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A MANSÃO MARSTEN (2004) - SÉRIE REVIEW

Salem's Lot

A Mansão Marsten é uma nítida evolução narrativa em relação à produção de 1979. E isso começa antes mesmo de a história propriamente dita ganhar corpo, desde o elenco até a maneira como a narrativa é apresentada. Existe, inclusive, aquela característica tão comum nas adaptações de Stephen King, a presença de uma narração inicial que parece colocar o espectador diante de alguém que está tentando organizar, pela palavra, uma história que ainda carrega marcas do passado.

Na história, quando tinha apenas 9 anos, Ben Mears (Rob Lowe) concordou em passar uma noite na macabra Mansão Marsten. Foi uma decisão que teria consequências para o resto de sua vida. Dentro da casa, Ben testemunhou os corpos resultantes de um escandaloso pacto de assassinato e suicídio, uma experiência que ficou gravada em sua memória. Décadas depois, já adulto e escritor, ele retorna a Jerusalem's Lot, sua cidade natal, carregando consigo muito mais do que lembranças de infância. Ele volta para um lugar que conhece, mas que também se tornou estranho para ele.

É justamente aí que a minissérie encontra uma de suas melhores ideias. Ben não está simplesmente voltando para casa. Está voltando para o lugar onde nasceu o trauma que passou a acompanhá-lo. A cidade pode ter mudado, as pessoas podem ser outras e a própria Mansão Marsten pode parecer diferente aos olhos de um adulto, mas determinadas lembranças não envelhecem da mesma maneira que os lugares.

Ben descobre que Richard Straker (Donald Sutherland), o misterioso proprietário de um antiquário, passou a ocupar a mansão. Seu sócio, Kurt Barlow (Rutger Hauer), é ainda mais enigmático, já que quase nunca é visto. Aos poucos, moradores começam a desaparecer e morrer. Depois, alguns deles retornam de maneira assustadora, voando até as janelas de familiares e pedindo para serem convidados a entrar.

A partir daí, aquilo que inicialmente poderia parecer apenas uma sucessão de acontecimentos estranhos começa a ganhar uma forma muito mais sinistra. Ben e outras pessoas da cidade percebem que existe alguma coisa errada acontecendo em Jerusalem's Lot e que a resposta parece estar ligada à Mansão Marsten. A casa deixa de ser apenas o cenário do trauma de infância de Ben e passa a ocupar novamente o centro de sua vida.

Benjamin Button

A história começa com uma reflexão que me lembrou "O Curioso Caso de Benjamin Button". Existe algo muito particular em voltar para casa depois de muitos anos e descobrir que, embora tudo pareça estar no mesmo lugar, nada é exatamente igual. O que mudou, nesse caso, não está necessariamente nas ruas, nas casas ou nas pessoas. Está dentro de quem voltou.

Quando somos crianças, enxergamos determinados lugares de uma maneira. Depois de adultos, carregamos outras experiências e passamos a interpretar aquelas mesmas imagens de outra forma. A Mansão Marsten é um ótimo exemplo disso. Para o menino Ben, ela representa medo e morte. Para o adulto, representa também aquilo que ele passou décadas tentando compreender. O retorno, portanto, funciona como uma espécie de confronto entre as duas versões do personagem.

É nesse aspecto que a versão de 2004 trabalha melhor o protagonista. O Ben de Rob Lowe é apresentado como alguém que não conseguiu simplesmente deixar o passado para trás. A cidade e a mansão continuam ocupando um espaço dentro dele, e cada novo acontecimento parece abrir uma porta para aquilo que ele tentou guardar durante tantos anos.

Existem diferenças significativas entre a versão de 1979 e esta de 2004. A atmosfera da primeira continua sendo superior para mim, assim como o visual de Kurt Barlow, mesmo aparecendo pouco mais de um minuto. É um daqueles casos em que uma participação extremamente curta consegue produzir uma imagem tão marcante que acaba se tornando inseparável da lembrança que temos daquela adaptação. Por isso, é inevitável sentir falta daquela presença quando assistimos à nova versão.

