THE STAND (2020) - SÉRIE REVIEW
The Stand
É estranho pensar em "Dança da Morte", a versão de 1994, sob a perspectiva de tudo o que aconteceu com o mundo a partir de 2020. Durante a pandemia de COVID-19, assistir a uma história sobre uma doença que se espalha rapidamente, elimina grande parte da população e deixa os sobreviventes tentando reconstruir a sociedade ganhou um significado que ninguém poderia ter imaginado quando a minissérie foi produzida. Mas é importante separar as coisas. "Dança da Morte", tanto o livro quanto suas adaptações, não previu a pandemia. A ideia de uma doença devastadora já fazia parte de inúmeras histórias de ficção científica, terror e fantasia muito antes de Stephen King escrever seu romance. Era um dos muitos cenários apocalípticos possíveis mostrados pelo cinema e pela televisão.
Só que, de repente, aquela ficção ficou próxima demais da realidade. Foi quase como se uma teoria da conspiração tivesse se tornado real. E então vem a coincidência que torna tudo ainda mais assustador. Em 13 de setembro de 2019, começaram as filmagens da nova adaptação de "The Stand". Poucos meses depois, o mundo entraria em uma pandemia. A produção terminou no início de março de 2020, praticamente às vésperas dos primeiros grandes bloqueios provocados pela COVID-19 nos Estados Unidos e no Canadá. E, em dezembro daquele mesmo ano, quando o mundo ainda enfrentava uma doença que já havia mudado completamente a rotina de milhões de pessoas, a nova versão de "The Stand" chegava ao público.
Não foi oportunismo, já que a produção estava em andamento antes da pandemia. Foi uma coincidência monstruosa.
Há uma outra ironia envolvendo "The Stand", desta vez fora da própria história. De um lado, Amber Heard vivia um período extremamente conturbado de sua vida pública. Do outro, Ezra Miller estava envolvido em uma série de episódios e acusações que também chamaram atenção, incluindo alegações de assédio, furto e asfixia. Os dois atores acabariam associados a problemas de imagem envolvendo a DC e seus respectivos filmes, "Aquaman 2: O Reino Perdido" e "The Flash".
E seus personagens, Nadine Cross e The Kid, acabam escolhendo o mesmo lado do conflito apocalíptico, ao lado de Randall Flagg. É uma daquelas situações em que a arte copiou, involuntariamente, a vida.
Cenário apocalíptico... elenco caótico, ou o contrário, como preferir.
A história
A trama começa com um acidente em uma instalação de pesquisa biológica militar. Uma cepa mortal de gripe acaba escapando e rapidamente se espalha pelo mundo. A doença dizima a maior parte da população e deixa um número reduzido de sobreviventes. A partir daí, a história deixa de ser apenas sobre uma pandemia e passa a tratar daquilo que acontece depois dela.
Os sobreviventes começam a se dividir em torno de duas figuras centrais. De um lado está Mãe Abigail, uma mulher de 108 anos que representa a comunidade de Boulder, Colorado. Do outro está Randall Flagg, uma figura sobrenatural e carismática que reúne seus seguidores em Las Vegas.
Entre os personagens centrais estão Stu Redman, interpretado por James Marsden, Frannie Goldsmith, vivida por Odessa Young, Nick Andros, interpretado por Henry Zaga, e Larry Underwood, vivido por Jovan Adepo. A adaptação mantém o núcleo da história criada por Stephen King, acompanhando essas pessoas desde a destruição provocada pela doença até a formação das duas comunidades. A pandemia é apenas o ponto de partida. O verdadeiro conflito está naquilo que os sobreviventes farão com o mundo que restou.
E é aí que entram algumas das ideias mais interessantes do romance: democracia contra autocracia, autossacrifício contra narcisismo, comunidade contra individualismo e, naturalmente, a velha batalha entre o bem e o mal.
O projeto
Chegar até essa minissérie foi uma longa jornada. Em janeiro de 2011, a Warner Bros. Pictures e CBS Films começaram a desenvolver uma adaptação cinematográfica de "The Stand". Em agosto daquele ano, David Yates foi escolhido para dirigir, com Steve Kloves responsável pelo roteiro. Yates acabou deixando o projeto e explicou que acreditava que a história funcionaria melhor como minissérie. Em outubro de 2011, Ben Affleck assumiu a direção. Alguns meses depois, em janeiro de 2012, David Kajganich foi contratado para escrever o roteiro.
