O NEVOEIRO (2017) - SÉRIE REVIEW
Na história, uma névoa misteriosa envolve lentamente a cidade de Bridgton, no Maine, criando uma barreira quase impenetrável à visibilidade. No começo, ninguém sabe exatamente o que está acontecendo. Aos poucos, porém, fica claro que o problema é muito maior do que uma simples mudança climática. Existem coisas dentro daquela névoa, criaturas e fenômenos que atacam qualquer pessoa que se arrisque a sair.
Com a cidade isolada, diferentes grupos acabam presos em lugares que deveriam representar segurança: um supermercado, uma igreja, um hospital. Só que a segurança desaparece rapidamente quando o desconhecido está do lado de fora e o medo começa a dominar quem está do lado de dentro.
E existe algo ainda mais interessante nessa situação. A névoa não precisa apenas esconder monstros. Ela também traz à tona aquilo que os personagens carregam consigo. Medos, culpas, crenças e ressentimentos passam a interferir na maneira como cada um reage ao que está acontecendo. Em uma situação extrema, aquilo que existe dentro de uma pessoa pode ser tão perigoso quanto qualquer criatura escondida na névoa.
A origem do mal
"O Nevoeiro" é um romance de terror psicológico e ficção científica escrito por Stephen King e publicado originalmente pela Viking Press, em 1980, como parte da antologia "Dark Forces". Uma versão revisada foi incluída posteriormente em "Skeleton Crew", de 1985.
A história se passa na pequena cidade de Bridgton, no Maine, tomada por uma névoa anormal que esconde criaturas vindas de outro mundo. O protagonista e narrador, David Drayton, fica preso em um supermercado com seu filho pequeno e precisa lidar com dois problemas completamente diferentes. Do lado de fora estão as criaturas. Do lado de dentro, estão as pessoas.
Essa divisão é importante porque King não transforma o supermercado em um simples esconderijo. O local passa a funcionar como uma pequena representação da própria sociedade. Existem pessoas tentando manter alguma ordem, outras dominadas pelo medo e algumas procurando desesperadamente uma explicação para aquilo que ninguém consegue compreender.
É nesse ambiente que aparece o fundamentalismo religioso. A senhora Carmody interpreta a catástrofe como uma punição divina e passa a convencer outras pessoas de que os acontecimentos têm uma explicação religiosa. Conforme o medo aumenta, sua influência também cresce. King coloca, assim, duas ameaças lado a lado: os monstros que estão do lado de fora e a capacidade dos seres humanos de criar novos monstros quando estão desesperados.
A inspiração de King para escrever "O Nevoeiro" veio de uma visita a um supermercado depois de uma tempestade. Ao observar o local, imaginou animais pré-históricos e insetos gigantes cercando o edifício. Uma situação banal acabou dando origem a uma das premissas mais eficientes de sua carreira: colocar pessoas comuns em um lugar cotidiano e retirar delas qualquer possibilidade de entender ou controlar aquilo que está acontecendo. A obra foi indicada ao World Fantasy Award e ao Locus Award em 1981 e acabou se tornando uma das histórias mais conhecidas de King dentro do terror e da ficção científica.
Depois do lançamento da adaptação cinematográfica dirigida por Frank Darabont, em 2007, surgiu a ideia de transformar a história em uma série. Os produtores executivos Bob Weinstein e Harvey Weinstein anunciaram planos para desenvolver uma minissérie baseada no filme. Em novembro de 2013, Bob Weinstein divulgou o início da produção de um projeto de dez episódios pela Dimension Television. Durante esse período, não estava claro se Darabont, responsável pelo filme de 2007, teria algum envolvimento. O projeto acabou ficando parado por um tempo, até que, em setembro de 2015, a Dimension Television contratou o roteirista Christian Torpe para desenvolver a série.
