon Lewis. Aliás, estou comparando projetos, não julgando qual é melhor, porque são produtos de décadas diferentes, motivações diferentes e que, na opinião da maioria absoluta, sempre olhará o clássico como intocável. Eu concordo, mas vou deixar de lado o efeito comparativo.
Ele continua a história do primeiro filme com uma abordagem mais satírica, exagerada e quase grotesca, misturando horror com humor negro. A trama acompanha Stretch (Caroline Williams), uma radialista que trabalha em uma estação no Texas. Durante um programa ao vivo, ela atende a uma ligação aparentemente comum, mas rapidamente percebe que os jovens do outro lado da linha estão sendo perseguidos e brutalmente assassinados.
O episódio não apenas traumatiza Stretch, como também chama a atenção do obsessivo ex-xerife Lefty Enright (Dennis Hopper), parente próximo de Franklin (o cadeirante do primeiro filme). Consumido pela vingança, Lefty passa anos investigando o paradeiro da família, acreditando que eles ainda estão vivos e continuam matando. Quando descobre a gravação do assassinato transmitido pelo rádio, ele vê nisso a prova que precisava para agir.
Enquanto isso, Stretch se torna alvo da família. Ao tentar expor o ocorrido, ela acaba sendo atraída para o esconderijo deles, um labirinto subterrâneo bizarro, construído sob um parque de diversões abandonado. Nesse ambiente repleto de restos humanos, iluminação artificial e um senso perturbador de “vida doméstica”, ela entra em contato direto com a dinâmica insana da família, incluindo o comportamento ambíguo de Leatherface, que demonstra uma estranha mistura de violência e atração sexual por ela.
Delírio Sangrento
Se há um elemento que torna O Massacre da Serra Elétrica 2 ainda mais peculiar, é a sua produção. Após o relançamento lucrativo de O Massacre da Serra Elétrica nos cinemas, Tobe Hooper iniciou o desenvolvimento de uma sequência. O projeto só ganharia forma anos depois, quando foi oficialmente anunciado em 1983.A produção acabou sendo viabilizada pela Cannon Films, dentro de um contrato de três filmes com Hooper, que já incluía Força Sinistra e Invasores de Marte.
Inicialmente, Hooper pretendia atuar apenas como produtor, mas assumiu a direção ao não encontrar outro nome viável dentro do orçamento. Havia, porém, um conflito criativo: enquanto a Cannon esperava um terror mais convencional, Hooper queria transformar a sequência em uma comédia de humor negro exagerada. Para isso, chamou L. M. Kit Carson, que começou a desenvolver o roteiro.
O título da sequência seria "Beyond The Valley of The Texas Chainsaw Massacre", mas o estúdio não aprovou. A empresa se preocupou tanto com um possível atraso da produção que contratou Newt Arnold, que mais tarde iria dirigir seu filme de ação "O Grande Dragão Branco", para assistir às filmagens e garantir que as coisas fossem feitas mais rápido e com menos tomadas.
A Cannon, aliás, era conhecida por sua ousadia, tanto por tentar viabilizar projetos ambiciosos que nunca se concretizaram, como uma adaptação de Homem-Aranha, quanto por assumir franquias relevantes. Ao mesmo tempo, ficou marcada pela produção de filmes de baixo orçamento, que, apesar das limitações, conquistaram público pelo entretenimento, como American Ninja, Invasão U.S.A., Braddock e Mestres do Universo.
Nos anos 1980, a Cannon se especializou em ação, explorando tendências como a febre dos ninjas, com títulos como A Vingança do Ninja e Ninja III: A Dominação, ambos com Sho Kosugi. Também adquiriu os direitos de Desejo de Matar II, garantindo o retorno de Charles Bronson sob direção de Michael Winner, um sucesso comercial. E o III foi ainda mais marcante. Outros projetos ajudaram a consolidar o estúdio, como Último Americano Virgem e parcerias com Chuck Norris, produções estreladas por Michael Dudikoff. Por isto,
O Massacre da Serra Elétrica 2 parece quase um estranho no ninho, em meio a produções de ação, guerra, policial e aventura.
O Prazer da Violência
A formação do elenco também refletiu decisões marcadas por negociações e oportunidades inesperadas. Gunnar Hansen, que havia interpretado Leatherface no filme original, foi inicialmente convidado a reprisar o papel. Segundo o próprio ator, a proposta financeira era baixa, o que acabou dando espaço para novos integrantes do elenco. Um caso particularmente curioso foi o de Bill Moseley. Antes mesmo da produção da sequência, ele havia criado um curta-metragem intitulado The Texas Chainsaw Manicure, no qual interpretava uma versão caricatural do personagem conhecido como Caroneiro.
O filme de Moseley acabou chegando às mãos de Tobe Hooper por meio de um roteirista, e a reação do diretor foi imediata: ele gostou tanto do desempenho de Moseley que decidiu mantê-lo em mente caso um dia realizasse uma sequência. Quando O Massacre da Serra Elétrica 2 entrou em fase de escalação, Moseley foi convidado para interpretar Chop Top, irmão gêmeo do Caroneiro, papel que se tornaria um dos mais memoráveis e excêntricos do filme.
As filmagens principais tiveram início em 5 de maio de 1986, na região metropolitana de Austin, no Texas, mantendo a ligação geográfica com o cenário do filme original. Entre as locações utilizadas estavam a loja Cut Rite e os interiores do antigo prédio do jornal Austin American-Statesman. No entanto, grande parte da produção ocorreu dentro e ao redor do antigo Parque de Diversões Matterhorn, localizado em Prairie Dell. O parque, que estava desativado, foi transformado no fictício Texas Battle Land, ambiente que servia de esconderijo para a família Sawyer e que ajudou a reforçar o tom visualmente extravagante da sequência. A cena de abertura do filme, por sua vez, foi filmada na Old Iron Bridge, situada em Bastrop.
Para quem assistir ao filme em alta definição, poderá observar o alto nível de detalhamento dos efeitos de maquiagem. Quem faz é Tom Savini, responsável por alguns trabalhos marcantes e reconhecidos, como Zombie - Despertar dos mortos (1978), Chamas da morte (1981), além da direção do remake A Noite dos mortos vivos (1990) e atuar em diversas produções como Um Drink no Inferno (1996). Savini me contou em uma conversa que seu trabalho com o "vovô" era sua melhor realização até então. Ele pode ser particularmente admirado durante o fantástico close do personagem, quase no final do filme.
Durante a pós-produção, diversas sequências foram removidas por decisão do próprio Hooper, principalmente devido a problemas de ritmo. Entre as cenas excluídas mais notáveis estava uma longa sequência que mostrava o clã Sawyer saindo durante a noite para coletar carne destinada ao famoso chili da família. A cena incluía ataques a frequentadores que deixavam um cinema e a um grupo de fãs turbulentos em um estacionamento, envolvendo elaborados efeitos especiais criados por Savini.
Banquete de Sangue
Dennis Hopper se comporta durante boa parte do filme como se estivesse sob efeito de substâncias alucinógenas, algo que nem duvido devido ao seu histórico, mas o mais interessante é perceber como seu personagem, Lefty Enright, acaba espelhando o próprio Leatherface ao longo da narrativa. Desde suas primeiras aparições, Lefty parece deslocado do mundo que supostamente representa. Ele não age como um policial metódico ou estrategista, mas obsecado com o caso não resolvido.
Seu olhar fixo, seus gestos abruptos e sua fala muitas vezes exaltada dão a impressão de um homem permanentemente em estado alterado, como se estivesse em uma frequência emocional paralela. Essa impressão de comportamento quase intoxicado traduz a ideia de um homem consumido pela própria missão, incapaz de manter distância emocional do horror que investiga.
Esse estado o aproxima gradualmente de Leatherface, não apenas em termos de ação, mas de linguagem corporal. O momento em que Lefty passa a empunhar motosserras, e não apenas uma, mas duas, é particularmente representativo, pois Lefty não derrota a lógica do horror; ele entra nela. Sua descida ao parque subterrâneo funciona como uma jornada de transformação, em que a vingança o conduz ao mesmo território do monstro que ele persegue. A atuação de Hopper reforça essa leitura ao transformar o personagem em uma figura exagerada, quase caricatural, alinhada ao tom satírico e histérico que Tobe Hooper imprime ao filme.
Da mesma forma, Stretch (Caroline Williams), em sua cena final, participa desse mesmo processo de espelhamento, mas por outro caminho. Durante grande parte do filme, ela ocupa a posição da sobrevivente em fuga, tentando manter algum resquício de racionalidade diante do caos crescente. No entanto, o clímax, ao subir ao topo da montanha e erguer a motosserra acima da cabeça, Stretch realiza um gesto que ecoa diretamente a iconografia de Leatherface, especialmente o famoso momento do primeiro filme em que ele gira a motosserra contra o céu ao pôr do sol. O gesto é performático.
Seu grito final não é de alívio por ter sobrevivido, mas um desabafo emocional que beira a histeria, indicando que a experiência extrema não a deixou ilesa. O que emerge desse paralelismo é a sensação de que o horror funciona como uma força contaminante. Os personagens que sobrevivem não permanecem intactos; eles passam a incorporar gestos, objetos e comportamentos que antes pertenciam apenas ao universo monstruoso.
O filme demonstra que o trauma é transformador, reconfigurando nossa identidade.
🔷O Massacre da Serra Elétrica 3 (1990)
Um Frio Corpo sem Alma
Confesso que acho curioso como tantas pessoas perdem tempo escrevendo sobre filmes de forma quase reducionista. Como se falar de um filme se limitasse a "gostei" ou "não gostei" Bem feito ou não. Como se a experiência cinematográfica pudesse ser resumida a um veredito rápido, quase um carimbo, ignorando o contexto em que a obra foi criada, as intenções por trás de suas escolhas e até mesmo os acidentes de percurso que moldam seu resultado final.
Esse tipo de abordagem talvez funcione para o consumo imediato, para a lógica das listas e das notas, mas raramente ajuda a entender um filme de verdade e muito menos um título como O Massacre da Serra Elétrica 3 (1990). Não se trata apenas de julgar se o filme funciona ou falha em determinados aspectos, mas de observar como ele tenta se reposicionar após o segundo filme e sob as pressões comerciais de um estúdio que desejava algo mais controlado, mais vendável e, paradoxalmente, mais seguro que a produção de 86.
Há também um hábito curioso de tratar continuações como se fossem inevitavelmente menores, como se sua existência já fosse, por si só, um defeito. No entanto, sequências frequentemente revelam muito sobre o estado de uma indústria, sobre mudanças de gosto do público e sobre os limites impostos por censura, orçamento e expectativas comerciais. O Massacre da Serra Elétrica 3 é, nesse sentido, exatamente a "cara" de um filme de horror dos anos 90. Para o bem e para o mal.
