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HAVEN (2010/2015) - SÉRIE REVIEW

 

Vagamente

Em 1948, um homem foi encontrado morto em uma praia na Austrália. Não havia identificação, e no bolso estava um pedaço de papel com duas palavras em persa: “Tamám Shud”, algo como “acabou” ou “está terminado”. O detalhe mais estranho é que aquele pedaço havia sido arrancado da última página de uma cópia do "Rubaiyat de Omar Khayyam". Quando o livro foi localizado, apareceram ainda números de telefone e uma espécie de mensagem que nunca foi satisfatoriamente decifrada. O caso do Homem de Somerton se transformou em um dos grandes mistérios da Austrália e continua alimentando teorias até hoje.

E é justamente aí que começa o meu “vagamente”. Stephen King se inspirou nesse caso para escrever "The Colorado Kid", publicado em 2005 pela Hard Case Crime. No livro, dois adolescentes encontram o corpo de um homem desconhecido em uma ilha na costa do Maine. A investigação avança, volta, encontra becos sem saída e, mesmo quando a identidade do morto finalmente é descoberta, algumas perguntas continuam sem resposta.

Um homem misterioso, uma morte sem explicação satisfatória, um caso que parece pedir uma resposta e, quando ela finalmente chega, ainda deixa alguma coisa faltando, é o tipo de história que parece ter sido feita sob medida para Stephen King. Porém, ela estava longe de terminar.

É aqui que entra "Haven".

A série acompanha Audrey Parker (Emily Rose), uma agente do FBI que chega à cidade de Haven, no Maine, para investigar o assassinato de um ex-presidiário. O problema é que, quanto mais ela investiga, mais percebe que a cidade está longe de ser aquele lugar pacato que aparentava ser. Haven abriga pessoas com poderes sobrenaturais, acontecimentos inexplicáveis e segredos que também acabam envolvendo a própria Audrey e seu passado. 

E a ligação com King é, digamos, vaga. A série foi inspirada livremente por "The Colorado Kid", que, por sua vez, nasceu daquela história real do Homem de Somerton. É quase uma brincadeira de telefone sem fio literário: um acontecimento real inspira King, King cria uma história, e essa história serve apenas como ponto de partida para outra produção que toma um caminho completamente diferente.

Em 2009, a Universal Networks International anunciou "Haven", inicialmente planejada para 13 episódios. A série estreou no Syfy em 9 de julho de 2010 e acabou permanecendo no ar por cinco temporadas, até dezembro de 2015.

E aqui temos outra curiosidade. O Syfy era o antigo Sci-Fi Channel, aquele canal que construiu boa parte de sua programação em torno de produções de ficção científica, fantasia e terror feitas com recursos relativamente modestos. Era praticamente uma fábrica de filmes e séries que precisavam encontrar soluções criativas para compensar aquilo que não tinham em dinheiro. "Haven" acabou seguindo um pouco essa tradição.

Dando vida ao refúgio

Não faltam elementos interessantes na série. Os personagens são bem desenvolvidos e conseguem criar vínculos com o espectador, cada um carregando seus próprios problemas e histórias. E os mistérios de Haven têm aquele efeito bastante eficiente de nos fazer terminar um episódio pensando que finalmente entendemos alguma coisa, apenas para descobrir que existe outra pergunta esperando logo adiante.

O problema é que cinco temporadas exigem bastante fôlego. E "Haven" nem sempre tinha histórias suficientes para justificar esse percurso. Alguns episódios parecem existir apenas para preencher espaço entre acontecimentos realmente importantes, enquanto determinados personagens poderiam ter sido melhor aproveitados. E, quando finalmente chegamos a algumas respostas, elas nem sempre provocam o impacto que a própria série vinha prometendo.

Por isso, seja tão curioso lembrar que ela conseguiu permanecer cinco temporadas no ar. A recepção da crítica e do público ficou, de maneira geral, em uma faixa intermediária, sem transformar "Haven" em um fenômeno. Ainda assim, o programa encontrou público suficiente para continuar por vários anos.

Kingverso da loucura

E, para mim, é justamente aí que começa a parte mais divertida. Porque, se a série já era apenas vagamente baseada em King, os responsáveis por ela resolveram colocar pequenas peças do universo do escritor espalhadas por todos os cantos.

