O TELEFONE DO SR. HARRIGAN (2022) - FILM REVIEW
Falar de filmes ou séries que adaptam o universo de Stephen King virou para mim uma obrigação. E mesmo quando tenho dúvidas, basta eu escutar o nome Maine no início, que um multiverso se abre na minha mente, e um que faz muito mais sentido que o da Marvel ou DC.
As tramas costumam envolver vampiros, ataques de monstros ou pessoas aparentemente normais, como em "Eclipse Total", "O Aprendiz" ou "Lembranças de um Verão". E "O Telefone do Sr. Harrigan" dialoga muito bem com estes três últimos, justamente porque o sobrenatural aqui não chega acompanhado de grandes criaturas ou acontecimentos espetaculares. Ele se infiltra em uma situação aparentemente comum e vai crescendo aos poucos, até que aquilo que parecia apenas uma história sobre amizade, solidão e amadurecimento ganha uma dimensão bem mais sombria.
Craig (Jaeden Martell) é um adolescente que enfrenta os problemas bastante conhecidos de quem está no lado errado da hierarquia escolar. Sofre bullying, não se encaixa muito bem e encontra no Sr. Harrigan (Donald Sutherland), um homem idoso e solitário, uma companhia inesperada. Craig começa a visitá-lo regularmente e os dois constroem uma relação que vai muito além daquela que poderia existir entre um garoto e um velho para quem ele presta pequenos serviços.
Até que Craig resolve presentear o amigo com um smartphone de última geração. A escolha parece apenas uma demonstração de carinho, uma tentativa do garoto de aproximar Harrigan de um mundo que está mudando rapidamente. Só que a morte do velho acontece poucos dias depois e transforma aquele objeto em algo completamente diferente.
Harrigan é enterrado com o aparelho no bolso, quase como se Craig tivesse colocado junto dele uma lembrança daquele vínculo que os dois construíram. Incapaz de aceitar completamente a perda, o garoto começa a ligar para o número do amigo e deixar mensagens na caixa postal. Até que, para sua surpresa, recebe respostas. É aí que o telefone deixa de ser apenas um telefone.
As mensagens vindas do outro lado da linha começam a acompanhar acontecimentos violentos na cidade. Pessoas que fizeram mal a Craig passam a sofrer consequências, e o garoto começa a perceber que talvez exista uma ligação entre aquilo que diz ao morto e o que acontece depois. O velho, mesmo depois de enterrado, continua presente na vida do rapaz.
O bullying
Existe um elemento que aparece com enorme frequência nas histórias de Stephen King: seus personagens são colocados diante de pessoas cruéis, humilhações e situações de abuso. O bullying não aparece apenas como um problema passageiro da adolescência. Muitas vezes ele é uma das forças que definem o personagem, que ajudam a explicar seus medos, suas escolhas e até sua relação com o mundo.
E King também costuma transformar determinadas figuras em uma espécie de resposta a esse mal. São personagens que, de uma forma ou de outra, acabam funcionando como instrumentos de justiça, vingança ou punição. Em "O Telefone do Sr. Harrigan", é como se o velho assumisse exatamente essa função na vida de Craig.
O interessante é que essa proteção só se torna realmente sobrenatural depois da morte. Harrigan passa a ocupar uma posição que me lembra bastante Ben Kenobi em "Guerra nas Estrelas" (1977). O mestre morre, mas sua importância para o protagonista não termina ali. Pelo contrário, sua ausência acaba transformando sua presença em algo ainda maior.
A comparação fica ainda mais curiosa quando lembramos do confronto entre Ben e Vader. Quando Ben permite que Vader o atravesse com o sabre de luz, ele deixa de existir fisicamente, mas retorna de outra maneira, como uma presença espiritual que continua orientando Luke. Harrigan segue uma lógica parecida, ainda que dentro de um universo muito mais sombrio e, obviamente, com um telefone celular no lugar de uma espada de luz.
Isso também dialoga com algumas declarações de King sobre a própria adolescência. O autor nunca demonstrou grande carinho por seus anos de escola e chegou a dizer que odiava aquele período. Em uma de suas frases mais ácidas, afirmou que, se alguém realmente gostava de ser adolescente, provavelmente havia alguma coisa errada com essa pessoa.