A tarefa, porém, estava longe de ser simples. "The Stand" é um romance enorme, com uma quantidade gigantesca de personagens, acontecimentos e histórias paralelas. Em uma entrevista de 2012, Affleck admitiu as dificuldades encontradas para adaptar o material. Kajganich também explicou que o projeto inicialmente seria dividido em dois filmes, mas a Warner Bros. decidiu transformá-lo em apenas um longa, obrigando-o a reescrever o roteiro.
Não funcionou.
Em agosto de 2013, Scott Cooper substituiu Affleck na direção. Poucos meses depois, em novembro, ele também deixou o projeto, citando justamente a dificuldade de condensar uma história daquele tamanho em um único filme. Em fevereiro de 2014, Josh Boone entrou no projeto como roteirista e diretor. Durante esse período, chegou a manifestar interesse em Christian Bale para interpretar Randall Flagg e Matthew McConaughey como Stu Redman.
A adaptação cinematográfica continuava presa em um processo de desenvolvimento que parecia não terminar. Em setembro de 2017, Stephen King mencionou a possibilidade de transformar a história em uma série para o Showtime ou para a Paramount+. No ano seguinte, a CBS All Access começou a desenvolver uma série limitada de dez horas, ainda com Josh Boone envolvido.
O livro
O romance de Stephen King foi publicado originalmente em 1978, em capa dura, com a história ambientada em 1980. Quando chegou ao formato brochura, em 1980, a ambientação foi alterada para 1985. "The Stand" também marcou a primeira aparição de Randall Flagg, um dos personagens mais recorrentes da obra de King. O escritor voltaria a utilizar Flagg em outros livros, transformando-o em uma das figuras mais reconhecíveis de seu universo. Mas a história que conhecemos hoje não é exatamente aquela publicada originalmente. Quando King entregou o manuscrito à Doubleday, a editora considerou que o tamanho da obra tornaria o livro caro demais para o mercado. Aproximadamente 400 páginas, algo em torno de 150 mil palavras, foram retiradas da versão original.
Em 1990, King lançou a chamada "The Stand: The Complete and Uncut Edition". A nova versão recuperava a maior parte do material cortado, selecionado pelo próprio autor, e atualizava a ambientação dos anos 1980 para os anos 1990. Com 1.152 páginas, tornou-se o livro mais extenso publicado por Stephen King até então.
A edição também ganhou um novo prefácio escrito pelo autor e ilustrações de Bernie Wrightson. Houve ainda uma edição de luxo limitada a 1.250 exemplares numerados e 52 exemplares identificados por letras. Conhecida como edição “Coffin Box”, por vir dentro de uma caixa de madeira em formato associado a um caixão, a edição foi assinada por King e Wrightson.
Stephen King e a pandemia
Depois que a COVID-19 começou a se espalhar pelo mundo, a proximidade entre a realidade e a ficção de "The Stand" se tornou inevitável. O próprio Stephen King comentou sobre isso durante a pandemia. “Eu ainda estou me desculpando por 'The Stand' 40, 50 anos depois”, disse o escritor ao falar sobre seu romance, no qual um vírus de gripe transformado em arma escapa acidentalmente e mata a maior parte da humanidade. Segundo King, algumas pessoas chegavam até ele usando máscaras e diziam: “Sinto como se estivesse vivendo em uma história de Stephen King”.
A resposta do escritor foi simples: “Sinto muito por isso”. É uma frase que resume bem o absurdo da situação.
Stephen King já explicou que pretendia criar uma espécie de "Senhor dos Anéis" moderno e americano. A comparação pode parecer exagerada até observarmos a estrutura da história. Existe uma comunidade de sobreviventes, uma força maligna reunindo seguidores, personagens atravessando grandes distâncias e uma jornada que conduz inevitavelmente ao confronto final. Las Vegas funciona como uma espécie de Mordor, Randall Flagg ocupa o espaço do grande antagonista e Alexander Skarsgård interpreta essa figura demoníaca com uma presença que combina carisma e ameaça.