Talvez por isso ele seja um filme que merece ser observado com algum cuidado. Não apenas pelo que mostra em cena, mas pelo que deixa escapar nas entrelinhas, nas escolhas estéticas mais contidas, nas tentativas de recuperar uma atmosfera de ameaça mais séria após a sátira grotesca do filme anterior, e nas tensões evidentes entre a vontade de chocar e a necessidade de se adequar a um mercado cada vez mais vigilante.
O Massacre da Serra Elétrica 3 é um filme que busca a domesticação de uma franquia que nasceu justamente do oposto: do descontrole, do improviso e da sujeira estética que tornaram o original de 1974 tão perturbador.
Viagem maldita.
Na trama, O Massacre da Serra Elétrica 3 se inicia acompanhando um jovem casal, Michelle (Kate Hodge) e Ryan (William Butler), que atravessa uma região isolada do Texas durante uma viagem. O percurso deles os leva a um posto de gasolina decadente, administrado por Alfredo (Tom Everett), um homem de comportamento estranho e deliberadamente ambíguo.
Esse encontro inicial estabelece o tom do filme: nada é explicitamente ameaçador à primeira vista, mas tudo carrega um desconforto latente. Alfredo alterna momentos de aparente cordialidade com atitudes que beiram o sarcasmo e a indiferença, como se estivesse testando os limites da paciência e da percepção dos viajantes.
Porém, algo simples como negar carona a Tex (Viggo Mortensen) e pagar por uma Polaroid que Alfredo tirou se torna um problema, e o casal é obrigado a fugir dali. Conforme a narrativa avança, o filme se transforma em uma espécie de jornada de sobrevivência, em que os personagens são obrigados a reagir a uma sucessão de situações cada vez mais sufocantes.
Convite para o Inferno
A aquisição dos direitos de O Massacre da Serra Elétrica pela New Line Cinema marcou o início de uma tentativa de reposicionar a franquia dentro da lógica das grandes séries de horror do final dos anos 1980. Após comprar os direitos da Cannon Group, Inc., o estúdio passou a desenvolver rapidamente um novo capítulo, com a intenção de estabelecer uma continuidade capaz de sustentar o personagem Leatherface como um ícone comercial. O CEO da New Line, Bob Shaye, defendia o abandono do tom cômico do segundo e desejava reconduzir a série a uma atmosfera mais sombria, consolidando Leatherface como a figura central da franquia.
O produtor Robert Engelman encomendou o roteiro de David J. Schow, que naquele período também trabalhava em reescritas de A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy (1989), antes mesmo da definição de um diretor. Engelman avançou simultaneamente em várias frentes da produção: mandou construir cenários, anunciou uma data de lançamento e chegou a produzir um teaser trailer promocional antes do início oficial das filmagens. Esse teaser, estrelado por Kane Hodder como Leatherface, apresentava uma abordagem grandiosa, sugerindo desde o início a tentativa de transformar o personagem em uma figura mitológica dentro do gênero.
Durante a busca por um diretor, diversos nomes foram cogitados ou abordados, incluindo Tom Savini, Peter Jackson, Sam Raimi, Renny Harlin e Scott Spiegel. Jonathan Betuel chegou a ser contratado em determinado momento, mas deixou o projeto por razões não divulgadas. Eventualmente, a escolha recaiu sobre Jeff Burr, recém-saído da direção de O Padrasto II (1989).
Burr era admirador declarado do filme original e propôs filmar no Texas utilizando película de 16 mm, numa tentativa consciente de recuperar a textura visual crua e documental do longa de 1974. A proposta, entretanto, foi rejeitada, já que cenários importantes, como a fazenda e o posto de gasolina. já haviam sido construídos na Califórnia antes de sua contratação, tornando logisticamente inviável qualquer mudança significativa de locação. Como resultado, o filme tornou-se o primeiro da série a não ser filmado no Texas, sendo rodado integralmente nos arredores de Los Angeles.
No processo de escalação, Burr teve participação ativa em diversas escolhas. Ele foi responsável pela contratação de Ken Foree, figura reconhecida dentro do cinema de horror (trabalhou inclusive com Tom Savini em Zombie - Despertar dos Mortos), enquanto Viggo Mortensen foi selecionado após impressionar o diretor em Duro de Prender (1987).
Também houve tentativas iniciais de trazer Gunnar Hansen de volta ao papel de Leatherface, mas as negociações fracassaram. Burr então indicou R. A. Mihailoff para testes, levando à sua escolha para o papel. Mihailoff oferecia presença física imponente e acabou interpretando uma versão mais contida do personagem, concebida pelo diretor como uma figura emocionalmente menos infantil e mais próxima de um adolescente.
A Hora do Pesadelo
As filmagens começaram no final de julho de 1989, em Valência, Califórnia, sob condições frequentemente instáveis. Desde o início, o cronograma demonstrava sinais de atraso, e as preocupações orçamentárias levaram Engelman a pressionar constantemente a equipe para acelerar o ritmo das gravações. Apenas uma semana após o início das filmagens, Jeff Burr chegou a ser demitido devido aos atrasos e ao aumento dos custos. No entanto, como nenhum outro diretor aceitou assumir o projeto naquele estágio, ele acabou sendo recontratado poucos dias depois, evidenciando a fragilidade administrativa que cercava a produção.
Durante as filmagens, a equipe enfrentou uma série de dificuldades externas. Incêndios florestais atingiram áreas próximas às locações, destruindo parte dos cenários e obrigando a produção a adaptar enquadramentos e iluminação para ocultar árvores queimadas no fundo das tomadas. Essas circunstâncias contribuíram para atrasos adicionais e levaram alguns membros da equipe a abandonar o projeto. Outro fator inesperado foi a proximidade do set com o parque Six Flags Magic Mountain. Ruídos vindos das atrações e do público frequentemente interferiam nas gravações, exigindo extensivo trabalho de edição sonora na pós-produção.
Outro caso curioso é que as filmagens ocorriam próximo de onde era rodado a série Combate no Vietnã, e os sons pertinentes (tiros, helicópteros) eram ouvidos nos intervalos. No campo técnico, Kane Hodder assumiu funções importantes como coordenador de dublês e também como dublê de R. A. Mihailoff nas sequências fisicamente mais exigentes. Entre os elementos de produção mais marcantes estavam as motosserras utilizadas em cena, algumas modificadas e cromadas especificamente para o filme, além de diversas réplicas plásticas usadas para garantir segurança durante as filmagens.
O roteiro original concebido por David J. Schow apresentava um nível de violência mais explícito do que aquele visto na versão final. Diversas sequências particularmente brutais — incluindo cenas com mutilações gráficas — foram rejeitadas pelos produtores ainda durante o desenvolvimento. Em uma destas cenas, tinha um homem nu sendo dividido ao meio enquanto estava pendurado de cabeça para baixo, recriando o corpo encontrado na casa de Ed Gein.
Após o término das filmagens, o filme foi submetido repetidas vezes à Motion Picture Association of America (MPAA), totalizando diversos envios sucessivos. A cada nova avaliação, mais cortes eram exigidos para evitar a classificação X, o que resultou na remoção de material substancial, parte do qual acabou perdida permanentemente.
Entre as sequências eliminadas estavam cenas planejadas para expandir a caracterização física de Leatherface, incluindo um momento em que sua máscara seria removida, revelando deformidades severas. Esse material foi preservado apenas parcialmente, com a intenção inicial de ser reutilizado em uma eventual continuação que nunca se concretizou naquele período.
Mesmo após as filmagens principais, a produção permaneceu instável. Após exibições-teste consideradas satisfatórias, o estúdio aprovou financiamento adicional para a gravação de um novo desfecho, realizado sem a participação direta de Jeff Burr, numa tentativa de preparar terreno para possíveis continuações. O processo de edição prolongou-se além do previsto, contribuindo para o adiamento da data de lançamento originalmente anunciada.
Jeff Burr ficou estarrecido quando viu o filme no cinema pela primeira vez, porque este novo final foi feito sem seu conhecimento. Este é um dos maiores motivos pelos quais cineastas desistem de fazer filmes em grandes estúdios. Muitos fundam suas próprias produtoras e fazem um cinema mais autoral, como a Malpaso de Clint Eastwood.
Foi decidido, por exemplo, que o personagem de Ken Foree deveria viver depois das primeiras exibições de teste e o pessoal adorar o personagem. O novo final foi filmado posteriormente, em que de alguma forma Ken aparece na última cena, com um pequeno ferimento na cabeça (embora todos nós o tenhamos visto ser dilacerado).
O famoso "morreu, mas passa bem".
Quadrilha de Sádicos
O elenco de O Massacre da Serra Elétrica 3 parece carregar consigo um histórico que dialoga diretamente com outros pilares do cinema de horror. Não se trata apenas de coincidência de carreiras, mas de uma rede curiosa de conexões que transforma o filme em uma espécie de ponto de encontro entre diferentes franquias clássicas, um verdadeiro cruzamento de linhagens do gênero.
William Butler, que interpreta Ryan, também atuou em Sexta-Feira 13 – Parte 7: A Matança Continua (1988), no qual seu personagem é morto por Jason Voorhees. O personagem foi interpretado por Kane Hodder, que atuou como coordenador de dublês em O Massacre da Serra Elétrica 3. A atriz Jennifer Banko também esteve em Sexta-Feira 13 – Parte 7.
Butler atuou no remake de A Noite dos Mortos-Vivos (1990). Já Ken Foree participou da sequência do clássico original de 1968, O Despertar dos Mortos (1978). Tom Savini trabalhou em A Noite dos Mortos-Vivos (1990) como diretor, em Despertar dos Mortos como ator, além de ter assinado a maquiagem de O Massacre da Serra Elétrica 2. Ken Foree também esteve em Halloween (2007), enquanto Duane Whitaker e Caroline Williams participaram da continuação, Halloween II (2009). Joe Unger, intérprete de Tinker, participou de A Hora do Pesadelo (1984). Já Butler atuou em A Hora do Pesadelo: O Terror de Freddy Krueger.
Para completar, Caroline Williams repete seu papel como Stretch de O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986) em uma participação especial como repórter. O diretor Jeff Burr disse que imaginou Stretch se tornando uma repórter após o trauma que ela experimentou no segundo filme em uma tentativa de caçar Leatherface. Esse conjunto de interseções cria uma espécie de “horrorverse” involuntário, no qual atores, técnicos e personagens parecem transitar entre universos distintos do terror dos anos 1980 e 1990.
Pânico
Para uma indústria que visa lucro, os três primeiros Massacre da Serra Elétrica formam um contraste interessante não apenas em estilo, mas também em escala financeira e desempenho comercial. Quando colocamos orçamento e bilheteria lado a lado, fica evidente como cada filme reflete um momento diferente da indústria do horror.
O filme original foi produzido com um orçamento extremamente baixo, estimado em cerca de US$ 140 mil (algumas fontes ampliam para até US$ 300 mil, considerando custos adicionais e distribuição). Ao longo dos anos, o filme arrecadou aproximadamente US$ 31 milhões. Já a sequência dirigida contou com um orçamento significativamente maior, em torno de US$ 4,7 milhões. O filme arrecadou cerca de US$ 8 milhões. E, finalmente, o terceiro filme teve um orçamento mais contido que o anterior, estimado em cerca de US$ 2 milhões. A arrecadação final ficou em torno de US$ 6 milhões.