Em fevereiro de 2016, o canal Spike encomendou o episódio piloto. Dois meses depois, foi anunciado que a Spike transmitiria a série completa. Em julho daquele ano, a produção divulgou o elenco e confirmou o início das filmagens em Halifax, na Nova Escócia. A série, portanto, nasceu de uma ideia que já tinha passado pelo cinema e que carregava consigo uma adaptação bastante conhecida. Só que, em vez de simplesmente continuar a história de David Drayton, decidiu construir novos personagens e uma nova situação. Essa escolha permitia explorar novamente o conceito de uma comunidade isolada pelo medo, mas também criava um problema: o espectador já conhecia a força da premissa e, principalmente, já tinha uma referência muito forte de como aquele universo poderia funcionar.
É certo dizer que a série acabou sendo sacrificada por uma combinação de fatores. A audiência não foi suficiente para garantir sua continuidade, com a primeira temporada registrando média de 0,14 entre adultos de 18 a 49 anos e 462 mil espectadores por episódio. Mas o cancelamento também aconteceu em um momento de transformação da própria emissora. A Spike estava passando por uma reestruturação que resultaria na criação da Paramount Network. "Yellowstone" e "Waco" seriam alguns dos primeiros dramas originais produzidos para a nova rede.
Ou seja, "O Nevoeiro" acabou desaparecendo justamente quando a emissora estava mudando sua identidade. A série teve apenas uma temporada e deixou sua história sem uma conclusão definitiva. E isso nos leva a uma questão curiosa: como uma mesma ideia pode produzir três finais completamente diferentes?
Antes de falar sobre os finais, gostaria de tecer alguns comentários sobre a Névoa, a Perda da Humanidade e, afinal, "O que há na névoa?"
A pergunta parece ser o centro da história, mas, depois de algum tempo, percebi que a resposta importa menos do que imaginamos. Claro que queremos saber o que existe lá fora. Queremos ver os monstros, entender de onde vieram e descobrir como aquilo tudo começou. Só que Stephen King está mais interessado naquilo que acontece com as pessoas quando elas não conseguem responder a essas perguntas.
A névoa coloca todos diante de uma situação que não conseguem compreender. E, quando não existe uma explicação, cada pessoa procura uma. Alguns tentam agir racionalmente. Outros entram em pânico. Há quem procure respostas científicas, quem procure explicações religiosas e quem simplesmente tente sobreviver até o problema passar.
É aí que o medo deixa de ser apenas uma reação diante dos monstros. Ele passa a influenciar decisões, relações e comportamentos. Uma pessoa pode entrar na névoa e morrer. Outra pode permanecer dentro do supermercado e, mesmo assim, acabar destruindo a própria vida por causa daquilo que acredita estar acontecendo. O horror de "O Nevoeiro" está justamente nessa possibilidade. O perigo não está apenas naquilo que desconhecemos, mas também na maneira como reagimos quando somos colocados diante dele.
A névoa
Ela é um dos elementos mais fortes do romance justamente porque não funciona apenas como cenário. Depois da tempestade, David observa aquela massa branca se aproximando lentamente pelo lago e percebe que existe alguma coisa errada. Ela não se comporta como uma névoa comum e ninguém consegue explicar sua origem. David e Brent não sabem de onde ela veio, quanto tempo ficará ali ou o que existe dentro dela. E essa falta de respostas transforma algo aparentemente banal em uma ameaça. A névoa desafia aquilo que os personagens entendem como normal e, ao fazer isso, cria uma fronteira entre o mundo que eles conheciam e alguma coisa completamente desconhecida.
Ela também interfere na própria percepção. Do lado de dentro, as pessoas sabem que existe uma cidade do outro lado das portas e das janelas, mas já não conseguem enxergá-la. O supermercado continua sendo o mesmo, as pessoas continuam ali e os objetos continuam nos mesmos lugares. Ainda assim, tudo parece diferente porque o mundo exterior desapareceu. É uma imagem bastante simples e, ao mesmo tempo, muito eficiente. Basta retirar a visão para transformar um ambiente familiar em território desconhecido.
E David ainda carrega uma suspeita que aumenta o peso da situação: a possibilidade de que aquilo seja resultado de interferência humana. A névoa, então, deixa de representar apenas um fenômeno inexplicável e passa a carregar uma pergunta ainda mais incômoda: e se o próprio homem tiver criado aquilo que agora não consegue controlar?