Do outro lado está Boulder, liderada por Mãe Abigail. Ela não é exatamente Gandalf, evidentemente, mas a comparação não deixa de ser curiosa. Mãe Abagail possui sua própria dimensão espiritual e aparece associada a um cajado que visualmente lembra, em determinados momentos, a imagem tradicional do mago de Tolkien.
Kingverso da loucura
Como acontece em muitas adaptações de Stephen King, "The Stand" está cheia de pequenas referências ao restante de sua obra. Um dos tapetes do Inferno Hotel possui um padrão semelhante ao do Hotel Overlook de "O Iluminado". No quarto episódio, enquanto Nick e Tom estão fugindo de Julie, Stephen King faz uma pequena participação especial. Ele aparece entre as pessoas retratadas em um pôster da Hemmingford Home.
No final do quinto episódio, podemos ouvir “Don't Fear the Reaper”, do Blue Öyster Cult. A música também aparecia no início da minissérie de "Dança da Morte" de 1994, criando uma ligação direta entre as duas adaptações. Há ainda uma referência bastante divertida a "Louca Obsessão". Quando Larry invade a casa de Harold, sua presença acaba sendo denunciada por uma peça de xadrez fora do lugar. Em "Louca Obsessão", Paul também consegue circular pela casa de Annie sem ser percebido, até que uma pequena alteração na posição de um objeto denuncia sua presença.
E o próprio Mick Garris, diretor da adaptação de "Dança da Morte" de 1994, aparece no nono episódio. Durante o churrasco de 4 de julho, Garris pode ser visto segurando uma cerveja enquanto Norris conversa com ele.
Entre erros e acertos
Há muitos méritos nessa nova versão. A produção é grandiosa, o elenco é numeroso e existe um cuidado evidente em transportar para a televisão uma história que durante décadas parecia grande demais para uma única adaptação. A presença de Stephen King também dá ao projeto uma característica especial, principalmente porque ele não apenas acompanhou a produção, como participou da criação de um novo final.
Na direção, Josh Boone e Vincenzo Natali são dois nomes curiosos. Boone já havia trabalhado em "Os Novos Mutantes", enquanto Natali dirigiu "Cubo" e "Splice". São cineastas que conhecem bem histórias de ficção científica, horror e fantasia, gêneros que conversam diretamente com o universo de "The Stand".
A série também consegue reproduzir a dimensão épica do romance. Existe uma sensação de que estamos acompanhando uma história muito maior do que seus próprios personagens. A destruição do mundo é apenas o primeiro estágio. Depois vem a tentativa de reconstrução e, com ela, a disputa sobre que tipo de sociedade será criada.
Uma história sobre uma doença que se espalha pelo mundo e modifica completamente a sociedade passou a ser exibida enquanto o público vivia uma pandemia real. Os temas relacionados à comunidade, ao individualismo, ao autoritarismo, à responsabilidade coletiva e ao sacrifício pessoal ganharam uma dimensão que provavelmente não teria existido em outro momento.
Porém, na minha visão, o que compromete "The Stand" são as escolhas. Escolhas narrativas, escolhas de adaptação, escolhas de elenco e até escolhas relacionadas à maneira como a história de Stephen King foi reorganizada para a televisão. A série possui material suficiente para ser excelente, mas nem sempre sabe o que fazer com aquilo que tem. O tamanho da história continua sendo um obstáculo, mesmo depois de abandonar o formato de filme. Algumas decisões fazem com que determinados personagens percam força, enquanto certas passagens parecem receber um tratamento diferente daquele que mereciam.
E isso é especialmente frustrante porque a versão de 1994 apresenta justamente o problema inverso. A primeira adaptação não possui boa parte das qualidades técnicas e de produção desta nova versão. É uma produção televisiva de outra época, com limitações evidentes. Ainda assim, acerta em escolhas que ajudam a história a funcionar.
A nova versão tem recursos, elenco, efeitos, liberdade criativa e a participação direta do próprio Stephen King. Tem muita coisa a seu favor. Mas ter mais recursos não significa automaticamente fazer melhores escolhas.
"The Stand" vale a experiência, ainda que seja apenas para reconhecer que a história de King está mais próxima da realidade do que gostaríamos de imaginar.
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