O sinal de alerta foi ligado. Fracassos piores viriam. Mas a confiança foi se mantendo e provou-se recompensadora com o remake de 2003. Porém, esta já é outra história...
🔷O Massacre da Serra Elétrica - O Retorno (1994)
Enigma de outro mundo
É difícil não reconhecer o que Kim Henkel fez em O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno. Ele escreveu e dirigiu um dos finais mais insanos do terror. E, quando a gente lembra que ele também foi o roteirista do filme original de 1974, dá para enxergar aqui quase como uma releitura, só que tentando dar algum tipo de explicação para a violência toda. O curioso é que ele resolve seguir por um caminho totalmente inesperado, quase saído de Arquivo X.
O final simplesmente ignora qualquer ideia de resolução tradicional. Até ali, o filme parece acompanhar um grupo de assassinos aparentemente isolados. Mas tudo muda com a chegada de Rothman. A partir desse ponto, fica a sensação de que nada daquilo é aleatório, e sim parte de algo maior, talvez organizado e até supervisionado.
Quando surge a fala sobre uma “experiência espiritual”, a certeza só aumenta. Em vez de explicar, o filme sugere que o sofrimento das vítimas pode estar sendo usado como parte de algum tipo de experimento, psicológico, filosófico ou até ritual. A família deixa de ser só um grupo perturbado e passa a parecer uma peça dentro de algo muito mais estranho, que nunca é totalmente explicado.
Trazer a atriz Marilyn Burns (Sally Hardesty), que faz uma ponta como a paciente na maca, sugere que cada sobrevivente é estudado e que o local ali é um estabelecimento científico. Isso abre espaço para várias leituras. Pode ser uma conspiração, um experimento social conduzido por gente poderosa, tratando pessoas como cobaias em situações extremas. Ou talvez algo mais próximo de um culto, uma elite que enxerga dor e terror como caminho para alguma forma de transcendência. Também dá pra pensar que o filme está falando sobre o próprio consumo da violência como espetáculo, como se sempre existisse alguém por trás organizando tudo.
De qualquer forma, uma coisa fica clara: o sistema falha. A intervenção do Rothman mostra que tudo saiu do controle, que a violência virou um excesso sem propósito. Mesmo assim, nada realmente muda. A sobrevivente consegue escapar, mas isso não soa como vitória. Parece mais que ela é só um efeito colateral aceitável dentro de algo que continua funcionando.
E é justamente aí que o final incomoda tanto. Ele não fecha nada, não dá resposta, não traz alívio. É como se o verdadeiro horror estivesse na ideia de que tudo aquilo pode ser permitido, observado e até validado por algo maior, que a gente nunca vê por completo. Quase como um reality show; porém, aqui é um filme.
Eles Vivem
A produção de Massacre da Serra Elétrica - O Retorno teve início quando Kim Henkel e o produtor Robert Kuhn obtiveram os direitos necessários por meio de Chuck Grigson, representante legal ligado aos detentores do copyright do filme original. Para viabilizar o projeto de forma independente, os dois fundaram suas próprias produtoras, Ultra Muchos e River City Films, criando uma estrutura que lhes permitisse manter certo controle criativo sobre o resultado final.
Inicialmente, Henkel não demonstrava grande entusiasmo em assumir a direção. Embora tivesse experiência como roteirista e se sentisse confortável no trabalho com atores, ele admitia ter insegurança quanto à condução das sequências de ação e à logística envolvida em comandar um longa-metragem. Segundo o próprio diretor, foi o produtor Robert Kuhn quem insistiu de forma decisiva para que ele assumisse essa função, praticamente pressionando-o a aceitar o desafio.
Kuhn, por sua vez, tinha uma visão clara do objetivo do projeto: retornar às origens conceituais do primeiro filme. Para ele, o ponto de partida essencial era convencer Henkel a escrever um novo roteiro que resgatasse o espírito do clássico de 1974, mas reinterpretado à luz das transformações culturais das décadas seguintes. Após garantir os recursos iniciais para o desenvolvimento do texto, a dupla passou a buscar financiamento adicional.
Uma etapa importante desse processo ocorreu durante o American Film Market, em Los Angeles, onde produtores independentes costumam negociar projetos com possíveis investidores e distribuidores. Naquele momento, Kuhn já havia reunido parte do orçamento, mas ainda precisava de recursos suficientes para iniciar a produção. As negociações envolviam avaliar propostas de distribuição e decidir se determinados acordos seriam financeiramente viáveis sem comprometer a identidade do filme.
Do ponto de vista criativo, Henkel afirmou, em um documentário sobre os bastidores lançado em 1996, que concebeu os personagens como figuras deliberadamente exageradas, quase cartunescas. A intenção era transformar os adolescentes e adultos da história em representações distorcidas da juventude americana típica, ampliando traços comportamentais até o limite do grotesco. Esse tratamento contribuiu para o tom satírico e surreal que diferencia o filme dentro da franquia.
Assim como no longa original de 1974, Henkel voltou a citar casos reais como fonte de inspiração. Entre eles estavam os crimes dos assassinos Ed Gein e Elmer Wayne Henley, cujas histórias ajudaram a moldar o imaginário macabro que sustenta o universo da série.
Outra parte central do roteiro foi introduzir temas de empoderamento feminino, particularmente por meio do personagem Jenny. Segundo Henkel, a trajetória da jovem foi pensada como um arco de transformação pessoal: ela inicia a narrativa em meio a conflitos familiares e emocionais e, após sobreviver às experiências traumáticas impostas pela família assassina, emerge como uma figura mais consciente e resistente.
Para o diretor, a história não era apenas sobre sobrevivência física, mas sobre uma recusa em ser silenciada ou subjugada. Ele descreveu o percurso da protagonista como uma jornada de autoconhecimento em um ambiente grotescamente distorcido, uma espécie de pesadelo que reflete e amplifica as tensões culturais e sociais presentes no mundo real.
Entre os personagens secundários, destaca-se Darla, cuja concepção foi inspirada livremente em Karla Faye Tucker, uma mulher condenada à morte após cometer assassinatos brutais com uma picareta durante um assalto ocorrido em Houston, em 1983. Essa referência contribuiu para a construção de uma figura feminina ambígua, ao mesmo tempo sedutora, violenta e imprevisível, reforçando o caráter excêntrico e perturbador do universo retratado no filme.
Os Aventureiros do Bairro Proibido
Um dos aspectos que tornariam o filme particularmente curioso em retrospecto é o fato de o filme ter reunido, ainda em início de carreira, dois atores que se tornariam grandes nomes de Hollywood: Matthew McConaughey e Renée Zellweger, ambos nascidos no Texas e praticamente desconhecidos na época das filmagens.
Renée Zellweger, então uma jovem atriz baseada em Austin e recém-formada na universidade, foi escolhida para interpretar Jenny, a protagonista da história. Segundo Kim Henkel, sua escolha foi imediata e praticamente definitiva desde o primeiro teste. O diretor afirmou que, após a leitura inicial da atriz, não cogitou considerar outras candidatas para o papel. A própria Zellweger descreveu a experiência como emocionalmente exigente, destacando o tom sombrio da narrativa e a necessidade de acessar sentimentos intensos e desconfortáveis para compor a personagem.
As sequências físicas mais perigosas envolvendo Jenny foram realizadas por Jody Haselbarth, que atuou como dublê de Zellweger. Entre as cenas executadas por ela estão algumas das mais arriscadas do filme, incluindo o momento em que a personagem salta de uma janela do segundo andar e escala uma antena no telhado,
Outro nome que hoje chama atenção no elenco é o de Matthew McConaughey, escalado para interpretar Vilmer, um dos personagens mais imprevisíveis e violentos do filme. Assim como Zellweger, McConaughey ainda não era conhecido do grande público. Naquele período, havia acabado de participar das filmagens de Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, 1993), de Richard Linklater, mas sua carreira ainda estava em estágio inicial.
Curiosamente, McConaughey não pretendia originalmente interpretar Vilmer. Seu primeiro teste foi para um papel menor, mas ele decidiu tentar novamente, desta vez mirando o antagonista principal. Durante a audição, protagonizou um momento que se tornaria lendário entre os relatos de bastidores: improvisando com um objeto que simulava uma arma, encurralou a assistente de elenco que fazia a leitura das falas com ele. A intensidade da atuação foi tamanha que a assistente acabou chorando de medo. Para Henkel, aquela reação espontânea confirmou que havia encontrado o intérprete ideal, descrevendo a atmosfera do teste como carregada de uma sensação visceral de perigo.
O papel de Leatherface ficou a cargo de Robert Jacks, um radialista e cantor local que não possuía grande experiência cinematográfica, mas cuja presença física se mostrou adequada à encarnação do icônico assassino. Entre os demais integrantes do elenco, Tyler Cone foi escalado para interpretar Barry após recomendação do designer de efeitos especiais J. M. Logan, com quem mantinha amizade próxima. Já Lisa Marie Newmyer assumiu o papel de Heather, enquanto Tonie Perensky, conhecida por seu trabalho como atriz e professora de teatro na cena cultural de Austin, foi escolhida para viver Darla, uma das personagens mais excêntricas e inquietantes do filme.
Como forma de criar uma ponte direta com o clássico de 1974, o filme inclui participações especiais de três atores do longa original. Marilyn Burns, que interpretou Sally Hardesty no primeiro filme, Paul A. Partain, intérprete do personagem Franklin, e John Dugan, que havia vivido o avô da família canibal em 1974. Essas participações funcionam não apenas como homenagens aos fãs da franquia, mas também como ponte à realidade alternativa que o diretor queria mostrar.
🔷O Massacre da Serra Elétrica (2003)
Corra!
“O medo ganha forma quando não existe saída.” Essa frase traduz bem o que O Massacre da Serra Elétrica provoca. O filme pega situações comuns e transforma tudo em desespero. Em vez de depender só de sustos rápidos ou de algo sobrenatural, ele constrói o terror em cima da fragilidade humana. A sensação de estar preso, sem ter para onde ir, acompanha o espectador do começo ao fim e deixa tudo ainda mais incômodo.
Outro ponto forte é como o terror cresce aos poucos. Nada é jogado de uma vez. A tensão vai sendo construída com pequenos sinais, detalhes que anunciam que algo está errado antes que a violência apareça de fato. Isso faz com que quem assiste entre na mesma insegurança dos personagens. O desconforto não está só no que é mostrado, mas principalmente na expectativa do que pode acontecer a qualquer momento. Essa antecipação é o que torna o filme tão marcante dentro do slasher.