Richard Straker também é um caso interessante. James Mason, na produção de 1979, funcionava melhor para mim do que Donald Sutherland. Sutherland sempre teve uma maneira bastante particular de interpretar personagens vilanescos, muitas vezes carregando-os para um território mais exagerado. Mason, por outro lado, transmitia uma ameaça mais controlada, e isso combinava muito bem com o personagem.

Existe ainda uma curiosidade envolvendo os dois atores que torna essa comparação ainda mais curiosa. Donald Sutherland morreu em 20 de junho de 2024, exatamente vinte anos depois da estreia desta minissérie. Ele tinha 88 anos. Sua morte aconteceu poucas semanas antes do 40º aniversário da morte de James Mason, falecido em julho de 1984. Mason havia interpretado Richard Straker na primeira adaptação de "Os Vampiros de Salem", lançada em 1979. Assim, os dois atores ficaram ligados ao mesmo personagem com 25 anos de diferença entre suas interpretações.

Mas, continuando...

Apesar de perder alguns dos elementos mais marcantes da adaptação de 1979, "A Mansão Marsten" de 2004 é, para mim, uma produção muito superior no conjunto. E existe um motivo bastante simples para isso: ela consegue desenvolver melhor aquilo que está ao redor da história principal.

Rutger Hauer como Kurt Barlow foi uma escolha excelente. Hauer já carregava uma carreira enorme e uma presença cinematográfica que fazia com que sua simples aparição tivesse peso. Colocá-lo justamente como o vampiro responsável por transformar Jerusalem's Lot em um território de caça foi uma escolha que deu à produção uma força especial. O restante do elenco também ganha mais espaço para trabalhar, e Rob Lowe é, para mim, muito mais carismático como Ben Mears do que David Soul.

A direção e o roteiro também contribuem para isso. Os personagens têm mais espaço, as relações são melhor exploradas e as subtramas não parecem estar ali apenas para preencher tempo. A diferença fica especialmente evidente quando observamos a própria Jerusalem's Lot.

Na produção de 1979, a cidade parece menor e isso acaba ajudando o horror. Existe uma sensação quase claustrofóbica de comunidade pequena, aquele tipo de lugar em que todo mundo conhece todo mundo e qualquer comportamento estranho rapidamente vira assunto. Na versão de 2004, Jerusalem's Lot parece uma cidade de médio porte. Isso torna o ambiente mais amplo, mas também diminui um pouco aquela sensação típica das histórias de King, em que uma pequena cidade do interior parece esconder seus próprios segredos atrás de cada porta.

O próprio início ajuda a estabelecer essa diferença. Na versão de 1979, o prólogo acontece em uma igreja. Aqui, o filme começa em um hospital que parece estar localizado em uma grande cidade. É uma mudança simples, mas já coloca Ben em uma situação diferente. A versão de Salomon apresenta um homem que está claramente tentando fugir das lembranças que o perseguem, enquanto a de Tobe Hooper estabelece de maneira mais contida a ligação de Ben com a cidade e com a Mansão Marsten.

O personagem de Rob Lowe é assombrado repetidamente ao longo da minissérie. Isso faz com que o espectador compreenda melhor sua relação com o passado e, ao mesmo tempo, perceba suas falhas. Ben não é apresentado como um herói perfeito. Ele tem certa arrogância, toma decisões questionáveis e carrega uma personalidade que pode afastar algumas pessoas. Justamente por isso, acaba sendo mais fácil enxergá-lo como alguém real, e não apenas como o escritor que retorna à cidade para resolver um mistério.

Há ainda uma curiosa influência cruzada entre "Os Vampiros de Salem" e outro clássico do cinema de vampiros. É como se esta versão tivesse incorporado alguns elementos do vampiro Jerry Dandridge, de "A Hora do Espanto". A ironia é que a produção de 1979 já havia exercido influência sobre Tom Holland quando ele concebeu seu filme, especialmente na famosa cena em que Billy Cole (Jonathan Stark) morre na escada, praticamente reproduzindo a morte do personagem interpretado por James Mason na minissérie de Tobe Hooper. Assim, uma adaptação de King influenciou um filme de vampiros que, por sua vez, parece ecoar nesta nova versão.