Derry e Castle Rock aparecem mencionadas ao longo da série. E quem conhece Stephen King sabe que essas duas cidades não são exatamente endereços aleatórios. Derry é palco de histórias como "It", "Saco de Ossos" e "O Apanhador de Sonhos". Castle Rock aparece em "Trocas Macabras", "A Metade Sombria", "Cujo" e "A Hora da Zona Morta".

Junto com Jerusalem's Lot, de "Salem's Lot", elas formam uma espécie de santíssima trindade geográfica do universo de King. Todas ficam no Maine e funcionam como aqueles lugares para onde o escritor pode voltar sempre que precisa colocar alguma coisa estranha para acontecer. E "Haven" brinca bastante com isso.

Em determinado momento aparece um folheto de 1698 com o nome “The Most Revered Flagg”. Randall Flagg, evidentemente, é um dos grandes vilões do universo de King, associado a "A Dança da Morte". O próprio romance "Os Tommyknockers" também tem Haven como cenário.

Depois vem "Captain Trip's Cafe". O nome aparece em um folheto de comida para viagem e é uma referência à epidemia de "A Dança da Morte", em que Captain Trips é o nome dado à praga que dizima boa parte da população. E tem mais. O "Gun & Rose Diner" faz referência à "Torre Negra", com a rosa e Roland, o pistoleiro de outro mundo.

Nos créditos de abertura vemos um folheto, datado de 1698 onde você lê "The most Revered Flagg". Na abertura do episódio 13 da primeira temporada, aparece uma bolsa com o nome “Prisão Estadual de Shawshank”. O lugar é recorrente em histórias de King e ficou mundialmente conhecido pela adaptação de "Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank", transformada no cinema em "Um Sonho de Liberdade" (1994).

Até os episódios entram na brincadeira. "Fear and Loathing" homenageia "It", enquanto "Love Machine" mistura referências a "Comboio do Terror" e "Christine". E, como se isso ainda fosse pouco, em "Resurfacing", da primeira temporada, aparece um Plymouth Fury 1958 sobre uma mesa, ou seja, Christine, o carro assassino, estava por ali esperando um novo dono... para brincar, claro.

Outra referência marcante está relacionada ao número 27. Em "Haven", os Troubles retornam a cada 27 anos. Em "It", Pennywise também desaparece durante 27 anos antes de voltar a Derry para se alimentar do medo das crianças. E até o elenco oferece uma dessas conexões que fazem a gente levantar a sobrancelha. Nicholas Campbell, que interpreta o chefe de polícia Wuornos, já havia vivido Frank Dodd, o assassino de "A Hora da Zona Morta" (1983).

Quanto mais você procura, mais encontra. No começo, eu falei que tudo isso começava com o Homem de Somerton, passava por Stephen King, chegava a "The Colorado Kid" e, depois, desembocava em "Haven". Só que, quando chegamos ao fim, já estamos muito além do livro que serviu de inspiração. Temos Derry, Castle Rock, Randall Flagg, Shawshank, "A Dança da Morte", "Louca Obsessão", "A Torre Negra", "Christine", "It" e até atores que já haviam atravessado outras histórias de King. A série parece ter sido construída sobre uma espécie de caça ao tesouro para quem conhece o autor.

Mesmo assim, a série permanece na minha cabeça de uma maneira tão... vaga. Se alguém me perguntar se eu gostei da série, minha resposta provavelmente será a mais adequada possível: não sei. Eu me lembro dela... Vagamente.

O que pensei ao rever

Enquanto revia Haven, assisti pela primeira vez às 11 temporadas de Arquivo X. De certa forma, Haven parece capturar aquele clima de investigação dos fenômenos paranormais, porém, com os eventos acontecendo por toda parte na cidade. A série também dialoga com outras da época, como 4400 (2004–2007), Eureka (2006–2012), Torchwood (2006–2011) e A Mulher Biônica (2007), seja pelos temas explorados, gênero ou estética.

E isto não é um elogio, é uma constatação de como as séries do período eram produzidas, especialmente as de ficção. Talvez o principal problema da série esteja justamente na maneira como Haven é apresentada. A cidade, que deveria carregar uma atmosfera de mistério e estranheza capaz de sustentar o próprio título da produção, raramente transmite essa sensação. 

Faltam cenários marcantes, habitantes realmente intrigantes e aquela inquietação constante que se espera de uma história inspirada em Stephen King. No fim, tirando algumas mudanças repentinas no clima, Haven passa muito mais a impressão de um tranquilo destino para passar o fim de semana do que de uma cidade onde coisas inexplicáveis estão prestes a acontecer.


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