Além disso, a história explora diretamente o instinto de sobrevivência. Colocados em situações extremas, os personagens agem movidos pelo medo, ultrapassando limites físicos e emocionais. O filme levanta uma questão simples e inquietante: até onde alguém iria para escapar? Com isso, o terror deixa de ser apenas perseguição e violência, e passa a tocar em algo mais profundo: fragilidade, desespero e a luta para continuar vivo mesmo quando tudo parece perdido.
Visualmente, o trabalho do diretor Marcus Nispel é essencial para dar identidade ao filme. Vindo de uma bagagem ligada a videoclipes e publicidade, ele aposta em enquadramentos fechados, pouca luz e uma fotografia com tons amarelados e desgastados, criando uma atmosfera pesada. Não é só a violência que chama atenção, mas os espaços. Casas caindo aos pedaços, corredores apertados e paisagens vazias ajudam a construir essa sensação constante de opressão. O ambiente não é só cenário; ele faz parte do horror.
Outro nome importante é Daniel Pearl, que já tinha assinado a fotografia do filme original de 1974. A presença dele cria uma ligação direta entre as duas versões. Pearl trabalha com luz natural, texturas mais sujas e um estilo que lembra quase um registro documental. Isso dá ao filme um ar mais real, como se aquilo pudesse ter acontecido de verdade.
A união entre a direção de Nispel e a fotografia de Pearl faz com que o remake não seja apenas uma repetição. É uma releitura que atualiza o visual sem perder o incômodo do original. Enquanto o filme de 1974 tinha um estilo mais cru, quase improvisado, a versão de 2003 aposta em uma estética mais trabalhada, mas ainda sufocante. No fim, é um terror mais polido, mas que continua perturbador na essência.
Além da Imaginação
No final da década de 1990, a franquia O Massacre da Serra Elétrica voltou a despertar interesse comercial após anos de irregularidade e lançamentos problemáticos. Em novembro de 1998, surgiram notícias de que a Unapix Entertainment havia adquirido os direitos de exibição cinematográfica do primeiro filme da série e iniciado a pré-produção de um quinto longa-metragem, provisoriamente intitulado TX25. A ideia era lançar o novo capítulo em 1999, sinalizando uma tentativa de revitalizar a marca para uma nova geração de espectadores. No entanto, esse plano acabou não se concretizando.
Neste período, a recém-criada produtora Platinum Dunes, fundada por Michael Bay, demonstrou interesse em realizar um remake de O Massacre da Serra Elétrica. A proposta fazia parte da estratégia da empresa de produzir filmes de terror de orçamento relativamente baixo, mas com alto potencial comercial. Em janeiro de 2002, a Unapix deixou expirar sua opção sobre os direitos, encerrando oficialmente essa tentativa inicial de continuidade e abrindo as portas para Bay.
Inicialmente, o filme teria uma abordagem narrativa diferente, estruturada por meio de flashbacks. Nessa versão inicial, a atriz Marilyn Burns, protagonista do original de 1974, retornaria ao papel de Sally Hardesty, agora mais velha, relembrando os eventos traumáticos que vivera décadas antes. Esse conceito criaria uma ligação direta entre o clássico original e a nova versão. Com o avanço do projeto, foi confirmado que os produtores haviam adquirido oficialmente os direitos para explorar o universo de Leatherface, garantindo base legal para a nova adaptação.
Nos estágios iniciais do desenvolvimento, os criadores do filme de 1974, Tobe Hooper e Kim Henkel, chegaram a escrever um roteiro preliminar para o remake. No entanto, naquele momento ainda não estava claro se essa versão seria efetivamente utilizada ou se seria substituída por outra. O projeto começou a tomar forma mais concreta em junho de 2002, quando foi anunciado que Marcus Nispel assumiria a direção, marcando sua estreia no cinema.
Curiosamente, Nispel não aceitou de imediato, mostrando-se contrário à ideia de refilmar um clássico tão influente, descrevendo a proposta como uma espécie de “blasfêmia”. Foi Daniel Pearl, entretanto, quem incentivou Nispel a aceitar o convite. O diretor de fotografia via o projeto como uma oportunidade de retornar ao universo da franquia que o revelou.
Com a definição da direção, o próximo passo foi consolidar o roteiro. O nome escolhido para essa função foi Scott Kosar, contratado para escrever a nova versão da história. Para Kosar, o projeto representava um marco pessoal, já que o roteiro seria seu primeiro trabalho profissional como roteirista, o que trouxe uma mistura de entusiasmo e senso de responsabilidade. Posteriormente, ele relembrou ter sentido simultaneamente honra e pressão ao lidar com o material, reconhecendo desde o início que estava diante de uma das obras mais influentes do cinema de horror.
Em suas conversas com os produtores, Kosar defendeu a ideia de que o novo filme não deveria tentar superar o original, mas sim reinterpretá-lo dentro de um contexto contemporâneo, reconhecendo que o impacto do filme de 1974 estava profundamente ligado às circunstâncias específicas de sua produção. O trabalho nesse projeto acabou abrindo portas importantes para o roteirista. Após concluir o remake, Kosar passaria a escrever outros roteiros de destaque, incluindo O Operário (The Machinist) e o remake de Horror em Amityville, também produzido pela Platinum Dunes.
Durante o desenvolvimento do roteiro, diversas ideias foram testadas e posteriormente abandonadas. Em versões iniciais da história, por exemplo, a protagonista Erin era retratada como estando grávida de nove meses ao longo de toda a narrativa, um elemento que aumentaria a tensão dramática e ampliaria o senso de vulnerabilidade da personagem. Essa ideia, contudo, foi removida em revisões posteriores por decisão direta do produtor Michael Bay, que considerou que o conceito poderia comprometer o ritmo ou a credibilidade de determinadas sequências.
E, com maior orçamento, acabamento técnico mais sofisticado e forte orientação para o mercado internacional, o filme foi um sucesso, rendendo 107 milhões, o marco financeiro da franquia até hoje.
Nós
Para liderar o elenco desse novo capítulo da franquia, os produtores apostaram em um rosto jovem que conseguisse segurar o peso emocional da história e se conectar com o público da época. A escolha foi Jessica Biel, que ainda era muito lembrada por Sétimo Céu. No filme, ela interpreta Erin e acaba virando o centro de tudo, conduzindo a carga dramática e boa parte da tensão. Esse papel marcou transição importante em sua carreira, saindo da televisão para um projeto de destaque no cinema de terror.
Já a escolha de Leatherface teve um caminho bem mais conturbado. Andrew Bryniarski, que havia participado de Pearl Harbor, tinha proximidade com o produtor e deixou claro que queria o papel, chegando até a procurá-lo pessoalmente para isso.
Mesmo assim, quem ficou com o personagem no início foi Brett Wagner. Só que isso mudou logo no começo das filmagens. No primeiro dia, Wagner precisou ser hospitalizado e acabou sendo afastado depois que surgiram dúvidas sobre sua real condição física para encarar o papel. Com a produção precisando resolver a situação rapidamente, Bryniarski foi chamado e assumiu o lugar.
Decidido a dar corpo ao personagem de forma convincente, ele passou por uma preparação pesada. Mudou a alimentação, focando principalmente em carne e pão, e ganhou bastante peso, chegando a cerca de 136 quilos. Essa transformação ajudou a construir a presença física marcante de Leatherface, algo essencial para o personagem. O resultado foi tão forte que ele acabou voltando ao papel na sequência lançada 3 anos depois.
O restante do elenco também ajuda a dar consistência ao clima do filme. Eric Balfour vive Kemper, com uma postura mais impulsiva que acaba influenciando os primeiros acontecimentos. Jonathan Tucker interpreta Morgan, um personagem mais frágil emocionalmente, que carrega um peso importante ao longo da história. Erica Leerhsen, como Pepper, traz uma leveza inicial que contrasta com o que vem depois.
Mike Vogel aparece como Andy, contribuindo para acentuar a estranheza do ambiente, enquanto Lauren German surge logo no começo em uma participação curta, mas decisiva para estabelecer o tom mais sombrio da narrativa. Do outro lado, entre os antagonistas, R. Lee Ermey chama atenção como o xerife Hoyt. Ele constrói uma figura autoritária, imprevisível e desconfortável de assistir. Mais do que reforçar o terror, sua presença dá a impressão de que existe algo ainda mais perturbador por trás daquela família.
Não! Não Olhe!
A cena inicial do remake de O Massacre da Serra Elétrica (2003) estabelece um vínculo com o filme de 1974, mas faz isso ampliando a ideia original e adaptando-a a um público mais familiarizado com imagens explícitas e com uma estética que lembra registros documentais.
No filme de Tobe Hooper, a abertura é formada por flashes fotográficos e imagens de restos humanos, acompanhadas por uma narração que sugere algo próximo de um registro jornalístico dos acontecimentos. No remake, essa proposta aparece de forma mais desenvolvida. Em vez de apenas insinuar o que aconteceu, o filme apresenta imagens que lembram materiais oficiais: fotografias, relatórios e, principalmente, registros visuais que parecem ter sido reunidos depois da descoberta dos crimes.
A narração retorna, novamente com a voz de John Larroquette, que também esteve presente no filme original, reforçando uma sensação de continuidade entre as duas produções. Essa abertura amplia a ideia de investigação que o primeiro filme apenas sugeria. O espectador não recebe somente uma explicação inicial sobre uma tragédia passada, mas tem a impressão de estar diante de provas visuais que lembram arquivos policiais ou documentos oficiais. Isso cria a sensação de que o que será visto não é apenas uma narrativa ficcional, mas a reconstrução de um caso baseado em evidências, o que torna o prólogo mais instigante.
Além da ligação com o filme de 1974, essa sequência também reflete uma tendência muito forte no cinema de horror do final dos anos 1990 e início dos anos 2000: o uso de recursos associados ao found footage. O enorme impacto de A Bruxa de Blair (1999) ajudou a popularizar a ideia de histórias construídas a partir de imagens que pareciam gravações reais, supostamente recuperadas após acontecimentos violentos ou misteriosos. Mesmo não sendo um found footage propriamente dito, o remake se aproxima dessa linguagem ao usar imagens que lembram registros documentais. Esse tipo de abordagem ajudava a criar um falso senso de realidade, algo que funcionava bem com o público daquele período, já habituado à ideia de que imagens “encontradas” poderiam sugerir acontecimentos reais.
O Massacre da Serra Elétrica encerra transformando o horror em algo, ao menos por instantes, perigosamente real.
“Nada é verdade/Tudo é permitido.”
🔷O Massacre da Serra Elétrica - O Início (2006)
Assassinos por Natureza
Assistir à franquia O Massacre da Serra Elétrica em sequência é um desafio, pois a sensação que fica após 5 filmes é que toda história gira em torno de uma mesma ideia, mas contada por pessoas com diferentes percepções do evento. Até o segundo filme, uma efetiva continuação, busca caminhos narrativos similares.