Craig carrega justamente essa sensação de não ser ouvido. O que ele encontra em Harrigan é alguém disposto a escutá-lo, conversar com ele e levar a sério aquilo que diz. Por isso, quando o velho morre, o dinheiro que Craig recebe como herança não consegue substituir aquilo que realmente perdeu. O próprio garoto reconhece que trocaria aquela fortuna por mais tempo ao lado do amigo. E aqui a história ganha uma camada que me parece particularmente interessante quando pensamos no próprio Stephen King.
O garoto queria ser ouvido. King passou a vida escrevendo histórias para ser ouvido por milhões de pessoas. Craig recebe uma herança por ter perdido alguém importante, enquanto King transformou aquilo que tinha dentro da cabeça em uma carreira gigantesca e uma fortuna. De certa maneira, conseguiu os dois lados da equação: encontrou uma forma de ser ouvido e ainda ficou rico com isso.
Um escritor tem um poder absoluto sobre seus personagens. Pode fazê-los viver, sofrer, desaparecer e até morrer de maneira completamente inesperada. Pode simplesmente decidir que determinado personagem não serve mais à história. E, se depois se arrepender, não existe tribunal que possa puni-lo por isso. No universo de King, porém, personagens mortos nem sempre desaparecem de verdade.
Blumhouse e Ryan Murphy
A produção também reúne dois nomes que chamam bastante atenção: Jason Blum e Ryan Murphy. Blum é o fundador da Blumhouse, produtora sediada em Los Angeles que construiu sua reputação apostando em filmes de terror com orçamentos relativamente baixos e enorme potencial de retorno. "Atividade Paranormal", "Corra!", "A Entidade", "Uma Noite de Crime" e "Sobrenatural" são alguns dos exemplos mais conhecidos de uma estratégia que acabou gerando diversas franquias.
A fórmula da empresa sempre esteve muito ligada à ideia de gastar pouco, permitir que os realizadores tenham liberdade criativa e depois colocar esses filmes dentro de uma estrutura de distribuição capaz de alcançar um público enorme. É um modelo que ajudou a transformar produções pequenas em fenômenos comerciais e também serviu como uma espécie de segunda chance para cineastas que precisavam recuperar espaço dentro da indústria. Até M. Night Shyamalan encontrou na Blumhouse um ambiente favorável para essa retomada.
Ryan Murphy vem de uma trajetória completamente diferente, mas igualmente impressionante. Seu nome está associado a produções como "Feud", "American Horror Stories", "Dahmer", "9-1-1", "American Crime Story", "Ratched" e muitas outras. São trabalhos que, cada um à sua maneira, demonstram uma capacidade enorme de transitar por histórias bastante diferentes e ainda assim chamar a atenção do público.
Com dois nomes desse porte envolvidos na produção, era razoável esperar que "O Telefone do Sr. Harrigan" fosse, no mínimo, uma experiência interessante.
O ponto menos empolgante está na direção de John Lee Hancock. Não considero que ele estrague o filme, longe disso. O problema é que sua filmografia é cheia de trabalhos que parecem ter potencial para serem memoráveis, mas acabam ficando um degrau abaixo disso. É o caso de "O Álamo", "Fome de Poder", "Estrada Sem Lei", "Os Pequenos Vestígios" e "Walt nos Bastidores de Mary Poppins".
Hancock conduz a história com segurança, entende o tom e não compromete a adaptação. Só que também não imprime uma personalidade tão forte a ponto de fazer o filme escapar daquela categoria perigosa das produções que assistimos, gostamos razoavelmente e depois percebemos que quase ninguém mais comenta.
O Telefone e o Multiverso
O filme é uma produção original da Netflix baseada na coletânea "Com Sangue", e ainda possui algumas conexões curiosas com outras adaptações de King. Jaeden Martell, por exemplo, já havia interpretado Bill Denbrough em "It: A Coisa" (2017). E existe uma coincidência que parece saída diretamente desse meu multiverso particular. Kiefer Sutherland interpretou o valentão de plantão em "Conta Comigo" (1986), uma das melhores adaptações de uma obra de King e um daqueles filmes em que a adolescência aparece longe de qualquer romantização. Aqui, décadas depois, o papel do personagem que funciona como uma espécie de vingador é assumido pelo pai dele, Donald Sutherland.