A Perda da Humanidade
A chegada da névoa coloca os personagens diante de uma situação em que as regras habituais deixam de funcionar. Não existe polícia suficiente, não existe comunicação normal, não existe uma explicação segura e ninguém sabe quanto tempo aquela situação vai durar. Aos poucos, o medo começa a mudar as pessoas. Alguns recorrem ao álcool para aliviar a tensão. Outros saqueiam o supermercado. Pequenos hábitos e regras sociais que pareciam tão importantes antes passam a perder valor diante da necessidade de sobreviver. O que antes seria considerado absurdo começa a parecer aceitável quando as pessoas acreditam que o mundo acabou do lado de fora.
E é justamente nesse ambiente que o extremismo religioso ganha espaço. A senhora Carmody não cria o medo. Ela aproveita um medo que já existe. Quanto mais assustadas ficam as pessoas, maior é a necessidade de encontrar algum sentido para aquilo. Carmody oferece uma resposta pronta, simples e absoluta. Para ela, os acontecimentos possuem uma explicação e também exigem um sacrifício.
É assim que o desespero passa a alimentar o fanatismo. A cada novo acontecimento, sua interpretação parece ganhar força entre aqueles que já não sabem em quem acreditar. O perigo deixa de estar apenas do lado de fora. Dentro do supermercado, as pessoas começam a formar grupos, escolher inimigos e aceitar ideias que, em uma situação normal, provavelmente rejeitariam. E esse talvez seja o aspecto mais assustador de "O Nevoeiro". Os monstros podem matar algumas pessoas, mas o medo consegue transformar as próprias vítimas em uma ameaça para os outros.
Os finais
O final do filme de Darabont
Frank Darabont decidiu levar a história para um caminho completamente diferente. David Drayton (Thomas Jane) e os sobreviventes deixam o supermercado depois de perceberem que não existe saída. Dentro do carro, sem esperança e sem saber o que fazer, David toma uma decisão desesperada. Ele atira nos companheiros de viagem, incluindo seu próprio filho.
Depois, sai do veículo, esperando ser morto pelas criaturas. Só que acontece exatamente o contrário. A névoa começa a se dissipar e o que aparece diante dele é uma operação militar. Os soldados estão controlando a situação e a cidade começa a ser tomada novamente por pessoas que sobreviveram. É um dos finais mais cruéis que uma história poderia escolher, porque David passa toda a trama tentando proteger o filho e termina justamente tirando sua vida. E, quando acredita que finalmente será morto, descobre que precisava apenas esperar um pouco mais.
A ironia é brutal. No livro, David continua dirigindo sem saber se encontrará salvação. No filme, ele encontra a salvação imediatamente depois de destruir aquilo que mais queria proteger.
O final da série
E então chegamos ao final que, na prática, não termina. A temporada foi única, e a série não chegou a uma segunda para desenvolver aquilo que havia colocado em jogo. E esse é justamente o problema. Em uma história como "O Nevoeiro", o final não é um detalhe que pode ser deixado para depois. No filme, ele é parte fundamental da experiência, porque a última revelação muda completamente o peso de tudo o que acabamos de assistir.
Na série, até acontece algo parecido, só que sem tempo para trabalhar a ideia. Descobrimos que os militares estão alimentando a névoa com prisioneiros, numa explicação que muda a origem do fenômeno e abre uma nova possibilidade para a história. O problema é que a série termina praticamente no instante em que essa informação aparece. E é isso.
Ao escolher esse caminho, a produção precisava de uma continuação para desenvolver a descoberta, explicar o que os militares estavam fazendo e, principalmente, mostrar até onde aquela nova ideia poderia levar a história. Sem uma segunda temporada, o que poderia funcionar como uma virada acaba parecendo apenas uma porta aberta que ninguém teve a chance de atravessar.
No filme, fica o choque. Na série, fica a pergunta. E não é exatamente aquela pergunta provocada por um bom mistério, que continua na cabeça depois dos créditos. É mais um inevitável: "Como assim??"

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