O Massacre da Serra Elétrica – O Início busca, justamente, este ponto de partida diferente. Ambientado no Texas entre 1939 e 1969, o filme acompanha as origens de Thomas Hewitt, o homem que se tornaria o temido Leatherface. Após nascer em circunstâncias brutais dentro de um matadouro e ser abandonado pelo próprio supervisor do local, o bebê é encontrado por Luda Mae Hewitt, que decide criá-lo como filho. Décadas depois, já adulto e trabalhando no mesmo matadouro, Thomas reage violentamente quando o local é fechado, iniciando uma espiral de violência que leva sua família a encobrir crimes e assumir o controle da região por meio de um falso xerife.
Paralelamente, quatro jovens, dois irmãos e suas namoradas, viajam pelo Texas rumo ao alistamento para a Guerra do Vietnã. Após um confronto com motoqueiros na estrada, eles sofrem um acidente e acabam nas mãos da família Hewitt. Presos em uma casa isolada e dominada por figuras violentas e sádicas, os jovens lutam desesperadamente para sobreviver, enquanto Thomas, cada vez mais brutal, assume sua identidade definitiva ao passar a usar máscaras feitas com pele humana.
À medida que as tentativas de fuga fracassam e os sobreviventes são eliminados um a um, a história culmina em um desfecho trágico que consolida o nascimento da lenda de Leatherface, preparando o terreno para os acontecimentos que viriam no filme original da franquia.
Era uma vez em... Hollywood
A escolha do elenco juntou rostos jovens, conhecidos pelo público da época, muitos vindos da TV ou de filmes mais comerciais, com atores mais experientes, capazes de sustentar o lado mais perturbador da família Hewitt. Esse equilíbrio funciona bem, porque o filme depende tanto da conexão com as vítimas quanto do impacto causado pelos vilões.
O papel de Thomas Hewitt, o Leatherface, continuou nas mãos de Andrew Bryniarski, repetindo o que já tinha feito no filme de 2003. A permanência dele ajuda a manter uma continuidade importante entre os dois filmes, principalmente no aspecto físico do personagem. Com seu porte grande e movimentos pesados, ele constrói uma presença quase animalesca. Mesmo sem falas ou expressões visíveis, é no corpo que está toda a força da atuação.
Dentro da família Hewitt, quem mais chama atenção é R. Lee Ermey, como Charlie Hewitt, o "xerife" Hoyt. Ele já vinha marcado por papéis de autoridade agressiva, principalmente depois de viver o sargento Hartman em Nascido para Matar. Aqui, ele parece completamente à vontade, dominando cada cena com um tom intimidador, sarcástico e cruel. Como já tinha interpretado o personagem antes, sua presença ajuda a consolidar Hoyt como uma das figuras mais marcantes dessa fase da franquia.
No centro da história está Jordana Brewster, no papel de Chrissie. Já conhecida por Velozes e Furiosos, ela traz um rosto familiar e ajuda a dar mais alcance ao filme. Sua personagem segue o arquétipo clássico da “final girl”, mas com uma postura mais ativa. Entre os outros jovens, Matt Bomer interpreta Eric, ainda no começo da carreira, antes de ganhar mais destaque na televisão e no cinema. Ao lado dele, Taylor Handley vive Dean, com um perfil mais impulsivo e emocional, funcionando como contraste ao comportamento mais contido de Eric.
No restante do grupo, Diora Baird aparece como Bailey, ajudando a compor aquele grupo típico de jovens que o slasher costuma reunir. Já Lee Tergesen, conhecido por trabalhos mais dramáticos na TV, interpreta Holden, um personagem que entra na história trazendo uma tentativa de resgate e aumentando a tensão ao criar um novo ponto de confronto com a família.
Dentro da casa dos Hewitt, além de Ermey, também se destacam Marietta Marich, como Luda Mae, a figura materna que cria Thomas, e Terrence Evans, como o Tio Monty. Juntos, eles ajudam a dar forma a essa família desajustada, mas ao mesmo tempo estranhamente unida, reforçando o clima decadente e desconfortável que o filme sustenta.
Acima de tudo, é bem curioso ver a Mia (Brewster) em cena, longe de Toretto e Brian; Bomer, que lembra muito Henry Cavill e perdeu o papel de Clark Kent para Brandon Routh no filme de 2006; e Diora Baird, que estrelou recentemente Cobra Kai no papel de Shannon. Um elenco improvável para estrelar Massacre da Serra Elétrica.
No fim, dá para ver que o elenco foi pensado para manter a identidade construída no filme anterior: jovens que geram identificação imediata e atores experientes que seguram o peso do horror. A volta de Bryniarski e Ermey foi essencial para manter essa continuidade, enquanto nomes como Jordana Brewster e Matt Bomer ajudaram a colocar o filme dentro do cenário comercial da época.
Eles matam e nós limpamos.
A escolha de Jonathan Liebesman para dirigir o filme revela bastante sobre o caminho estético e narrativo que a produção seguiria. Naquele período, ele ainda construía espaço em Hollywood, mas já demonstrava interesse por uma linguagem visual marcada pelo horror e por um estilo cuidadosamente planejado. Antes de chegar aos grandes estúdios, passou por comerciais e videoclipes, um percurso comum entre diretores contemporâneos, que ajudou a desenvolver senso de ritmo, composição visual e domínio técnico, características que mais tarde apareceriam com força em seus longas.
Seu primeiro destaque no cinema veio com Darkness Falls, lançado no Brasil como No Cair da Noite. O filme acompanha uma entidade sobrenatural que ataca quando suas vítimas ficam no escuro, explorando um medo bastante associado à infância: a escuridão. O desempenho comercial chamou atenção para a capacidade de Liebesman de construir atmosfera e tensão visual, algo importante para que fosse visto como um nome viável para assumir uma franquia clássica do terror.
Quando assumiu O Massacre da Serra Elétrica, Liebesman hesitou em aceitar o projeto. A decisão mudou ao descobrir que o filme seria uma prequela, e não apenas mais uma continuação. Isso abriu espaço para explorar as origens daquele universo sem precisar explicar completamente a psicologia do assassino. O diretor defendia que o mal não deveria ser racionalizado em excesso; a intenção era transmitir a sensação de que o espectador estava acompanhando o surgimento de algo profundamente perturbador.
Essa proposta aparece de forma clara na estética do longa. As filmagens ocorreram em Austin, aproveitando alguns dos mesmos cenários usados no remake de 2003 para manter continuidade visual. Liebesman trabalhou novamente com o diretor de fotografia Lukas Ettlin, colaborador desde os tempos de estudante. Juntos, construíram uma identidade visual baseada em tons dessaturados, especialmente vermelho, branco e azul, usados como símbolo da deterioração do sonho americano e da decadência moral da família Hewitt.
Um detalhe técnico importante foi a escolha de filmar boa parte da história em ordem cronológica, algo pouco comum em produções desse porte. Nos bastidores da indústria, o filme também marcou um momento importante na disputa pelos direitos da franquia. Depois do sucesso comercial do filme de 2003, a New Line Cinema precisou investir milhões para manter o controle da série, diante do interesse da Dimension Films. Nesse cenário, os produtores da Platinum Dunes, Andrew Form e Brad Fuller, entenderam que uma prequela oferecia mais possibilidades narrativas do que uma continuação, permitindo aprofundar a origem da família Hewitt.
O filme, inclusive, teria o subtítulo de "A Origem", mas depois mudaram para "O Início". O roteiro ficou a cargo de Sheldon Turner, já que Scott Kosar, responsável pelo remake de 2003, não pôde retornar. A produção também gerou histórias fora das câmeras. Durante as filmagens, Jordana Brewster e o produtor Andrew Form se conheceram e iniciaram um relacionamento. Eles ficaram noivos em 2006, se casaram em 2007 e tiveram o primeiro filho em 2013, mantendo a relação até 2021. Outro detalhe curioso é que a trama se passa em 1969, mesmo ano de nascimento de Andrew Bryniarski, intérprete de Leatherface.
Após o lançamento, Brad Fuller e Andrew Form afirmaram que não pretendiam seguir com um terceiro filme dentro daquele ciclo específico de remakes. Ainda assim, a franquia continuou despertando interesse. Em 2009, surgiram negociações envolvendo a Twisted Pictures e a Lionsgate para novos projetos, incluindo planos de trilogia e discussões iniciais com nomes como James Wan e Tobe Hooper. Esse movimento acabaria levando ao lançamento de O Massacre da Serra Elétrica 3D - A Lenda Continua, dirigido por John Luessenhop, que ignorou parte da cronologia intermediária para funcionar como continuação direta do clássico original.
Como quase todos os filmes partem de um ponto quase independente, seria uma grande novidade se a produção fizesse algo diferente...
O Massacre da Serra Elétrica é um belo exemplar de horror para fãs do gênero. Ele traz uma atmosfera sombria, cenas de terror intensas e aprofundamento da história de Leatherface e sua família insana.
🔷O Massacre da Serra Elétrica 3D: A Lenda Continua (2013)
Armadilha do Destino
Se pensarmos que O Massacre da Serra Elétrica está em seu sétimo filme, sair do lugar-comum era necessário. Mas iniciar no momento em que a história de 1974 termina foi genial. A narrativa se inicia imediatamente após o massacre ocorrido na casa da família Sawyer. Uma multidão enfurecida, liderada por moradores locais e autoridades, cerca a residência dos Sawyer em busca de vingança.
Entre eles está Burt Hartman (Paul Rae), que incita a violência contra a família. A situação rapidamente sai do controle, e a casa é incendiada, resultando na morte de vários membros da família. No meio do caos, um bebê é retirado da casa por Gavin Miller (David Born), que assassina a mãe da criança e leva a menina para criá-la como se fosse sua própria filha, escondendo sua verdadeira origem.
Décadas depois, no tempo presente, a história acompanha Heather Miller (Alexandra Daddario), uma jovem adulta que vive sem saber de seu passado. Ela recebe a notícia de que herdou uma propriedade no Texas de uma avó que nunca soube que tinha. Animada com a possibilidade de uma nova vida, Heather decide viajar até a pequena cidade de Newt, Texas, acompanhada de seus amigos: o namorado Ryan (Trey Songz), o casal Nikki (Tania Raymonde) e Kenny (Keram Malicki-Sánchez), além de Darryl (Shaun Sipos), um jovem que pega carona com o grupo.
Ao chegarem à antiga casa herdada, Heather descobre uma mansão aparentemente abandonada, mas logo percebe que há algo estranho no local. Enquanto exploram a propriedade, Darryl demonstra interesse suspeito pelo lugar e acaba descobrindo uma passagem secreta que leva ao porão, onde vive um sobrevivente da família Sawyer: Jedidiah “Jed” Sawyer, o Leatherface (Dan Yeager), agora mais velho, mas ainda brutal.
As mortes começam quando Darryl é capturado por Leatherface e brutalmente assassinado com a icônica motosserra. O restante do grupo, sem saber do perigo iminente, continua explorando a casa e a cidade, até que uma série de encontros violentos desencadeia um novo massacre.