É uma daquelas coincidências que talvez não signifiquem absolutamente nada para quem vê o filme "por ver", mas que, para alguém que passa boa parte do tempo procurando essas conexões, é impossível deixar passar. E esta é a graça do universo de Stephen King. Ele é tão vasto, tão cheio de personagens, cidades, situações e temas que permite que nós mesmos criemos ligações entre suas histórias. Às vezes elas são intencionais. Às vezes são apenas coincidências. E, em outras, somos nós que estamos enxergando uma relação que nunca existiu.
Mas, afinal, não é exatamente isso que um escritor como Stephen King faz com a gente? Ele cria histórias, espalha pistas, mistura realidade e fantasia e nos deixa tentando encontrar algum sentido em tudo aquilo. No fim, o verdadeiro multiverso de King é justamente aquele que continua funcionando dentro da cabeça de quem lê, assiste e, depois, começa a juntar as peças por conta própria.
Coração das Trevas
O filme também levanta uma questão bastante interessante: o que aconteceria se, diante de todas as injustiças da vida, você descobrisse que tem ao seu lado um poder capaz de reagir por você?
Craig passa boa parte da história sendo obrigado a suportar coisas que não consegue resolver sozinho. Ele é vítima de bullying, perde uma das pessoas mais importantes de sua vida e precisa aprender a lidar com situações que estão muito além daquilo que um adolescente consegue controlar. Então surge o telefone. E, com ele, uma possibilidade que Craig nunca teve antes: fazer com que aqueles que lhe fizeram mal paguem por aquilo.
É uma tentação muito humana. Quando alguém nos prejudica, é fácil imaginar como seria bom se pudéssemos simplesmente devolver na mesma proporção. O problema é que, quando essa possibilidade realmente aparece, a fronteira entre justiça e vingança começa a desaparecer. Craig não precisa mais apenas aceitar aquilo que acontece. Ele pode reagir. E pior, pode reagir sem precisar enfrentar pessoalmente as consequências.
Harrigan acaba se transformando na extensão desse desejo. O garoto encontra no morto uma espécie de força que continua agindo em seu lugar, e cada nova resposta do telefone torna mais difícil estabelecer até onde aquilo pode chegar. À princípio, parece uma correção das injustiças que ficaram sem resposta. Depois, começa a existir a dúvida sobre quem está realmente no controle.
É aí que o sobrenatural deixa de ser apenas um elemento de terror e passa a funcionar como uma espécie de teste moral. Ter poder para corrigir uma injustiça não significa necessariamente saber o que fazer com esse poder. E a parte mais assustadora é justamente descobrir que, quando alguém finalmente nos dá a capacidade de reagir contra tudo aquilo que nos feriu, podemos nos tornar tão perigosos quanto as pessoas que queríamos punir.
O que pensei ao rever
O filme dialoga com clássicas adaptações de King, como Conta Comigo e It, e isso causa uma imersão que deixei passar da primeira vez assistindo, já que divido a preocupação com o texto e a atenção no filme. Em especial, a narração e o rochedo, bastante similares àqueles que o Clube dos Perdedores salta em alguns momentos de IT - A Coisa e IT - Capítulo 2.
E, ainda que seja um filme novo, ele reforça a ideia sobre a bomba atômica que se tornaria o celular, nas palavras de Harrigan, proporcionando uma catarse sobre o assunto. A melancolia que transborda o personagem é crível o suficiente para acreditarmos nela.
Vi mais beleza e sensibilidade nesta segunda vez, mas ainda assim, fica a sensação de que o filme quase chega lá. E isto é comprovado com a percepção do público: muitos não fazem ideia de que é uma adaptação de King, ou, caso tenham visto na época, lembram pouco da história.
O contraponto se inicia em torno da metade do filme, quando Harrigan falece repentinamente. Faltou o diretor captar a essência daquele momento triste e transformá-lo em emoção para o público.
Mas, afinal, alguma vez em sua carreira ele capturou?