Rutger Hauer e o último monólogo

E se existe alguém que merecia uma história própria dentro dessa produção, é Rutger Hauer. Rob Lowe contou uma experiência bastante curiosa durante as filmagens do clímax. Havia uma cena em que Barlow fazia um longo monólogo, com cerca de duas páginas de diálogo, antes de provocar a própria morte. Hauer decidiu improvisar e criou uma versão completamente diferente daquela prevista no roteiro. O resultado, segundo Lowe, transformava o vampiro quase em um cowboy durante o solilóquio.

O diretor não gostou da improvisação e Hauer acabou tendo que abandonar sua versão e voltar ao texto original. Só havia um pequeno problema: ele não havia decorado aquelas falas. Como não havia tempo suficiente para memorizar o texto novamente, a equipe precisou escrever o monólogo em cartões e posicioná-los ao lado da cabeça de Rob Lowe para que Hauer pudesse acompanhar as falas durante a cena.

São situações como essa que acabam entrando na história de um ator. E, no caso de Hauer, ele não precisava exatamente de mais uma cena para se tornar inesquecível. O homem já havia nos dado Roy Batty em "Blade Runner" e aquele monólogo que entrou para a história do cinema. Por isso, quando Hauer diz "Hora de morrer...", é impossível não lembrar de outra despedida muito mais famosa: "Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva."

E, de repente, o vampiro de "A Mansão Marsten" ganha uma pequena sombra de Roy Batty.

Kingverso na Mansão Marsten

O Kingverso aqui é discreto, mas existe. Em determinado momento, um personagem canta em um karaokê a música tradicional de "Conta Comigo" (1986). Há também um corvo posicionado de maneira bastante semelhante à imagem que aparece em "Dança da Morte" (1994), outra adaptação de Stephen King. E há uma coincidência curiosa envolvendo o elenco. Na época da produção, James Cromwell, que interpreta o padre Donald Callahan, era casado com Julie Cobb, atriz que havia interpretado Bonnie Sawyer na adaptação de 1979 de "Os Vampiros de Salem". Ou seja, até fora das telas existia uma ligação entre as duas produções.

O personagem de Callahan também guarda uma diferença importante em relação à minissérie. Na adaptação, ele não sobrevive aos acontecimentos, enquanto no livro de King seu destino é outro. E isso ganha ainda mais importância quando lembramos que Callahan continua sua trajetória dentro do universo do escritor e aparece em "A Torre Negra". É uma dessas situações em que uma adaptação pode encerrar a história de um personagem, enquanto o universo literário permite que ele continue caminhando por outras histórias. Para quem acompanha King, essas conexões acabam sendo uma recompensa adicional.

Finalizando...

Sempre haverá quem prefira uma versão à outra, e isso é completamente natural. Cada filme encontra o espectador em um momento diferente da vida, e determinadas escolhas de elenco, atmosfera ou memória afetiva podem pesar muito nessa comparação. No meu caso, "Os Vampiros de Salem" de 1979 tem elementos que considero superiores, principalmente sua atmosfera e o visual de Barlow. Já "A Mansão Marsten" desenvolve melhor os personagens, amplia as subtramas e trabalha de maneira mais interessante o trauma de Ben. São qualidades diferentes, que não precisam ser colocadas em uma disputa para que uma delas seja reconhecida.

Por isso, continuo com a mesma ideia: aproveite o melhor dos dois mundos. Um remake é outra interpretação de uma história que já existia. Ele pode funcionar mais ou menos para cada espectador, pode acertar onde o original errou e também perder justamente aquilo que tornou a primeira versão especial. Deixe cada filme ocupar seu próprio espaço. Afinal, comparar é inevitável. O que não precisamos fazer é assistir a um deles tentando enxergar o outro.

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