Paralelamente, Burt Hartman, que agora ocupa uma posição de poder na cidade, mantém um pacto de silêncio com autoridades locais para encobrir os crimes do passado e eliminar qualquer sobrevivente da família Sawyer. Também surge Carl Hartman (Scott Eastwood), filho do prefeito e policial local, inicialmente apresentado como aliado de Heather, mas que posteriormente revela sua ligação com a conspiração.
À medida que foge de Leatherface, Heather descobre a verdade sobre sua origem: ela é, na realidade, Edith Rose Sawyer, a bebê que sobreviveu ao incêndio inicial. Essa revelação muda a dinâmica da história, pois ela percebe que Leatherface não a vê como inimiga, mas como parte da família.
Baseado em Fatos Reais
Apesar de "O Massacre da Serra Elétrica: O Início" ter apresentado um resultado aceitável nas bilheterias em 2006, o desempenho financeiro ficou distante do remake lançado em 2003. A arrecadação atingiu cerca de metade do valor conquistado pelo longa anterior, o que levou a Platinum Dunes a perder o interesse em continuar investindo naquela continuidade específica da franquia.
O filme fez 50 milhões de dólares nas bilheterias, um resultado expressivo. Foi inclusive o segundo maior retorno da franquia, atrás somente do remake de 2003. Ainda assim, o resultado foi considerado insatisfatório pelos envolvidos, uma avaliação que, à luz dos números, soa no mínimo questionável. Algum tempo depois, os produtores Mark Burg e Oren Koules, ligados à Twisted Pictures, passaram a negociar os direitos da série com a New Line Cinema. O objetivo era reconstruir a marca por meio de um plano diferente, capaz de renovar o interesse do público.
Para começar esse processo, eles chamaram Stephen Susco, roteirista conhecido por "O Grito", para criar uma nova abordagem narrativa. No entanto, disputas relacionadas aos direitos autorais impediram o avanço imediato do projeto. Apenas depois da resolução dessas questões a Twisted Pictures conseguiu firmar um acordo para desenvolver vários filmes, tendo a Lionsgate como distribuidora.
A ideia inicial de Susco era bastante ousada. Ele planejava uma trilogia filmada em 16 mm, inspirada no clima sujo e realista do clássico de 1974. O primeiro longa exploraria mais o passado da família Sawyer e ainda marcaria o retorno de Sally Hardesty, sobrevivente da obra original. O desenvolvimento da ideia contou com nomes importantes, incluindo o produtor Carl Mazzocone, além de Tobe Hooper e Kim Henkel, criadores da franquia, que demonstraram apoio à direção criativa sugerida. Na época, James Wan chegou a ser considerado para dirigir o primeiro capítulo, enquanto Hooper e Neil Marshall eram vistos como opções para os filmes seguintes.
Durante esse período, Wan chegou a elaborar conceitos visuais para Leatherface. Sua visão incluía diferentes máscaras, cada uma transmitindo emoções específicas, reforçando o aspecto simbólico do personagem. Contudo, o diretor acabou abandonando o projeto para trabalhar em Sobrenatural (Insidious), o que obrigou a produção a reorganizar seus planos.
Após a saída de Wan, a Lionsgate passou a exercer maior controle sobre o desenvolvimento do filme. O estúdio definiu algumas exigências: a produção deveria ter classificação PG-13 e passar em uma ambientação contemporânea. Além disso, foi estabelecida a exclusão de referências explícitas ao canibalismo. Essa decisão teria sido influenciada pelo baixo desempenho comercial de "O Último Trem", produção do mesmo estúdio que abordava esse tipo de violência.
O Escritor Fantasma
Naquele início da década de 2010, o cinema vivia um momento de transformação tecnológica impulsionado principalmente pelo impacto de Avatar (2009). O sucesso monumental do filme de James Cameron desencadeou uma verdadeira corrida industrial em torno do 3D: salas de cinema foram modernizadas, projetores substituídos e até televisores domésticos passaram a adotar o novo formato. Naturalmente, essa mudança veio acompanhada de ingressos mais caros, edições domésticas mais valorizadas e a promessa de lucros ainda maiores para os estúdios.
Nesse cenário, muitos filmes que sequer haviam sido concebidos originalmente em 3D passaram a ser convertidos posteriormente, numa tentativa clara de ampliar a arrecadação. Foi nesse movimento que surgiu Texas Chainsaw 3D (2013), marcando a primeira incursão da franquia O Massacre da Serra Elétrica no formato tridimensional.
A decisão dialogava diretamente com o sucesso recente de títulos como Dia dos Namorados Macabro (2009) e Premonição 4 (2009), que ultrapassaram a marca de US$ 100 milhões em bilheteria mundial muito em função do apelo do 3D, atraindo espectadores interessados na experiência sensorial oferecida pelo novo padrão.
Apesar dessa busca por atualização tecnológica, o filme também demonstrou preocupação em estabelecer vínculos com o passado da franquia, apostando em referências que se tornam mais significativas quando vistas em continuidade com o clássico original. Um exemplo emblemático ocorre quando Heather explora os cômodos da antiga casa e observa, através de um armário, um traje que remete diretamente ao figurino usado por Sally Hardesty-Enright, personagem eternizada por Marilyn Burns em 1974. Esse tipo de detalhe funciona quase como um gesto simbólico, um aceno direto aos fãs que acompanham a saga desde suas origens.
Com essas novas orientações, Susco reformulou sua proposta. O roteiro passou a acompanhar uma história ambientada trinta e sete anos depois de uma sequência de abertura em que Sally Hardesty seria assassinada. Mesmo assim, a versão não agradou à Lionsgate, que rejeitou o material e pediu algo mais alinhado ao enredo estabelecido pelo filme original de 1974.
Em outubro de 2010, a produção tomou outra direção. Adam Marcus, responsável por "Jason Vai para o Inferno: A Última Sexta-Feira", e Debra Sullivan foram contratados para desenvolver uma nova versão de roteiro. A proposta da dupla, intitulada Leatherface 3D, mantinha ligação direta com o encerramento do longa clássico, mas posicionava a maior parte da trama em 1993. Adam e Debra me disseram que o roteiro chegou às mãos de Tobe Hooper, que ligou imediatamente para o casal e disse entusiasmado: “Foi a verdadeira sequência de seu filme original!”.
Foi um dia de glória para eles. Mais tarde, o projeto recebeu oficialmente o título "Texas Chainsaw 3D". Em maio de 2011, John Luessenhop foi anunciado como diretor, enquanto a Nu Image entrou como coprodutora. A intenção era iniciar as filmagens em junho do mesmo ano. Entretanto, Marcus e Sullivan deixaram a produção após serem convidados a revisar novamente o roteiro, mas sem receber pagamento adicional.
O diretor Luessenhop passou a colaborar diretamente na revisão ao lado de Kirsten Elms, roteirista associada a produções como "Exeter". A nova versão manteve a sequência inicial ambientada em 1973, preservando a conexão imediata com o filme original, mas alterou o restante da narrativa para os tempos atuais, abandonando a ambientação de 1993. Mesmo com essa mudança temporal, a personagem Heather continuou sendo retratada como uma jovem de 19 anos (a atriz tinha 25), o que gerou um problema evidente de cronologia.
Durante a fase de ajustes, Scott Milam foi consultado e apontou a inconsistência envolvendo a idade da protagonista. Segundo relatos, Carl Mazzocone respondeu que o público dificilmente se importaria com esse tipo de detalhe, posicionamento que acabou influenciando a versão final do longa.
No final das contas, Kirsten Elms, Adam Marcus e Debra Sullivan foram creditados como roteiristas.
Busca Frenética
A escolha do elenco começou a ganhar forma em julho de 2011, quando Alexandra Daddario foi confirmada para viver Heather Miller, personagem ligada à herança da família Sawyer. Para se preparar melhor, a atriz chegou a se reunir com Marilyn Burns, veterana do filme original. No mesmo período, Tremaine “Trey Songz” Neverson e Tania Raymonde assumiram os papéis de namorado e melhor amiga da protagonista.
Neverson, inclusive, marcou um momento inédito na franquia ao se tornar o primeiro ator negro em posição de destaque, sendo selecionado após chamar a atenção do diretor durante uma apresentação no BET Awards. Já Scott Eastwood foi escalado com contrato prevendo múltiplos filmes. O restante do elenco contou com nomes como Keram Malicki-Sanchez, Shaun Sipos, Sue Rock, Thom Barry, Paul Rae e Richard Riehle.
Para o icônico papel de Leatherface, o escolhido foi Dan Yeager, que apesar da pouca experiência, convenceu o diretor por sua presença intimidadora. Gunnar Hansen, o intérprete original do personagem em 1974, retornou em um novo papel, enquanto John Dugan reprisou sua participação como o avô Sawyer. Bill Moseley também integrou o elenco como Drayton Sawyer, após ter vivido Chop Top no segundo filme. Marilyn Burns voltou à franquia em outro papel, interpretando Verna Carson.
As filmagens tiveram início no fim de julho de 2011, em Shreveport, na Louisiana, com fotografia assinada por Anastas Michos. Com orçamento estimado em 20 milhões de dólares, a produção foi realizada em 3D, utilizando câmeras RED Epic, e concluída em apenas 28 dias. O processo, no entanto, foi bastante desgastante: o calor extremo, que chegou a 45°C, afetou tanto a equipe quanto os equipamentos, causando interrupções e até atendimentos médicos. O diretor descreveu a experiência com a tecnologia 3D como trabalhosa e limitante, o que acabou influenciando o estilo visual do filme, mais contido e próximo ao suspense clássico.
Nos momentos finais da produção, mudanças inesperadas ocorreram, incluindo a saída do diretor de fotografia, o que levou a equipe restante a intensificar o ritmo de trabalho para finalizar o projeto. Paralelamente, o material do longa original foi adaptado para exibição em 3D, complementando a proposta do novo filme. A pós-produção foi concluída em junho de 2012.
A Morte e a Donzela
O estúdio optou por adiar o lançamento por um período considerável, em parte para evitar a concorrência direta com outros grandes lançamentos. O intervalo entre filmagem e estreia acabou dando ao longa um significado adicional e inesperado: Gunnar Hansen faleceu poucos meses após o lançamento. Há algo de particularmente marcante nesse fato, como se o ator tivesse, de certa forma, encerrado sua trajetória artística dentro do mesmo universo que ajudou a fundar décadas antes, fechando um ciclo iniciado em 1974.
O desfecho do filme talvez seja o exemplo mais evidente do tom peculiar que define esta nova fase da franquia, um equilíbrio estranho entre horror, ironia e absurdo. A cena em que Heather chama Leatherface de “primo” e lhe entrega a motosserra sintetiza essa lógica narrativa quase surreal.
O momento carrega uma sucessão de imagens que beiram o grotesco e o improvável, mas que, paradoxalmente, possuem um certo fascínio visual. No entanto, o instante mais curioso ocorre logo depois, quando ambos retornam à casa e se sentam juntos à mesa da cozinha, visivelmente exaustos. Há algo desconcertante e quase cômico nessa convivência repentina entre uma jovem mulher e o homem que, pouco antes, assassinara seus amigos, uma situação que, dentro da lógica do filme, passa a ser justificada pelo laço familiar recém-descoberto.
Essa cena final também carrega uma curiosidade de bastidores reveladora do espírito adotado pela produção. Alexandra Daddario, intérprete de Heather, demonstrou resistência inicial em dizer a frase “Faça o que quiser, primo”, considerando-a exageradamente absurda. A resposta do produtor foi surpreendente: segundo ele, toda a proposta deveria assumir esse tom exagerado e quase autoconsciente. Diante disso, a atriz acabou pronunciando a fala, que se tornou um dos momentos mais comentados e lembrados do longa.
Assim, ao encerrar sua narrativa com essa combinação de reverência ao passado, aposta tecnológica e um humor involuntário que beira o nonsense, o filme se estabelece como um produto típico de sua época: um projeto que tenta equilibrar tradição e modernidade, nostalgia e espetáculo, ao mesmo tempo em que reflete as transformações industriais e criativas que marcaram o cinema comercial no início dos anos 2010.
O Massacre da Serra Elétrica 3D não é uma consequência. É um sintoma.
🔷Massacre no Texas (2017)
Metade Negra
Em Massacre no Texas, o horror vai além do sangue e da violência explícita, ainda que ela esteja presente. O filme acompanha a formação de um personagem marcado por um ambiente que nunca ofereceu espaço para crescimento saudável, revelando alguém moldado por medo, trauma e manipulação emocional. Sua transformação em Leatherface não ocorre de forma repentina, mas se desenvolve gradualmente, como resultado de experiências que enfraquecem sua identidade até restar apenas aquilo que o ambiente exige dele.
A questão da identidade surge como um dos pontos centrais da narrativa. Durante o filme, Jed passa por situações que o obrigam a esconder quem é, adaptar-se e agir cada vez mais pelo instinto. A fuga do hospital psiquiátrico reforça essa ideia, já que o jogo com as identidades cria uma sensação constante de incerteza. O personagem não é apresentado como alguém naturalmente monstruoso, mas como alguém que perde, aos poucos, a própria individualidade. Sua sobrevivência parece depender do abandono progressivo de partes de si mesmo.
A máscara que mais tarde define Leatherface funciona como símbolo desse processo. Não é apenas um acessório marcante, mas a representação de um rosto substituído, como se a identidade original tivesse sido apagada. Esse caminho está ligado à infância e à forma como a violência faz parte da rotina da família Sawyer. O prólogo do filme apresenta um ambiente em que situações extremas são tratadas com naturalidade. A violência não surge como exceção, mas como parte das relações familiares.
Crescer nesse contexto não produz apenas medo, mas também uma adaptação emocional. A dor deixa de provocar reação e o sofrimento do outro perde relevância, passando a ser percebido como algo comum. O resultado é um personagem que não reage à brutalidade com espanto, porque aprendeu desde cedo que ela faz parte da vida cotidiana.
A família Sawyer tem papel decisivo nesse desenvolvimento. Mais do que disfuncional, ela funciona como um espaço fechado, em que comportamentos violentos são constantemente reforçados e qualquer tentativa de individualidade parece ser interrompida antes mesmo de se consolidar. Verna Sawyer ocupa posição central nesse processo. Sua presença mistura cuidado e controle, criando uma relação marcada por dependência emocional. O filme levanta uma questão inevitável sobre até que ponto Jed realmente teve liberdade para escolher quem se tornaria. Dentro de um ambiente em que a violência é regra, suas possibilidades parecem limitadas desde o início.
Essa discussão se aproxima do debate entre natureza e criação. O filme não oferece resposta definitiva sobre o que define Leatherface. Em alguns momentos, o personagem demonstra fragilidade e certa sensibilidade, sugerindo que talvez pudesse ter seguido outro caminho. Em outros, a influência do ambiente parece forte demais para ser ignorada, fazendo parecer inevitável que ele se torne reflexo desse meio. A narrativa sustenta essa dúvida, deixando o espectador dividido entre enxergar um personagem destruído pelas circunstâncias ou alguém que sempre carregou esse potencial dentro de si.
Outro aspecto importante é o distanciamento emocional que se intensifica ao longo da história. Antes mesmo de a máscara surgir, Jed demonstra uma relação cada vez mais fria com suas próprias ações. Em vários momentos, ele age de forma automática, como se se desconectasse de si mesmo para suportar o que vive. Quando a máscara finalmente aparece, ela reforça essa ruptura.
A violência, ao longo da narrativa, também perde seu impacto inicial. O sofrimento deixa de ser tratado como algo chocante e passa a integrar a rotina dos personagens. Em alguns casos, surge até como demonstração de poder. Esse comportamento indica um aprendizado progressivo, resultado da convivência em um ambiente em que ferir o outro é considerado normal.
O filme amplia essa discussão ao mostrar que a violência não está restrita à família Sawyer. Médicos e policiais aparecem frequentemente como figuras agressivas e incapazes de oferecer proteção. O hospital psiquiátrico, que deveria funcionar como espaço de cuidado, surge como um ambiente de repressão e medo. Em vez de acolhimento, existe contenção. Essa representação reforça a ideia de que o personagem não encontra segurança em nenhum lugar, aumentando sua sensação de isolamento e contribuindo para seu afastamento emocional.
Um dos elementos mais desconfortáveis do filme é a forma como ele aproxima o espectador do protagonista. Ao mostrar momentos de fragilidade, a narrativa constrói uma relação ambígua com alguém que se tornará um assassino conhecido do cinema. Compreender o sofrimento do personagem não significa justificar suas ações, mas torna difícil enxergá-lo apenas como um monstro. O filme constrói, assim, uma experiência psicológica marcada pela erosão gradual da identidade e pela sensação persistente de que, em algum momento, aquele destino talvez pudesse ter sido diferente.
Campo do medo
O interesse em expandir novamente o universo de O Massacre da Serra Elétrica surgiu pouco tempo após o lançamento de O Massacre da Serra Elétrica 3D. Em janeiro de 2013, os produtores passaram a considerar a possibilidade de uma nova continuação direta. A Millennium Films chegou a anunciar publicamente planos para desenvolver um novo capítulo, com filmagens previstas ainda para aquele ano na Louisiana. O presidente do estúdio, Avi Lerner, afirmou que o projeto havia sido apresentado pelas produtoras Christa Campbell e Lati Grobman, e que a empresa já havia firmado um acordo para produzir o longa, mantendo a Lionsgate responsável pela distribuição.
O anúncio, no entanto, revelou tensões internas em torno dos direitos da franquia. Mark Burg, produtor executivo envolvido no desenvolvimento inicial do roteiro ao lado de John Luessenhop e Carl Mazzocone, afirmou que a divulgação havia sido feita de forma prematura e sem autorização formal. Segundo ele, os direitos permaneciam vinculados à Main Line Pictures e ao próprio Mazzocone, o que colocava em dúvida a legitimidade daquele anúncio inicial. O episódio deixou evidente que, mesmo após décadas de existência, a franquia ainda enfrentava disputas administrativas que influenciavam diretamente o rumo criativo dos filmes.
Foi nesse cenário incerto que surgiu uma nova abordagem narrativa. O roteirista e produtor Seth M. Sherwood apresentou ao estúdio uma proposta que não buscava simplesmente continuar a linha cronológica anterior, mas revisitar a origem do personagem sob uma perspectiva diferente. Incomodado com as inconsistências acumuladas ao longo dos anos, Sherwood optou por desenvolver uma história que se afastasse da lógica tradicional das sequências. Sua intenção era construir algo que não parecesse apenas mais um capítulo, mas uma tentativa de reorganizar a identidade narrativa da franquia.
A proposta foi concebida como uma história centrada na formação do personagem, explorando a ideia de identidade de forma direta. Sherwood baseou-se em reflexões feitas por Tobe Hooper e Gunnar Hansen ao longo dos anos, especialmente na noção de que Leatherface não possui uma personalidade estável fora das máscaras que utiliza e das imposições familiares que o moldam. Em vez de retratar o personagem como alguém nascido com limitações mentais, o roteirista considerou mais interessante apresentar uma figura inicialmente funcional, cuja deterioração psicológica ocorreria ao longo do tempo.
Para os produtores envolvidos, essa abordagem representava uma oportunidade de reinvenção. Les Whedon destacou que o principal atrativo do projeto era justamente a possibilidade de renovar a franquia enquanto revelava aspectos até então pouco explorados da origem de Leatherface. Ainda assim, os diretores Julien Maury e Alexandre Bustillo demonstraram preocupação em preservar parte do mistério que sempre cercou o personagem. Em vez de oferecer respostas completas, eles optaram por retratar apenas fragmentos de sua juventude, mantendo a sensação de que certos aspectos permaneceriam inevitavelmente ocultos.
Em agosto de 2014, confirmou-se que Sherwood seria o responsável pelo roteiro, que passou a ser desenvolvido sob o título Leatherface. Pouco tempo depois, Maury e Bustillo foram oficialmente contratados para assumir a direção. Ambos demonstraram surpresa positiva ao receber o material inicial, destacando o fato de que a narrativa se afastava das fórmulas tradicionais associadas à série. A escolha da dupla não foi casual. Os produtores buscavam realizadores capazes de imprimir uma identidade visual distinta e uma abordagem narrativa menos convencional.
Ao iniciarem o trabalho, os diretores solicitaram alterações no roteiro. Sherwood apoiou o processo de revisão, permitindo que diversas sequências fossem reestruturadas para se alinhar à visão estética da dupla. Embora a estrutura central tenha sido preservada, quase todas as cenas de morte foram modificadas. O desfecho original, que previa um massacre em larga escala com dezenas de vítimas, acabou sendo reformulado por ser considerado excessivo e pouco coerente com a proposta psicológica do personagem. O filme foi escrito de uma forma que o público teria que adivinhar qual dos personagens realmente se tornaria Leatherface no futuro, já que o hospital psiquiátrico dá novos nomes aos seus pacientes para afastá-los de suas famílias.
Às vezes eles voltam.
A formação do elenco ocorreu ao longo de 2015. Stephen Dorff interpreta o xerife Hal Hartman neste filme, que é o pai de Burt Hartman de O Massacre da Serra Elétrica 3D: A Lenda Continua (2013). Angela Bettis assinou originalmente o filme antes de desistir devido a conflitos de agenda. Ela foi substituída por Lili Taylor.
Taylor, neste filme, interpreta Verna Carson, personagem vista pela primeira vez no filme anterior. Neste, ela foi interpretada também por Marilyn Burns em um pequeno papel como a idosa Verna, que interpretou Sally Hardesty no clássico de 1974. Finn Jones, o Danny Rand da série Punho de Ferro, também foi escalado como um policial. Embora não seja mencionado no filme em si ou nos créditos, o sobrenome de Ted, confirmado pelo roteirista, é Hardesty, o que o torna o pai de Sally (a final girl do clássico) e Franklin.
As filmagens começaram em maio de 2015 e ocorreram na Bulgária, escolha motivada principalmente por razões orçamentárias. A Millennium Films possuía infraestrutura na região, o que permitia reduzir custos sem comprometer a escala da produção. Apesar da distância geográfica, a equipe buscou recriar visualmente o ambiente texano por meio de locações compostas por campos abertos, vegetação irregular e paisagens áridas. Para reforçar a ambientação histórica, veículos característicos da década de 1960 foram transportados até o local de filmagem.
O estilo visual adotado buscava uma atmosfera que se aproximasse de um drama sombrio com elementos de violência gráfica. O próprio Sherwood comparou o tom do filme a uma obra de caráter mais autoral, evocando a sensação de um relato brutal inserido em paisagens amplas e silenciosas. Durante as filmagens, os diretores também decidiram ampliar o número de mortes previstas originalmente, acrescentando novas sequências que reforçavam o impacto físico e psicológico da narrativa. Entre essas cenas, destacou-se aquela que apresenta a origem simbólica da máscara de pele, considerada pelo roteirista uma das mais marcantes do filme.
As filmagens totalizaram pouco menos de um mês de trabalho contínuo. Apesar das limitações de tempo, a equipe buscou recriar elementos icônicos associados à franquia. Uma réplica detalhada da casa do filme original de 1974 foi construída e utilizada como cenário central em momentos decisivos da narrativa. O espaço foi planejado para reproduzir fielmente a atmosfera opressiva da construção original, reforçando o vínculo simbólico com a história da série.
Além da casa, a propriedade da família Sawyer voltou a ocupar posição central dentro da trama. Inicialmente prevista para aparecer apenas em momentos pontuais, a locação ganhou maior destaque após discussões entre o roteirista e os diretores, que consideraram essencial explorar visualmente o espaço que representa o núcleo da violência familiar. O terceiro ato acabou sendo reorganizado para concentrar os acontecimentos nesse ambiente.
Este é o último filme de Tobe Hooper como produtor antes de sua morte, de causas naturais, em 26 de agosto de 2017.
Louca Obsessão
O presidente da Millennium Films, Avi Lerner, gostou do projeto que lhe foi apresentado. A Millennium assinou o contrato para produzir e a Lionsgate concordou em distribuir o produto final. Quando a Lionsgate finalmente lançou este filme, o estúdio já havia perdido os direitos da franquia. Ela demorou muito para dar luz verde ao anterior, o de 2013, que, na verdade, terminou a produção em 2011, mas o filme ficou inédito por 2 anos. A Lionsgate tinha inicialmente os direitos de fazer até 6 filmes "Massacre da Serra Elétrica" no contrato. Este foi o segundo e último filme deles.
Para alguns, foi um alívio.
Massacre no Texas não é o sintoma. É a causa.
🔷O Massacre da Serra Elétrica (2022)
A Maldição
Quando me propus a revisitar toda a franquia, não imaginava que os filmes funcionassem de forma tão independente entre si. Como havia assistido a cada um em momentos diferentes, minha memória estava mais ligada ao original e ao segundo filme, que revi inúmeras vezes ao longo dos anos. Talvez por isso exista uma tendência quase automática de comparar continuações e remakes com a obra que deu origem a tudo, partindo da expectativa de que dificilmente alcançarão o mesmo impacto.
Clássicos costumam carregar elementos muito específicos que os tornam marcantes, seja pela época em que surgiram, pela proposta estética ou pela forma como dialogaram com o público. Retomar uma história tão conhecida sempre envolve riscos, principalmente quando há a tentativa de atualizar personagens e narrativas para novas gerações. Ao acompanhar a franquia em sequência, fica mais evidente como cada diretor tenta encontrar um caminho próprio, equilibrando interesses comerciais, identidade autoral e expectativas dos fãs.
Um ponto que chama atenção é como a série insiste em girar em torno de uma mesma ideia central nos cinco primeiros filmes. Já quatro mais recentes deixam isso evidente ao reorganizar a cronologia em direções diferentes. O Início (2006) retorna ao passado para mostrar os acontecimentos anteriores ao massacre original. O longa de 2013 continua diretamente a narrativa encerrada em 1974. Já Massacre no Texas (2017) busca explorar as origens do personagem sob outro ponto de vista. O filme de 2022, por sua vez, avança décadas na cronologia e imagina o que aconteceu depois de tantos anos de silêncio.
Boogeyman
Depois de quase meio século desaparecido, Leatherface retorna quando um grupo de jovens empreendedores decide investir na pequena cidade de Harlow, no Texas. A intenção é revitalizar o local, comprando imóveis antigos e transformando a região em um novo polo comercial. Mas o evento rapidamente se torna um conflito com os moradores remanescentes, trazendo à tona feridas antigas e um passado que nunca ficou realmente enterrado.
Nos bastidores, o longa passou por um desenvolvimento turbulento. Após "Massacre no Texas" (2017), havia planos para expandir novamente a franquia, mas a continuidade dependia do desempenho financeiro e da recepção crítica daquele filme. Com a perda dos direitos por parte da Lionsgate e da Millennium Films, o futuro da série ficou indefinido por algum tempo. Em 2018, a Legendary Pictures iniciou negociações para assumir a propriedade da marca, demonstrando interesse em desenvolver novos projetos tanto para o cinema quanto para outras mídias.
A produção começou a tomar forma em 2019, quando Fede Álvarez entrou como produtor e Chris Thomas Devlin foi contratado para escrever o roteiro. No início de 2020, Ryan e Andy Tohill foram anunciados na direção, enquanto Angus Mitchell assumiu a fotografia. A proposta era construir uma continuação direta do filme de 1974, apresentando um Leatherface envelhecido, agora próximo dos 60 anos. A ideia seguia uma abordagem semelhante à retomada recente da franquia Halloween, apostando em um retorno tardio do antagonista clássico.
O elenco também passou por mudanças importantes. Elsie Fisher foi anunciada como protagonista, acompanhada por Sarah Yarkin, Moe Dunford, Alice Krige, Jacob Latimore, Nell Hudson, Jessica Allain, Sam Douglas, William Hope e Jolyon Coy. Mais tarde, Mark Burnham assumiu o papel de Leatherface, enquanto Olwen Fouéré foi escolhida para interpretar Sally Hardesty, personagem central do filme original.
A Hora da Zona Morta
Inicialmente planejado para estrear nos cinemas em 2021, o filme acabou enfrentando dificuldades após exibições de teste mal recebidas. Com isso, a distribuição foi redirecionada para a Netflix, onde estreou em fevereiro de 2022.
Este também foi o primeiro capítulo da franquia a retomar Sally Hardesty em uma continuação direta dos acontecimentos do original. Como Marilyn Burns faleceu em 2014, enquanto dormia aos 65 anos (ela foi encontrada em sua casa em Houston por seu irmão Bill, de um aparente ataque cardíaco), a personagem passou a ser interpretada por Olwen Fouéré. Outro detalhe que reforça a ligação com o clássico é a narração de abertura feita por John Larroquette, voz presente no filme de 1974 e também no remake de 2003.
A etapa de filmagem também passou por mudanças significativas ao longo da produção. O início das gravações estava previsto para maio de 2020, mas o cronograma acabou sendo alterado. As filmagens principais começaram apenas em agosto daquele ano, com a Bulgária servindo como locação principal para representar o interior do Texas. Logo nas primeiras semanas, o projeto enfrentou uma reviravolta importante. O material registrado inicialmente não agradou ao estúdio, que decidiu substituir Ryan e Andy Tohill da direção. David Blue Garcia assumiu o comando da produção e precisou reiniciar praticamente todo o trabalho.
As cenas já gravadas foram descartadas, obrigando a equipe a reconstruir o filme desde o começo. A troca de direção também afetou outros departamentos. O diretor de fotografia Angus Mitchell deixou a produção junto com os irmãos Tohill, sendo substituído por Ricardo Diaz. Com pouco tempo para preparação, Garcia e Diaz precisaram desenvolver rapidamente uma nova identidade visual, apoiando-se principalmente na atmosfera do clássico de 1974. Segundo Garcia, o objetivo era recuperar uma sensação mais crua e direta, sem excessos estilísticos.
Colheita Maldita
Um dos desafios mais curiosos foi transformar a paisagem búlgara em algo convincente para representar o Texas. A solução encontrada foi aproximar a ambientação de regiões mais áridas e montanhosas do oeste texano, especialmente áreas próximas a Fort Davis. O trabalho de direção de arte teve papel fundamental nessa construção visual. Em março de 2021, Fede Álvarez confirmou que as filmagens haviam sido concluídas. Na ocasião, reforçou que o longa apostaria em um Leatherface envelhecido e em uma abordagem mais tradicional para as cenas de horror.
No mês seguinte, o filme recebeu oficialmente o título Texas Chainsaw Massacre. Durante algum período, circularam rumores de que o projeto poderia se chamar Texas Chainsaw Begins, mas a informação foi negada pelo roteirista Chris Thomas Devlin. As primeiras exibições de teste geraram opiniões contraditórias. Em maio de 2021, relatos apontavam uma recepção negativa por parte do público, alimentando dúvidas sobre o resultado final. Meses depois, Álvarez afirmou que as avaliações posteriores foram mais favoráveis, destacando que o filme buscava respeitar o legado do original sem abandonar uma proposta contemporânea.
No final, O Massacre da Serra Elétrica funciona melhor quando assume sua proposta violenta, sem tentar reproduzir exatamente o impacto do clássico. O filme acerta ao investir em uma atmosfera mais seca, em efeitos práticos convincentes e em sequências de perseguição que recuperam parte da brutalidade física associada à franquia. A fotografia, a ambientação e o visual envelhecido de Leatherface ajudam a criar uma identidade própria, especialmente para quem aceita a ideia do filme.
Algumas cenas são visualmente belíssimas e memoráveis, como a sequência do Leatherface na plantação. O roteiro tenta inserir discussões contemporâneas e conflitos geracionais, mas nem sempre desenvolve esses temas de forma convincente. Certos personagens carecem de profundidade, fazendo com que suas decisões pareçam apressadas ou pouco naturais. Sally Hardesty, por exemplo, embora interessante em conceito, acaba sendo limitada dentro da trama e não alcança o peso dramático que poderia ter.
Outro ponto difícil de aceitar foi as atrizes Sarah Yarkin (27 anos quando foi filmado) e Elsie Fisher (17 anos) encararem de frente Leatherface. A diferença física é brutal, criando a sensação de um confronto desproporcional, quase infantil, diante da figura massiva do personagem.
Até mesmo a sequência final, da despedida das garotas, parece tão absurda que esperei uma sequência pós-créditos revelando ser um sonho. Ainda assim, o filme não deixa de ser uma tentativa válida de atualizar a franquia para um novo público.
Talvez seja melhor visto como um filme de terror qualquer, cujo público é amplo e resiliente. O problema é o peso que o título "Texas Chainsaw Massacre" deposita na produção. Com ele, vem a expectativa. E dela, a decepção.


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